O assassino de Realengo jogava jogos violentos. E daí?

10 de abril de 2011   —   22:54:40

Passei a tarde fora no domingo e, quando volto pra casa, descubro um post do Gizmodo dizendo que O Globo noticiou que descobriram que o assassino de Realengo tinha jogos violentos no computador. Mais uma vez, vamos aguentar aquela ladainha de que o acesso à internet ou o uso de jogos violentos é algo que constroi assassinos.

Minha opinião? Isso tudo é bobagem. Frescura. Ou, usando uma expressão que eu nem gosto, falso moralismo!

Eu joguei os mesmos jogos que o maluco de Realengo jogou, que o estudante de medicina assassino de 1999 jogou e nunca matei ninguém. Pra mim, isso é desculpa da imprensa. É uma maneira de jogar a poeira embaixo do tapete, para que os pais brasileiros sigam uma receita de bolo e durmam tranquilos, porém enganados. Agora os pais vão afastar seus filhos da internet e de meia dúzia de jogos e vão achar que estão criando santos em casa.

Se o assassino tivesse uma coleção de Bíblias ou imagens cristãs, seria um fanático religioso. Se tivesse barba longa e uma cópia do Alcorão, o tachariam de terrorista, afinal pra imprensa muçulmano é sinônimo de terrorista. Se tivessem achado o último livro do Richard Dawkins embaixo do travesseiro dele, ah, ele matou por falta de Deus no coração. Ele foi vítima de piadas na escola… E quem não foi?! Mas agora temos um nome bonito pra isso, que vende livros e reportagens na TV, é até em inglês que aí fica mais legal: bullying.

Eu sou diabético desde os 11 anos e passei a adolescência sem comer doces. Na mesma época, eu joguei GTA. E agora? Isso quer dizer que eu vou comprar armas e matar todo mundo numa confeitaria? As pessoas devem sair correndo quando eu entrar numa padaria?

O assassino era doente. Era maluco, desregulado, doido, pinel. Com ou sem jogos, ele ia achar uma desculpa pra matar. Você quer evitar que seu filho vire um assassino, um drogado, um marginal? Então eduque-o corretamente (lembrando que educação a gente recebe em casa, não é na escola, e independe de religião) e seja um pai ou mãe presente para diagnosticar qualquer distúrbio bem cedo. Não importa o que seu filho jogar, ele vai saber que um jogo é ficção, um jogo é mera representação da realidade e a última não deve ser tomada como o primeiro.

Infelizmente, os pais hoje querem soluções rápidas, então é mais fácil proibir jogos, internet e prender os filhos em casa. Isso é pegar a mulher na cama com o Ricardão e brigar com o Ricardão… Mas o que importa é a sensação de ter o problema resolvido, não resolver o problema.

Templo

1 de abril de 2011   —   01:54:22

Abriu a porta da sala e entrou lentamente. Tateou o interruptor pela parede, acendeu a luz, soltou um suspiro fundo: finalmente estava em casa. Libertando-se da mochila pesada em cima da pequena mas confortável poltrona, ligou o som e movimentou a cabeça para os lados, alongando o pescoço como que seguisse os passos rigorosos de um ritual solene de alívio e relaxamento.

Ali era seu templo: seu por ser o templo do deus que quisesse seguir, seu porque ali ele poderia ser o deus daquele lugar, se assim o desejasse. Com D minúsculo, maiúsculo, que fosse. Ali estaria em paz, estaria a salvo, encontraria a si mesmo, a seu senhor e salvador. Poderia se prostrar de dor e chorar no meio da sala se necessário, derrubar os livros das prateleiras se sentisse raiva, assistir um filme engraçado e rir gostosamente se bem quisesse. Teria privacidade pra ser ele mesmo, pra sentir o que quisesse. Haveria barulho se assim ele ordenasse sua existência (e se não incomodasse os vizinhos, afinal os templos alheios também são sagrados), do contrário haveria silêncio.

Mas hoje ele não queria nada que soasse tão desesperador ou divino. Só queria a música, que já estava lá, nem alta nem baixa, apenas na altura perfeita para alcançar todos os cômodos de seu pequeno lar. Abria a geladeira e os armários da cozinha, ia e voltava, coletando ingredientes para o jantar. Faltava um ingrediente, mas não podia culpar ninguém além de si mesmo por ter acabado e não comprado, o que pode ser aliviador por não nutrir expectativas. Pensou em outra coisa pra jantar, riu de si mesmo ao lembrar que não faz sentido brigar consigo por tão pouca coisa, guardou a culpa pra transformar em ação no dia seguinte, no supermercado, e a vida seguia em frente. Simples, como deveria ser.

Desligou o som, ligou a TV e assistiu algo enquanto comia, com os pés em cima da mesa de centro. Tomou seus remédios após o jantar, amanhã é preciso providenciar mais, e voltou para a TV, onde ficou por algum tempo, na santa paz de Deus. Cansou da TV, escovou os dentes e foi para a cama ler alguma coisa, porque ler é encontrar o deus interior e escrever é exorcizar os demônios, sempre pensava isso, e leu por muito tempo.

Lá pelas tantas o sono veio, arrebatador, invadindo seu templo com sua permissão e chegando bem-vindo. Sem muita resistência, porque até a sabedoria divina sabe a hora de recuar, deixou-se tomar pela sonolência, pensou que a vida era boa, agradeceu a Deus por ceder-lhe um pouco de Sua substância para que fosse deus daquele templo e dormiu o sono dos que vivem em paz.