Veja sobre Diabetes

5 de novembro de 2007   —   16:53:56
Não sou do tipo de gente que participa de comunidades anti-Veja no orkut e que acha os leitores da Veja medíocres, embora concorde que ela seja composta em sua maioria por anúncios e críticas ácidas.

Veja sobre DiabetesNa semana passada, a revista Veja fez uma matéria de capa sobre Diabetes, que reproduzo ao lado. Sou portador de Diabetes Mellitus tipo I há 11 anos, e alguns amigos meus prontamente me falaram da reportagem. Só tem um problema: a reportagem só servia para pacientes de Diabetes Mellitus tipo II, que não é o meu. Mas não é isso o que tem na capa.

Imagine, então, um paciente de Diabetes tipo I vendo a matéria de capa, morto de feliz achando que vai se livrar das várias injeções diárias de insulina e deixar de ser uma peneira humana ao ler a capa da Veja, e em seguida se decepcionando ao ler o conteúdo da matéria. É o que teria acontecido comigo, se o Cassiano (do Eu Podia Tá Matando), o primeiro a me falar da reportagem, não me fizesse um resumo da matéria antes que eu mesmo visse a revista nas bancas. Imagine se você tem um câncer de pulmão, vê uma capa de revista falando sobre “A cura do câncer” e quando abre a revista descobre que a cura noticiada só envolve câncer de esôfago…

Não pude, porém, deixar de enviar um e-mail à Veja falando do assunto:

 

Caros amigos da revista Veja,

Como qualquer pessoa, fico feliz pela reportagem sobre Diabetes da edição 2.032 de Veja. No entanto, ocorreu uma falha de comunicação absurda na capa: esqueceram de comunicar que a reportagem era sobre diabetes tipo II. Pessoas como eu, que sou portador de diabetes tipo I, tiveram uma grande alegria ao ver a capa, seguida por imensa decepção ao ler a reportagem e descobrir que a “esperança” noticiada simplesmente não servia para nós.

Fica, portanto, meu apelo de que, quando forem colocar reportagens desse gênero na capa – seja sobre diabetes, seja sobre qualquer doença -, ponham lá também a que segmento dos portadores a reportagem se refere.

Aguardo um retorno dos senhores.

Esdras Beleza de Noronha,
portador de Diabetes Mellitus tipo I há 11 anos

 

Pra piorar mais ainda, a maneira como a notícia foi feita acaba levando várias pessoas, principalmente as menos informadas, a crer que a cura está disponível a partir de hoje, e elas então vão desesperadamente atrás de médicos e hospitais querendo ser curadas. Isso acabou levando a um comunicado oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes: “(…) Esperamos que a divulgação precoce,a um público leigo, de um procedimento ainda em fase experimental não estimule cirurgias desnecessárias e mal indicadas sob a expectativa de um milagre. (…)”

De tudo, fica apenas uma esperança: a de que os jornalistas tenham mais respeito aos portadores de doenças, em detrimento da vontade de vender revistas.

Como se faz uma matéria de jornal

16 de fevereiro de 2007   —   11:47:12
A amicíssima Amanda Queirós, jornalista, bailarina e figura, estava fazendo uma matéria para o jornal O Povo sobre o que fazer durante o Carnaval em Fortaleza. Só que ela não conhecia nenhum mazela que não fosse viajar, por incrível que pareça, e estava procurando por uma pessoa dessas no MSN. Como eu estava, no fim de semana, numa mesa de 5 pessoas onde todos diziam que iam ficar em Fortaleza, começou a enxurrada de planos. E acodi, assim, a pobre jornalista. Aqui vai um trecho do texto que saiu hoje, no caderno Vida & Arte do Jornal O Povo:

"A solução é juntar os amigos, alugar uns filmes, fazer algo bom para comer e aproveitar. E também rezar para que Fortaleza continue com esse frio durante o Carnaval", afirma o estudante universitário Esdras Beleza, de 21 anos.

Tá pensando que é fácil fazer isso aí?A parte legal é como eu, conversando com a Amanda, cheguei nessa resposta…

Eu primeiro sugeri que você pode ir ver o Maracatu da Domingos Olímpio levando um 38 e se matar vendo a Unidos do Acaracuzinho ou qualquer outra escola de maracatu com nome de imitação de escola de samba carioca, num ato de protesto à própria mazelice de quem ficou entediado em Fortaleza enquanto os amigos se divertem numa casa de praia ou de serra.  Só que isso a Amanda não podia pôr no jornal, né?

Em seguida eu falei: "mas a solução mesmo é juntar os amigos, alugar uns filmes, fazer uma comidinha supimpa e ficar reunido". Mas pedi pra ela tirar a parte da "comidinha supimpa", porque quem lesse isso sem me conhecer acharia que Esdras Beleza é um gourmet gay. Por fim, acabei reescrevendo isso e virou a parte do jornal, que a Amanda publicou exatamente como eu disse. Incrível: uma jornalista que não altera a fala do entrevistado.

Logo em seguida, a Amanda quis os créditos e perguntou: "esdras beleza, 22 (?), estudante de computação?", ao que respondi "21. e tira o ‘estudante de Computação’ e põe ‘estudante universitário’. vão achar que eu sou um nerd que adora o Carnaval na internet".

Perfeito. Estava pronta minha entrevista. Vou já sair do trabalho e comprar um exemplar, pra eu ler no Carnaval se não conseguir sair de Fortaleza. E ainda tem as palavras cruzadas…