o importante é o show business!
"Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos."

Oswaldo Montenegro,
em Metade
10 de abril de 2010

Onde vivem os monstros

É o nome do filme de que vou falar agora. Sinopse, produtor, diretor, essa coisa toda de ficha técnica você procura no Google, porque eu preciso falar da minha história com o filme.

Foi minha namorada quem me alertou pela primeira vez que esse filme devia ser bom, que já conhecia a história e devia ser legal. Aí vi no site do UCI que havia estreado, em 15 de janeiro, e fui atrás das sessões. Mas… nada de Fortaleza. Só São Paulo e Rio. Me indignei, fiquei puto, soltei as cobras no twitter e ainda aguentei amigos que moravam nos estados citados ou que viajaram pra lá elogiando o filme. E toda semana ia lá eu, no site do UCI, ver a droga do filme dar a volta no Brasil sem nunca chegar em Fortaleza. Acabei deixando pra lá e desisti de ficar puto toda sexta-feira, ao ver que o filme nunca chegaria aqui.

Alguns amigos baixaram o filme da internet e me ofereceram. Eu ainda me senti tentado, pensando que iria passar em Fortaleza no Dia de São Nunca, mas a Carol, minha namorada, me convenceu a esperar sair no cinema. Tem filme que é pra ver no cinema, né, pelo menos a primeira vez. Esse é um deles. Resisti à pirataria, firme e forte.

Foi o Paulo André quem primeiro me deu o toque que o filme estava chegando, há alguns dias. Já a Natalia mandou pro Danilo a página de cinema do site do jornal O Povo com os horários do filme. Reproduzo abaixo, em formato de figura, a tabela de horários do filme copiada do site citado:

Sim, seus olhos não estão mentindo: sexta, 9 de abril (lembra que em São Paulo e Rio foi 15 de janeiro?), dia da estreia em Fortaleza, às 21:50. No dia seguinte, às 10:45 da manhã. Domingo? 12:10. E de segunda em diante, 19:30. Mas só até quinta. Depois, espere sair na locadora. Troféu Joinha pro UCI Multiplex de Fortaleza! Pior horário de todos os tempos!

Me deu vergonha de morar em Fortaleza (é um evento pelo menos diário). Eu sabia que era um bom filme… Quantas semanas passei indo no site do UCI, só pra ver que Xuxa em O Mistério de Feiurinha estava há dois ou três meses em cartaz, e nada de Onde vivem os monstros estrear? E, quando estreia, ainda é nesse horário merda, inviável pra muita gente. Mas enfim, não dá pra comparar com a Xuxa. Em Fortaleza, o filme recebeu tratamento de Cinema de Arte: poucas sessões, para público selecionado/seletivo/whatever. Bom pro filme (será?), péssimo pro público.

Mas sexta-feira, dia 9, e lá estávamos eu – ainda me recuperando de uma semana doente – e Carol, às 21:30, chegando ao cinema. Sala ainda vazia, mas bem cheia em alguns minutos. Eu estava cheio de expectativas e pronto pra quebrar a cara, porque é isso que acontece quando se vai com muita sede ao pote. Mas, em uma palavra, eu vos digo:

FILMÃO.

Não quebrei a cara. Correspondeu às minhas expectativas. Um puta dum filme, trabalhado nos mínimos detalhes, cheio de sutilezas. História, cenários, trilha sonora, tudo em equilíbrio. Impecável. Se você nasceu com menos de 20 anos e tem algum coração, você será tocado. Foi impossível, durante o filme, não abrir o baú e lembrar de alguns eventos da minha infância com o desenrolar da história. E não, não é um filme infantil.

Há alguns dias eu tinha comentado com a Carol que eu estava sentindo falta de algum filme que desse aquele cutucão em você, que você passasse um tempão depois pensando nele. Achei, é esse filme aí. Fodíssimo.

Só me dá pena dizer pros amigos “vão lá e vejam!”, e depois fornecer essa pobre grade de horários vergonhosa do UCI fortalezense. Mas enfim: vão lá e vejam. Vou aqui sentir vergonha pelo cinema, e dormir pensando no filme.

Vou concluir meu texto com um pedacinho da conclusão de outro texto sobre o filme, do blog Antigravidade: “É um filme bonito e até tocante que será admirado nos anos futuros e provavelmente será analisado em cursos de cinema ao redor do mundo até o fim dos tempos”.

12 de fevereiro de 2010

La-la-la-la-life goes on

E a vida segue seu curso: emprego novo, rotina nova, coisas novas pra aprender. O futuro, que já começou, é simples e claro:

  • Trabalhar: posso dizer que sou feliz com minha profissão. Sou reclamão pra caramba, detestei minha faculdade mas só levei ela até o fim porque gosto do meu trabalho. E, pelo que os últimos dias têm apontado, estou otimista de estar trilhando um bom caminho.
  • Voltar a pedalar: não é de hoje que os amigos e/ou meia dúzia de leitores sabem do meu hobby, que ficou de lado em 2009 e retomo aos poucos em 2010. E assim minha ansiedade diminui um pouco e a diabetes vai se controlando melhor.
  • Ler mais livros: tenho uma pilha de livros de todos os tipos e tamanhos se acumulando há anos, esperando para ser lida. Pouco a pouco ela vai diminuindo. Sempre lembro do meu antigo professor de português do pré-vestibular, Carlos Augusto Viana, que aconselhava: quem não lê se torna um profissional medíocre.
  • Ver mais filmes: também tenho um monte de filmes atrasados. Tenho uma lista enorme de filmes que todo mundo já viu, menos eu (pelo menos já vi Jurassic Park e De Volta Para o Futuro).
  • Jogar: infeliz daquele que não reconhece o valor dos video games ou que pensa que é coisa de criança.
  • Viajar: não sei como nem pra onde, mas viajar é preciso e sinto uma vontade lascada. Dá um aperto no peito toda vez que vejo um avião.
  • Namorar: ain’t love the sweetest thing? Um porto é preciso.
  • Ver mais os amigos: tô devendo uns abraços pra uma turma aí.
  • Fotografar: de fotógrafo e DJ todo mundo tem um pouco, e fotografia é uma das coisas que abandonei pelo caminho nos últimos anos.
  • Voltar a tentar tocar guitarra: eu ainda vou aprender a tocar guitarra, formar uma banda e fazer um disco foda que vai ter até uma resenha elogiosa no blog do Danny, vocês vão ver.

Agora me digam como arrumo tempo pra tudo isso, sim? Por mais apertado que pareça, porém, a perspectiva é otimista. :)

8 de novembro de 2009

Sobre nós, para você

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…

 

– Mário Quintana, Canção do amor imprevisto

 

Ela já sabe como se comportar durante os filmes, já sabe que tem o lugar dela devidamente reservado nos meus braços. E a gente já se ajeita quase que instintivamente na frente da tela, seja no cinema, seja na sala. O melhor abraço da história da humanidade, a mão na minha mão, a pressão leve dos dedos e a cabeça encostando devagar no meu ombro me lembram o quanto sou feliz; me assusta pensar como eu poderia hoje não ter isso e nem perceber, assim como me faz agradecer aos céus logo em seguida.

Depois do dia mais puxado de trabalho ou duma prova difícil é difícil continuar pra baixo depois duma boa conversa. Aliás, foi com ela que aprendi o valor duma boa conversa num relacionamento. E é com ela, que dizem por aí ser tão mais nova que eu, que eu relembro as coisas boas que nossos poucos anos de diferença me fizeram esquecer ou deixar de acreditar por alguma razão estúpida. E eu só espero conseguir ensinar algo bom de volta.

Conhecer ela foi refazer conceitos e desfazer preconceitos, foi me conhecer melhor. Estar com ela é aprender a crescer juntos. Se há momentos chatos – sim, eles também existem –, temos lá nossas horas boas para compensá-los e seguir em frente. Ganhar um beijo dela faz eu me sentir o cara mais sortudo do mundo. Receber uma mensagem descompromissada no celular causa um sorriso imediato. Ouvir o “eu te amo” dela me faz sentir recompensado por ter acreditado no amor mesmo nos dias mais difíceis.

Pois esperei o amor como o discípulo mais fiel espera pacientemente seu messias, sem saber o dia certo em que ele chegaria. E os dias difíceis e escuros até ela chegar valeram a pena, porque há meros 8 meses ela me disse o “sim” que deu olhos à minha fé, outrora cega, e que me fez unir o melhor de dois mundos ao cultivar o mais sublime dos sentimentos: o amor que a razão consegue justificar.

25 de julho de 2009

O que é o amor pra você hoje?

Via don’t touch my moleskine: entrevista feita na rua com várias pessoas em Recife, e divulgada via Youtube.



29 de abril de 2009

A sociedade dos maus-tratos

Começou há uns dias, com uma série de fatores que ocorreram ao mesmo tempo: um trabalho novo, a renovação da minha carteira de motorista e outras experiências pessoais demais pra serem relatadas aqui.

A empresa onde comecei a trabalhar há um mês e meio tem uma copa com vários alimentos. Bateu a fome? Vai lá, assalta a copa, prepara um sanduíche, come uns biscoitinhos, toma um refrigerante ou um suco. Coisa mais linda do mundo. Mais: eu sou diabético, inclusive citei isso quando fui entrevistado. No meu primeiro dia, fui chamado reservadamente e me perguntaram o que eu podia e não podia comer, para que pudessem providenciar a comida adequada pra mim. Foi qualquer coisa de fantástico: na minha vida profissional relativamente curta (se somar tudo dá uns 3 anos e meio), eu nunca havia visto ou ouvido falar de coisas assim, só em documentários sobre o Google, que me faziam achar esse tipo de coisa como algo distante.

Ok. Dia desses fui renovar minha carteira de motorista. Quando tenho que resolver esse tipo de pepino, eu já faço uma preparação espiritual de véspera pra aguentar ser maltratado por estagiários odiando seu trabalho, senhoras ranzinzas querendo se aposentar e funcionários desmotivados descontando sua raiva no seu público. Chegando ao Detran ali do lado do Iguatemi, fui muito bem tratado, desde o balcão de recepção, passando pelos guichês até chegar na médica do exame de saúde, muito bem humorada. Deixei até um papel na urna de sugestões elogiando o tratamento e pedindo que estendessem tanta educação e elegância ao pessoal das blitze, que faz todo motorista se sentir um criminoso em potencial.

O cerne da questão é que nós esperamos ser maltratados. É uma patologia social: mais do que tolerar, nós já esperamos por isso. A gente espera que o trabalho seja chato; nós vamos a instituições públicas esperando desatenção e mau humor; esperamos que o cobrador do ônibus esteja de mau humor e que o motorista não pare quando sinalizamos; as mulheres toleram apanhar de seus namorados e maridos; as mentiras e traições (não seriam a mesma coisa?) praticamente já são parte dos relacionamentos – ou você nunca ouviu algo do tipo “ah, mas todo namorado(a) é assim, pra que trocar se vai ser igual?”. As pessoas perderam a noção de exigência e de bom gosto, de querer coisas boas pra si e de afastar-se das coisas ruins.

Quando somos bem tratados e recebemos um afago ou uma palavra confortante e confortável no lugar duma paulada, isso nos causa estranhamento e um grande vazio, dá vontade de chegar no balcão do Detran e perguntar “mas ei, você não vai ser grosso comigo, nem um pouquinho?”, e você fica no trabalho pensando “vamos ver o que devem de fazer de ruim pra compensar essa mordomia”. Bons tratos acabam nos gerando desconfiança. E nós ficamos em estado de alerta, esperando a hora que a porrada vai chegar, porque certamente ser bem tratado é coisa pra semideuses. E aguardamos uma coisa minimamente chata que vá nos fazer respirar aliviados.

E eu descobri que não sou muito diferente, e que até ser bem tratado exige um esforço psicológico tremendo. Ficou complicado aceitar bons tratos, receber o que a psicologia chama de feedback positivo é algo avançado demais pra minha cabeça. E por mais que os fatos sejam leves, é difícil confiar no ponteiro da balança.

Precisamos de coragem até pra não morrer de fome diante da mesa posta: a felicidade se tornou um corpo estranho, e estou matando anticorpos para isso diariamente, repensando a tolerância e o conformismo e me acostumando a ser feliz.

27 de dezembro de 2008

Take this badge off of me

 
Mama, take this badge off of me
I can’t use it anymore.
It’s gettin’ dark, too dark for me to see
I feel like I’m knockin’ on heaven’s door.

 
Devia ser umas cinco horas da tarde, o sol mergulhava no mar atrás da gente e fazia uma pintura bonita no céu, enquanto nós andávamos subida acima, na areia, separados por alguns metros.
 

Knock, knock, knockin’ on heaven’s door
Knock, knock, knockin’ on heaven’s door

 
Olhei para trás. O vento batia nos cabelos longos, que cobriam um pouco o seu rosto, enquanto ela tentava ajeitá-los com os dedos, colocando-os atrás das orelhas. Tinha a boca entreaberta e a respiração de quem cansava-se um pouco com a areia que não ajudava na subida, e de alguma maneira isso parecia lhe conferir um certo charme.
 

Mama, put my guns in the ground
I can’t shoot them anymore.
That long black cloud is comin’ down
I feel like I’m knockin’ on heaven’s door.

 
Alguma coisa pesava entre nós; ela carregava um olhar profundo, melancólico, de quem precisava dizer algo, algo que eu sentia, que eu temia e que eu tentava, em vão, adiar. Parei de caminhar, esperei um pouco e segurei sua mão, numa das últimas vezes que entrelaçamos os dedos, em nossa última tarde juntos.
 

Knock, knock, knockin’ on heaven’s door
Knock, knock, knockin’ on heaven’s door

 
Momentos depois veio o último beijo, alguns dias antes da conversa que não pôde mais ser adiada. A derradeira conversa, que cortava laços, esquecia prazos e abortava planos. Só quem amou já sabe: o último beijo guarda a inocente e miserável covardia de não saber que é o último. E, como todo beijo que se preze, anseia ingenuamente pelo próximo beijo. Que não virá.

11 de novembro de 2008

Rápidas

  • Depois de um longo tempo sem encostar no cartão de crédito, minhas dívidas reduziram significativamente. Deu até pra atacar um sushi no fim de semana sem sentir muito peso na consciência. E já dá pra sentir mudanças de comportamento: evitar o dinheiro de plástico me fez menos suscetível às armadilhas das vitrines. Provavelmente hoje darei um fim a esse hiato, mas com algo que eu queria comprar há tempo, e não uma compra feita por impulso.
  • Usar um celular com menos recursos também me fez mais econômico, já que não uso mais coisas como web via celular. Só serviu pra me provar que essa coisa de checar e-mail constantemente é um mal moderno. Os e-mails quase sempre podem esperar.
  • A faculdade tá dando no saco. Não aguento mais aulas: eu rendo muito mais estudando sozinho que vendo um professor falar direto durante horas.
  • Depois de muito tempo sem ver comédias românticas, vi no fim de semana PS: Eu te amo. É de apertar o coração de tão bonito (é, eu gostei). E tô numa fase brega-romântica. Espero que meus vizinhos não me escutem ouvindo Bryan Ferry. “Slave to loooove…”
  • Alguém além de mim achou absurdo Quantum of Solace, o novo filme do 007, não ter título em português?
  • Se em maio eu curti viajar pra São Paulo e rodar sozinho numa das maiores cidades do mundo, hoje eu preciso, urgentemente, juntar uns amigos numa casa de praia ou na serra, e passar o dia eguando numa rede, jogando conversa fora, lendo um livro, cochilando e sentindo o vento.
14 de novembro de 2005

Notas de viagem

Há quem diga que a primeira impressão é a que fica. Quando vi São Paulo pela janela do avião, fiquei assustado; realmente a selva de concreto me espantou quando andei por ela. Quando chegava em Florianópolis, a cidade parecia o paraíso pela janela e era. Depois de ver o Rio de Janeiro pela janela do avião durante uma escala, só sei que preciso pisar lá.



“Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor”

(Legião Urbana, em O mundo anda tão complicado)

Fui a um casamento pela primeira vez em 20 anos. Hoje eu entendo na prática por que as pessoas choram em casamentos. Toda aquela mistura de sentimentos, é impossível não sentir na hora o nervosismo do casal e a alegria pela realização, principalmente quando você sabe um pouco da história deles e sobre como difícil chegar até ali, não apenas por questões de trabalhar, juntar dinheiro pra ter uma casa, mas por superar durante anos os obstáculos que existem nos relacionamentos, até chegar ali.

Não sou muito religioso e filtro ao máximo intermediários como pastores e padres se os escuto (não curto fé cega, nem seguir uma religião específica). Apesar disso, o discurso do padre sobre fidelidade, diálogo, respeito e cumplicidade foi muito verdadeiro. Ah, as pessoas perderam o senso. Mas ainda tenho fé no amor. Às vezes fé cega, admito, às vezes mantida por momentos de felicidade alheia como esses.



Passar uns dias fora de casa, fora da cidade, me dá uma impressão de recomeço. Às vezes a prendo e levo pra casa, às vezes ela vai embora quando me vejo novamente imerso na minha realidade. Na faxina mental, acaba sobrando algo que a gente quer que vá embora, escondido debaixo do tapete. Mas alguras coisas retomaram seu lugar, vamos pensar positivo.



Você gosta de daruma? Comprei um. Pra quem não sabe, daruma (desse jeito mesmo, não faltou um espaço) é um bonequinho que tem os olhos brancos. Você pinta um olho, faz um pedido, e só pinta o outro olho quando o pedido for realizado. Aí ele funciona como um amuleto da sorte. Eu quero dezenas de coisas, mas na hora de pintar o primeiro olho do daruma não sei que pedido fazer.



Às vezes me passa pela cabeça dizer algumas coisas para algumas pessoas. No momento seguinte, desisto. Às vezes é melhor se calar que defender uma causa morta. Não serei eu o soldado dum país extinto.



20 de setembro de 2005

Este texto é a história duma pessoa que brigou com o tempo, com a dor, consigo mesmo.
É o primeiro dia da história de alguém que reaprendeu a viver, a sorrir, a lidar com as coisas, a gostar de si.
Leiam ele com carinho, levou tempo pra escrevê-lo, pra ter coragem pra tanto.

Para todos aqueles que oferecem a alguém perdido um ombro.
Para aqueles que ofereceram.

A primeira manhã de um homem sozinho

“Você chorará; a seus lábios virá o nome da amiga que você deixa, e às vezes seu pé se deterá no meio do caminho. Mas quanto menos você tiver vontade de partir, mais você deve pensar em partir. Persista e force seus pés a correr, apesar de não quererem. (…) Não pergunte quantas milhas você percorreu, mas quantas faltam a percorrer”
Ovídio, em A Arte de Amar

 

Ele andava por uma calçada irregular, a passos lentos. Sentia alguma fraqueza, parecia ter perdido a força vital de que os cientistas de antigamente falavam, e carregava nas órbitas oculares um olhar fosco. Os olhos perderam o brilho não fazia muito tempo, e agora estavam direcionados para o céu, como quem busca uma resposta divina, ou talvez olhassem para cima por acaso. Não importava. Nada mais importava.

Sentia frio. Fazia um pouco de sol, é verdade, não era o dia mais quente, naturalmente não haveria razão para tanto. Mas sentia frio. Um frio que vinha de dentro pra fora, um frio que algumas pessoas conhecem muito bem. Olhou para o céu, e viu as nuvens. As nuvens o deixaram com medo, muito medo. Elas faziam parte de um sonho, um sonho desfeito. Como a chuva. Um banho de chuva. E teve pânico quando pensou na chuva. Imaginou-se sob a chuva, caso ela viesse. Ela seria ácida, e viria corroendo sua pele e seus ossos, desgastando seu corpo, que se derreteria, se dissolveria.

Lembrava o tempo todo das palavras que ela dissera há cerca de doze horas, de como elas pareciam sem sentido e de como as coisas perderam o sentido após ouvi-las. Aquilo apertava-lhe o coração, sentia uma angústia, uma dor. Só ele e Deus sabiam o que acontecia dentro dele agora. Era uma dor que não cabia em si, que não cabia nele, como algo que se guarda em um recipiente incompatível, insuficiente, apertado, pequeno, mas que mesmo assim era guardado. E era fabuloso como era necessário tanto espaço… apenas pra comportar um grande vazio.

Na dinâmica dos fluidos aplicada à vida, quando algo sai do lugar, alguma coisa tem que preencher aquele espaço que estava preenchido anteriormente. O homem mais feliz do mundo não andaria mais em Pasárgada e agora tinha como nova companheira aquela dor enorme, e sabia que ela o seria por um tempo indeterminado. Precisaria matar aquele tempo. Pensava no que faria nas próximas horas, precisava ocupar-se até a hora de dormir, quando enfim seu corpo repousaria. E quando acordasse no dia seguinte, o que faria? E no próximo? E no próximo? A nossa cultura diz que o tempo tudo resolve, mas ninguém nunca disse quanto tempo. Mas sabia que precisava matar o tempo. Quanto tempo? Quanto tempo, meu Deus?

Continuou sua caminhada, parecia competir com o tempo para ver quem andava mais devagar. Pressa pra quê? Mas uma hora chegou na parada do ônibus. Pegou um ônibus, observava as mulheres no ônibus e nas ruas, tentava sentir alguma coisa, mas até as que racionalmente seriam as mais bonitas agora estavam completamente sem graça. Não serviam. Não serviriam. E a cada olhar forçado, sua mente lhe devolvia um nome. É, elas não serviam. E não adiantaria insistir.

Iria pra casa empurrar algo goela abaixo, iria se encontrar com um amigo logo em seguida. Precisava preencher todo seu tempo, sufocar o desespero. Depois, não saberia o que fazer. Pensaria nisso depois. E assim as horas passariam, esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar. A pior sensação que existe surge numa sequência de formação a partir da negação dum elemento anterior, da negação da esperança. Estava consumido pela pior sensação de qualquer universo: a desesperança. Na forma dum olhar fosco.

Era a primeira manhã de muitas outras que viriam. Era a primeira manhã do resto da sua vida. Do resto dos restos da sua vida.

25 de julho de 2005

Reflexões à beira-mar, volume III

“Abra os braços, abrace o que sobrar”
(Herbert Vianna, em Não adianta)

Eu caminhava pela beira da praia, com a espuma branca lambendo meus pés. Meses atrás, uma amiga minha me disse que praia era bacana pra descarregar as energias negativas. E lá estava eu. Pensava nas últimas vezes que havia pisado numa praia, em circunstâncias tão diferentes, junho, setembro. E pensava em quantas vezes eu iria morrer nessa vida, pra tentar nascer do pó depois.

Troquei algumas palavras com um conhecido meu. É sempre bom conversar melhor com aquele conhecido seu de mais de um ano, amigo dos seus amigos, mas que você mal conhece. Você acaba descobrindo pessoas boas que estavam ali e você nem percebia. E enquanto ele cavava um buraco na areia, eu jogava conchas no mar e desabafava um pouco da vida bandida.

A praia pode levar as tais energias negativas, mas a maré não leva as más lembranças, e muito menos as boas, infelizmente. Agora eu estava sentado numa pedra no meio do mar, vendo as ondas indo e voltando, no pseudoautismo que desenvolvi nos últimos tempos. Uma recém-conhecida disse, dois dias atrás, que queria ter esse meu dom de passar horas olhando pro nada, disse que eu era morgado. Pensei: ela não me conheceu antigamente. Mas fiquei calado, agora só falo o suficiente. Ali, nem eu me conhecia. Quem me conhece estranharia minha pele, agora em tom de vermelho, queimada pelo sol. Eu agora disponível em cor vermelha. Quem diria.

Dias antes de pisar ali, devo ter jogado fora mais de 12 quilos de papel do meu quarto. Olhei pra eles e não vi significado. Não há mais passado, só há o agora. O que eu era era, já foi. Do passado, no fim das contas, só sobra o resultado, um maluco numa pedra, um punhado de memórias e traumas. Ah, e algum aprendizado, sim. Não é algo tão grande quanto aquilo que você queria, mas abranda um pouco o prejuízo. O aprendizado sempre vem tarde. Aí você pensa como as coisas teriam sido diferentes se você pensasse antes como pensa agora.

Mas agora é tarde. E vem a culpa. A palavra “culpa” não existe num dialeto tibetano aí. Sentir culpa é inútil. Sabe-se que o português é a única língua que tem a palavra “saudade”. Fabuloso. Imagina uma língua que não tenha “culpa” nem “saudade”! E sabe qual a palavra mais destruidora da nossa língua? Ela é bem curta: “se”. A gente sofre pensando nas possibilidades. Se houvesse uma língua sem “culpa”, “saudade” e “se”, ela seria perfeita.

Portanto, guarde isso: o aprendizado sempre vem tarde. Nunca teremos aprendido o suficiente. Não muda nada, mas consola um pouco a consciência; não muda porra nenhuma, mas é alguma coisa, uma gota positiva no meio do mar, e talvez valha dez minutos a menos de insônia. Como o mar não leva a dor, mas dá alguma tranquilidade ao espírito.

E eu continuava ali, sentado na pedra escura no meio do mar. Quisera eu voltar meses atrás e bater um papo com um cara que estava sentado numa duna em Florianópolis e pensava em como estava feliz apesar das derrotas. Eu o daria um pouco de realidade e maturidade. E ele me daria um pouco de esperança inútil. O duelo do século: o cara da duna contra o cara da pedra.

Não vou fazer planos. Não vou criar falsas esperanças. Seguir em frente às vezes não significa ser forte, é simplesmente não ter opção. A sensação de infinito e esperança que o mar nos passa não consegue mais atravessar meus poros, adentrar minhas narinas, atingir minha retina. Agora é se dar bem na faculdade, arrumar um emprego, comprar um carro, um apartamento com os móveis que eu vou escolher, fazer viagens. Uma vida confortável e conformada, para que possa ser vivida até o fim, sem graça e nada hollywoodiana, a vida não é história bonita de cinema. Sabe o cara que sofre um acidente de carro, se lasca e tem que reestruturar a vida com o que sobrar do corpo? É por aí, mas com a alma. É satisfazer-se com as migalhas do resto do jantar. Após levantar da pedra, o plano é viver de pequenas conquistas, diminutas vitórias, acertar pequenos alvos e satisfazer-se com isso. Subviver.


Atualização, em tempo: exatamente enquanto eu publicava esse texto aqui, o cara do segundo parágrafo começava a namorar uma grande amiga minha. Soube agora, por ela. Tudo de bom pra eles, muita boa sorte e energia positiva. Eles merecem.


 
Manifesto
o segundo passado, antes de qualquer coisa, virou história; histórias, sobretudo, servem para ser contadas. cada um de nós é protagonista de sua história, e sua vida seu respectivo palco. vivendo e convivendo, somos protagonistas, coadjuvantes e figurantes de bilhões de histórias. não havendo graça no abismo do anonimato, exponho aqui a minha história. ela é contada em forma de fatos e idéias, sem personagens, maquiagem ou playback, para receber aplausos ou tomates – jamais me ocultando com cortinas. no fim das contas, seja a história dramática ou cômica, o importante é o show business. está tudo aí, pra quem quiser ver.
 
Eu
Esdras Beleza de Noronha, 25 anos, Fortaleza // bacharel em Computação pela Universidade Federal do Ceará // livros e filmes de estilos diversos, alguma coisa de britpop, indie rock e rock nacional, fotografia amadora, programação, redes, Linux. Em eterno processo de aprendizagem.
 
:: Perfil no orkut
 
 
 
 
Eu concordo
"Não cometas nenhum ato vergonhoso, nem na presença de outros, nem em segredo. A tua primeira lei deve ser o respeito a ti mesmo."
(Pitágoras)

 
"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém."
(São Paulo)

 
"Tenho interesse no futuro porque vou passar lá o resto do meu tempo"
(Charles F. Kettening)
 


 

 

 

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