A Mudança

2 de janeiro de 2017   —   20:53:44

Há alguns dias saiu o resultado da aplicação para meu visto na Inglaterra e, nesse momento, estou a menos de uma semana do meu embarque. Estou com o corpo cansado, a cabeça perdida e o coração moído, mas feliz por estar realizando um sonho.

Eu tento entender o tempo inteiro o que está me trouxe a esse estado: consegui um bom trabalho e estou realizando um sonho que tenho há mais de dez anos. A verdade é que nada é 100% bom ou 100% ruim, certo? E esse processo de transição dum país para o outro pode ser absurdamente estressante.

Tem muita coisa que eu queria poder voltar um ano na vida e dizer pra mim mesmo. Esse texto é o resultado de pequenos intervalos de escrita que ocorreram ao longo dos últimos dias, porque tempo é tudo que eu não tenho. Às vezes eu parava meia hora e começava a escrever isso aqui pra eu mesmo entender o que estava pensando e sentindo.

Um pouco de história: 2003 a 2016

Ir pra Londres é uma vontade antiga, do tempo que eu fazia curso de inglês e ouvia a professora falar de lá. Era difícil pra mim levar o sonho a sério: era estudante e a cotação real-libra nunca foi amigável pra nós. Era algo que eu tinha vontade, mas achava difícil, beirando o impossível.

Fiz uma comunidade no orkut há dez anos que deveria ser pra levar o tema na piada, mas acabou juntando pessoas que estavam indo de verdade. Só em 2013 consegui viajar pra lá a turismo. Saí de lá com vontade de voltar permanentemente.

Foto minha de 2013. Eu a chamo de "três clichês numa foto só"

Foto minha de 2013. Eu a chamo de “três clichês numa foto só”

Minha namorada se mudou para os EUA e, enquanto ela se preparava, eu tentei aplicar para empregos por lá ou pelo Canadá para ficar mais próximo dela. O processo de visto dos EUA é estúpido e quase ninguém contrata gente de fora; também não consegui nada no Canadá, apesar de todo o hype sensacionalista em cima do Canadá precisar de mão-de-obra estrangeira. Ironicamente, no meio da minha busca consegui um trabalho remoto para uma empresa em Londres.

(esse é o resumo do resumo. A história toda inclui entrevistas, estudos, terceiro turno, fins de semana, testes de programação, certificações de idioma, e-mails de recusa, gente ajudando, gente atrapalhando e MUITAS noites mal dormidas)

Um ano e meio trabalhando de casa e, no fim do sombrio 2016, após alguns meses de processo, finalmente consegui com o pessoal da empresa um visto de trabalho.

A relação com as coisas

A primeira mudança foi minha relação com as coisas que possuo. Sempre fui um acumulador. Guardo coisas desde minha infância. Revistas em quadrinhos, livros, brinquedos, muita tralha. Nos últimos anos venho tentando trabalhar isso e me desapegando aos poucos, vendendo e doando objetos, infelizmente em velocidade insuficiente para estar confortável para a mudança que se aproxima.

Pretendo levar apenas duas malas e uma mochila, deixando o mínimo psicologicamente e fisicamente possível na casa da minha mãe, onde ainda moro. Apesar de existir espaço aqui, não quero dar trabalho para as próximas mudanças da minha mãe ou ficar pensando se tudo meu está inteiro e no lugar. Os objetos não ocupam só espaço físico, eles ocupam também uma lacuna na cabeça da gente.

Isso tem me dado um trabalho chatíssimo de muitas horas por dias. Para vender minhas revistas em quadrinhos, por exemplo, preciso organizá-las e catalogá-las. O plano de sair do país é antigo e comecei a organizar minhas revistas para vendê-las faz tempo, mas o fiz tão lentamente que o arquivo em que estava catalogando não era atualizado desde 2014!

Eu queria estar com pessoas, mas estou ocupado vendendo, doando e guardando objetos. Enquanto arrumo minhas coisas, o celular toca e os amigos me chamam pra sair. Atendo os chamados e depois vou dormir pensando nas coisas pendentes para arrumar, ou recuso chamados porque tenho que arrumar coisas. Já quase cochilei no cinema e às vezes saio e não aproveito tanto porque estou pensando na pilha de coisas esperando arrumação. Meu aprendizado mais sagrado merece um parágrafo isolado:

As coisas que você possui um dia se voltarão contra você. 

Você vai se mudar e vai perder um pequeno item de muito valor sentimental porque vai perder tempo e atenção com alguma tranqueira gigante. Você vai querer passar seu tempo com as pessoas que você gosta, mas estará ocupado arrumando coisas. Nesse cenário, você vai começar a odiar coisas que achava que não conseguiria se desprender, porque o papel delas, em vez de te dar boas lembranças, é privar você de viver o presente e o futuro.

Livre-se das suas coisas inúteis enquanto pode. Pense bem antes de fazer compras, durma pensando se o que você vai adquirir é realmente necessário. Seus objetos pessoais podem se tornar uma âncora física e mental, eles estão só esperando a hora pra dar o bote.

Compre uma máquina de picotar papel. É como um video game, só que não precisa ligar na TV.

Venda suas coisas. Doe o que puder. Dê suas coisas pros seus amigos, elas poderão ganhar novos significados na prateleira deles e se tornar boas lembranças. Pessoas necessitadas ou instituições que cuidam delas farão bom uso de livros, roupas e instrumentos musicais. Liberte-se das tralhas enquanto é opção e não necessidade.

A relação com as pessoas

Eu tenho amigos que passo meses ou anos sem ver, pois eu sei que eles estão aqui a alguns quilômetros de distância. Quando uma mudança para outro lado do oceano tornou-se iminente, bateu uma vontade de ver todo mundo, sair pegando o telefone e mandando mensagem pra uma lista enorme de gente marcando cafés suficientes para deixar uma pequena cidade de meio milhão de habitantes sem dormir, ou cervejas suficientes para fazer a mesma cidade dormir por horas.

No sentido oposto, aqueles amigos que nunca marcam nada e/ou que deixaram de sair de casa após os trinta anos começam a aceitar seus convites e propor outros, porque você também será dificilmente visto daqui a uns meses.

Em qualquer relação, o conforto (saber que estamos próximos) leva à preguiça (“vamos marcar alguma coisa algum dia!” e nunca acontece). Isso mudou imediatamente com a proximidade da data de ir embora. Passei a ir pra bares e festas de que não gostava só pra não perder a chance de ver algumas pessoas. Fiquei estranhamente sentimental e em algumas horas virei aquele bêbado chato que abraça todo mundo. Mesmo não gostando muito de aparecer em fotos, bateu a vontade de fazer foto de todo mundo e com todo mundo.

Essa mudança grande e próxima me fez botar uma pedra em cima do botão do carpe diem. Gostaria de ter vivido dessa forma por alguns anos, mas faltava algo pra impulsionar, em mim e nos outros, essa motivação e essa adrenalina.

Pela primeira vez, pedi pra fazer uma foto com minha psicóloga que me acompanhava há 11 anos. Pedi pra fazer uma foto com minha médica que me acompanhava há 19 anos. Pessoas com quem minha relação teoricamente era de cuidador-paciente, mas que a proximidade de sair daqui me fez perceber a importância que tiveram e que eu gostaria de ter uma lembrança delas. Por que eu nunca quebrei o protocolo e mantive formalidade besta com pessoas que cuidaram de mim por anos?

E, olha, cada abraço acompanhado de “não sei quando te vejo de novo, mas boa sorte” é muito, muito difícil.

O medo

Não sou apegado à minha cidade e por motivos diversos não me sinto como se pertencesse a ela. É bem pessoal, sempre tem quem tente me mostrar um motivo pra gostar daqui, mas não cola. Quase sempre que viajo, volto reclamando. Sair do país é algo também que quero há anos, por motivos pessoais, profissionais, sociais e políticos que não são o foco desse texto.

Mesmo assim, depois de uma boa saída com os amigos que me restaram aqui — muitos já foram embora —, volto pra casa assustado com a mudança que vem por aí. Já me peguei pensando várias vezes nos últimos dias “que porra eu tô fazendo com minha vida?!”: mesmo não gostando da cidade em que moro, eu nasci e cresci aqui, é minha referência geográfica e cultural. É difícil admitir, mas é minha zona de conforto. Conforto não quer dizer que é algo bom, mas que é algo a que você é acostumado. É como aquela pessoa que não se divorcia porque, mesmo tendo um casamento ruim, já está habituada aos problemas. Já sei as qualidades e defeitos daqui e, como todo ser humano, tenho medo de mudança.

Alguns amigos tiveram a sorte de viver em outros países na infância. Isso me dá a impressão de que são pessoas muito mais desprendidas, isentas de raízes. Talvez elas realmente sejam, talvez seja só o hábito de achar que os outros são mais corajosos que a gente. Essa será minha primeira experiência fora da cidade em 31 anos de vida e, puta merda, em alguns dias (e especialmente noites), isso assusta pra cacete.

Tento pensar, como falei lá em cima, que o conforto leva à preguiça e que o melhor a fazer é correr em direção a isso que me assusta agora. O que será das nossas histórias se a gente não fizer algo grande que nos assusta uma vez na vida?

O último filme que assisti em 2013 foi A Vida Secreta de Walter Mitty. Pra quem gosta de viagens, fotografia e boa música, é um ótimo filme. Minha opinião, claro.

Walter Mitty é um cara que quer impressionar uma garota, mas tem um conflito: ele não tem nada interessante pra contar. Ele trabalha numa sala escondida da redação da revista Life, coleciona coisas que queria fazer, mas não fez, como muitos de nós, e sonha acordado com realidades mais interessantes. E o resto da história, bem, é o filme.

Um dia fui surpreendido por um tio meu com histórias de quando ele era mais novo e passou anos conhecendo vários países. Eu teria que correr muito pra me aproximar das histórias que ele me contou, mas quando o meu quarto, minha cama, meu sofá e minha cidade parecem tentadores, lembro da minha reação ouvindo as histórias e como eu precisava levantar âncora e partir.

Junto todas essas histórias e penso que esse é o espírito: a zona de conforto é quentinha e sair dela é assustador, mas ficar nela jamais renderá boas histórias para sobrinhos, netos ou nosso eu do futuro.

Quando um amigo meu foi embora pra Califórnia há uns dois anos com sua esposa, ela sabia dos meus planos similares e perguntou se, quando chegasse meu dia, se eu “ficaria com medo de sair de perto da mamãe”. Falei, seguro, que não ficaria. Como diria o finado George Michael, tudo que temos que fazer agora é pegar essas mentiras e transformá-las em verdade de algum jeito.

A realização (e os agradecimentos)

Aos 29 anos e 11 meses, eu estava numa crise dos 30 absurda. Eu sentia que meu estilo de vida não era o que eu queria: muito trabalho, muito tempo no trânsito, muito stress, pouca diversão. Eu enviava currículos pro exterior e nada acontecia. Minha namorada, médica, estaria indo embora em alguns meses pra residência dela no exterior. Eu sentia que chegava aos 30 anos, levava uma rotina que me matava e que não era nada do que eu havia pensado pra mim aos 18.

Arrumei o trabalho remoto pra empresa onde estou atualmente, passei a trabalhar de casa e viajar mais, afinal eu podia trabalhar de qualquer canto. Passei uma temporada na casa do meu irmão e minha cunhada, que moram em Portugal. Passei uma temporada na casa da minha namorada quando ela se mudou. Essa fase entre o meio 2015 e o fim de 2016 foi a primeira vez que bateu aquela realização profissional de estar colhendo o fruto de tanto esforço.

Agora eu estou indo morar onde eu sonhei por anos. Se vai ser bom como no sonho, eu ainda vou descobrir. Mas é absurdamente feliz realizar algo desse porte, saber que algo tão antigo está se tornando real.

Trabalhei muito pra isso, mas eu mentiria se dissesse que o mérito é só meu. Agradeço aos meus pais, tios e avós pelo luxo de ter tido educação e saúde no Brasil. A Carol, minha namorada, me apoiou muito quando eu estava triste e cansado da busca, e dizia “tenta de novo, o ‘não’ você já tem”. Muitos amigos me ajudaram na vida profissional que me trouxe até aqui, e um amigo me indicou pra empresa. Minha psicóloga me aguentou e aconselhou por onze anos. Tudo isso é que me deu uma base pra realizar esse próximo passo.

E agora?

Resposta curta: não sei!

Hoje é segunda e vou embora na próxima madrugada de sábado pra domingo. Estou ainda tentando vender coisas. Espero vender meu carro amanhã. Quero encontrar e abraçar amigos e familiares e minha agenda está cheia. Vai ter gente que não vai dar tempo de ver e ainda tem um monte de coisa entulhando aqui. É desesperador, repito.

Não tenho medo do que me espera lá. Imagino que vá ser incrível desbravar uma cidade nova, viver em outro clima (apesar de saber que o frio às vezes pode ser chato também), fazer novos amigos. Sei que procurar apartamento vai dar trabalho. Apesar de alguns pesares (porque nem tudo é 100% bom!), estou indo pra uma cidade incrível que visitei duas vezes e que me encantou. Me sinto otimista e acho que valerá a pena, mas esse estresse da última semana, até pisar no avião e pensar “está feito”, porra, é complicado.

Às vezes eu lembro do Superman, ainda bebê, saindo de Krypton num foguete enquanto seu planeta explodia, porque às vezes eu ajo como se tudo aqui fosse desaparecer quando eu saísse. Eu converso com os amigos que já saíram daqui e tento me convencer, calma e racionalmente, que Krypton não vai explodir dessa vez, que teremos a tecnologia para diminuir a distância e aviões pra resolvê-la temporariamente.

Krypton

Krypton explodindo, por John Byrne

Muita coisa ainda virá nessa semana. Meu quarto ainda está cheio de tralhas, alguns anúncios meus esperam respostas, tenho abraços pra distribuir e pouquíssimo tempo. Em alguns dias eu vou entrar num avião, realizar um sonho antigo, descobrir um país novo, um povo novo, um clima novo, levar uma vida com novos prazeres e — é sempre bom gerenciar a expectativa — novos problemas.

Eu vou revisitar esse texto muitas vezes, eu sei. Fico pensando se eu vou rir de como estava desesperado, se eu vou chorar de saudades dessa época. Só o tempo vai me dizer. Esse é um texto que acaba, mas não acaba.

O Senhor dos Galetos

7 de agosto de 2015   —   20:40:25

Entre minha casa e a academia que venho frequentando nos últimos meses, há um pequeno estabelecimento que vende galeto. É daqueles bem tradicionais, de bairro, nada requintados, as paredes com manchas escuras de fumaça. No fim do dia, volta e meia ainda tem uns galetos crus na churrasqueira, e eu não quero saber onde eles vão parar.

Passo por esse caminho diariamente a pé. Em torno das seis da noite, o dono da galeteria está sempre cumprindo o que me parece ser um ritual diário: ele põe uma mesa de plástico na calçada, abre uma Skol e põe pra tocar um disco antigo da dupla Leandro & Leonardo num som razoavelmente potente. Suponho que o disco seja de algo em torno de 1990, pois lembro bem de quando algumas músicas fizeram sucesso e eu tinha quatro pra cinco anos.

Leandro & Leonardo

Era isso ou a foto tosca dum galeto pra ilustrar esse texto

(Entre as várias faixas do disco que o cara escuta, há uma versão dos cantores sertanejos pra Sound of Silence, da dupla folk Simon & Garfunkel. A versão da letra em português assassinou o sentido da letra original, mas confesso que o arranjo ficou bonito, um esquema orquestrado, sei lá. E será o sertanejo da década de 80, antes dessas porcarias de hoje, uma variante brasileira de folk? Sei menos ainda. Pois bem.)

Sentado, bebendo sua cerveja de milho e ouvindo sempre seu mesmo disco, o senhor põe-se a observar sabe-se lá o quê, virado para o buzinaço dos motoristas impacientes na hora do rush. Se está realmente observando aquele caos, não sei, às vezes acho que ele está bem distante dali.

Não gosto de quem escuta música alta e impõe seu gosto musical, não gosto de Skol, não vejo graça em olhar engarrafamento e, pra finalizar, motivos pessoais me dão abuso do cheiro de galeto. Por dentro, talvez eu seja mais velho que o cara dos galetos. Mas, sempre que passo pelo cara na calçada, admiro algo naquela cena.

Talvez seja a insistência na causa perdida de sentar na calçada numa cidade que perde esse hábito; ou talvez aquela situação, apesar de antipoética e crua feito o galeto esquecido, demonstre certa disciplina na repetição daquela meditação diária; ou, ainda, talvez seja algo que aquele senhor tem para me ensinar, naquele momento em que ele desfruta de si mesmo, como um animal solitário que se afasta pra descansar no fim do dia, após suas obrigações.

Ou talvez seja nada disso, e seja só eu buscando um sentido oculto pra tudo enquanto espero o semáforo abrir, observando meu reflexo nas coisas.

Quem diria?

17 de abril de 2015   —   22:06:32

Dia desses eu estava lendo alguns textos antigos aqui do blog e tropecei num em que eu dizia que gostava de passear no shopping. Fiquei assustado. Como assim? Eu, gostar de shopping?! Hoje um convite para ir a um shopping me dá um sentimento entre mau humor antecipado e claustrofobia.

Successful man

E dirigir? Tudo que eu queria ali por 2003 e 2004 era dirigir. Em 1º de dezembro de 2004 tirei minha carteira de motorista, morto de feliz, e quando eu podia pegar o carro de casa era uma alegria. Dirigir pra longe era uma aventura. Agora eu dirijo uns 120km por semana — se você for paulistano, acostumado a grandes distâncias, deve estar rindo da minha cara nesse momento — e usar o carro sábado e domingo depois de ter dirigido a semana inteira é quase uma dor. “Eu te pego e te deixo em casa” hoje é uma frase que entoa aos meus ouvidos como uma singela e musical declaração de amor.

A gente muda várias vezes na vida. Aos 18 anos, depois de ser furtado e assaltado em ônibus quentes e suas paradas, eu  sonhava em dirigir. Hoje, com quase (assustadores) 30 anos, depois de descobrir o ciclismo e viajar pra algumas cidades, mudei minha visão de urbanismo e vi que uma vida de pedestre podia ser tranquila e possível, que há uma realidade em que é possível fazer compras em lojas na rua e andar ao ar livre. Minha vocação para passar o dia alternando entre uma caixa de metal compacta sobre rodas e prédios fechados abarrotados de gente se batendo diminuiu.

O mais inacreditável está por vir: a vida toda tive pânico de praia. Desde criança mesmo, nunca gostei. Minha pele tem um bronzeado de palmito cultivado em escritório. Por que se submeter a aquele calor? Mas dia desses não aguentei. Cansado de dirigir no fim de semana, eu propus à minha senhora um fim de semana numa praia que nem se eu quisesse poderia ir de carro.

Meu eu de anos atrás jamais acreditaria.

Lisboa

9 de junho de 2014   —   19:00:06

Tenho um novo caso de amor com uma cidade e o nome dela é Lisboa.

Vim pra cá passar alguns dias de férias visitando meu irmão Alvaro e minha cunhada Lívia. Alguns dias após chegar aqui falei com meu tio, que já morou em Portugal durante muitos anos, e fazer a pergunta foi inevitável: “por que você foi embora daqui?!”

Eu podia passar horas e horas falando do que vi — e comi — na última semana.

Fora o fato de eu estar de férias e não estar na ansiedade de correr pra bater ponto ou perdendo no trânsito horas que jamais voltarão, a vida aqui parece seguir outro ritmo. O melhor resumo que posso fazer é esse: Lisboa aparenta ter um ritmo próprio e diferente de qualquer coisa que já visitei.

As pessoas paradas nos cafés das esquinas jogando conversa fora, o guarda sorridente da loja do shopping conversando com uma criança, o garçom brincalhão dos Pastéis de Belém, o caixa simpático e apressado do supermercado, os bondinhos elétricos subindo e descendo ladeiras… Tudo parece seguir a cadência leve de quem aproveita a vida como degusta um vinho português. Perdoem-me o clichê mequetrefe dessa comparação.

Nas primeiras vezes que ouvi a variante lusitana do nosso idioma ele me pareceu soar rude, até achei que o atendente da loja de telefonia celular estava sendo grosseiro, impressão que logo passou. Só posso dizer que os portugueses são simpáticos, educados e bem humorados. Fui bem recebido por onde passei e citar os exemplos deixaria esse texto mais extenso do que já é.

Passear por Lisboa é incrível: os prédios antigos e conservados, os azulejos portugueses, o transporte público bacana, as ladeiras de pedra portuguesa — como é bom sentir as pernas naturalmente, sem precisar ir pra academia! — e a educação do motorista português, que tem o maior respeito ao pedestre. Ah, pra não dizerem que minha análise não é honesta e que não falei de defeitos, é um problema desviar do cocô de cachorro nas calçadas.

A cozinha portuguesa é incrível e é minha nova culinária favorita. Em qualquer canto você encontra comida e vinho ótimos e baratos, seja um restaurante aleatório, seja uma barraquinha numa feira. Nunca gostei de bacalhau e estou adorando o daqui. Contrariando o mais conhecido mandamento turístico, em Portugal até quem converte se diverte — e olha que a conversão entre euro e real anda bem inglória pra nós brasileiros. Mesmo pensando em reais, você come muito bem em Portugal por um preço menor que praças de alimentação de shopping e muito self service em Fortaleza. Não vamos nem comparar com São Paulo.

Fora tudo isso, é sempre bom rever uma parte da sua família, matar a saudade e vê-los crescendo e se virando em outra realidade.

Lisboa ganhou um lugar no meu coração ali do lado de Londres, mesmo sendo cidades tão diferentes uma da outra. Por favor, faça um esforço e não passe por essa vida sem conhecer Lisboa.

O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de janeiro de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.