Paul McCartney: já faz uma semana…

28 de novembro de 2010   —   15:14:38

Comecei a gostar de Beatles há relativamente pouco tempo, acho que faz três ou quatro anos. Não que eu achasse ruim, não me joguem pedras; eu apenas não achava nada de fabuloso. As pessoas me diziam “Beatles é muito bom!” e colocavam pra tocar alguma coisa da fase iê-iê-iê da banda, e eu não entendia por que toda a agitação em torno da banda, o que havia de tão revolucionário ali.

Um belo dia, acho que li sobre o Álbum Branco dos Beatles (na verdade chamado The Beatles, o 9º disco da banda) e decidi parar pra ouvi-lo. Foi bem aí que me converti: comecei a aceitar os Beatles como banda foda, a respeitá-los como uma das melhores bandas de todos os tempos e a reconhecer a influência deles nas gerações seguintes.


Alguns meses depois tropecei nos últimos trabalhos solo do Paul McCartney, também muito bons. As pessoas lamentam muito o fim dos Beatles, mas algumas esquecem que cada um deles continuou a investir na música e não dá a devida atenção aos discos que os Beatles fizeram individualmente. Esqueça os artistas que entraram em decadência com o passar dos anos: o velho McCartney continua muito bom, compondo músicas fantásticas.


Passei alguns anos vendo alguns amigos viajando pra shows muito bons em outras cidades. Infelizmente, eu estava ocupado demais com faculdade e estágios, e o salário de estagiário não dava pra investir muito bem em viagens. Em dezembro do ano passado me formei, consegui mais tempo livre e larguei a alcunha de estagiário.

Há algumas semanas, vieram as notícias dos shows de Paul McCartney no Brasil. Pensei “ah, vai custar muita grana, melhor eu economizar pra outra coisa” e deixei pra lá, como quem já está acostumado a deixar shows pra lá depois de anos. Alguns dos meus irmãos começaram a se organizar para ir ao show e me chamaram. Falei que não rolava; depois, como quem comenta uma amenidade qualquer, fui comentar com minha namorada o convite dos meus irmãos.

Ela me lembrou dos anos que eu passei adiando oportunidades, dos shows que perdi, das viagens que não fiz, e agora eu falava em economizar dinheiro pra qualquer coisa material que podia ficar pra depois. Cedi à minha namorada, meus pais e meus irmãos: dei para Sir Paul McCartney um espaço grandioso na fatura do meu cartão de crédito.


Houve quem me dissesse que é tolice fazer tamanho investimento; algumas dessas pessoas, porém, gastam com micaretas caras que se repetem todo ano ou dão centenas de reais pra ver o Black Eyed Peas cantar My Humps. Não discuto.


Não tenho muito o que falar do show. Na verdade tenho, mas não dá pra traduzir em palavras. Valeu cada centavo investido, valeu cada hora na fila sofrendo com o maldito calor, bebendo pouca água pra evitar ir ao banheiro na hora do show e poder garantir um bom lugar.

Eu estava ali, entre 2 e 3 metros da grade, vendo um beatle, porra! E não apenas um beatle, mas um cara de carreira solo igualmente espetacular, que continuou e continua sendo foda nos últimos 40 anos.

A hora mais marcante do show, provavelmente, foi a hora dos fogos e explosões em Live and let die. A mistura de sentidos fez todo o serviço: a onda de calor me atingindo em cheio ali na frente foi como um beliscão, daqueles que nos faz acreditar que não estamos sonhando.


Paul McCartney é só agradecimentos: agradece ao público, à sua banda de apoio, aos técnicos de som e luz. Homenageia seus antigos colegas Beatles e sua esposa falecida, Linda, entre uma música e outra. Fazer um trabalho tão grandioso não é trabalho de um homem só, e ele sabe deixar bem claro que não conseguiria isso sozinho. Algumas empresas deviam treinar seus funcionários dando DVDs do Paul McCartney, para que possam ver como liderar uma equipe e obter ótimos resultados.


Depois das quase 3 horas imerso nas músicas de diversas partes da carreira do Paul, eu lembro duma entrevista com o Brian Wilson (ex-Beach Boys) que assisti há alguns anos, onde ele dizia que não dava atenção às bandas da atualidade, e que a única coisa que ele parava pra ouvir eram os discos do Paul McCartney, o qual considerava um gênio.

Na época achei que era coisa de maluco, mas Brian Wilson, como todo bom maluco, tem um fundo de razão (daquelas razões que nós, que nos julgamos sãos, demoramos pra perceber): não adianta perdermos nosso tempo ouvindo 472 bandas novas que saem por aí ou antigas, mas nem tão boas assim, se ainda não nos debruçamos sobre a obra do velho McCartney.


Hoje faz uma semana que passei pela fila, que vi o show, que presenciei um pedaço da História da música pop em pé ali, a poucos metros, tocando seu inconfundível baixo Höfner. A vontade é de poder dividir esse momento com cada pessoa de bom gosto, tentando descrever da melhor forma a emoção, a expectativa.

Faz uma semana e eu ainda não acredito, como sei que vão fazer anos e não vou esquecer.

Outubro

2 de novembro de 2010   —   20:56:12

Outubro acabou, afinal, deixando algumas marcas pela perda e tendo lá suas horas de introspecção, redescoberta, reavaliação de valores. Pra falar por mim, prefiro uma música que sempre me empurra pra frente quando a vida desce a porrada:


Não vai mudar
Promessas, nem rezas

Não vai voltar
O tempo, os dias

Fecha os olhos pra ter a sensação
Aquela tarde não é mais não

Não adianta
Vizinhos, polícia

Não vai voltar
O tempo, os dias

Em que tudo ainda estava no lugar
Abra os braços, abrace o que sobrar

É dos Paralamas do Sucesso e se chama Não adianta.