28 de janeiro de 2006   —   12:32:38


Blues da piedade
(Cazuza/Frejat)

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêncio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Fui tomado por uma crise daquelas de saco cheio e decidi chutar o balde. Sabe quando você tá há anos na mesma situação, esperando que as coisas melhorem, e quando vê a coisa se tornou insuportável? Você tá insatisfeito com os rumos que as coisas tão tomando (às vezes rumo nenhum!) e vê que, do jeito que está, não tem perspectivas de melhora.

Uma hora a gente percebe que é bom parar e perceber que se a gente não lutar pelos nossos sonhos, ninguém vai lutar pela gente. E quando a gente pensa em virar a mesa e arriscar algo algumas pessoas vão criticar, mas não são elas que vão viver a frustração da gente quando o convencional dá errado. Jesus não está na esquina com nossos sonhos numa bandeja, então decidi sair do marasmo, arriscar algumas mudanças e procurar um pouco de satisfação.

Decidi diminuir um pouco a atenção na faculdade, caçar algum trabalho, empurrar pra mais fundo ainda da terra os derrotismos que me possuíram no passado. Quero ir atrás de desenvolver os talentos que eu podia ter desenvolvido e deixei de lado por algum tropeço. Tanta coisa, tanta coisa. Inspire o positivo e expire o negativo. A gente tem que jogar fora as coisas ruins que as pessoas colocaram na cabeça da gente, seja um professor carrasco, um familiar maluco, um falso amigo.

Cansado de acordar pensando “Hoje o dia vai ser chato” e de reclamar sem fazer nada (e reclamar adianta?), cansei da minha própria reclamação e venho trocando minhas políticas. O resultado? O primeiro mês de 2006 nem chegou ao fim, mas já foi melhor que todo o ano de 2005.

E tenho dito.

Quase uma bossa nova

12 de janeiro de 2006   —   03:51:42

Alguma invenção
Que faça o tempo parar esta tarde
Quando se for o sol
Que a luz desse dia nunca acabe…

(Paralamas, em Esta tarde)

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais

(Vinicius de Moraes, em Tomara)

Tô cansado. Hoje eu tava no meio do engarrafamento do almoço, cotovelo na porta do carro, mão na cabeça com os dedos enfiados no cabelo, e concluí: tô cansado.

Tô cansado dos monitores, dos cálculos, das abstrações, dos papéis, dos livros que não respondem as minhas perguntas. Tô cansado de andar feito sardinha em ônibus, ou ficar dentro do carro parado no trânsito engarrafado, de esperar o sinal abrir. Tô cansado das músicas amargas e afetadas. Tô cansado de mau olhado, de gente que não sabe ser feliz e não quer deixar os outros serem. Tô cansado das noites mal dormidas, de passar o dia feito zumbi. Tô cansado do que passou e do que acabou, tô cansado dos mortos que querem sair das covas. Tô cansado de pessimismo, de derrotismo, da Lei de Murphy. Tô cansado de frescura, de complicação. Eu cansei dessa vidinha sem graça.

Eu quero derrubar os livros das prateleiras. Eu quero um abraço, eu quero um sorriso, quero que o tempo passe bem devagar. Eu quero não precisar olhar as horas e não ligar se elas passam. Eu quero praia e serra. Eu quero jogar Super Mario. Eu quero não precisar de telefones. Eu quero uma boa conversa, quero entender e ser entendido. Eu quero chuva batendo na janela. Eu quero sentir o chão e olhar pro céu. Eu quero um copo de capuccino. Eu quero um desenho. Eu quero um filme e um cobertor. Minha médica que me perdoe: eu quero um sorvete. Eu quero parar de me preocupar. Eu quero esvaziar a cabeça, rir à vontade e curtir o riso alheio. Eu quero uma música leve e alegre no fundo. Eu quero me sentir vivo. Eu quero fazer valer a pena.

O que eu quero não é muito: eu quero a simplicidade. Apenas.

O autor desse texto, após escrevê-lo, foi estudar coisas abstratas absurdas e correr pra assistir uma aula na qual provavelmente vai chegar atrasado. Ele pode ser avistado por aí pensando no terceiro parágrafo.

Vivendo e aprendendo: glossário de Arquitetura para não-arquitetos

8 de janeiro de 2006   —   09:40:28
Andar com estudantes de Arquitetura é um negócio complicado. Ainda mais quando você é dum curso de Exatas. Os arquitetos, provavelmente revoltados no meio de sua eterna crise de identidade por não serem nem do Estilismo nem da Engenharia (eu tinha que usar essa piada aqui), desenvolveram todo um vocabulário próprio. Eles pegaram coisas simples, complicaram e deram um nome enfeitado, afinal de enfeitar eles entendem. Convivendo com meus amigos da Arquitetura, ouvindo suas conversas estranhas e vendo seus projetos insólitos, acabei conhecendo um pouco da língua dessas pessoas.

Um dia ainda vou escrever um livro chamado Arquitetura para não-arquitetos – Relatos da convivência com profissionais notívagos esquisitos. Por enquanto, seguem meus esboços iniciais.

Antes de qualquer coisa, admita que tudo que você pensava que sabia está errado. E aquela coisinha entre o corrimão da sua escada e a escada propriamente dita que você nem percebia que existia tem nome.

Mão francesa: Pelo que entendi, é um treco inclinado que serve pra segurar uma estrutura. Onde viram uma mão francesa, Deus sabe.

Planta baixa: representação num plano de uma construção vista de cima, sem o telhado. Lembra do filme Dogville e dos apartamentos nos classificados? Pois é.

Pé direito: pé direito é a altura entre o piso e o teto. Não me pergunte por que é direito e não esquerdo.

Pergolado, também conhecido como pergo-o-quê?: é uma estrutura apoiada em colunas, feita de elementos paralelos, tipo umas tábuas de madeira, alvenaria, concreto.

Pivotante e basculante: uma porta, portão ou qualquer coisa que gire ao redor dum eixo vertical é pivotante. Tipo 98,7% das portas que se vêem por aí e algum arquiteto desocupado (se é que existe um) decidiu classificar. Quando gira ao redor dum eixo horizontal, é basculante.

Guarda-corpo: não é um caixão. Acredite, guarda-corpo é uma grade de proteção usada em escadas, balcões… Se tivesse uma na escada daqui de casa há uns anos, uma empregada nunca teria ficado entalada entre a parede e a escada. Mas isso é outra história.

Vigas e pilares (essa é fabulosa e guardei pro final!) : todo mundo pensa que são a mesma coisa, mas em resumo, vigas são horizontais e pilares são verticais! Um pilar redondo é uma coluna! (o trecho riscado gerou polêmica e falta de consenso) E não confunda os dois perto dum arquiteto. Eles vão fazer careta e se sentir superiores.

A partir de agora, você não precisará chamar essas fabulosas estruturas de “aquele troço ali, ó!”, porque eu tive o trabalho de descobrir o nome (enquanto alguém devia pensar “que burro, não sabe o que é um pergolado…” e ria por dentro).

E por favor, estou aberto a sugestões, adições e correções.