o importante é o show business!
"Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos."

Oswaldo Montenegro,
em Metade
9 de julho de 2005

Castelos, casas e abrigos

Ele morava sozinho em uma casa de muro altos, cinzentos e espessos. Existisse ali um fosso, seria facilmente confundido com um verdadeiro castelo medieval de histórias infantis. As pessoas que ali passavam estranhavam os muros, e questionavam-se o que poderia estar guardado dentro de seus limites. O questionamento um dia foi além, e alguém decidiu invadir os portões pra saber o que era guardado ali dentro.

Foi simples: uma armadilha, um forte ataque e os muros já não adiantavam de nada. Levaram quase tudo, destruíram o resto. Pouco foi poupado. A frágil moradia sarcasticamente construída entre gigantescas paredes foi abaixo em poucos segundos. Seu único morador, que agora encontrava-se de joelhos observando os restos de sua casa, confiara demais nos seus muros.

Passou dias observando seu terreno e refletindo sobre seus erros, como um sem-teto louco, enquanto sol e chuva atacavam sua pele. Decidiu fazer diferente: sem muros agora. Se não teria tanta proteção, por outro lado isso espantaria curiosos. Passou dias planejando, e, ao final de algumas semanas, ergueu uma casa amigável, de aparência simples e jardim na frente. Não era tão imponente, mas e daí? Era aconchegante, e isso bastava.

Seu dono podia ser visto sempre na porta de sua nova morada, conversando com os que ali passavam. Todos, agora, conheciam o residente daquele espaço, outrora tão reservado e isolado. Passava uma pessoa, passava outra, conversava alguma coisa, trocava alguma palavra, despedia-se e seguia seu rumo. E, ao fim da noite, a casa abrigava seu único morador, que fechava as portas e dormia tranqüilamente. E assim o foi até mais ou menos quatro semanas após o começo do outono. Uma pessoa que ali passava acabou pedindo abrigo naquela casa, e foi pronta e alegremente bem-vinda.

As folhas mudaram de cor.

Aproximava-se o solstício de inverno quando nosso amigo acordou com o barulho de sua porta sendo fechada, causado por uma tentativa mal lograda de fuga em silêncio. Levantou-se devagar e reparou que não havia mais hóspede. Foi até a pequena sala de sua casa, depois na cozinha, e em todos os cubículos de seu domicílio, onde seu resto de sono foi espantado e ele caiu em si. Suas coisas estavam remexidas, algumas quebradas, e deu falta de várias outras. Na mesa de centro, um bilhete com um aviso: fora embora e levara algumas coisas, a fim de proteger-se do frio que se aproximava.

“Algumas coisas” seria apenas modo de falar, um mero eufemismo. Olhando ao seu redor, não entendeu como uma só pessoa poderia carregar tantas coisas. Correu para seu jardim, na esperança de que a pessoa não estivesse longe com seus modestos pertences, mas até onde a vista alcançava não havia sombra dela, nem sequer pegadas. Não entendia como aquilo era possível. Não apenas o rápido sumiço — teria ido voando? — mas também a sua falta de sorte.

Caíra novamente de joelhos. Por uma dessas coincidências do destino, não sabia ele que estava ajoelhado no mesmo lugar de estações atrás. Castelo? Casa? Nada adiantava: no fim das contas, seria tapeado. Ainda que ali estivesse sustentada a mesma estrutura do verão, não era mais a mesma casa. Aliás, havia uma casa, não mais um lar; era, então, como um templo sem fé. E, na frente do amontoado organizado de tijolos, um homem ajoelhado, maldizendo sua sorte.

Permaneceu ali por horas, até finalmente fazer um esforço sobre-humano e levantar-se. Entrou em sua casa pela última vez, pegou algum resto de comida na dispensa saqueada, algum pano para se aquecer e foi embora de vez do amaldiçoado terreno. Cansou de ser seu único habitante e partia sem direção nem objetivo. Que ficasse vazia a casa, seu teto não era mais abrigo! Estava, naquele momento, deixando sua moradia pra trás.

Veio o inverno, depois a primavera, o verão, outro outono. Os ciclos se repetiam; neve, sol e chuva deram cabo da casa e mais tudo que abandonara dentro. Dizem que um dia, durante uma tempestade, a única árvore de seu jardim não resistiu a seu próprio peso, por nunca mais ter sido podada; caiu sobre o telhado da casa, e um raio sobre a mesma tratou de incendiar tudo.

E ninguém nunca mais soube de seu dono.

16 comentários

  1. Dady disse:

    inaugurar o template novo é uma grande honra, seu moço esdras!
    ficou lindro. inclusive o azul.

    :D
    um grande beijo, de quem sente mesmo saudades.


  2. Carolzita disse:

    o importante não é a potência do muro da casa e sim a potência do que tem dentro dela. as casas que aparentam ser muito fortes por dentro são muito mais fracas dasque aparentam ser frágeis por fora.
    :**********************
    mwuah!


  3. Si disse:

    no meu caso é: abrigo, casa, castelo.

    beijos.


  4. Georgia disse:

    A fragilidade do ser materializada na figura de uma casa? Pareceu-me! Guten Tag!


  5. Régis disse:

    Vi o tal dono da casa dormindo ao relento no Parque da Redenção aqui em Porto Alegre. O frio de 4ºC. parece que incomodava um pouco…


  6. candie disse:

    o nome dele era murphy? meus deus, quanta tragédia! hahaha. muito bonito o texto, gato.

    beijos pra tu, tatu.


  7. sam disse:

    ficou só lindo esse template


  8. Flavinha disse:

    Quem sabe se nessa caminhada sem direção e nem objetivo seja construida uma nova casa muito melhor que as anteriores?!

    ps.: adorei o tomate de fundo :D

    com saudades dos seus abraços :***


  9. yvanna disse:

    o blog tá lindo com a cara nova, lavada. :]
    e já disse que gostei bastante desse texto.

    :*


  10. Jeremias disse:

    A casa lamento
    Acasalamento
    Da casa só lamento?

    Não, elas também nos dão felicidade. Melhor seria que pra sempre fosse.

    Muito legal seu blog, abraço.


  11. Alexandra disse:

    Amei essa nova cara do blog!
    o tomate parece estar em ótima qualidade, uma belezinha ;P

    e o texto, maravilhoso.

    abração esdras :]


  12. Deborah Soares disse:

    (Quem sou eu pra escrever alguma coisa aqui… logo eu? Mas vamos lá.)

    Bem… talvez tudo o que aconteceu, apesar de ruim, tenha feito ele entender que não importa o medo… quanto mais ele quiser a perfeição, quanto mais ele lutar pra que tudo fique certo mais ele se decepcionará quando for roubado.
    Talvez ele tenha feito certo em largar um pouco desse lugar. Não sei o caminho tomado por ele mas espero que encontre o certo em breve. A vida tem muitos caminhos, não existe um certo. E ela é feita exatamente de encontros, desencontros, alegrias e desilusões. A felicidade é atingida quando se aprende a lidar com tudo isso. Mas até lá existe muito chão.
    Espero que futuramente esse homem aprenda que cada obstáculo, além da dor, traz uma lição. E é assim que construímos nosso castelo. Aquele mais próximo da perfeição.

    Se precisar de um tijolinho…

    Te amo.


  13. Deborah Soares disse:

    Esqueci de dizer que, como a maioria aqui, adorei a nova cara do blog. Posso não ser uma leitora assídua mas já estava sentindo sua falta.


  14. Mirella disse:

    preciso do telefone da sua bdoutora de cabeça, filho, que perdi o cartão. mande-me quando puder. beijo.


  15. . disse:

    “Em eterno processo de aprendizagem”.. nossa, nunca pensei em encontrar algo desse tipo logo no seu blog. de qualquer forma, fico feliz.
    beijo


  16. zizia rodrigues da silva disse:

    bom dia, venho através deste,parabenizar a todos pelo trabalho.e pedir apoio na minha chegada ai,pra aruma um serviço.venho pagar com serviços comunitario,peço pelo amor de Deus entre em contato comigo.um abraço
    desde já agradeço


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Manifesto
o segundo passado, antes de qualquer coisa, virou história; histórias, sobretudo, servem para ser contadas. cada um de nós é protagonista de sua história, e sua vida seu respectivo palco. vivendo e convivendo, somos protagonistas, coadjuvantes e figurantes de bilhões de histórias. não havendo graça no abismo do anonimato, exponho aqui a minha história. ela é contada em forma de fatos e idéias, sem personagens, maquiagem ou playback, para receber aplausos ou tomates – jamais me ocultando com cortinas. no fim das contas, seja a história dramática ou cômica, o importante é o show business. está tudo aí, pra quem quiser ver.
 
Eu
Esdras Beleza de Noronha, 23 anos, Fortaleza, Computação na Universidade Federal do Ceará, livros e filmes de estilos diversos, alguma coisa de britpop, indie rock e rock nacional, fotografia amadora, programação, redes, Linux. Em eterno processo de aprendizagem.
 
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(São Paulo)

 
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(Charles F. Kettening)
 


 

 

 

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