26 de setembro de 2005   —   02:21:42
Enfim, algo direto e informal

Minha insônia não anda muito inspirada ultimamente. E, se for pra escrever textos como os dos últimos meses, isso até que é uma notícia boa.


Tenho lido textos antigões meus, coisa de anos, e relembrado muita coisa. Engraçado quando a gente olha pra trás, vê coisas que a gente fez ou falou e pensa: “Puta merda, eu fiz isso tudo?”

Não me arrependo. Cada coisa, em sua época, teve sua grande importância. Se hoje soa como perda de tempo, um dia não foi. Minha parte foi feita.

Ando me libertando de sentimentos de culpa em relação ao passado.


Por que o tempo nunca parece suficiente pras coisas que a gente quer fazer? A greve, ainda que eu esteja tendo algumas aulas de professores que furaram, me deu um bocado de tempo livre. Mas os dias continuam aperriados, e o fim de semana, insuficiente.


Paciente pra algumas coisas, pra outras nem tanto. Ando lembrando bastante os dias que passei na praia do Presídio em julho. Um pouco de sossego caía bem agora.


Tô em paz comigo mesmo.

A primeira manhã de um homem sozinho

20 de setembro de 2005   —   12:53:55
Este texto é a história duma pessoa que brigou com o tempo, com a dor, consigo mesmo.
É o primeiro dia da história de alguém que reaprendeu a viver, a sorrir, a lidar com as coisas, a gostar de si.
Leiam ele com carinho, levou tempo pra escrevê-lo, pra ter coragem pra tanto.
Para todos aqueles que oferecem a alguém perdido um ombro.
Para aqueles que ofereceram.
“Você chorará; a seus lábios virá o nome da amiga que você deixa, e às vezes seu pé se deterá no meio do caminho. Mas quanto menos você tiver vontade de partir, mais você deve pensar em partir. Persista e force seus pés a correr, apesar de não quererem. (…) Não pergunte quantas milhas você percorreu, mas quantas faltam a percorrer”
Ovídio, em A Arte de Amar
 
Ele andava por uma calçada irregular, a passos lentos. Sentia alguma fraqueza, parecia ter perdido a força vital de que os cientistas de antigamente falavam, e carregava nas órbitas oculares um olhar fosco. Os olhos perderam o brilho não fazia muito tempo, e agora estavam direcionados para o céu, como quem busca uma resposta divina, ou talvez olhassem para cima por acaso. Não importava. Nada mais importava.Sentia frio. Fazia um pouco de sol, é verdade, não era o dia mais quente, naturalmente não haveria razão para tanto. Mas sentia frio. Um frio que vinha de dentro pra fora, um frio que algumas pessoas conhecem muito bem. Olhou para o céu, e viu as nuvens. As nuvens o deixaram com medo, muito medo. Elas faziam parte de um sonho, um sonho desfeito. Como a chuva. Um banho de chuva. E teve pânico quando pensou na chuva. Imaginou-se sob a chuva, caso ela viesse. Ela seria ácida, e viria corroendo sua pele e seus ossos, desgastando seu corpo, que se derreteria, se dissolveria.Lembrava o tempo todo das palavras que ela dissera há cerca de doze horas, de como elas pareciam sem sentido e de como as coisas perderam o sentido após ouvi-las. Aquilo apertava-lhe o coração, sentia uma angústia, uma dor. Só ele e Deus sabiam o que acontecia dentro dele agora. Era uma dor que não cabia em si, que não cabia nele, como algo que se guarda em um recipiente incompatível, insuficiente, apertado, pequeno, mas que mesmo assim era guardado. E era fabuloso como era necessário tanto espaço… apenas pra comportar um grande vazio.

Na dinâmica dos fluidos aplicada à vida, quando algo sai do lugar, alguma coisa tem que preencher aquele espaço que estava preenchido anteriormente. O homem mais feliz do mundo não andaria mais em Pasárgada e agora tinha como nova companheira aquela dor enorme, e sabia que ela o seria por um tempo indeterminado. Precisaria matar aquele tempo. Pensava no que faria nas próximas horas, precisava ocupar-se até a hora de dormir, quando enfim seu corpo repousaria. E quando acordasse no dia seguinte, o que faria? E no próximo? E no próximo? A nossa cultura diz que o tempo tudo resolve, mas ninguém nunca disse quanto tempo. Mas sabia que precisava matar o tempo. Quanto tempo? Quanto tempo, meu Deus?

Continuou sua caminhada, parecia competir com o tempo para ver quem andava mais devagar. Pressa pra quê? Mas uma hora chegou na parada do ônibus. Pegou um ônibus, observava as mulheres no ônibus e nas ruas, tentava sentir alguma coisa, mas até as que racionalmente seriam as mais bonitas agora estavam completamente sem graça. Não serviam. Não serviriam. E a cada olhar forçado, sua mente lhe devolvia um nome. É, elas não serviam. E não adiantaria insistir.

Iria pra casa empurrar algo goela abaixo, iria se encontrar com um amigo logo em seguida. Precisava preencher todo seu tempo, sufocar o desespero. Depois, não saberia o que fazer. Pensaria nisso depois. E assim as horas passariam, esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar. A pior sensação que existe surge numa sequência de formação a partir da negação dum elemento anterior, da negação da esperança. Estava consumido pela pior sensação de qualquer universo: a desesperança. Na forma dum olhar fosco.

Era a primeira manhã de muitas outras que viriam. Era a primeira manhã do resto da sua vida. Do resto dos restos da sua vida.

18 de setembro de 2005   —   07:01:36

Da série “Citações – Vivendo e aprendendo”

“Perde-se o sol e ganha-se a lua.”

E assim resume-se um sábado. 🙂

16 de setembro de 2005   —   06:00:32
In my dreams I’m dying all the time

Há dias em que o melhor a se fazer é tomar um banho gelado e dormir por horas.

Deixa eu contar um segredo: nada mais me machuca.

É exatamente como me disseram um dia, há exatos três meses.

So this is goodbye.

:: Moby – Porcelain

13 de setembro de 2005   —   08:59:59

Dúvidas e algumas certezas

“preciso me perder como preciso de ar
perder o rumo é bom
se perdido a gente encontra
um sentido escondido em algum lugar”

(Engenheiros do Hawaii, em Faz Parte)

“as the sun moves away from the earth
I feel serene”

(Dead Poets, em Serene)

Isto não é um fim,
um recomeço ou promessas.

O dono do rosto no espelho visto há pouco tempo não o reconhece mais. O reflexo pouco importa, os olhos refletidos na superfície polida aprenderam a enxergar por trás da imagem, e vêem agora o efeito de tudo. O dono do rosto no espelho visto há pouco tempo não o reconhece mais, reafirmo. Fosse um tempo atrás, sentiria-se perdido. Hoje, sente-se aliviado; vê o reflexo de alguém que cansou de alimentar os egos alheios às custas da sua dor, e tem buscado um pouco de amor-próprio.

[I feel serene]

Não há a insônia desesperadora duma noite num quarto de hotel. Talvez não haja a morbidez das tardes na praia. Se há a desesperança de telefonemas regados a lágrimas, não se sabe. Também não se tem conhecimento se tudo isso passou ou apenas está sendo ignorado. O dono do reflexo cansou de sofrer, de crucificar-se, flagelar-se. Ainda carrego um bocado de sonhos desfeitos numa mão, mas agora também levo um punhado de convicções na outra.

Teorema: existem amigos.
Prova: estou vivo.

Temos como verdade a existência dos amigos. Há amigos que ajudam, outros que são ajudados, outros que recusam ajuda pois se julgam muito bem, como se pudessem acabar com os problemas ou suas consequências por decreto. Em todo caso, aprendi alguma coisa com todos eles. O problema dos outros sempre parece mais fácil que o nosso, ainda que seja o mesmo, e isso faz a gente aprender a enxergar melhor no escuro. E no meio de tantas pessoas iguais à gente, ou pelo menos com o mesmo problema, finalmente entendi o que um professor meu quis dizer quando falou que o equilíbrio pode surgir do caos.

No meu caminho, vi quem trocasse o certo pelo duvidoso e acabou pagando o preço. Há quem se prenda a desejos antigos, príncipes encantados, projetos quaisquer, sonhos cuidadosamente moldados dentro dum quarto, uma busca por perfeccionismo que só causa frustrações. Quem se fixa muito aos planos às vezes esquece de realizá-los. A vida é muito mais que isso, e eu escolhi sair um pouco de casa e procurar um jeito de viver.

E, com a paciência que agora eu tenho, um dia eu vou achar.