A sociedade dos maus-tratos

29 de abril de 2009   —   23:51:41
Começou há uns dias, com uma série de fatores que ocorreram ao mesmo tempo: um trabalho novo, a renovação da minha carteira de motorista e outras experiências pessoais demais pra serem relatadas aqui.

A empresa onde comecei a trabalhar há um mês e meio tem uma copa com vários alimentos. Bateu a fome? Vai lá, assalta a copa, prepara um sanduíche, come uns biscoitinhos, toma um refrigerante ou um suco. Coisa mais linda do mundo. Mais: eu sou diabético, inclusive citei isso quando fui entrevistado. No meu primeiro dia, fui chamado reservadamente e me perguntaram o que eu podia e não podia comer, para que pudessem providenciar a comida adequada pra mim. Foi qualquer coisa de fantástico: na minha vida profissional relativamente curta (se somar tudo dá uns 3 anos e meio), eu nunca havia visto ou ouvido falar de coisas assim, só em documentários sobre o Google, que me faziam achar esse tipo de coisa como algo distante.

Ok. Dia desses fui renovar minha carteira de motorista. Quando tenho que resolver esse tipo de pepino, eu já faço uma preparação espiritual de véspera pra aguentar ser maltratado por estagiários odiando seu trabalho, senhoras ranzinzas querendo se aposentar e funcionários desmotivados descontando sua raiva no seu público. Chegando ao Detran ali do lado do Iguatemi, fui muito bem tratado, desde o balcão de recepção, passando pelos guichês até chegar na médica do exame de saúde, muito bem humorada. Deixei até um papel na urna de sugestões elogiando o tratamento e pedindo que estendessem tanta educação e elegância ao pessoal das blitze, que faz todo motorista se sentir um criminoso em potencial.

O cerne da questão é que nós esperamos ser maltratados. É uma patologia social: mais do que tolerar, nós já esperamos por isso. A gente espera que o trabalho seja chato; nós vamos a instituições públicas esperando desatenção e mau humor; esperamos que o cobrador do ônibus esteja de mau humor e que o motorista não pare quando sinalizamos; as mulheres toleram apanhar de seus namorados e maridos; as mentiras e traições (não seriam a mesma coisa?) praticamente já são parte dos relacionamentos – ou você nunca ouviu algo do tipo “ah, mas todo namorado(a) é assim, pra que trocar se vai ser igual?”. As pessoas perderam a noção de exigência e de bom gosto, de querer coisas boas pra si e de afastar-se das coisas ruins.

Quando somos bem tratados e recebemos um afago ou uma palavra confortante e confortável no lugar duma paulada, isso nos causa estranhamento e um grande vazio, dá vontade de chegar no balcão do Detran e perguntar “mas ei, você não vai ser grosso comigo, nem um pouquinho?”, e você fica no trabalho pensando “vamos ver o que devem de fazer de ruim pra compensar essa mordomia”. Bons tratos acabam nos gerando desconfiança. E nós ficamos em estado de alerta, esperando a hora que a porrada vai chegar, porque certamente ser bem tratado é coisa pra semideuses. E aguardamos uma coisa minimamente chata que vá nos fazer respirar aliviados.

E eu descobri que não sou muito diferente, e que até ser bem tratado exige um esforço psicológico tremendo. Ficou complicado aceitar bons tratos, receber o que a psicologia chama de feedback positivo é algo avançado demais pra minha cabeça. E por mais que os fatos sejam leves, é difícil confiar no ponteiro da balança.

Precisamos de coragem até pra não morrer de fome diante da mesa posta: a felicidade se tornou um corpo estranho, e estou matando anticorpos para isso diariamente, repensando a tolerância e o conformismo e me acostumando a ser feliz.

Take this badge off of me

27 de dezembro de 2008   —   18:20:10
 
Mama, take this badge off of me
I can’t use it anymore.
It’s gettin’ dark, too dark for me to see
I feel like I’m knockin’ on heaven’s door.

 
Devia ser umas cinco horas da tarde, o sol mergulhava no mar atrás da gente e fazia uma pintura bonita no céu, enquanto nós andávamos subida acima, na areia, separados por alguns metros.
 

Knock, knock, knockin’ on heaven’s door
Knock, knock, knockin’ on heaven’s door

 
Olhei para trás. O vento batia nos cabelos longos, que cobriam um pouco o seu rosto, enquanto ela tentava ajeitá-los com os dedos, colocando-os atrás das orelhas. Tinha a boca entreaberta e a respiração de quem cansava-se um pouco com a areia que não ajudava na subida, e de alguma maneira isso parecia lhe conferir um certo charme.
 

Mama, put my guns in the ground
I can’t shoot them anymore.
That long black cloud is comin’ down
I feel like I’m knockin’ on heaven’s door.

 
Alguma coisa pesava entre nós; ela carregava um olhar profundo, melancólico, de quem precisava dizer algo, algo que eu sentia, que eu temia e que eu tentava, em vão, adiar. Parei de caminhar, esperei um pouco e segurei sua mão, numa das últimas vezes que entrelaçamos os dedos, em nossa última tarde juntos.
 

Knock, knock, knockin’ on heaven’s door
Knock, knock, knockin’ on heaven’s door

 
Momentos depois veio o último beijo, alguns dias antes da conversa que não pôde mais ser adiada. A derradeira conversa, que cortava laços, esquecia prazos e abortava planos. Só quem amou já sabe: o último beijo guarda a inocente e miserável covardia de não saber que é o último. E, como todo beijo que se preze, anseia ingenuamente pelo próximo beijo. Que não virá.

Rápidas

11 de novembro de 2008   —   12:38:25
  • Depois de um longo tempo sem encostar no cartão de crédito, minhas dívidas reduziram significativamente. Deu até pra atacar um sushi no fim de semana sem sentir muito peso na consciência. E já dá pra sentir mudanças de comportamento: evitar o dinheiro de plástico me fez menos suscetível às armadilhas das vitrines. Provavelmente hoje darei um fim a esse hiato, mas com algo que eu queria comprar há tempo, e não uma compra feita por impulso.
  • Usar um celular com menos recursos também me fez mais econômico, já que não uso mais coisas como web via celular. Só serviu pra me provar que essa coisa de checar e-mail constantemente é um mal moderno. Os e-mails quase sempre podem esperar.
  • A faculdade tá dando no saco. Não aguento mais aulas: eu rendo muito mais estudando sozinho que vendo um professor falar direto durante horas.
  • Depois de muito tempo sem ver comédias românticas, vi no fim de semana PS: Eu te amo. É de apertar o coração de tão bonito (é, eu gostei). E tô numa fase brega-romântica. Espero que meus vizinhos não me escutem ouvindo Bryan Ferry. “Slave to loooove…”
  • Alguém além de mim achou absurdo Quantum of Solace, o novo filme do 007, não ter título em português?
  • Se em maio eu curti viajar pra São Paulo e rodar sozinho numa das maiores cidades do mundo, hoje eu preciso, urgentemente, juntar uns amigos numa casa de praia ou na serra, e passar o dia eguando numa rede, jogando conversa fora, lendo um livro, cochilando e sentindo o vento.

Notas de viagem

14 de novembro de 2005   —   06:03:45
Há quem diga que a primeira impressão é a que fica. Quando vi São Paulo pela janela do avião, fiquei assustado; realmente a selva de concreto me espantou quando andei por ela. Quando chegava em Florianópolis, a cidade parecia o paraíso pela janela e era. Depois de ver o Rio de Janeiro pela janela do avião durante uma escala, só sei que preciso pisar lá.



“Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor”

(Legião Urbana, em O mundo anda tão complicado)

Fui a um casamento pela primeira vez em 20 anos. Hoje eu entendo na prática por que as pessoas choram em casamentos. Toda aquela mistura de sentimentos, é impossível não sentir na hora o nervosismo do casal e a alegria pela realização, principalmente quando você sabe um pouco da história deles e sobre como difícil chegar até ali, não apenas por questões de trabalhar, juntar dinheiro pra ter uma casa, mas por superar durante anos os obstáculos que existem nos relacionamentos, até chegar ali.

Não sou muito religioso e filtro ao máximo intermediários como pastores e padres se os escuto (não curto fé cega, nem seguir uma religião específica). Apesar disso, o discurso do padre sobre fidelidade, diálogo, respeito e cumplicidade foi muito verdadeiro. Ah, as pessoas perderam o senso. Mas ainda tenho fé no amor. Às vezes fé cega, admito, às vezes mantida por momentos de felicidade alheia como esses.



Passar uns dias fora de casa, fora da cidade, me dá uma impressão de recomeço. Às vezes a prendo e levo pra casa, às vezes ela vai embora quando me vejo novamente imerso na minha realidade. Na faxina mental, acaba sobrando algo que a gente quer que vá embora, escondido debaixo do tapete. Mas alguras coisas retomaram seu lugar, vamos pensar positivo.



Você gosta de daruma? Comprei um. Pra quem não sabe, daruma (desse jeito mesmo, não faltou um espaço) é um bonequinho que tem os olhos brancos. Você pinta um olho, faz um pedido, e só pinta o outro olho quando o pedido for realizado. Aí ele funciona como um amuleto da sorte. Eu quero dezenas de coisas, mas na hora de pintar o primeiro olho do daruma não sei que pedido fazer.



Às vezes me passa pela cabeça dizer algumas coisas para algumas pessoas. No momento seguinte, desisto. Às vezes é melhor se calar que defender uma causa morta. Não serei eu o soldado dum país extinto.

20 de setembro de 2005   —   12:53:55
Este texto é a história duma pessoa que brigou com o tempo, com a dor, consigo mesmo.
É o primeiro dia da história de alguém que reaprendeu a viver, a sorrir, a lidar com as coisas, a gostar de si.
Leiam ele com carinho, levou tempo pra escrevê-lo, pra ter coragem pra tanto.

Para todos aqueles que oferecem a alguém perdido um ombro.
Para aqueles que ofereceram.

A primeira manhã de um homem sozinho

“Você chorará; a seus lábios virá o nome da amiga que você deixa, e às vezes seu pé se deterá no meio do caminho. Mas quanto menos você tiver vontade de partir, mais você deve pensar em partir. Persista e force seus pés a correr, apesar de não quererem. (…) Não pergunte quantas milhas você percorreu, mas quantas faltam a percorrer”
Ovídio, em A Arte de Amar

 

Ele andava por uma calçada irregular, a passos lentos. Sentia alguma fraqueza, parecia ter perdido a força vital de que os cientistas de antigamente falavam, e carregava nas órbitas oculares um olhar fosco. Os olhos perderam o brilho não fazia muito tempo, e agora estavam direcionados para o céu, como quem busca uma resposta divina, ou talvez olhassem para cima por acaso. Não importava. Nada mais importava.

Sentia frio. Fazia um pouco de sol, é verdade, não era o dia mais quente, naturalmente não haveria razão para tanto. Mas sentia frio. Um frio que vinha de dentro pra fora, um frio que algumas pessoas conhecem muito bem. Olhou para o céu, e viu as nuvens. As nuvens o deixaram com medo, muito medo. Elas faziam parte de um sonho, um sonho desfeito. Como a chuva. Um banho de chuva. E teve pânico quando pensou na chuva. Imaginou-se sob a chuva, caso ela viesse. Ela seria ácida, e viria corroendo sua pele e seus ossos, desgastando seu corpo, que se derreteria, se dissolveria.

Lembrava o tempo todo das palavras que ela dissera há cerca de doze horas, de como elas pareciam sem sentido e de como as coisas perderam o sentido após ouvi-las. Aquilo apertava-lhe o coração, sentia uma angústia, uma dor. Só ele e Deus sabiam o que acontecia dentro dele agora. Era uma dor que não cabia em si, que não cabia nele, como algo que se guarda em um recipiente incompatível, insuficiente, apertado, pequeno, mas que mesmo assim era guardado. E era fabuloso como era necessário tanto espaço… apenas pra comportar um grande vazio.

Na dinâmica dos fluidos aplicada à vida, quando algo sai do lugar, alguma coisa tem que preencher aquele espaço que estava preenchido anteriormente. O homem mais feliz do mundo não andaria mais em Pasárgada e agora tinha como nova companheira aquela dor enorme, e sabia que ela o seria por um tempo indeterminado. Precisaria matar aquele tempo. Pensava no que faria nas próximas horas, precisava ocupar-se até a hora de dormir, quando enfim seu corpo repousaria. E quando acordasse no dia seguinte, o que faria? E no próximo? E no próximo? A nossa cultura diz que o tempo tudo resolve, mas ninguém nunca disse quanto tempo. Mas sabia que precisava matar o tempo. Quanto tempo? Quanto tempo, meu Deus?

Continuou sua caminhada, parecia competir com o tempo para ver quem andava mais devagar. Pressa pra quê? Mas uma hora chegou na parada do ônibus. Pegou um ônibus, observava as mulheres no ônibus e nas ruas, tentava sentir alguma coisa, mas até as que racionalmente seriam as mais bonitas agora estavam completamente sem graça. Não serviam. Não serviriam. E a cada olhar forçado, sua mente lhe devolvia um nome. É, elas não serviam. E não adiantaria insistir.

Iria pra casa empurrar algo goela abaixo, iria se encontrar com um amigo logo em seguida. Precisava preencher todo seu tempo, sufocar o desespero. Depois, não saberia o que fazer. Pensaria nisso depois. E assim as horas passariam, esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar. A pior sensação que existe surge numa sequência de formação a partir da negação dum elemento anterior, da negação da esperança. Estava consumido pela pior sensação de qualquer universo: a desesperança. Na forma dum olhar fosco.

Era a primeira manhã de muitas outras que viriam. Era a primeira manhã do resto da sua vida. Do resto dos restos da sua vida.