O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de janeiro de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.