Você pode ter sido o dia mais produtivo no mundo no trabalho,
pode ter tirado uma nota enorme naquela prova foda da faculdade,
pode ter visto aqueles seus amigos que não via faz tempo,
pode ter arrumado aquele trabalho legal,
pode ter ouvido a música certa na hora certa no rádio,
pode ter visto seu filme favorito começando na tevê,
pode ter comprado aquela roupa que você paquerava há tempo na vitrine,
mas não adianta.
O fim do dia sempre vai trazer aquele vazio arrebatador,
aquela sensação de um must have que está ausente,
aquele sentimento de quem está saindo de casa esquecendo algo.
PUTA MERDA.
ACABOU O DORITOS DE NOVO.
Dia desses, num dos dias de pedalada em grupo, durante uma parada num semáforo, uma colega iniciante perguntou por que eu pedalava tanto. Uma pergunta inocente e que esperava uma resposta curta.
Vi várias coisas passando na minha mente, por dois segundos.
Meses atrás, durante uma viagem para São Paulo, li Cartas a um jovem poeta, livro pequeno de Rainer Maria Rilke, mas grandioso em conteúdo. Há uma citação fabulosa no meio do livro:
“(…) No fundo, e justamente quanto aos assuntos mais profundos e importantes, estamos indizivelmente sozinhos, de modo que muita coisa precisa acontecer para que um de nós seja capaz de aconselhar ou mesmo ajudar o outro, muitos êxitos são necessários, toda uma constelação de acontecimentos têm que se alinhar para que isso dê certo alguma vez.”
A compreensão entre pessoas é algo complicado e, no fim das contas, cada pessoa está só, com sua história, suas motivações, seus dilemas. Podemos sentir compaixão pelo próximo e tentar entendê-lo nos colocando em seu lugar, recomendação típica da prática budista; podemos saber ouvir; mas o real entendimento depende de um longo caminho.
No primeiro episódio da segunda temporada de Lost, Desmond (em uma de suas primeiras aparições na série), encontra Jack num tour de stade (prática que consiste, resumidamente, em correr pelas escadas dum estádio). Jack, médico obstinado em resolver todos os males dos pacientes, se machuca, e Desmond, que tem problemas amorosos, tenta ajudá-lo. Na minha opinião, é um dos melhores diálogos de Lost.
Em português, seria algo como:
A pergunta da minha colega não tinha uma resposta curta. Demorei uns 2 segundos, suspirando, pensando numa resposta. Dei alguma resposta técnica, do tipo “pedalar na frente cansa menos e mantém o ritmo”, e sua dúvida foi satisfeita.
Garota, você nunca entenderia.
Já tentei gostar de futebol quando era criança, torcia por um time e tal, mas o gosto logo passou quando meu time perdeu o Campeonato Brasileiro. É, pulei fora do barco na primeira derrota do time. Definitivamente, eu não tinha determinação pra coisa.
Na escola, eu não suportava os dias posteriores aos dias de jogos de futebol na TV, quando, nos minutos antes das aulas começarem, enquanto os alunos se acumulavam na sala, algum colega já passava pela porta gritando com outro, porque o time do outro havia perdido. Tudo isso acompanhado de gritos trogloditas e selvagens do tipo “Chuuuuupa, tricolor” ou “Toooooma, vozão”.
E toda a comoção durante campeonatos, os comentários em todos os lugares, toda a pressão por você estar na torcida, estar acompanhando os jogos, a pergunta “por qual time você torce?”, os gritos em restaurantes quando tudo que eu queria era comer sossegado acabaram transformando meu não-gostar de futebol por um tremendo abuso.
Já joguei vôlei em 1992, fiz natação durante uns cinco anos, joguei basquete em 1999 e hoje banco o ciclista, mas se tem algo por que não consigo ter apreço é futebol. Minha única aproximação do futebol foi um campeonato durante a primeira série do primeiro grau (como chamam primeiro grau hoje?) onde o único esporte disponível era futebol, no qual certamente contribuí para a derrota de meu time.
Me perdoem, amigos, mas não gosto de futebol, não gosto de racha e vou recusar o convite pra ver o jogo do Brasil no telão de alguma churrascaria.
Pronto, falei.
Chovia forte, uma daquelas chuvas que a gente não sabe de onde vêm. Não lembro exatamente que horas eram, mas a maioria das pessoas já tinha ido pra casa. Chovia pra caramba, chovia pesado, chovia muito. Hoje, talvez, pareça ter chovido mais do que realmente choveu, os anos passam e aumentam a intensidade das coisas na memória, acho, mas tenho quase certeza que foi um dilúvio.
A gente começou a correr, no meio da chuva, em direção ao carro. Ríamos, ríamos alto, gritávamos e falávamos palavrões, vibrando com aquilo tudo. Completamente encharcados, a água escorrendo dos cabelos vermelhos, as roupas pesadas, e algumas pessoas olhavam pra nós estranhando aquela cena. Talvez tenha sido uma das trocentas vezes, na minha vida, em que as pessoas achavam que eu estava bêbado e eu não estava. A gente não se importava. A gente ria e curtia aquele momento.
Tudo tinha uma sensação boa e estranha de recomeço. Entramos no carro, e, ao ligarmos o rádio, tocava New Year’s Day, do U2. E a gente ainda gritava, naquele momento de euforia que eu nunca vou esquecer, como eu sempre vou lembrar daquela noite .
E eu queria sentir de novo a sensação que senti naquela noite de sábado, provar de novo da leveza e do desprendimento que eu descobri naquele momento, ser de novo quem eu fui naquele dia. Que não tarde, meu Deus, que não tarde.
Tradução livre das últimas frases: é fácil não perceber algo por que você não está esperando. Preste atenção nos ciclistas. Merece a divulgação não apenas pela tirada do vídeo que é muito boa, como pelo fato de que há alguns meses venho me aproximando do ciclismo.
Nunca esqueci do Espanta contando uma piada sobre um casal de velhinhos dormindo, de madrugada, quando a velhinha acorda passando mal:
Talvez o Espanta não soubesse, mas além de humorista ele era um pouco filósofo.
Definição pessoal de Deus: Deus é energia em movimento.
A vida tem lá seu jeito de nos enviar sinais, e algo acima de nós tem lá seu jeito de nos indicar caminhos. Precisamos ter mente e coração abertos pra captá-los.
Nuff said.
Em novembro, li o artigo “Guerrilha urbana”, de Denis Russo Burgierman, na revista Vida Simples do mesmo mês. No artigo, Denis falava da retomada da cidade pelos seus moradores, como podemos intervir no cenário urbano com pequenas intervenções artísticas e citava um livro, The Guerilla Art Kit, da canadense Keri Smith, que infelizmente ainda não tem tradução para o português.
Acabei comprando o livro na Amazon, pelo precinho camarada de pouco mais de 12 dólares (menos que 25 reais) mais frete. Um livro assim no Brasil não sairia por menos de cinquenta reais (colorido, capa dura, espiral coberta pela capa). Como optei pelo frete mais barato, ele levou algumas semanas para chegar.
O livro sugere pequenas e grandes intervenções para tornar sua cidade um lugar mais sociável: pregar cartazes indicando cantos que raramente são notados, “esquecer” livros em locais para que outras pessoas os leiam, decorar objetos como hidrantes e placas.
Minhas sugestões favoritas foram a jardinagem de guerrilha (o livro ensina a fazer “bombas de sementes”: sementes com argila para você abandonar nos cantos e fazer surgir novas plantas), a animação de objetos inanimados (algo como pôr “olhos” de papel em hidrantes e deixá-los com aparência humana) e os ambientes em miniatura (fazer bonequinhos de rolha e decorar calçadas, árvores, jardins…). São muitas, muitas sugestões.
Para ver a proporção que uma brincadeira dessas pode tomar, basta lembrar das intervenções feitas ano passado em bueiros de São Paulo, pelos grafiteiros do Projeto 6 e Meia.

Fui pesquisar meu próprio presente de Natal por lá. Entrei na frente do shopping, peguei uma das entradas do estacionamento e acabei indo parar no E4, um estacionamento no alto do shopping alcançado após subir 9 ladeiras de carro. Após a pesquisa, começa a jornada para voltar ao automóvel.
Quando me dirijo a um dos caixas para pagar o tíquete do estacionamento, no valor de R$ 3, descubro que só tinha R$ 2 na carteira. Se você nunca passou por isso, ainda vai passar. Fui sacar dinheiro no caixa do Banco do Brasil, que tinha uma fila enorme, e a todo momento chegavam idosos ou mulheres com crianças de colo e passavam na frente. Mas enfim, saquei alguns trocados e fui pagar meu tíquete.
O elevador só ia até o E3. Achei estranho, mas acreditei que chegando no E3 teria algum acesso pro E4. Pago o tíquete, olho pros lados e reparo que não há escada, ladeira, elevador, nada. Pergunto pra moça dos tíquetes como chego no E4. Ela responde dizendo que tenho que voltar pelo elevador que vim, ir para o segundo piso e pegar o elevador ao lado da Riachuelo. Absurdo: o shopping tem partes que não se ligam, a não ser por andares inferiores.
Tento pegar o elevador para o segundo piso. Aperto o botão e… nada. A porta não fecha, e assim o elevador não desce. Tive que trocar de elevador. Chego ao segundo piso, corro para o elevador ao lado da Riachuelo. Sinto um alívio quando vejo o botão E4. Aperto o botão e… o botão não acende. Torno a apertar, cada vez mais irritado. O elevador sobe pro E5. Continuo apertando o E4… mesmo sem o botão acender, o elevador para no E4.
Fiquei esperando aparecer o Sérgio Mallandro dizendo “Rá! Pegadinha do Mallandro!”, mas não aconteceu, não era pegadinha. Entrei no carro aliviadíssimo, desço novamente 9 ladeiras e vejo a luz do sol vindo de fora do estacionamento. Nunca fiquei tão emocionado em ver a avenida Bezerra de Menezes.
A questão é que parece que os eletrodomésticos, eletrônicos e qualquer coisa com um circuito que eu compre também tem fator de cura. Um fator de cura meio chato pra mim, por sinal. Já aconteceu várias vezes comigo: algo que comprei fica com defeito, e quando levo pro lugar onde comprei ou pra assistência técnica, o objeto quebrado funciona perfeitamente e o funcionário olha pra mim com uma cara daquelas. Minha teoria maluca é que objetos eletrônicos, como os cães, gostam de passear.
A primeira vez foi quando comprei um pedal usado pra guitarra, o que se tornou A Saga do Pedal Possuído. Por várias vezes fui e voltei pra loja onde comprei o pedal ou prum conserto de eletrônicos aqui perto de casa. O pedal sempre funcionava nos cantos, mas não funcionava aqui em casa. Isso me custou várias caminhadas e idas ao Centro. Nunca vou esquecer do vendedor da loja olhando pra mim com cara de “Sim, qual o problema?”
Depois teve meu computador, que começou a reiniciar sozinho. Levei no lugar onde comprei as peças e o problema era simplesmente um cabo da fonte mal encaixado, que quando perdia contato com a placa-mãe fazia o computador reiniciar. Também teve um mouse que comprei e não funciona aqui em casa nem com reza braba, mas funciona supimpa na loja.
Agora foi a vez da minha televisão, que comprei há 4 meses. É uma TV Samsung tradicional, de tubo, nada dessas LCDs e TVs de plasma que ainda não posso comprar. Ontem à noite e hoje de manhã ela apareceu com manchas chatas na tela, e não, não tem nenhum outro aparelho ou ímã por perto. Levei na assistência técnica e, quando chego lá, a televisão funciona que é uma beleza.
Aproveitando a deixa, um aviso de utilidade pública é que, segundo o manual da minha TV, o tubo da TV é feito para projetar imagens não-estáticas e em formato tela cheia 4:3. Imagens que sejam paradas ou tenham parte da imagem parada, como aquelas barras pretas de filmes widescreen, podem danificar o tubo da TV se exibidas por mais de 15% do tempo que a TV é usada por semana.
A TV funciona bem até agora, tenho 8 meses de garantia pela frente e a assistência autorizada é aqui perto (lembre de levar isso em conta quando for comprar algo). Mas a parte mais chata de não ter uma TV LCD (ou um prédio com elevador) ainda foi subir três andares de escada segurando o aparelho.
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