O Senhor dos Galetos

7 de agosto de 2015   —   20:40:25

Entre minha casa e a academia que venho frequentando nos últimos meses, há um pequeno estabelecimento que vende galeto. É daqueles bem tradicionais, de bairro, nada requintados, as paredes com manchas escuras de fumaça. No fim do dia, volta e meia ainda tem uns galetos crus na churrasqueira, e eu não quero saber onde eles vão parar.

Passo por esse caminho diariamente a pé. Em torno das seis da noite, o dono da galeteria está sempre cumprindo o que me parece ser um ritual diário: ele põe uma mesa de plástico na calçada, abre uma Skol e põe pra tocar um disco antigo da dupla Leandro & Leonardo num som razoavelmente potente. Suponho que o disco seja de algo em torno de 1990, pois lembro bem de quando algumas músicas fizeram sucesso e eu tinha quatro pra cinco anos.

Leandro & Leonardo

Era isso ou a foto tosca dum galeto pra ilustrar esse texto

(Entre as várias faixas do disco que o cara escuta, há uma versão dos cantores sertanejos pra Sound of Silence, da dupla folk Simon & Garfunkel. A versão da letra em português assassinou o sentido da letra original, mas confesso que o arranjo ficou bonito, um esquema orquestrado, sei lá. E será o sertanejo da década de 80, antes dessas porcarias de hoje, uma variante brasileira de folk? Sei menos ainda. Pois bem.)

Sentado, bebendo sua cerveja de milho e ouvindo sempre seu mesmo disco, o senhor põe-se a observar sabe-se lá o quê, virado para o buzinaço dos motoristas impacientes na hora do rush. Se está realmente observando aquele caos, não sei, às vezes acho que ele está bem distante dali.

Não gosto de quem escuta música alta e impõe seu gosto musical, não gosto de Skol, não vejo graça em olhar engarrafamento e, pra finalizar, motivos pessoais me dão abuso do cheiro de galeto. Por dentro, talvez eu seja mais velho que o cara dos galetos. Mas, sempre que passo pelo cara na calçada, admiro algo naquela cena.

Talvez seja a insistência na causa perdida de sentar na calçada numa cidade que perde esse hábito; ou talvez aquela situação, apesar de antipoética e crua feito o galeto esquecido, demonstre certa disciplina na repetição daquela meditação diária; ou, ainda, talvez seja algo que aquele senhor tem para me ensinar, naquele momento em que ele desfruta de si mesmo, como um animal solitário que se afasta pra descansar no fim do dia, após suas obrigações.

Ou talvez seja nada disso, e seja só eu buscando um sentido oculto pra tudo enquanto espero o semáforo abrir, observando meu reflexo nas coisas.

Quem diria?

17 de abril de 2015   —   22:06:32

Dia desses eu estava lendo alguns textos antigos aqui do blog e tropecei num em que eu dizia que gostava de passear no shopping. Fiquei assustado. Como assim? Eu, gostar de shopping?! Hoje um convite para ir a um shopping me dá um sentimento entre mau humor antecipado e claustrofobia.

Successful man

E dirigir? Tudo que eu queria ali por 2003 e 2004 era dirigir. Em 1º de dezembro de 2004 tirei minha carteira de motorista, morto de feliz, e quando eu podia pegar o carro de casa era uma alegria. Dirigir pra longe era uma aventura. Agora eu dirijo uns 120km por semana — se você for paulistano, acostumado a grandes distâncias, deve estar rindo da minha cara nesse momento — e usar o carro sábado e domingo depois de ter dirigido a semana inteira é quase uma dor. “Eu te pego e te deixo em casa” hoje é uma frase que entoa aos meus ouvidos como uma singela e musical declaração de amor.

A gente muda várias vezes na vida. Aos 18 anos, depois de ser furtado e assaltado em ônibus quentes e suas paradas, eu  sonhava em dirigir. Hoje, com quase (assustadores) 30 anos, depois de descobrir o ciclismo e viajar pra algumas cidades, mudei minha visão de urbanismo e vi que uma vida de pedestre podia ser tranquila e possível, que há uma realidade em que é possível fazer compras em lojas na rua e andar ao ar livre. Minha vocação para passar o dia alternando entre uma caixa de metal compacta sobre rodas e prédios fechados abarrotados de gente se batendo diminuiu.

O mais inacreditável está por vir: a vida toda tive pânico de praia. Desde criança mesmo, nunca gostei. Minha pele tem um bronzeado de palmito cultivado em escritório. Por que se submeter a aquele calor? Mas dia desses não aguentei. Cansado de dirigir no fim de semana, eu propus à minha senhora um fim de semana numa praia que nem se eu quisesse poderia ir de carro.

Meu eu de anos atrás jamais acreditaria.

Lisboa

9 de junho de 2014   —   19:00:06

Tenho um novo caso de amor com uma cidade e o nome dela é Lisboa.

Vim pra cá passar alguns dias de férias visitando meu irmão Alvaro e minha cunhada Lívia. Alguns dias após chegar aqui falei com meu tio, que já morou em Portugal durante muitos anos, e fazer a pergunta foi inevitável: “por que você foi embora daqui?!”

Eu podia passar horas e horas falando do que vi — e comi — na última semana.

Fora o fato de eu estar de férias e não estar na ansiedade de correr pra bater ponto ou perdendo no trânsito horas que jamais voltarão, a vida aqui parece seguir outro ritmo. O melhor resumo que posso fazer é esse: Lisboa aparenta ter um ritmo próprio e diferente de qualquer coisa que já visitei.

As pessoas paradas nos cafés das esquinas jogando conversa fora, o guarda sorridente da loja do shopping conversando com uma criança, o garçom brincalhão dos Pastéis de Belém, o caixa simpático e apressado do supermercado, os bondinhos elétricos subindo e descendo ladeiras… Tudo parece seguir a cadência leve de quem aproveita a vida como degusta um vinho português. Perdoem-me o clichê mequetrefe dessa comparação.

Nas primeiras vezes que ouvi a variante lusitana do nosso idioma ele me pareceu soar rude, até achei que o atendente da loja de telefonia celular estava sendo grosseiro, impressão que logo passou. Só posso dizer que os portugueses são simpáticos, educados e bem humorados. Fui bem recebido por onde passei e citar os exemplos deixaria esse texto mais extenso do que já é.

Passear por Lisboa é incrível: os prédios antigos e conservados, os azulejos portugueses, o transporte público bacana, as ladeiras de pedra portuguesa — como é bom sentir as pernas naturalmente, sem precisar ir pra academia! — e a educação do motorista português, que tem o maior respeito ao pedestre. Ah, pra não dizerem que minha análise não é honesta e que não falei de defeitos, é um problema desviar do cocô de cachorro nas calçadas.

A cozinha portuguesa é incrível e é minha nova culinária favorita. Em qualquer canto você encontra comida e vinho ótimos e baratos, seja um restaurante aleatório, seja uma barraquinha numa feira. Nunca gostei de bacalhau e estou adorando o daqui. Contrariando o mais conhecido mandamento turístico, em Portugal até quem converte se diverte — e olha que a conversão entre euro e real anda bem inglória pra nós brasileiros. Mesmo pensando em reais, você come muito bem em Portugal por um preço menor que praças de alimentação de shopping e muito self service em Fortaleza. Não vamos nem comparar com São Paulo.

Fora tudo isso, é sempre bom rever uma parte da sua família, matar a saudade e vê-los crescendo e se virando em outra realidade.

Lisboa ganhou um lugar no meu coração ali do lado de Londres, mesmo sendo cidades tão diferentes uma da outra. Por favor, faça um esforço e não passe por essa vida sem conhecer Lisboa.

Mobilidade urbana para iniciantes

19 de agosto de 2013   —   15:50:50

Há muitos anos, alguns amigos me contaram de um conhecido que ia pra faculdade de bicicleta. Meses depois, vi o mesmo sujeito chegando numa festa à noite num carro importado da sua família. Não entendi nada: por que ele ia pra faculdade de bicicleta todo dia se sua família tinha até um carro importado? Devia ser maluco…

Em 2008, comprei uma bicicleta para me ajudar a praticar alguma atividade física e melhorar meu controle da diabetes. Aos 22 anos eu não sabia pedalar, mas acabei gostando da coisa, me interessando e lendo sobre ela. Tropecei em dezenas de vídeos e textos sobre mobilidade urbana, alguns não necessariamente ligados ao ciclismo. Minha cabeça quase explodiu com tanta informação, mas finalmente entendi o cara que ia pra faculdade de bicicleta. Ele não era louco, eu que estava preso em tudo que cresci ouvindo sobre carro, trânsito e status. Era difícil acreditar que meu conceito de “liberdade” estava errado…

A atual polêmica de Fortaleza, onde moro, é que a prefeitura quer construir viadutos enormes próximos ao Parque do Cocó, alegando que eles resolverão o problema do tráfego na região. Infelizmente é só mais uma solução voltada para automóveis, sem pensar em outras modalidades de transporte. A discussão sobre mobilidade urbana tem sido infindável: há quem pense que o viaduto ajuda a mobilidade urbana, mas quando falam isso pensam apenas nos automóveis (que continuarão presos no trânsito).

Há muita desinformação acerca dessa tema e, como falei acima, eu mesmo já passei por isso. Já analisei aqui a paixão dos brasileiros pelo automóvel; agora eu gostaria de passar alguns links e vídeos que podem ser úteis para conhecer um pouco sobre mobilidade urbana de verdade e entender como as melhorias ocorreram em outros países.

Jan Gehl e Copenhague

Copenhague (ou Copenhagen, se você preferir a grafia original) é o exemplo mais famoso de mobilidade urbana do arquiteto Jan Gehl. Na década de 60 a cidade começou a dar mais atenção para pedestres e ciclistas e menos para automóveis. Houve resistência no início, inclusive dos comerciantes, mas essa ideia mudou.

Você pode saber mais sobre Jan Gehl e Copenhague no vídeo abaixo e nessa entrevista com ele.

Um dos participantes do vídeo fala que, antes da mudança, as ciclovias eram apagadas em vez de criadas. Tristemente, isso vem se repetindo em Fortaleza.

Amsterdã: construa o caminho e os ciclistas virão

A Holanda resolveu o problema do alto custo do combustível e dos engarrafamentos buscando alternativas: ciclovias. O governo atuou lado a lado com arquitetos e hoje a Holanda é conhecida pelas suas bicicletas.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=l1a_USVlXSE&w=425]

Bogotá, o exemplo logo ao lado

Os países citados acima são ricos e desenvolvidos e os exemplos jamais se aplicariam à gente, certo? Errado.

Bogotá, na Colômbia, está aí do lado e também é um ótimo caso de melhorias da mobilidade urbana. Até os números da criminalidade melhoraram, já que criar ruas para as pessoas diminui o abismo social e, consequentemente, a violência.

Veja como o ex-prefeito Enrique Peñalosa causou mudanças em Bogotá no vídeo abaixo e veja também essa entrevista com ele.

Update: também achei um vídeo do TED.com com Peñalosa falando sobre transporte público e democracia:

Homicídios, árvores e mobilidade urbana

8 de agosto de 2013   —   10:16:06

Ontem eu estava indo almoçar e ouvi na Tribuna BandNews FM (101.7) o historiador e colunista Wanderley Filho falar dos manifestantes do Cocó. O texto ouvido no rádio pode ser visto na íntegra em seu blog.

Ele fala dos 19 homícidios que ocorreram no último fim de semana em Fortaleza, e daí falou dos manifestantes que estavam acampados no Parque do Cocó. Alegou que as pessoas acampavam lá pelas árvores, mas não acampavam na frente da Secretaria de Segurança pedindo pela segurança pública. Encerra seu texto falando em inversão de valores.

Concordo com o historiador que a situação de segurança de Fortaleza é assustadora e digna de pânico. Penso, porém, que todo problema merece um protesto, uma reclamação. Se sua causa é a ecologia ou a mobilidade urbana, se você acha que as medidas que o governo municipal está tomando estão erradas, por que não protestar? O número elevado de homicídios em Fortaleza torna os problemas de mobilidade urbana e ecologia dignos de esquecimento? Devemos deixar de evitar um problema de mobilidade urbana que se eleva a nossa frente?

O citado historiador esquece que todos os problemas urbanos são ligados. Tanto o projeto de mobilidade urbana voltado para motoristas quanto as estatísticas de violência têm uma raiz comum: um governo que esquece várias camadas da população. Um protesto não invalida o outro.

Se o amigo leitor acha que um protesto não representa uma causa que você considera mais importante, você é mais do que livre para iniciar seu próprio protesto. Muitos dos protestos que vêm sendo organizados desde junho contaram com a ajuda do Facebook. Quer organizar seu protesto? Crie um evento, chame seus amigos, peça para eles chamarem mais pessoas. Foi assim, inclusive, com o Fortaleza Apavorada, que protestou pela causa citada pelo autor da crítica que me impulsionou a escrever este texto.

Atualização: se for para falar de inversão de valores, eu prefiro falar da polícia. Em vez de perseguir criminosos que cometem roubos e homicídios, ela está desde a madrugada de hoje em confronto com os citados manifestantes.