31 de agosto de 2004   —   02:48:22
Algum lugar do espaçotempo. Terça-feira, 31 de agosto de 2004.

Oi Esdras,

Tudo belesma por aí? Por aqui tudo indo. A vida anda corrida, ao mesmo tempo folgada. Ou seria folgada e ao mesmo tempo corrida? Não sei, mas está dando pra viver. Viver!, sem sobre-‘s. Você acredita?

Começo a escrever essa carta numa daquelas noites como de antigamente, em que você deitava e ouvia walkman até o sono chegar. Você conheceu aquela música numa dessas noites, cujo primeiro verso dizia “Sem caminhos pra seguir na incerteza de chegar”. E foi assim que te fiz sentir durante um bom tempo, não?

Esta carta nada mais é que um pedido de desculpas pra você. “Tantas coisas por fazer pra se purificar”. Desculpa ter traído seus princípios, ter feito o que sempre sabíamos que era errado, ter dado ouvidos às pessoas erradas. Desculpa, amigo, ter caído em tentação e ter sucumbido à emoção e jogado a razão no lixo (desculpa, também, repetir os fonemas). Bem que ainda disseram: “Não faz isso que vai dar merda”. Eu ignorei e fiz. E fiz o que fiz contigo.

Desculpa ter falado as palavras com as quais você discordava e assinar com seu nome. Desculpa a sessão de hipnose que fiz contigo pra você mastigar cebola e achar gostoso. A verdade é que hoje, vendo o fotolog da Lana, por exemplo, bate um vazio e algo estranho, talvez, como diria o Renato Russo, uma saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi, algo que ainda vamos encontrar, e que pensávamos ter achado. Enxerguei demais no lugar errado. Desculpa.

Desculpa ter trocado as certezas pelas dúvidas, joguei nossa felicidade nas mãos de malabaristas, enquanto isso você agonizava de dor. Apontei a direção errada, coloquei uma faca nas suas costas e uma venda nos teus olhos.

Escrevo essa carta numa noite pensativa; quando você a receber, já devo estar perto de chegar, talvez eu chegue enquanto você a lê. Volto para o lugar onde te abandonei. Como diria o último verso da canção, “eu não vou mais fugir de mim”. É bom voltar pra você, até porque voltar pra você nada mais é que voltar pra mim.

Estamos juntos de novo e somos um só.

Um abraço,

Esdras

:: Zero – Quimeras
(Guilherme Isnard)

sem caminhos pra seguir
na incerteza de chegar
quem decide por partir
só pensa em procurar
um futuro com alguém
não importa o que passou
já nem se lembra mais
quer é recomeçar

tantas vidas pra viver
tentando se encontrar
tantas coisas por fazer
pra se purificar
não consigo mais sonhar
já me basta o que vivi
sofrendo ao desejar
quimeras que não consegui

deuses do além
duendes do ar
anjos do bem
vão te mostrar uma luz maior
capaz de convencer
que um mundo bem melhor
existe em você
só pro seu prazer

uma luz maior
a força e o poder
sangue e suor
de quem te fez viver
hoje eu sei porque
eu não vou mais fugir de mim

Da série “Textos que eu gosto”

29 de agosto de 2004   —   07:29:10
Uma vez um discípulo de um filósofo grego recebeu ordens de seu Mestre para durante três anos dar dinheiro a todos os que o insultassem. Quando esse período de provação terminou, o Mestre lhe disse, “Agora você pode ir a Atenas para aprender a sabedoria.” Quando o discípulo estava entrando em Atenas, encontrou um certo sábio que ficava junto ao portão insultando todos os que iam e vinham. Ele também insultou o discípulo, que deu uma boa risada. “Por que você ri quando eu o insulto?” perguntou o sábio. “Porque durante três anos eu paguei por isso, agora você me deu a mesma coisa por nada”, respondeu o discípulo. “Entre na cidade”, disse o sábio. “Ela é toda sua…”

De A Arte da Felicidade, de Dalai Lama e Howard C. Cutter, pág. 194.

26 de agosto de 2004   —   03:56:49
Duma comunidade do Orkut:

“A melhor forma de definir Gêmeos seria: curiosidade e jovialidade. Vivos, alegres e comunicativos, estes seres geminianos, leves e desencanados, parecem estar sempre bem com todos, mas na verdade não estão aí com ninguém. Simpáticos como eles só, sempre darão a impressão que estão se interessando por alguém, mas só estão conversando e buscando informações. Os geminianos sempre são muito expressivos e falam muito com as mãos, sempre contando fatos que lhe aconteceram com muita vivacidade. Seu andar é meio saltitante e alegre, e sempre fazem várias coisas ao mesmo tempo, como estudar vendo tv e falando ao telefone enquanto conversa com você.”

Vocês acham que bateu? Acho que mais ou menos. Andar saltitante alegre é coisa de baitola e quase nunca faço duas coisas ao mesmo tempo.

22 de agosto de 2004   —   05:36:14
Também teve o dia em que fui ao cinema com a Alessandra, assistir O Eterno Brilho de Uma Mente Sem Lembranças. De repente, sinto algo cutucando minha orelha dum jeito estranho. Pensei ser a Alessandra se ajeitando na cadeira ou ela frescando com minha orelha, ignorei o fato e continuei assistindo o filme.

Uns dez minutos depois, minha orelha volta a ser cutucada, agora com mais força e frequência. Percebo que, na posição em que a Alessandra estava, ela ia precisar de anos de yoga pra conseguir alcançar minha orelha. Olho pra trás e me deparo com um casal se agarrava, e o que cutucava minha orelha era o pé da mulher que, passando entre minha poltrona e a da Alessandra, cutucava meu ouvido…

Povo sem noção.

17 de agosto de 2004   —   09:21:16
Hoje, pessoas, eu só quero ficar em paz.

Não quero falar de corações partidos ou amores não-correspondidos. Não quero, também, falar de amizades traídas. Não vou pensar, hoje, em perder a fé no amor e na amizade, mas vou pensar nos amigos que mantive ou que fiz nas últimas semanas e que foram legais comigo. Vou falar da Lia, que conheci pessoalmente hoje; vou falar duma amiga que eu pensei que nem gostava de mim, porque passava direto e só dava um tchauzinho, e hoje parou e conversou comigo como não fazíamos há um bom tempo; do CD que a Alessandra me deu; de como finalmente estou conseguindo ser simpático com o povo da Cultura e fazendo amizades por lá (por alguma razão que desconheço, eu era travado com o pessoal).

Vou esquecer dos casais de namorados que conheço e que estão brigando por aí, mentindo um para o outro, e lembrar de dois ou três que ainda dão certo. Vou esquecer que segui conselhos imbecis e lembrar do conselho que a Mickaella me deu no fim do ano passado mas que acabei esquecendo…

Não vou falar da minha carreira acadêmica que é um fracasso, prefiro falar da batata frita cebola e salsa que como enquanto escrevo e que está muito boa. Vou esquecer as pessoas que sempre me dei ao trabalho de cumprimentar e ser simpático enquanto elas falavam de mim pelas costas, vou usar esse tempo e essa disposição conversar com minha cachorra que corre pra me ver quando eu chego em casa. E vou sorrir com a mensagem da Perpétua avisando que sua cachorra terá filhotinhos.

Vou esquecer o incômodo de levantar as calças, que estão caindo pelos quilos perdidos, vou ler de novo meu exame de sangue, e comemorar que, apesar de diabético, ainda posso ouvir minha médica dizer que minha saúde é melhor que a de muita gente “normal” por aí.

Vou esquecer de como eu nunca ponho a dose certa de Nescafé na xícara. Vou curtir um sono tranquilo, e lembrar que dormir 7 horas é pouco, mas pra mim é uma vitória.

Hoje, por favor, se alguém ligar pra incomodar, diga que não estou.