“Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor”
(Legião Urbana, em O mundo anda tão complicado)
Fui a um casamento pela primeira vez em 20 anos. Hoje eu entendo na prática por que as pessoas choram em casamentos. Toda aquela mistura de sentimentos, é impossível não sentir na hora o nervosismo do casal e a alegria pela realização, principalmente quando você sabe um pouco da história deles e sobre como difícil chegar até ali, não apenas por questões de trabalhar, juntar dinheiro pra ter uma casa, mas por superar durante anos os obstáculos que existem nos relacionamentos, até chegar ali.
Não sou muito religioso e filtro ao máximo intermediários como pastores e padres se os escuto (não curto fé cega, nem seguir uma religião específica). Apesar disso, o discurso do padre sobre fidelidade, diálogo, respeito e cumplicidade foi muito verdadeiro. Ah, as pessoas perderam o senso. Mas ainda tenho fé no amor. Às vezes fé cega, admito, às vezes mantida por momentos de felicidade alheia como esses.
Passar uns dias fora de casa, fora da cidade, me dá uma impressão de recomeço. Às vezes a prendo e levo pra casa, às vezes ela vai embora quando me vejo novamente imerso na minha realidade. Na faxina mental, acaba sobrando algo que a gente quer que vá embora, escondido debaixo do tapete. Mas alguras coisas retomaram seu lugar, vamos pensar positivo.
Você gosta de daruma? Comprei um. Pra quem não sabe, daruma (desse jeito mesmo, não faltou um espaço) é um bonequinho que tem os olhos brancos. Você pinta um olho, faz um pedido, e só pinta o outro olho quando o pedido for realizado. Aí ele funciona como um amuleto da sorte. Eu quero dezenas de coisas, mas na hora de pintar o primeiro olho do daruma não sei que pedido fazer.
Às vezes me passa pela cabeça dizer algumas coisas para algumas pessoas. No momento seguinte, desisto. Às vezes é melhor se calar que defender uma causa morta. Não serei eu o soldado dum país extinto.
Durante os últimos dias, conversei com diversas pessoas e, ao relatar que muitos amigos meus viajaram e que muitos dos que ficaram estavam namorando (logo, na companhia deles, eu seria um peso), eu ouvi várias vezes a frase: “E por que você não arruma uma namorada?”
Eu questiono se a coisa é assim, tão estupidamente simples quando parece. A impressão que dá é que vou sair pela porta de casa e dizer “Vou ali arrumar uma namorada e volto já”, como quem sai para comprar pão ou o jornal de hoje. Arrumar namorado ou namorada hoje parece ser algo como uma vontade que você tem quando acorda: “Ah, estou com vontade de arrumar uma namorada hoje”. Então você sai e arruma.
Muita gente me ataca quando falo que você tem namorar quem você ama (engraçado, não? Deveria ser óbvio). Se não me engano, a palavra “namoro” não tem “amor” no meio por pura coincidência lingüística, mas porque este deveria estar presente. O que existe hoje é algo como “o amor surge depois”, e há toda uma história de que “ninguém começa um namoro amando, só depois o amor aparece”.
E vem aquela outra pérola também: “o amor surge com a convivência”. Ou seja, você começa a namorar qualquer um que achou bonitinho, e os dois vão juntos forçar a barra até ver se aparece amor ali. E, com tudo isso, o namoro hoje é um negócio que surge rapidamente, você é apresentado à pessoa e, logo após, começa um namoro. No seco mesmo, sem amá-la. Amor pra quê, né? O negócio agora é fazer test drive, “fica” pra ver se presta e depois namora se beijar bem, se a pessoa tiver jeito pra coisa.
Uma vez um conhecido meu estava no telefone comigo, e ele havia começado a namorar uma amiga nossa. Ele pediu pra desligar alegando que ia ligar pra ela. Ok. Segundos depois ele me liga e me pergunta o telefone dela, pois nem isso ele tinha. Outra vez, de pirraça, perguntei prum amigo meu o nome completo da namorada dele e ele não sabia.
E, além do amor, sem o qual as pessoas começam a namorar, também vem outro aspecto: a confiança. Eu acho que tanto amor como confiança surgem com o tempo, e não adianta forçar a barra se eles não surgirem. Mas as pessoas mal se conhecem, não se amam, não têm confiança no outro, mas começam a namorar assim mesmo. E essa pessoa vai confiar em vários varios amigos e, pasmem, não vai confiar no namorado ou namorada, afinal acabou de conhecê-lo(a).
Eu não entendo. E nem quero entender, nesse aspecto eu sou cabeça dura: namoro tem que ter história, uma história bonita, e tem que ter amor desde o seu começo.
Para os que perguntaram por que eu não arrumo uma namorada, eu respondo agora: não, eu não vou começar um namoro se eu não amo ninguém. Amando alguém, então eu poderei pensar na possibilidade de namorar com ela. Caso contrário, eu continuo aqui na minha, sem beijo na boca ou sexo, duas coisas que eu sinceramente acho que não fazem falta quando não estão vinculadas a alguém. Pra todo o resto, tenho meus amigos e meu Mastercard. E ponto final.
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