Obrigado pelo seu amor

17 de Janeiro de 2018   —   21:09:24

Eu hoje estava saindo do metrô e uma mulher estava passando com o cachorro dela. Olhei pro cachorro, afinal eu olho pra todo cachorro, na tentativa de que seus donos deixem eu brincar um pouco com eles. Hoje funcionou. Cumprimentei o bichinho, fiz uma selfie e agradeci a mulher, que sorriu um sorriso que não se vê todo dia entre dois estranhos em Londres e se despediu com “bye, thanks for your love!” (“tchau, obrigado pelo seu amor!”).

Aquilo ficou ecoando na minha cabeça: “obrigado pelo seu amor!”.

Estou até agora tentando interpretar aquela frase. Penso na dificuldade que é ter um contato mais simpático com estranhos em Londres, essa cidade que tem como etiqueta sentar no metrô e olhar pra cima pra evitar cruzar olhares, tem sido até um pouco de choque voltar de Portugal pra cá. Penso se ela achou minha atitude estranha-mas-positiva. Penso se ela não estava sozinha como eu estou nessa cidade. Penso se ela não é apenas uma pessoa muito rara que aprecia fornecer feedback positivo desse jeito tão fora do esperado pelo roteiro cotidiano, e se for, que continue assim.

Mas isso tudo, qualquer interpretação minha, vai dizer mais sobre mim do que sobre ela. Eu nunca vou saber.


Recebi um e-mail na véspera do Natal que mudou meu fim de ano. Bom receber palavras de carinho e gratidão de quem me conhece bem, saber que passei por alguém de forma positiva e sem ressentimentos, e, de quebra, ser lembrado de quem sou quando eu mais precisava.


Voltei do Porto pra Londres me sentindo diferente. Carregado de coisas boas por ter passado um tempo perto de quem me quer bem. Feliz por estar na minha casa, feliz por lembrar que nesse ano tão escroto que foi 2017 eu ainda tive muitas vitórias, como meu espaço, que me é tão sagrado e representa tanto esforço.

Voltei mais simpático e caloroso com as pessoas. Mandei o foda-se pra etiqueta inglesa e pra alguns medos, abracei quem eu queria na volta pro escritório, e deu tudo certo. Ninguém morreu, ninguém olhou feio, recebi só simpatia de volta. Notei as pessoas mais abertas, mas será que foi isso mesmo ou só eu que estou mais aberto?

Ontem uma colega minha do trabalho que não me via desde o começo de dezembro disse que eu parecia mais novo. Hoje outra colega minha perguntou se meu cabelo estava diferente, disse que eu estava aparentando melhor. Não é sempre que recebo elogios sobre aparência, fiquei feliz em ouvir essas palavras do nada, de graça. Semana passada meu sono começou a ficar minimamente digno também do nada, o que pra mim é uma vitória, e agora isso.


Tempos difíceis e sentimentos difíceis de lidar, especialmente ao sair da cama e na hora de tentar dormir. Os últimos tempos foram de tristeza, raiva, ansiedade e medo. Minha terapeuta disse pra eu tentar substituir sentimentos ruins pelos bons, e quando um desses sentimentos citados tenta tomar conta, eu tento pensar ou fazer algo positivo de alguma forma. Falo algo bom pra alguém, procuro um amigo, até mando alguma surpresa pelo correio, e a sensação ruim fica mais suportável.

E eu olho pra tudo que venho recebendo e penso que talvez esteja funcionando, que as coisas que eu tento mandar finalmente estão voltando. É bom ter o sentimento de colher aquilo de bom que a gente plantou por tanto tempo achando que era em vão. Eu ando devendo alguns “obrigado pelo seu amor” e tento pagar como posso.  


Hoje de manhã um conhecido meu compartilhou essa versão dessa música, que bateu com o clima surpreendentemente positivo que essa semana está tendo.

Give a little bit
Give a little bit of your love to me
I’ll give a little bit
I’ll give a little bit of my love to you
See the man with the lonely eyes
Take his hand, you’ll be surprised

So give a little bit
I’ll give a little bit of my life for you
So give a little bit
Give a little bit of your time to me
Now’s the time that we need to share
So send a smile, we’re on our way back home

Partir

1 de Janeiro de 2018   —   14:00:14

Nothing could be bring me closer.
nothing could be bring me near.
where is the road I follow
to leave, leave?

Eu havia acabado de chegar sozinho na cidade de Fira, na ilha de Santorini. Tinha reservado um quarto de hotel que se revelou espaçoso até demais e, ironicamente, deixaram perto da cama uma garrafa de vinho e taças pra dois. Deixei minhas coisas, tomei um banho e saí para dar uma volta na região dos restaurantes e lojas que ficavam no alto da borda da ilha, com vista para o mar. O sol estava se pondo e a vista era incrível.

Santorini

It’s under, under, under my feet.
the sea spread out there before me.
where do I go when the land touches sea?
there is my trust in what I believe

Santorini era uma vontade que vinha desde a adolescência. A primeira vez que ouvi da ilha foi numa música dos Paralamas do Sucesso quando eu tinha doze anos, Santorini Blues. Vi fotos das praias, das casas, e fiquei impressionado. Antes mesmo dos meus vinte anos, cismei que passaria a lua de mel em Santorini um dia, uma ideia que atravessou relacionamentos.

That’s what keeps me,
that’s what keeps me,
that’s what keeps me down,
to leave, believe it,
leave it all behind

Pula pra 2017 e ali estava eu, em Santorini, com trinta e dois anos. A última tentativa até ali tinha valido a pena e chegado longe, mas não alcançou o sonho da ilha grega. Num desses dias de remoer planos e tentar criar alguma perspectiva, decidi que era melhor não esperar uma ocasião especial que poderia nunca chegar: comprei as passagens, reservei uns quartos e fui.

I say that I’m a phantom airplane
that never left the ground

Santorini

Encostei no muro e olhei o mar, o sol se pondo, os barcos, as pessoas, os casais. Vi os restaurantes com mesas vazias na encosta da ilha e, por alguns instantes, pensei no meu eu que, em algum universo paralelo, foi acompanhado pra Santorini e jantava feliz numa daquelas mesas com alguém. Só mais um dos sonhos que eu não queria — mas precisava — deixar pra trás.

That’s what keeps me,
that’s what keeps me,
that’s what keeps me down,
to leave it, believe it.
leave it all behind

Sonhar acordado com aquele tipo de visão era apenas torturar-se e, já que estou preso a este universo, tentei aproveitar o momento e jantei sozinho numa das mesas. Estava seguindo aquele velho caminho batido de reaprender a ser só, mas na companhia da minha câmera, que não descansou. Um amigo havia me dito naqueles dias que “existe algo bonito perdido na dor”. Eu tentava desenhar com luz aquela dor que palpitava incessantemente para expulsá-la de alguma forma.

Shifting the dream
nothing could bring me further from my old friend time.
shifting the dream
it’s charging the scene
I know where I marked the signs.

Nos fones de ouvido, uma música em que eu nunca havia prestado atenção até poucos dias antes se repete com frequência desde aquelas caminhadas pelas vilas da ilha: Leave, do R.E.M., cuja letra fala sobre seguir um roteiro para partir e deixar memórias pra trás, enquanto uma sirene toca e sinaliza emergência, a urgência desse partir. Parecia apropriado.

Santorini

I lost myself, I lost the
heartache calling me.
I lost myself in sorrow
I lost myself in pain.
I lost myself in clarity,
memory, leave, leave.

É tolo querer que o hoje seja igual ao ontem. No fim, as histórias se dividem entre árvores que tombaram ou sementes que, apesar do esforço, não vingaram como era esperado. Não importa o quão boas as memórias são, nada delas existe mais, não acontecerão novamente, não há como estender a mão e tocar. Memórias serão arquivadas, com sorte e com muito tempo, em algum lugar onde doerão menos; canções que um dia foram motivo de acordar com um sorriso ganharão uma releitura agridoce; planos serão novamente cancelados. Esse é o roteiro a ser seguido, antigo conhecido meu de tantas partidas. É doloroso, mas há vezes em que o melhor a se fazer é desistir de sonhos, até por ser a única escolha.

Lift my hands, my eyes are still,
I’ll walk into the sea
shoot myself in a different place
and leave it

Aquela viagem virou memória, como tudo que veio depois, como várias outras viagens. Os meses passaram, mas toda manhã é hora de partir de novo. A sirene nos fones, a dor no peito. Há filmes passando nos meus olhos cada vez que eu pisco. Toda noite eu lembro, atordoado, de coisas que aconteceram, lembro do que senti em tantos momentos, e lembro de dias que jamais voltarão. Acordo antes da hora e me pergunto onde está o caminho que eu devo seguir para que as recordações fiquem distantes, pequenas, passíveis de convivência, e a vida siga com tranquilidade.

Man looking at the sea