Oi Esdras,
Tudo belesma por aí? Por aqui tudo indo. A vida anda corrida, ao mesmo tempo folgada. Ou seria folgada e ao mesmo tempo corrida? Não sei, mas está dando pra viver. Viver!, sem sobre-’s. Você acredita?
Começo a escrever essa carta numa daquelas noites como de antigamente, em que você deitava e ouvia walkman até o sono chegar. Você conheceu aquela música numa dessas noites, cujo primeiro verso dizia “Sem caminhos pra seguir na incerteza de chegar”. E foi assim que te fiz sentir durante um bom tempo, não?
Esta carta nada mais é que um pedido de desculpas pra você. “Tantas coisas por fazer pra se purificar”. Desculpa ter traído seus princípios, ter feito o que sempre sabíamos que era errado, ter dado ouvidos às pessoas erradas. Desculpa, amigo, ter caído em tentação e ter sucumbido à emoção e jogado a razão no lixo (desculpa, também, repetir os fonemas). Bem que ainda disseram: “Não faz isso que vai dar merda”. Eu ignorei e fiz. E fiz o que fiz contigo.
Desculpa ter falado as palavras com as quais você discordava e assinar com seu nome. Desculpa a sessão de hipnose que fiz contigo pra você mastigar cebola e achar gostoso. A verdade é que hoje, vendo o fotolog da Lana, por exemplo, bate um vazio e algo estranho, talvez, como diria o Renato Russo, uma saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi, algo que ainda vamos encontrar, e que pensávamos ter achado. Enxerguei demais no lugar errado. Desculpa.
Desculpa ter trocado as certezas pelas dúvidas, joguei nossa felicidade nas mãos de malabaristas, enquanto isso você agonizava de dor. Apontei a direção errada, coloquei uma faca nas suas costas e uma venda nos teus olhos.
Escrevo essa carta numa noite pensativa; quando você a receber, já devo estar perto de chegar, talvez eu chegue enquanto você a lê. Volto para o lugar onde te abandonei. Como diria o último verso da canção, “eu não vou mais fugir de mim”. É bom voltar pra você, até porque voltar pra você nada mais é que voltar pra mim.
Estamos juntos de novo e somos um só.
Um abraço,
Esdras
Uma vez um discípulo de um filósofo grego recebeu ordens de seu Mestre para durante três anos dar dinheiro a todos os que o insultassem. Quando esse período de provação terminou, o Mestre lhe disse, “Agora você pode ir a Atenas para aprender a sabedoria.” Quando o discípulo estava entrando em Atenas, encontrou um certo sábio que ficava junto ao portão insultando todos os que iam e vinham. Ele também insultou o discípulo, que deu uma boa risada. “Por que você ri quando eu o insulto?” perguntou o sábio. “Porque durante três anos eu paguei por isso, agora você me deu a mesma coisa por nada”, respondeu o discípulo. “Entre na cidade”, disse o sábio. “Ela é toda sua…”
De A Arte da Felicidade, de Dalai Lama e Howard C. Cutter, pág. 194.
“A melhor forma de definir Gêmeos seria: curiosidade e jovialidade. Vivos, alegres e comunicativos, estes seres geminianos, leves e desencanados, parecem estar sempre bem com todos, mas na verdade não estão aí com ninguém. Simpáticos como eles só, sempre darão a impressão que estão se interessando por alguém, mas só estão conversando e buscando informações. Os geminianos sempre são muito expressivos e falam muito com as mãos, sempre contando fatos que lhe aconteceram com muita vivacidade. Seu andar é meio saltitante e alegre, e sempre fazem várias coisas ao mesmo tempo, como estudar vendo tv e falando ao telefone enquanto conversa com você.”
Vocês acham que bateu? Acho que mais ou menos. Andar saltitante alegre é coisa de baitola e quase nunca faço duas coisas ao mesmo tempo.
Uns dez minutos depois, minha orelha volta a ser cutucada, agora com mais força e frequência. Percebo que, na posição em que a Alessandra estava, ela ia precisar de anos de yoga pra conseguir alcançar minha orelha. Olho pra trás e me deparo com um casal se agarrava, e o que cutucava minha orelha era o pé da mulher que, passando entre minha poltrona e a da Alessandra, cutucava meu ouvido…
Povo sem noção.
Não quero falar de corações partidos ou amores não-correspondidos. Não quero, também, falar de amizades traídas. Não vou pensar, hoje, em perder a fé no amor e na amizade, mas vou pensar nos amigos que mantive ou que fiz nas últimas semanas e que foram legais comigo. Vou falar da Lia, que conheci pessoalmente hoje; vou falar duma amiga que eu pensei que nem gostava de mim, porque passava direto e só dava um tchauzinho, e hoje parou e conversou comigo como não fazíamos há um bom tempo; do CD que a Alessandra me deu; de como finalmente estou conseguindo ser simpático com o povo da Cultura e fazendo amizades por lá (por alguma razão que desconheço, eu era travado com o pessoal).
Vou esquecer dos casais de namorados que conheço e que estão brigando por aí, mentindo um para o outro, e lembrar de dois ou três que ainda dão certo. Vou esquecer que segui conselhos imbecis e lembrar do conselho que a Mickaella me deu no fim do ano passado mas que acabei esquecendo…
Não vou falar da minha carreira acadêmica que é um fracasso, prefiro falar da batata frita cebola e salsa que como enquanto escrevo e que está muito boa. Vou esquecer as pessoas que sempre me dei ao trabalho de cumprimentar e ser simpático enquanto elas falavam de mim pelas costas, vou usar esse tempo e essa disposição conversar com minha cachorra que corre pra me ver quando eu chego em casa. E vou sorrir com a mensagem da Perpétua avisando que sua cachorra terá filhotinhos.
Vou esquecer o incômodo de levantar as calças, que estão caindo pelos quilos perdidos, vou ler de novo meu exame de sangue, e comemorar que, apesar de diabético, ainda posso ouvir minha médica dizer que minha saúde é melhor que a de muita gente “normal” por aí.
Vou esquecer de como eu nunca ponho a dose certa de Nescafé na xícara. Vou curtir um sono tranquilo, e lembrar que dormir 7 horas é pouco, mas pra mim é uma vitória.
Hoje, por favor, se alguém ligar pra incomodar, diga que não estou.
“Abra os braços, abrace o que sobrar”
Paralamas do Sucesso, em Não adianta
Foi bom pra cacete sair com uns amigos e reencontrar outros no Dragão do Mar no sábado (14). É bom receber um abraço amigo quando a gente precisa. Valeu, moçada.
Em junho, consegui realizar um sonho antigo: uma guitarra. Até agora aprendi alguns acordes, ando melhorando as pestanas e começando a treinar solinhos. Mas quando eu cismei de comprar um pedal, começou a confusão.
Na quarta-feira (14 de julho), eu andava pela Feira da Música atrás duma loja que vendesse pedais usados pra guitarra. Me deparo com o stand da Interarte, que vende instrumentos usados, falo com um sujeito que trabalha lá e ele me fala que eles vendem pedais usados, e que os levaria no dia seguinte (quinta).
Na quinta-feira, acordo, junto meus trocados, embrulho num papel e ponho na Zona de Acesso Restrito, afinal eu tava indo de ônibus. Chego na Feira da Música, pago mais 4 reais de entrada e me dirijo ao stand da loja. O cara vai e diz que não levou os pedais, pois o carro já estava lotado com os instrumentos (quem já viu um pedal de guitarra sabe que cabe em qualquer espaço vazio…).
Mas da sexta-feira o pedal não me escaparia. Acordo cedo e me dirijo à loja citada, no Centro. Ponho, enfim, as mãos - e os pés - no pedal: um BOSS SD1 (Super OverDrive). Parecia estar tudo ok, mas era só o começo do pesadelo.
Comprei uma fonte pro pedal, chego em casa, toco um pouco. O pedal funciona, exceto o fato de não acender o led. Ok. Desligo tudo, mais tarde tento tocar e nada do pedal funcionar ou do led acender.
Levo o pedal na casa do amigo Igor para testar na fonte dele, com outros cabos, etc. etc. O pedal funciona que é uma beleza, inclusive o led. Ou seja, o problema é a fonte.
Supondo que o problema fosse minha fonte, levo o pedal e a fonte para a loja onde foi comprada a fonte. Lá trocam minha fonte por várias outras, testa-se o pedal e nada dele acender. Ou seja, o problema é o pedal.
Levo o pedal para a loja em que o comprei, falo que o pedal não está ligando. O cara da loja liga o pedal, o qual funciona calmamente e me deixa com cara de besta na frente do vendedor. Ou seja, o problema é a fonte.
Levo numa loja próxima de venda de fontes, testo uma fonte e nada dele ligar. Ou seja, o problema é o pedal.
Levo em outra loja, também de fontes, testo outra fonte. O pedal liga e compro a fonte. Ou seja, o problema é a fonte.
Volto pra casa feliz, e, quando ligo a fonte no pedal, nada novamente do pedal funcionar. Fico puto e levo o pedal num eletricista aqui perto. Ok. Ele dá uma olhada, testa, testa, testa, e pede pra eu deixar o pedal lá e ligar no dia seguinte.
No dia seguinte, acordo cedo, ligo pra lá e o cara diz que o pedal tá ok e pra eu ir lá pegar de volta. Sigo feliz e triunfante, pensando que vai dar certo. Quando chego lá, ele vai dar um último teste: o pedal falha novamente. Ele pede para que eu volte a ligar após o almoço.
Ligo após o almoço. Ele pede para eu ir lá pegar o pedal. Vou com 10 reais no bolso. Chego lá, o cara vai testar e o pedal funciona. Ele cobra 15 reais pelo serviço. Ok. Pego meu pedal, venho pra casa, ponho mais 5 reais no bolso, volto pro eletricista e pago os 5 reais restantes. Volto para casa e faço um pouco de barulho distorcido, morto de feliz, com o pedal que, até então, funciona. Desligo o pedal e guardo a guitarra.
Cerca de 2 horas depois, minha mãe chega e vou, então, mostrá-la o pedal funcionando. “Olha, mamãe, o pedal”. Piso no pedal. Nada dele funcionar ou do led acender. Piso de novo. E de novo. O pedal falha e, pela segunda vez, me deixa com cara de besta. Agora na frente da minha mãe, que ri da minha cara.
Puto, volto novamente pro conserto com o pedal. Rindo da situação, chego lá e informo novamente os eletricistas que o pedal falhou de novo. Deixo o pedal novamente pra consertar, e pedem-me para voltar no dia seguinte.
Volto no dia seguinte e pego o pedal, já pensando se vou precisar levá-lo num pai de santo ou num exorcista. O cara testa o pedal, que enfim dá certo. Trago-o pra casa. Ok.
E até hoje, volta e meia eu ligo o pedal só pra pisar e ver se ele presta, sem nem tocar. Até o fim desse post, ele tava ok. Se eu tiver contado certo, fui 2 vezes ao Centro de Convenções, 2 vezes ao Centro da cidade e 7 vezes na eletrônica perto aqui de casa.
Ah, alguém aí quer comprar a fonte extra que comprei?
Aqui está meu blog de volta. Não sei por que nem para quê, mas ele está de volta.
Paredes foram, sim, derrubadas. O castelo dentro delas foi destruído… Agora eu vou erguer um templo, muito mais bonito.
Eu tenho muito pra contar…
Quando você não é parte da solução, é parte do problema. Ou você está comigo, ou está contra mim. Um abraço pra quem esteve comigo, e obrigado.
– Esdras
“Hein? Volta? WTF?” Bem, meu blog tinha parado em 23 de maio, tendo eu deixado apenas esse post abaixo, que chamarei carinhosamente de
Meu post suicida
E foi então que as paredes caíram. Paredes, entendam, só servem para proteger algo frágil. E paredes levam tempo para ser construídas, para então desabar num piscar de olhos.
Se foi um renascimento, sinto-me purificado. Se minha auto-suficiência me foi roubada, embora esteja fraco e desprotegido, também não a quero de volta. Se havia uma espessa camada de concreto envolvendo meu coração, ela foi dissolvida. Se eu estava vendado, hoje posso olhar claramente. E posso enxergar, além daquele mar nervoso cheio de dragões, o continente que abrigou o paraíso, e ele estava lá.
Não há barco que chegue até o passado. Não há destino alcançável no meu presente. Já o futuro, este não enxergo mais. As pedras que atiro voam para algum lugar, sem nunca chegar lá. Não há transporte que alcance o vazio.
Esta clarividência não é sobrenatural, e é humana até demais. Ela, como todo poder que nos é dado, tem um preço, o qual pagarei num número de prestações que desconheço. Pagarei um pouco a cada expiração nervosa, a cada pulsação, sem nunca mais saber quando estará quitada minha generosa dívida.
Paredes foram só ilusões, certezas foram grandes miragens, promessas foram uma estupidez de infinita magnitude. Quando, então, poderei ter certeza de algo, e poderei estar certo da firmeza de minhas paredes? Estou certo de tudo que sinto, porém dizer o que não sinto é, desde então, muito mais complexo que pegar o universo de meus sentimentos e fazer uma sutil exclusão para poder chegar a algum resultado.
Pela primeira vez em meses pude reconhecer a felicidade em sua plenitude, apenas para saber que estou distante dela. E me vejo imerso em sentimentos diversos destinados a mim mesmo e a várias pessoas, do ódio ao amor, passando pela angústia e uma alegria que às vezes é presente, em todos os sentidos que o verbete presente possa ter.
Sentimentos são como forças da natureza. Não podemos fazer chover ou fazer a chuva parar.
Se minhas paredes caíram, transcendi essas barreiras e estou maior do que era antes, com uma dimensão abrangente e infinita, como se eu pudesse alcançar coisas que estão além do limite materialista. Ao mesmo tempo, continuo preso dentro de mim e da insignificância que me foi dada como punição, castigo e reação.
Palavras não são mais do que tentativas frustradas de se exprimir alguma coisa, eu desisto.
Não há mais palavras. Daqui pra frente, sentimentos apenas.
Enjoy the silence.
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(Fim do post suicida)
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