o importante é o show business!
"Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos."

Oswaldo Montenegro,
em Metade
31 de julho de 2005


 
All your seasick sailors, they are rowing home.
All your reindeer armies, are all going home.
The lover who just walked out your door
Has taken all his blankets from the floor.
The carpet, too, is moving under you
And it’s all over now, Baby Blue.

(Bob Dylan, em And it’s all over now, Baby Blue)
 
 
E foi então que as férias acabaram. As férias esperadas, as férias desesperadas. Mudanças bruscas de planos, adaptações urgentes, socos na boca do estômago, pauladas no joelho, chutes no rosto e tudo, tudo totalmente diferente do que eu planejava.

Dias cheios. Foi bom conhecer novas pessoas e conhecer melhor as mesmas velhas pessoas, dividir bons e maus momentos, virtudes e problemas. Filmes, livros, amigos, parentes, abraços, ombros, viagens, fotos, areia, mar, insônia, muita insônia, lugares novos, lembranças, despedidas, lágrimas… e por que não falar de alguns risos, como um intervalo de paz num meio duma guerra interminada e interminável? Talvez soldados contem piadas nas trincheiras.

Caberiam muitos meses da minha “vida comum” no mês de julho que se encerra. Outro mês seria necessário, mas a vida não pára e amanhã lá estamos nós de novo.

25 de julho de 2005

Reflexões à beira-mar, volume III

“Abra os braços, abrace o que sobrar”
(Herbert Vianna, em Não adianta)

Eu caminhava pela beira da praia, com a espuma branca lambendo meus pés. Meses atrás, uma amiga minha me disse que praia era bacana pra descarregar as energias negativas. E lá estava eu. Pensava nas últimas vezes que havia pisado numa praia, em circunstâncias tão diferentes, junho, setembro. E pensava em quantas vezes eu iria morrer nessa vida, pra tentar nascer do pó depois.

Troquei algumas palavras com um conhecido meu. É sempre bom conversar melhor com aquele conhecido seu de mais de um ano, amigo dos seus amigos, mas que você mal conhece. Você acaba descobrindo pessoas boas que estavam ali e você nem percebia. E enquanto ele cavava um buraco na areia, eu jogava conchas no mar e desabafava um pouco da vida bandida.

A praia pode levar as tais energias negativas, mas a maré não leva as más lembranças, e muito menos as boas, infelizmente. Agora eu estava sentado numa pedra no meio do mar, vendo as ondas indo e voltando, no pseudoautismo que desenvolvi nos últimos tempos. Uma recém-conhecida disse, dois dias atrás, que queria ter esse meu dom de passar horas olhando pro nada, disse que eu era morgado. Pensei: ela não me conheceu antigamente. Mas fiquei calado, agora só falo o suficiente. Ali, nem eu me conhecia. Quem me conhece estranharia minha pele, agora em tom de vermelho, queimada pelo sol. Eu agora disponível em cor vermelha. Quem diria.

Dias antes de pisar ali, devo ter jogado fora mais de 12 quilos de papel do meu quarto. Olhei pra eles e não vi significado. Não há mais passado, só há o agora. O que eu era era, já foi. Do passado, no fim das contas, só sobra o resultado, um maluco numa pedra, um punhado de memórias e traumas. Ah, e algum aprendizado, sim. Não é algo tão grande quanto aquilo que você queria, mas abranda um pouco o prejuízo. O aprendizado sempre vem tarde. Aí você pensa como as coisas teriam sido diferentes se você pensasse antes como pensa agora.

Mas agora é tarde. E vem a culpa. A palavra “culpa” não existe num dialeto tibetano aí. Sentir culpa é inútil. Sabe-se que o português é a única língua que tem a palavra “saudade”. Fabuloso. Imagina uma língua que não tenha “culpa” nem “saudade”! E sabe qual a palavra mais destruidora da nossa língua? Ela é bem curta: “se”. A gente sofre pensando nas possibilidades. Se houvesse uma língua sem “culpa”, “saudade” e “se”, ela seria perfeita.

Portanto, guarde isso: o aprendizado sempre vem tarde. Nunca teremos aprendido o suficiente. Não muda nada, mas consola um pouco a consciência; não muda porra nenhuma, mas é alguma coisa, uma gota positiva no meio do mar, e talvez valha dez minutos a menos de insônia. Como o mar não leva a dor, mas dá alguma tranquilidade ao espírito.

E eu continuava ali, sentado na pedra escura no meio do mar. Quisera eu voltar meses atrás e bater um papo com um cara que estava sentado numa duna em Florianópolis e pensava em como estava feliz apesar das derrotas. Eu o daria um pouco de realidade e maturidade. E ele me daria um pouco de esperança inútil. O duelo do século: o cara da duna contra o cara da pedra.

Não vou fazer planos. Não vou criar falsas esperanças. Seguir em frente às vezes não significa ser forte, é simplesmente não ter opção. A sensação de infinito e esperança que o mar nos passa não consegue mais atravessar meus poros, adentrar minhas narinas, atingir minha retina. Agora é se dar bem na faculdade, arrumar um emprego, comprar um carro, um apartamento com os móveis que eu vou escolher, fazer viagens. Uma vida confortável e conformada, para que possa ser vivida até o fim, sem graça e nada hollywoodiana, a vida não é história bonita de cinema. Sabe o cara que sofre um acidente de carro, se lasca e tem que reestruturar a vida com o que sobrar do corpo? É por aí, mas com a alma. É satisfazer-se com as migalhas do resto do jantar. Após levantar da pedra, o plano é viver de pequenas conquistas, diminutas vitórias, acertar pequenos alvos e satisfazer-se com isso. Subviver.


Atualização, em tempo: exatamente enquanto eu publicava esse texto aqui, o cara do segundo parágrafo começava a namorar uma grande amiga minha. Soube agora, por ela. Tudo de bom pra eles, muita boa sorte e energia positiva. Eles merecem.

23 de julho de 2005

Os 40 dias de Jesus no deserto

“Não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal…”

Aquele sujeito olhava para alguém atrás de mim e dava um sorriso. Aquele sorriso despertou um certo nojo dentro de mim, era um sorriso de satisfação e cumplicidade com algo ruim. Eu podia ver o demônio naquela hora, satisfeito com uma maldade em curso. Perto dele, seus seguidores.

Naquele instante, traçou-se uma reta no chão, dividindo o que eu sou (era?) do meu extremo oposto. Tive medo. Medo da reta posicionar-se atrás de mim sem que eu percebesse. Eu tinha, a poucos metros, além da linha imaginária, o retrato daquilo que eu devia evitar, um exemplo a não ser seguido, um aviso pra eu não cair em tentação… porque a amargura nos mostra muitos caminhos errados.

21 de julho de 2005

20 de julho, o Dia do Amigo

Tinha deixado o celular em cima da mesa e apenas uma hora depois fui reparar na mensagem que tinha chegado: a Monique desejando Feliz Dia do Amigo. Nunca tenho o Dia do Amigo como uma data decorada, mas sempre aparece alguém pra lembrar. Esse ano a primeira pessoa foi a Monique. Nada mais justo: ela é uma dessas pessoas enviadas por Deus que aparecem na vida da gente pra facilitar as coisas, e quando preciso (e nunca é problema pequeno) ela pára o que tiver fazendo pra me dar uma mão. O que eu vou dizer agora é algo que queria dizer faz algum tempo, e o Dia do Amigo acabou sendo oportuno.

Não posso agradecer um a um meus amigos, eu seria ingrato e esqueceria alguém. Costumo dizer que posso reclamar da falta de amor, às vezes da falta de bens materiais, de muita coisa nessa vida… menos da falta de amigos. Porque quando a situação se torna dolorosa, árdua ou até mesmo impossível, quando não há mais força e fé pra se dar um passo em frente, eu tenho quem me carregue nos braços nesse caminho exaustivo que é a vida. Sobreviver, ainda que às vezes nem tão bem, é algo que devo, em parte, aos meus amigos (a outra parte devo à minha mãe).

Para os meus amigos, o meu muito obrigado. Por ouvir, por falar, pelo ombro, por tentar distrair, pelos conselhos, por carregar o peso.

Obrigado,

obrigado,

obrigado.



14 de julho de 2005

E, num restaurante em Teresina

Muito obrigado. Deus te abençoe e ilumine seu caminho. Você é um rapaz muito bonito.

R$ 1,20 bem investidos. Que Ele te ouça, minha senhora.

9 de julho de 2005

Castelos, casas e abrigos

Ele morava sozinho em uma casa de muro altos, cinzentos e espessos. Existisse ali um fosso, seria facilmente confundido com um verdadeiro castelo medieval de histórias infantis. As pessoas que ali passavam estranhavam os muros, e questionavam-se o que poderia estar guardado dentro de seus limites. O questionamento um dia foi além, e alguém decidiu invadir os portões pra saber o que era guardado ali dentro.

Foi simples: uma armadilha, um forte ataque e os muros já não adiantavam de nada. Levaram quase tudo, destruíram o resto. Pouco foi poupado. A frágil moradia sarcasticamente construída entre gigantescas paredes foi abaixo em poucos segundos. Seu único morador, que agora encontrava-se de joelhos observando os restos de sua casa, confiara demais nos seus muros.

Passou dias observando seu terreno e refletindo sobre seus erros, como um sem-teto louco, enquanto sol e chuva atacavam sua pele. Decidiu fazer diferente: sem muros agora. Se não teria tanta proteção, por outro lado isso espantaria curiosos. Passou dias planejando, e, ao final de algumas semanas, ergueu uma casa amigável, de aparência simples e jardim na frente. Não era tão imponente, mas e daí? Era aconchegante, e isso bastava.

Seu dono podia ser visto sempre na porta de sua nova morada, conversando com os que ali passavam. Todos, agora, conheciam o residente daquele espaço, outrora tão reservado e isolado. Passava uma pessoa, passava outra, conversava alguma coisa, trocava alguma palavra, despedia-se e seguia seu rumo. E, ao fim da noite, a casa abrigava seu único morador, que fechava as portas e dormia tranqüilamente. E assim o foi até mais ou menos quatro semanas após o começo do outono. Uma pessoa que ali passava acabou pedindo abrigo naquela casa, e foi pronta e alegremente bem-vinda.

As folhas mudaram de cor.

Aproximava-se o solstício de inverno quando nosso amigo acordou com o barulho de sua porta sendo fechada, causado por uma tentativa mal lograda de fuga em silêncio. Levantou-se devagar e reparou que não havia mais hóspede. Foi até a pequena sala de sua casa, depois na cozinha, e em todos os cubículos de seu domicílio, onde seu resto de sono foi espantado e ele caiu em si. Suas coisas estavam remexidas, algumas quebradas, e deu falta de várias outras. Na mesa de centro, um bilhete com um aviso: fora embora e levara algumas coisas, a fim de proteger-se do frio que se aproximava.

“Algumas coisas” seria apenas modo de falar, um mero eufemismo. Olhando ao seu redor, não entendeu como uma só pessoa poderia carregar tantas coisas. Correu para seu jardim, na esperança de que a pessoa não estivesse longe com seus modestos pertences, mas até onde a vista alcançava não havia sombra dela, nem sequer pegadas. Não entendia como aquilo era possível. Não apenas o rápido sumiço — teria ido voando? — mas também a sua falta de sorte.

Caíra novamente de joelhos. Por uma dessas coincidências do destino, não sabia ele que estava ajoelhado no mesmo lugar de estações atrás. Castelo? Casa? Nada adiantava: no fim das contas, seria tapeado. Ainda que ali estivesse sustentada a mesma estrutura do verão, não era mais a mesma casa. Aliás, havia uma casa, não mais um lar; era, então, como um templo sem fé. E, na frente do amontoado organizado de tijolos, um homem ajoelhado, maldizendo sua sorte.

Permaneceu ali por horas, até finalmente fazer um esforço sobre-humano e levantar-se. Entrou em sua casa pela última vez, pegou algum resto de comida na dispensa saqueada, algum pano para se aquecer e foi embora de vez do amaldiçoado terreno. Cansou de ser seu único habitante e partia sem direção nem objetivo. Que ficasse vazia a casa, seu teto não era mais abrigo! Estava, naquele momento, deixando sua moradia pra trás.

Veio o inverno, depois a primavera, o verão, outro outono. Os ciclos se repetiam; neve, sol e chuva deram cabo da casa e mais tudo que abandonara dentro. Dizem que um dia, durante uma tempestade, a única árvore de seu jardim não resistiu a seu próprio peso, por nunca mais ter sido podada; caiu sobre o telhado da casa, e um raio sobre a mesma tratou de incendiar tudo.

E ninguém nunca mais soube de seu dono.


 
Manifesto
o segundo passado, antes de qualquer coisa, virou história; histórias, sobretudo, servem para ser contadas. cada um de nós é protagonista de sua história, e sua vida seu respectivo palco. vivendo e convivendo, somos protagonistas, coadjuvantes e figurantes de bilhões de histórias. não havendo graça no abismo do anonimato, exponho aqui a minha história. ela é contada em forma de fatos e idéias, sem personagens, maquiagem ou playback, para receber aplausos ou tomates – jamais me ocultando com cortinas. no fim das contas, seja a história dramática ou cômica, o importante é o show business. está tudo aí, pra quem quiser ver.
 
Eu
Esdras Beleza de Noronha, 24 anos, Fortaleza // bacharel em Computação pela Universidade Federal do Ceará // livros e filmes de estilos diversos, alguma coisa de britpop, indie rock e rock nacional, fotografia amadora, programação, redes, Linux. Em eterno processo de aprendizagem.
 
:: Perfil no orkut
 
 
 
 
Eu concordo
"Não cometas nenhum ato vergonhoso, nem na presença de outros, nem em segredo. A tua primeira lei deve ser o respeito a ti mesmo."
(Pitágoras)

 
"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém."
(São Paulo)

 
"Tenho interesse no futuro porque vou passar lá o resto do meu tempo"
(Charles F. Kettening)
 


 

 

 

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