18 de maio de 2004   —   11:38:24
Contos de Fortaleza (III)
Clique aqui e leia os outros dois Contos de Fortaleza, com histórias minhas sendo roubado.

E, nesta segunda (17), eu fui assaltado de novo.

O amicíssimo Heraldo me deu carona até próximo da Av. Senador Virgílio Távora. Desço até a citada avenida e sigo pela calçada. Próximo ao CNA (que fica do lado oposto ao colégio Santa Cecília), um cara de bicicleta se aproxima da calçada e diz “Ei, chapa, me arruma um real senão ‘cê morre”.

Diante de convincente argumento, puxo a carteira e dou dez reais ao homem. Eu não sabia se “um real” era mesmo um real ou uma expressão geral pedindo uma quantia considerável de dinheiro, então entreguei 10 reais. Não é quantia digna de um assalto ao Trem Pagador, mas não é pouco como um mísero real. Ele então diz “Eu pedi um real e ‘cê deu dez, então eu vou ficar”, e se manda. Devia estar sem troco, o moço.

Não podemos mais dizer que não valho nada: eu valho um real. Foi o preço dado para eu continuar vivendo.

Pela primeira vez em anos, me valorizei: podia ser só um real, mas dei 10.

Que bom, hein? Viva a segurança pública.

Discografia recomendada para este post, no melhor estilo Igor: Melô do Ladrão, de Wanderley Andrade, e todo o disco Hail to the thief, do Radiohead.

15 de maio de 2004   —   12:19:59


I Still Haven’t Found What I’m Looking For
(U2)

I have climbed the highest mountains
I have run through the fields
Only to be with you
Only to be with you.

I have run, I have crawled
I have scaled these city walls
These city walls
Only to be with you.

But I still haven’t found
What I’m looking for.
But I still haven’t found
What I’m looking for.

I have kissed honey lips
Felt the healing in her finger tips
It burned like fire
(I was) burning inside her.

I have spoke with the tongue of angels
I have held the hand of a devil
It was warm in the night
I was cold as a stone.

But I still haven’t found
What I’m looking for.
But I still haven’t found
What I’m looking for.

I believe in the Kingdom Come
Then all the colours will bleed into one
Bleed into one.
But yes, I’m still running.

You broke the bonds
And you loosed the chains
Carried the cross of my shame
Oh my shame, you know I believe it.

But I still haven’t found
What I’m looking for.
But I still haven’t found
What I’m looking for.

But I still haven’t found
What I’m looking for.
But I still haven’t found
What I’m looking for.

9 de maio de 2004   —   06:44:24

Eu aprendi.

Mais um vômito sentimental, desses que a gente tem depois que volta pra casa depois da festa, e, quando a animação desaba, a gente reflete sobre o que viu e o que restou nas mãos…

Tenho muito a dizer e quase ninguém pra ouvir. Pra piorar, nem sempre tenho as palavras certas, e, se as tenho, falha a compreensão de quem me lê ou escuta. Vivendo, observando a vida alheia, não importa; a gente acaba aprendendo demais.

Aprendi como ninguém a diferenciar um elogio espontâneo dum consolo forçado.

Aprendi a gostar de algumas pessoas, não gostar de muitas e odiar algumas, mas aprendi a amar dum jeito que tocaria Jesus Cristo e aprendi que só se ama uma pessoa em um grande intervalo de tempo. Aprendi a amar com seriedade, e, se o fiz pouco, fiz com intensidade, e peço perdão de joelhos se não foi o suficiente. Aprendi, e como aprendi, que poucos, minto, pouquíssimos nesse mundo incestuoso, onde todo e qualquer grau de afinidade é motivo pra beijar na boca, concordam com o que eu disse nas últimas linhas.

Aprendi que simetria, no amor, nem sempre é verdade.

Aprendi que do que é simples as pessoas fazem algo complexo, e depois preferem não pensar sobre o assunto. Isso pra elas é muito simples.

Aprendi a não ter ídolos ou heróis, e que isso é uma enorme fonte de decepções. Aprendi que diferenças não são algo bonito como dizem, tampouco algo tão enriquecedor. Sem hipocrisia: algumas a gente aprecia e aprende, outras a gente lamenta.

Aprendi que solidão é um mal necessário, e isso pode te fazer crescer ou te tornar uma pessoa estúpida. Aprendi que nem sempre é a solidão que nos maltrata, às vezes a gente maltrata ela. E às vezes os outros maltratam nossa solidão.

Aprendi que não, não é só errando que se aprende (volte e leia isso de novo). Infelizmente, também aprendi que a gente às vezes esquece o que aprendeu. Aprendi que a vida é coisa séria, e isso aprendi com muito senso de humor.

O que eu sinto não é só alegria, não é só tristeza, não é só raiva, não é só rancor, é tudo ao mesmo tempo agora, variando de acordo com qual lembrança ou pessoa vem à mente. Eu tinha muito mais pra dizer aqui, mas não, não tenho as palavras certas. Espero que essas palavras, que soam tristes um tom de epitáfio (toc toc toc, bato na madeira), sirvam. E espero que me entendam, e que, se eu tiver algo a ensinar, que alguém tenha potencial pra aprender.

8 de maio de 2004   —   01:53:10

“Fortaleza, que saudades de você
Fortaleza, nunca vou te esquecer.”

Estou aqui, em frente a este monitor maldito, como todo dia faço. Afinal, não tenho mais nada pra fazer. E assim será o dia todo. Não suporto mais o Dragão do Mar. E, enquanto digito, alguém na favela em frente ao meu prédio escuta e me obriga a escutar os estúpidos versos do Zezo falando dessa cidade provinciana, onde não há nada para fazer, onde poucas pessoas conhecem o Nando Reis e, por causa disso, ele acaba fazendo show numa quinta-feira (e eu não pude ir). Só o Zezo mesmo pra gostar daqui: aqui tem um público enorme pra ele.