Casamento entre homossexuais e… o fim da democracia?

23 de Maio de 2013   —   13:33:23

Hoje, olhando o Facebook, dei de cara com um texto do professor de Direito da UFC Glauco Barreira Magalhães Filho, que inclusive tem um título de doutor, falando sua opinião sobre a resolução do CNJ que obriga cartórios em todo o Brasil a celebrar casamentos entre homossexuais. Recomendo que você leia o texto dele antes de ler o restante do meu.

Primeiro ele compara a decisão dos cartórios de fazerem casamentos entre pessoas do mesmo sexo a um golpe de estado, e usa o reconhecimento recente de Joaquim Barbosa para fazer mais uma comparação: a fama do ministro seria como a ascensão de Hitler ao poder. A Lei de Godwin — que afirma que toda discussão na internet, a medida que passa, tende a citar uma comparação com Hitler — se aplica nesse caso?

Quase no fim do texto, ele fala que o STF, o CNJ, sei lá, pretende acabar com o Dia das Mães, pois não haverá mais mães. Aí ele usa a técnica rétorica de Medo, incerteza & dúvida (o famoso FUD), apelando para um futuro distópico e impossível para plantar o medo. Plantar o medo usando um argumento mal embasado? Vindo de um advogado, isso é no mínimo um argumento pobre. Vão acabar com os heterossexuais? Gays e lésbicas não podem ter filhos naturalmente? Melhor ainda: e a adoção de crianças por casais de mesmo gênero não faria deles pais e mães?

No fim do texto ele solta um “Deus salve a família!”. Eu não sei que Deus é esse. Não sou muito religioso e tenho minhas crenças e descrenças, mas o Deus que me falaram lá em casa que existia era mais bondoso que esse aí.

Não parei por aí e procurei outros textos do professor pela internet. Em um deles o professor solta: “Acrescente-se a isso o quanto vai sofrer de ‘bullying’ na escola e no dia-a-dia a criança adotada por casais homossexuais quando seus colegas descobrirem que ela tem DOIS PAIS ou DUAS MÃES!”

Mais uma vez a técnica de Medo, Incerteza & Dúvida.

Primeiro que desonra é ser ladrão, não ser filho de gays/lésbicas. Segundo que quem está errado é quem pratica o bullying, principalmente por algo tão pequeno, e não quem sofre. “Casais gays com filhos farão os filhos sofrer bullying” me parece uma variação do “Mulheres com roupa curta vão causar estupros”.

Felizmente a UFC já liberou uma nota falando que a opinião do professor, publicada no site do departamento de Direito, não representa a opinião da instituição. E acrescentou: “Cabe igualmente destacar que a política editorial desta Universidade privilegia o respeito à diversidade de orientação sexual, étnica, cultural, ideológica e religiosa”.

Por essas e outras que um diploma de doutor pode ter seu valor no mundo universitário, mas não me impressiona.

GVT: uma armadilha

10 de Fevereiro de 2013   —   10:49:17

Esse é um texto um pouco técnico e um pouco estressado. Se quiser algo leve, melhor ler outra coisa. Ah, e não assine GVT.

Eu tinha Oi Velox em casa. Nem de longe obedecia a velocidade assinada, mas funcionava o dia todo. Meus amigos sempre me diziam que eu era maluco, que eu devia assinar GVT, que era muito mais rápido e por aí vai.

gvt_logo

Acabou que assinei a tal da GVT. Tudo muito tranquilo: cliquei no botão do site para que me ligassem e me ligaram na hora. Falei que ia analisar a proposta e pedi um tempo. Me ligaram alguns dias depois e agendei a vinda do técnico para instalação para o dia de 30 de janeiro, uma quarta-feira. Tudo muito fácil e organizado.

No dia marcado (30 de janeiro) o técnico veio e instalou tudo do meu plano: internet, telefone fixo e TV por assinatura. A única ressalva foi que eu havia assinado a internet com velocidade de 15Mbps e ele disse que tinha que mudar meu plano para 10Mbps, pois a área não garantia a entrega de 15Mbps. Tudo bem, legal a informação e a transparência, fiquei feliz.

O técnico saiu daqui no dia 30, às 18:00, e tudo funcionava. Por algum milagre matemático, os 10Mb da GVT são muito superiores aos 10Mb do Oi Velox. A imagem da TV por assinatura da GVT é muito boa. Tudo estava ótimo… nas 4 horas em que funcionou.

Às 22h do mesmo dia em que a GVT foi instalada, tudo parou de funcionar.

No dia seguinte, comecei um inferno de ligações ao suporte da GVT. Em cada ligação, levava pelo menos 10 minutos para conseguir falar com um atendente humano. Foram pelo menos doze ligações em dois dias. Muitos menus com opções, muita musiquinha e gravações oferecendo power-combo e perguntando se eu já tinha reiniciado o modem, o que fiz pelo menos dez vezes. Minha gravação favorita é a que fala que o técnico vai na sua casa e deixa tudo funcionando!

Na quinta e sexta-feira, dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro, eu dei pelo menos 13 ligações para a GVT para conseguir um técnico, num total de mais de 3h de ligações. Os atendentes falavam que eu estava ligando do trabalho mas eu precisava estar em casa olhando pro modem (afinal eu não tenho mais o que fazer) pra fazer os mesmos testes que os atendentes anteriores tinham me orientado, ou as ligações simplesmente caíam após uma longa espera. Isso quando não me transferiam dum setor A para um setor B, e do B de volta pro A, a cada setor eu repetia o CPF do titular e falavam que não, que meu protocolo de instalação ainda estava em aberto e para eu aguardar, que não constava não-sei-o-quê no cadastro e por aí vai.

Na sexta-feira, cerca de 19:00, o técnico que instalou a GVT aqui reapareceu, conferiu tudo e disse que teria que retornar no dia seguinte pois não tinha como fazer o procedimento que deveria fazer naquele horário. Aparentemente o problema era na central, e no sábado de manhã, 2 de fevereiro, a internet e TV voltaram a funcionar.

Mais ou menos.

Começou outro inferno: a conexão instável da GVT. É impossível passar 24h sem enfrentar um período de lentidão ou queda de conexão. As luzes do modem estão lá, acesas. Tudo parece OK. Mas não aparece nada na TV e você não abre site algum, por falhas de DNS. A solução: desligar o modem — onde inclusive fica ligado o decodificador da TV — e ligar de novo.

Se fosse algo que acontecesse uma vez a cada muitos dias, seria OK. Mas diariamente, uma ou mais vezes por dia, eu preciso reiniciar o modem da GVT para que minha internet e minha TV funcionem com dignidade. Num dos dias ainda tive um problema com o telefone fixo, que passou três horas sem completar ligações, apenas recebendo.

Liguei para a GVT na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, para verificar esse problema. Enviaram mais um técnico para minha casa na sexta-feira, me deram alguma explicação esotérica envolvendo problemas em cabos ou centrais ou não-sei-o-quê e, no fim das contas, tudo continua sem funcionar direito.

Usei meus poderes de programador e fiz um pequeno programa para Linux e Mac OS que, a cada 10 minutos, verifica o status da minha conexão da GVT. É um programinha simples: ele tenta acessar um site, como eu faria pra verificar se minha conexão está funcionando, e registra em um arquivo se conseguiu ou não.

Hoje, por exemplo, minha conexão apresentou instabilidade até 5 da manhã, passou pouco mais de uma hora engasgando e a partir de 6 e meia não funcionou MESMO. O “Exit code: 6” significa que meu programa não conseguiu abrir o site que mando ele abrir, pois a conexão está ruim. Os horários estão à esquerda:

2013-02-10 05:00:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 05:10:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 05:20:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 05:30:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 05:40:01 [OFFLINE] Exit code: 56
2013-02-10 05:50:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:00:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:10:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:20:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:30:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:40:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:50:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 07:00:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 07:10:01 [OFFLINE] Exit code: 6
...
(a partir daqui a saída de erro se repetiu até eu reiniciar o modem.)

Eu não consigo achar normal essa coisa de reiniciar o modem todo dia. Minha mãe não consegue aceitar, com toda razão, que a TV dela pare de funcionar do nada e precise reiniciar o modem para tudo voltar ao normal. Ela não é maluca por tecnologia, ela só quer as coisas funcionando de forma transparente, sem precisar saber de procedimentos obscuros e constantes de reinicialização de modems. Sugiro aos técnicos da GVT que testem esse procedimento diariamente com a mãe deles antes de (des)orientar a minha.

O ponto é que a GVT é muito rápida para você assinar o plano deles, mas esquece de você depois que você assina. Botão no site pro suporte te ligar não tem, não é? E o suporte simplesmente é ineficaz e burocrático. Estou com esse problema de queda de conexão há mais de uma semana, e não tem visita de técnico que resolva. Cadê o técnico que deixa “tudo funcionando”?

Não estou sozinho na armadilha da GVT e sinto saudades do meu Oi Velox: era mais lento mas funcionava. Melhor 50% de 10MB que 100% de nada, que é o que a GVT me entrega. Eventualmente, quando minha paciência esgotar, voltarei para a Oi ou procurarei outra operadora. Já falei com a Anatel, que me esclareceu: se o serviço não funciona como deveria, você não precisa pagar multa de fidelidade se quiser cancelar o plano.

A GVT, anunciada por alguns como a salvação da internet banda larga, é só mais uma operadora no mercado que desrespeita o consumidor. Meu conselho, se você pensa em assiná-la, é: FUJA.

Janeiros

16 de Janeiro de 2013   —   21:17:24

Janeiro costuma ser um mês um pouco chuvoso aqui em Fortaleza, e é engraçado como isso acaba levantando algumas recordações. Janeiro quase sempre foi de férias, quase sempre com coisas legais para lembrar. Ah, bons tempos em que janeiro tinha férias garantidas.

As mais remotas datam de janeiro de 1994. Lembro eu voltando da banca de revistas com Homem-Aranha Nº121 e de What’s Up, da banda Four Non-Blondes, tocando no rádio. Lembro eu lendo a revista na poltrona larga da sala de casa, poderia até falar das histórias daquela edição. Naquele mesmo mês meus tios e primos de Ribeirão Preto visitavam Fortaleza e fiquei no quarto no dia em que eles foram embora, pois não queria me despedir.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=6NXnxTNIWkc&w=480&h=360]

Pulo alguns anos e chego em janeiro de 1997. Eu tinha descoberto a diabetes há poucos meses, ainda tinha onze anos e viajava com meus pais e dois dos meus irmãos para alguma cidade da serra que não lembro qual era. Lembro de tentar jogar uma partida de Yo!Noid pouco antes de sairmos pra viagem, lembro das formigas que comeram o pacote de pão que ficou pendurado num saco na janela do hotel e do meu irmão tocando Esporrei na manivela no violão.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=OgxXP3bRd7U&w=480&h=360]

De janeiro de 1998 tenho alguma recordação de jogar Donkey Kong Land no Game Boy Pocket que eu havia ganhado no Natal de 1997. Eu tinha 12 anos e surgiu, por ali, meu primeiro aparelho de barbear, um Gilette Sensor Excel. Ele vinha com um radinho a pilha de brinde, que eu ouvia antes de dormir toda noite. Lembro que na época estavam na moda Palpite, da Vanessa Rangel, e Dois, do Paulo Ricardo, ambos hits de novelas. No fim do mês, na véspera do primeiro dia de aula da sétima série, fiz a barba — na verdade só o bigode, era o que eu tinha — pela primeira vez.

Pulo para janeiro de 1999. Lembro eu jogando The Legend of Zelda: A Link to The Past para Super Nintendo usando algum emulador no computador que havíamos comprado há poucos dias, além de Super Mario Kart 64 (os jogos sempre marcam alguma época, não é?) no Nintendo 64 que eu havia ganhado no Natal de 1998. Lembro de uma antiga amiga louca da família visitando a gente de surpresa, levando seu filho pequeno e sendo tremendamente inconveniente. Lembro de ir jantar um sanduíche no Babagula, na Beira-Mar de Fortaleza, e me questiono como é possível já fazer tanto tempo.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=IiQA5TA7Zp0&w=480&h=360]

Janeiro de 2000 foi especial. Eu tinha 14 anos e comecei a sair à noite, sendo a primeira vez para a Ponte Metálica. Alguns dos meus amigos da época são presentes até hoje. Na primeira saída lembro que meu irmão, que já dirigia e normalmente me pegava e deixava nos cantos, estava viajando e meu pai teve que me pegar cedo. Será que hoje, 13 anos depois, os adolescentes ainda podem sair tão novos? Lembro de algumas idas ao dentista naquele mês (acho que eu devia ter algumas cáries!) e de idas ao colégio não pela recuperação, mas porque eu estava envolvido em algum projeto pra web — na época em que internet era coisa de nerd — do laboratório de Física da escola. 2000 foi um ano legal.

Em janeiro de 2002 fui pra Ubajara com minha primeira namorada. No mesmo mês, com o que sobrou da grana que meus pais me deram pra viagem e da qual gastei muito pouco, fui ao centro da cidade e comprei o A Link to The Past para Super Nintendo que eu jogava três anos antes no emulador. Na época ele já era antigo e eu até tinha um Nintendo 64, mas jogos bons não envelhecem.

Em janeiro de 2003 eu pintei o cabelo de vermelho na véspera da segunda fase do vestibular, já seguro de que rasparia o cabelo (isso que é autoconfiança!). Lembro de ter ido a uma rave qualquer e acho que foi a última das duas em que fui. Dois meses depois eu começaria a faculdade, que eu ainda tinha esperança de que seria legal. Que engano.

Em janeiro de 2005 eu estava saindo pra caramba. Tinha conseguido permissão para dirigir há poucas semanas, Fortaleza tinha o Noise3D Club há dois meses e eu estava fazendo mais e mais amizades. Em 12 de janeiro de 2005 eu ataquei de DJ no Noise3D Club. Eu estava um pouco nervoso mas deu tudo certo, especialmente ao tocar Wouldn’t it be nice, dos Beach Boys.

Todo mundo já foi DJ um dia, né?

Todo mundo já foi DJ um dia, né?

2005 teve meu último janeiro de vagabundagem: em janeiro de 2006 eu começava no meu primeiro estágio, do qual não sou muito saudoso, mas foi o começo formal da minha vida profissional. Estagiar foi o que me mostrou que eu gostava da minha profissão, apesar de não gostar da faculdade, e foi meu estímulo para alcançar a formatura.

Em janeiro de 2008 meus pais haviam se separado há poucos meses e eu me mudava pela primeira vez na vida. Foi a primeira de várias mudanças de 2008, um ano que me quebrou de inúmeras formas, do coração à clavícula, mas do qual foi impossível não sair melhor e mais maduro.

Em janeiro de 2010 eu estava recém-formado e desempregado. Foi um alívio ter me livrado da faculdade, e a sensação de liberdade misturada à incerteza daquela época é inesquecível. Era como se sentir a leveza da juventude outra vez.

Em janeiro de 2012, vejam só, eu estava desempregado de novo, e tentando oportunidades que me fizeram bater a cara na porta algumas vezes, ao tentar dar passos maiores que minhas pernas permitiam na época. Engraçado como isso não ficou marcado como um trauma, mas como uma experiência engrandecedora.

E estamos aqui, em 2013. Os dias nublados de janeiro, uma marca desse mês após o calor de dezembro, sempre conjuram os bons fantasmas de janeiros passados. Vi em alguma manchete de jornal que iria chover 40% menos em janeiro de 2013. Uma pena. Mas, por via das dúvidas, escrevo tudo aqui para que eu possa relembrar um dia, tropeçando nos textos do meu blog, desses meses marcantes.

Diabetes sem drama

14 de novembro de 2012   —   16:53:30

Hoje é Dia Mundial do Diabetes, e vários órgãos de imprensa estão empenhados em falar sobre o tema. Sou diabético desde os 11 anos e já fui contatado para várias reportagens sobre o assunto.

Às vezes a reportagem é tendenciosa: busca-se mostrar um lado dramático da doença, suas trágicas consequências, as injeções e picadas de dedo. Parece que notícia otimista não dá ibope.

Sou bem chato para essas reportagens dramáticas. Para elas, sou entediante. Tenho diabetes tipo I há 16 anos, diagnosticada quando dei entrada num hospital com a vista turva, já com quadro de cetoacidose diabética. Hoje, porém, não tenho nenhuma complicação de retinopatia, que costuma surgir em cerca de 10 anos da doença, nenhuma complicação nos rins e minha hemoglobina glicada é 6,4%, o que é bom, embora ainda possa melhorar.

Primeiro, me permitam redefinir o conceito de diabetes. As pessoas a veem como “a doença em que a pessoa não pode comer doces”. Diabetes é, eu diria, a deficiência em que o paciente produz pouca ou nenhuma insulina e, por isso, tem dificuldades para processar carboidratos. Se você trata os carboidratos ingeridos com medicamentos bem-dosados, o problema está contornado.

Se eu como uma pizza, que é uma porção agressiva de carboidratos, ninguém diz nada, afinal pizza não é doce, certo? Se eu como um cubinho miserável de chocolate, as pessoas saem correndo e gritando “meu Deus, o diabético tá comendo doce!”. Há pouca informação sobre o que é diabetes, seu tratamento e suas limitações, mesmo entre os pacientes.

Houve muita melhora no tratamento durante meus 16 anos de diabético e posso fazer coisas que eram inconcebíveis quando comecei a ter a doença. Por causa da desinformação tais coisas continuam sendo inconcebíveis para muita gente, pacientes ou não. A diabetes, quando bem tratada, não é um fator limitante para a vida de ninguém.

Faço atividade física regular, contagem de carboidratos, tenho ótimo acompanhamento médico e constante monitorização da doença. Isso me permite uma vida bem próxima da normal e exames de sangue melhores que de alguns não-diabéticos.

Tomo quatro injeções por dia, em média. Já foi algo dramático, mas me acostumei. Algumas pessoas já me perguntaram “ah, as injeções nem doem mais, né?”. Sim, elas ainda doem, às vezes. Cada injeção não é a primeira e nem será a última, mas as injeções são parte essencial daquilo que me permite uma vida melhor e próxima do que se chama normal.

Atividade física obrigatória? Dieta equilibrada? Todo mundo deve fazer, isso pode até mesmo tornar-se um hobby e não é um “castigo” exclusivo para diabéticos (atenção para as aspas). As pessoas é que esperam alguma doença para que finalmente passem a cuidar da saúde.

Sou um cara muito reclamão e reclamo de muita coisa, mas raramente cito a doença entre minhas inúmeras reclamações. Ela não tem cura e, apesar dos avanços nessa direção, a única opção é aceitar essa deficiência e tratá-la.

Mostrar o “drama para tratar a diabetes” a imprensa já faz com maestria. Tratamento, por mais incômodo que seja, não é problema. Problema sério é não poder tratar. Aos jornalistas, peço que cubram mais a desatenção do governo para distribuir medicamentos e a burocracia para que isso seja conseguido. Esse ponto precisa de muita atenção. Uma vez que as pessoas tenham acesso ao tratamento, a doença pode ser superada com mais facilidade. A prefeitura de Fortaleza deixou de entregar fitas de teste de glicemia entre dezembro e fevereiro aos pacientes da saúde pública e isso foi pouco divulgado.

Desistir não é uma opção e evitar o tratamento não traz vantagem. Com tratamento, dedicação e informação dá para superar os problemas da doença e ter uma vida normal. A diabetes não define minha vida, minha personalidade e minhas ações. O drama  real da diabetes é apenas um: levar tratamento e informação para quem precisa. Tendo os dois e fazendo sua parte como paciente, não há do que se reclamar.

O assassino de Realengo jogava jogos violentos. E daí?

10 de Abril de 2011   —   22:54:40

Passei a tarde fora no domingo e, quando volto pra casa, descubro um post do Gizmodo dizendo que O Globo noticiou que descobriram que o assassino de Realengo tinha jogos violentos no computador. Mais uma vez, vamos aguentar aquela ladainha de que o acesso à internet ou o uso de jogos violentos é algo que constroi assassinos.

Minha opinião? Isso tudo é bobagem. Frescura. Ou, usando uma expressão que eu nem gosto, falso moralismo!

Eu joguei os mesmos jogos que o maluco de Realengo jogou, que o estudante de medicina assassino de 1999 jogou e nunca matei ninguém. Pra mim, isso é desculpa da imprensa. É uma maneira de jogar a poeira embaixo do tapete, para que os pais brasileiros sigam uma receita de bolo e durmam tranquilos, porém enganados. Agora os pais vão afastar seus filhos da internet e de meia dúzia de jogos e vão achar que estão criando santos em casa.

Se o assassino tivesse uma coleção de Bíblias ou imagens cristãs, seria um fanático religioso. Se tivesse barba longa e uma cópia do Alcorão, o tachariam de terrorista, afinal pra imprensa muçulmano é sinônimo de terrorista. Se tivessem achado o último livro do Richard Dawkins embaixo do travesseiro dele, ah, ele matou por falta de Deus no coração. Ele foi vítima de piadas na escola… E quem não foi?! Mas agora temos um nome bonito pra isso, que vende livros e reportagens na TV, é até em inglês que aí fica mais legal: bullying.

Eu sou diabético desde os 11 anos e passei a adolescência sem comer doces. Na mesma época, eu joguei GTA. E agora? Isso quer dizer que eu vou comprar armas e matar todo mundo numa confeitaria? As pessoas devem sair correndo quando eu entrar numa padaria?

O assassino era doente. Era maluco, desregulado, doido, pinel. Com ou sem jogos, ele ia achar uma desculpa pra matar. Você quer evitar que seu filho vire um assassino, um drogado, um marginal? Então eduque-o corretamente (lembrando que educação a gente recebe em casa, não é na escola, e independe de religião) e seja um pai ou mãe presente para diagnosticar qualquer distúrbio bem cedo. Não importa o que seu filho jogar, ele vai saber que um jogo é ficção, um jogo é mera representação da realidade e a última não deve ser tomada como o primeiro.

Infelizmente, os pais hoje querem soluções rápidas, então é mais fácil proibir jogos, internet e prender os filhos em casa. Isso é pegar a mulher na cama com o Ricardão e brigar com o Ricardão… Mas o que importa é a sensação de ter o problema resolvido, não resolver o problema.