Minha cafeteira nova

16 de outubro de 2016   —   22:07:35

Há uns dias decidi comprar uma cafeteira nova. O processo de fazer café na minha casa ainda é bastante primitivo, mas após algumas semanas na casa da minha namorada, que é equipada com uma cafeteira elétrica que trabalha pelos humanos, decidi adquirir uma também.

Lembrei dum antigo modelo que havia no meu trabalho anterior e procurei por ele em várias lojas, sem sucesso. Aparentemente as máquinas de café atual estão voltadas para pessoas que moram só e dormem decentemente — 15 xícaras pequenas? Faça-me o favor! — e também vêm perdendo espaço para os cafés de cápsula.

Bem, achei o modelo que eu queria numas Lojas Americanas. Após alguns minutos sofrendo com a péssima trilha sonora sempre presente na citada rede de lojas, vou saindo segurando a caixa enquanto uma senhora que veio para o caixa que eu havia acabado de abandonar começa a me interrogar:

— Essa cafeteira é de alumínio?
— Não sei, um minuto. — e saio fuçando a caixa. — Opa, tá aqui, é inox.
Me perguntou o preço, a marca, viu a caixa. E no fim, completou:
— Parabéns, é uma ótima cafeteira!

Minha nova cafeteira

Minha nova cafeteira, numa foto mequetrefe feita às pressas no celular

Eu, que venho recentemente encarando mais e mais obstáculos da tediosa vida adulta, me senti vencedor. Saí da loja munido de uma cafeteira com garantia de alguém com décadas de experiência em adultices.

Lisboa

9 de junho de 2014   —   19:00:06

Tenho um novo caso de amor com uma cidade e o nome dela é Lisboa.

Vim pra cá passar alguns dias de férias visitando meu irmão Alvaro e minha cunhada Lívia. Alguns dias após chegar aqui falei com meu tio, que já morou em Portugal durante muitos anos, e fazer a pergunta foi inevitável: “por que você foi embora daqui?!”

Eu podia passar horas e horas falando do que vi — e comi — na última semana.

Fora o fato de eu estar de férias e não estar na ansiedade de correr pra bater ponto ou perdendo no trânsito horas que jamais voltarão, a vida aqui parece seguir outro ritmo. O melhor resumo que posso fazer é esse: Lisboa aparenta ter um ritmo próprio e diferente de qualquer coisa que já visitei.

As pessoas paradas nos cafés das esquinas jogando conversa fora, o guarda sorridente da loja do shopping conversando com uma criança, o garçom brincalhão dos Pastéis de Belém, o caixa simpático e apressado do supermercado, os bondinhos elétricos subindo e descendo ladeiras… Tudo parece seguir a cadência leve de quem aproveita a vida como degusta um vinho português. Perdoem-me o clichê mequetrefe dessa comparação.

Nas primeiras vezes que ouvi a variante lusitana do nosso idioma ele me pareceu soar rude, até achei que o atendente da loja de telefonia celular estava sendo grosseiro, impressão que logo passou. Só posso dizer que os portugueses são simpáticos, educados e bem humorados. Fui bem recebido por onde passei e citar os exemplos deixaria esse texto mais extenso do que já é.

Passear por Lisboa é incrível: os prédios antigos e conservados, os azulejos portugueses, o transporte público bacana, as ladeiras de pedra portuguesa — como é bom sentir as pernas naturalmente, sem precisar ir pra academia! — e a educação do motorista português, que tem o maior respeito ao pedestre. Ah, pra não dizerem que minha análise não é honesta e que não falei de defeitos, é um problema desviar do cocô de cachorro nas calçadas.

A cozinha portuguesa é incrível e é minha nova culinária favorita. Em qualquer canto você encontra comida e vinho ótimos e baratos, seja um restaurante aleatório, seja uma barraquinha numa feira. Nunca gostei de bacalhau e estou adorando o daqui. Contrariando o mais conhecido mandamento turístico, em Portugal até quem converte se diverte — e olha que a conversão entre euro e real anda bem inglória pra nós brasileiros. Mesmo pensando em reais, você come muito bem em Portugal por um preço menor que praças de alimentação de shopping e muito self service em Fortaleza. Não vamos nem comparar com São Paulo.

Fora tudo isso, é sempre bom rever uma parte da sua família, matar a saudade e vê-los crescendo e se virando em outra realidade.

Lisboa ganhou um lugar no meu coração ali do lado de Londres, mesmo sendo cidades tão diferentes uma da outra. Por favor, faça um esforço e não passe por essa vida sem conhecer Lisboa.

Dieta

10 de novembro de 2013   —   01:25:47

A nutricionista me recomendou uma dieta pra ganho de peso (lembrando que ganhar peso não é ganhar gordura). Por ser diabético e ter um rim já um pouco mais carregado que o normal — apesar dos exames estarem normais —, no lugar de passar potes e potes de suplementos com gosto de areia de ampulheta, que forçariam o pobre órgão e que participariam do meu Instagram sabe-se lá por quê, ela preferiu jogar as proteínas em coisas com jeito de comida de verdade.

A partir daí eu nunca comi tanto presunto, queijo, iogurte e aveia na vida. Também passei a semana tomando suco, sem tomar um mísero refrigerante e evitando manteiga e margarina, indo pra academia todo dia, tudo muito bonito.

Chegou o sábado de manhã e tive minha terceira aula de fotografia, que consistiu de tirar fotos no Passeio Público e treinar umas técnicas. Depois de 3h debaixo de sol fazendo foto e andando dum lado pro outro, o glicosímetro soltou um “cara, é bom você comer logo”. Bem oportuno: pra quem não sabe, no almoço de sábado tem uma feijoada incrível no Café Passeio.

Almocei aquela feijoada fabulosa e bebi uma Coca-Cola Zero geladíssima pra rebater aquele calor lazarento fabricado em Dakar. Você pode até ter uma hashtag de marombeiro que leva seu sobrenome, mas não negue: é bom. Ainda fui pra casa e dormi a tarde toda de bucho cheio, acordando com uma disposição e humor que eu não devia sentir desde setembro.

Me regozijei feito um personagem bíblico. E, por falar em Bíblia, só Deus pode me julgar (tá, minha médica e minha nutricionista talvez possam). E não sei o seu deus, mas o da minha dieta sabe o valor das pequenas recompensas.

Diabetes sem drama

14 de novembro de 2012   —   16:53:30

Hoje é Dia Mundial do Diabetes, e vários órgãos de imprensa estão empenhados em falar sobre o tema. Sou diabético desde os 11 anos e já fui contatado para várias reportagens sobre o assunto.

Às vezes a reportagem é tendenciosa: busca-se mostrar um lado dramático da doença, suas trágicas consequências, as injeções e picadas de dedo. Parece que notícia otimista não dá ibope.

Sou bem chato para essas reportagens dramáticas. Para elas, sou entediante. Tenho diabetes tipo I há 16 anos, diagnosticada quando dei entrada num hospital com a vista turva, já com quadro de cetoacidose diabética. Hoje, porém, não tenho nenhuma complicação de retinopatia, que costuma surgir em cerca de 10 anos da doença, nenhuma complicação nos rins e minha hemoglobina glicada é 6,4%, o que é bom, embora ainda possa melhorar.

Primeiro, me permitam redefinir o conceito de diabetes. As pessoas a veem como “a doença em que a pessoa não pode comer doces”. Diabetes é, eu diria, a deficiência em que o paciente produz pouca ou nenhuma insulina e, por isso, tem dificuldades para processar carboidratos. Se você trata os carboidratos ingeridos com medicamentos bem-dosados, o problema está contornado.

Se eu como uma pizza, que é uma porção agressiva de carboidratos, ninguém diz nada, afinal pizza não é doce, certo? Se eu como um cubinho miserável de chocolate, as pessoas saem correndo e gritando “meu Deus, o diabético tá comendo doce!”. Há pouca informação sobre o que é diabetes, seu tratamento e suas limitações, mesmo entre os pacientes.

Houve muita melhora no tratamento durante meus 16 anos de diabético e posso fazer coisas que eram inconcebíveis quando comecei a ter a doença. Por causa da desinformação tais coisas continuam sendo inconcebíveis para muita gente, pacientes ou não. A diabetes, quando bem tratada, não é um fator limitante para a vida de ninguém.

Faço atividade física regular, contagem de carboidratos, tenho ótimo acompanhamento médico e constante monitorização da doença. Isso me permite uma vida bem próxima da normal e exames de sangue melhores que de alguns não-diabéticos.

Tomo quatro injeções por dia, em média. Já foi algo dramático, mas me acostumei. Algumas pessoas já me perguntaram “ah, as injeções nem doem mais, né?”. Sim, elas ainda doem, às vezes. Cada injeção não é a primeira e nem será a última, mas as injeções são parte essencial daquilo que me permite uma vida melhor e próxima do que se chama normal.

Atividade física obrigatória? Dieta equilibrada? Todo mundo deve fazer, isso pode até mesmo tornar-se um hobby e não é um “castigo” exclusivo para diabéticos (atenção para as aspas). As pessoas é que esperam alguma doença para que finalmente passem a cuidar da saúde.

Sou um cara muito reclamão e reclamo de muita coisa, mas raramente cito a doença entre minhas inúmeras reclamações. Ela não tem cura e, apesar dos avanços nessa direção, a única opção é aceitar essa deficiência e tratá-la.

Mostrar o “drama para tratar a diabetes” a imprensa já faz com maestria. Tratamento, por mais incômodo que seja, não é problema. Problema sério é não poder tratar. Aos jornalistas, peço que cubram mais a desatenção do governo para distribuir medicamentos e a burocracia para que isso seja conseguido. Esse ponto precisa de muita atenção. Uma vez que as pessoas tenham acesso ao tratamento, a doença pode ser superada com mais facilidade. A prefeitura de Fortaleza deixou de entregar fitas de teste de glicemia entre dezembro e fevereiro aos pacientes da saúde pública e isso foi pouco divulgado.

Desistir não é uma opção e evitar o tratamento não traz vantagem. Com tratamento, dedicação e informação dá para superar os problemas da doença e ter uma vida normal. A diabetes não define minha vida, minha personalidade e minhas ações. O drama  real da diabetes é apenas um: levar tratamento e informação para quem precisa. Tendo os dois e fazendo sua parte como paciente, não há do que se reclamar.

Um fortalezense em Teresina, 2012

19 de outubro de 2012   —   10:00:44

Sim, estive em Teresina no fim de semana. Se eu fosse enumerar minhas vindas para Teresina, perderia a conta. Fazendo um relatório rápido, lembro de ter ido para lá em 1991, 1993, 1995, 1999, 2005 e uma viagem de algumas horas em 2010, apenas para participar de uma cerimônia. Devo ter esquecido umas 2 ou 3 viagens aí.

Fui visitar alguns parentes, e preciso dizer que estou positivamente impressionado com a cidade. Em 2010 minha vinda foi muito rápida, então não deu para elaborar julgamentos. Mas encontrei, agora, uma cidade diferente da que vi em 2005 e, claro, da que vi em 1999.

Vamos pular a parte do calor, que dispensa apresentações e que já aparece no primeiro passo na calçada ao sair do aeroporto.

A primeira coisa que me impressionou é que trata-se duma cidade que, em 2012, conseguiu preservar várias de suas construções antigas, como várias casas em estilo art déco que percebi. Moro numa cidade (Fortaleza, pra quem não leu ali do lado) em que derruba-se cada vez mais casas e árvores para serem construídos prédios sem graça, e a não-ocorrência disso num cidade me impressiona. Não que eu seja contra a verticalização, mas sou contra a perda de memória. Em tempo, a vista ali de cima é do prédio da minha tia, acho que no bairro Jóquei, e temos ainda muitas casas e alguns poucos prédios.

Segundo: várias redes de lojas, especialmente fast food, estão aqui aos montes. Em 1993 um parente meu de Teresina pirou quando viu um McDonald’s em Fortaleza e era o cara mais feliz que já vi comendo um sanduíche de lá. Hoje não há muito o que ele invejar (e quem inveja McDonald’s após a adolescência?). Vi várias redes de fast food internacionais lá, e as lojas, pelo que vi de longe, são inclusive melhores e mais espaçosas que as existentes em Fortaleza. Fiquei impressionado com o tamanho do Subway, cujas lojas em Fortaleza são corredores apertados.

Terceiro: as ruas são bem cuidadas, não existe o tremor no carro típico do asfalto fortalezense.

Cearenses adoram piadas com piauienses, mas tenho que dizer que Teresina está crescendo bem, pegando as boas características de centros urbanos maiores enquanto mantém o bom aspecto de cidade pequena que marcou minha infância em várias viagens. Não sei como é o trânsito aqui normalmente, já que vim num feriadão. Infelizmente ouvi relatos de aumento de violência, mas isso é um problema nacional. Como turista, preciso dizer que senti inveja da cidade pequena, bem cuidada e desenvolvida.