Memória afetiva, condicionamento e a saudade de ficar puto

6 de novembro de 2016   —   14:51:43

Numa manhã entre o fim de 1998 e o começo de 1999, nas minhas férias entre a sétima e a oitava série, fui arrastado para a praia por minha família. Para tornar aquela ida menos dolorosa — meu bronzeado inexistente e a cartela de vitamina D na minha mesa denunciam o tamanho do meu apreço por mar, areia e sol —, minha família passou numa banca de revistas. Durante muitos anos, idas patrocinadas a bancas de revistas compravam o silenciamento da minha participação em eventos que não pareciam nada comigo.

Naquele dia comprei uma revista Showbizz sobre a volta do rock brasileiro dos anos 80. Repare que estamos falando de 1998, os anos 80 estavam mais próximos daquele dia do que estamos de 1998 agora. Hoje as pessoas de 1998 já podem dirigir, beber (espero que não ao mesmo tempo) e ir para festas ouvir bandas dos anos 90 onde vão se perguntar “que banda é essa?!” para coisas que ouvimos serem lançadas no rádio.

Capa da revista Showbizz - De volta aos anos 80

Na reportagem de capa da revista tinha um trecho em que Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, falou: “Hoje você ouve músicas que odiava na época e lembra com saudade de quanto ficava puto com elas”. Na época em que o Bruno disse isso, ele tinha minha idade de hoje, 31 anos, e eu tinha 13. A afirmação ficou na minha cabeça e sempre a releio quando tropeço na revista em arrumações domésticas.

Outra coisa também marcou aquela época entre 1997 e 1999: eu jogava bastante Super Mario Kart no Super Nintendo com meu irmão Alvaro; enquanto isso, um vizinho que morava na frente do prédio em que morávamos ouvia bandas de forró o dia inteiro nos fins de semana. Éramos obrigados pelo vizinho — que se recusava a usar fones — a ouvir Brucelose, Magníficos e Limão com Mel repetidamente durante nossas partidas. Puta merda, eu detestava aquelas músicas.

Caixa do Super Mario Kart

Corta pra 2016.

Às vezes estou em algum canto e começa a tocar alguma música dessas bandas de forró. Sinto uma pontada de abuso, como eu sentia em 1998, mas imediatamente o condicionamento humano entra em ação, ativa a memória afetiva e bate saudade daquela época. Sou tomado por uma vontade grande de jogar Mario Kart com meu irmão e lembro de um bocado de coisas daquelas férias: outros jogos, meu primeiro aparelho de barbear (de quando eu tinha apenas um bigodinho indecente) e por aí vai.

Um dia tropecei numa playlist de forró no Spotify feita pela Camila e até escutei algumas daquelas músicas rindo um pouco, enquanto elas reativavam partes adormecidas do cérebro. Eu não gostaria de voltar no tempo, sempre prefiro o hoje ao passado, mas algumas lembranças são sempre boas.

Aos 13 anos, achei estranha a frase do Bruno Gouveia. Hoje eu gostaria de dar um tapinha nas costas dele e falar sobre como precisamos de uns anos pra entender algumas coisas. Que sentimento difícil e curioso de entender e definir essa “saudade de ficar puto com algumas coisas”.

Altos feitiços e muita azaração

16 de julho de 2009   —   18:45:29
harrypotter

O que você acha que eles estão dizendo?
Ponha nos comentários…

 

“Alem dos perigos que rondam a escola, os adolescentes estao com os hormonios a flor da pele, o que promete muito romance no ar.”

 

Malhação? Não, é um trecho da sinopse de Harry Potter e o Enigma do Príncipe, direto do site do UCI.

Revoluções pessoais

7 de dezembro de 2006   —   06:13:43
“Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder”

(Titãs, em Go back)

Faz tempo que tenho algo pra escrever e não consigo. São aquelas idéias ligadas de algum jeito, mas que não dá pra saber qual é a primeira e qual a última. E esse texto já foi escrito, apagado e reescrito algumas vezes. Ah, sei lá.Só sei que as coisas mudam. E que a gente muda. E que é curioso. Volta e meia me pego pensando num dia aí, pra ser mais exato 11 de junho do ano passado. Eu tava voltando do aniversário duma amiga minha no Cumbuco (pônei!), quando meu amigo que ia dirigindo falava das pessoas que moravam perto de Fortaleza mas trabalhavam na cidade, ou algo do gênero, e falou que podia pensar em fazer algo do gênero quando fosse mais velho, tivesse uma vida financeira estável e coisas como sair à noite todo sábado pro nosso mesmo canto de sempre e que estava em alta entre a gente perdessem a importância.

Na minha cabeça, aquilo não desceu. Soou tão chato pensar numa época dessas, quando ficaríamos em casa, ou tentaríamos algum programa mais light. Naquela época eu havia me surpreendido com um 2 na casa das dezenas da minha idade, eu saía toda sexta e sábado à noite, pedindo dez reais pro meus pais, e coisas como trabalho e um futuro digno não estavam em primeiro plano. Confesso, meio envergonhado.

Mas se a gente não toma jeito, a vida dá lá seus jeitos nisso, e ainda que a gente não perceba, a gente vai evoluindo (felizmente, porque tem gente que caminha pra trás…). Meu rumo na faculdade ficou mais sólido, antes tarde do que nunca, e comecei a trabalhar. Num canto chato pra caralho, mas era trabalho, era dinheiro, era do meu suor. E que suor, porque naquela birosca não tinha nem ar-condicionado.

Ao mesmo tempo, a gente fica meio cansado, e aquela putaria de todo santo sábado perde a graça. A gente começa a olhar até mesmo pro ambiente em que estamos com olhos de estrangeiro, e pensar se é aquilo que queremos a vida toda. E, se a gente não se manca e se esforça pra mudar, não há pai, mãe ou Deus que mude. Aí a gente parte pra outra.

Tem coisa que não dá mais, que vira sacrifício, que a gente tem que abstrair pra não morrer de desgosto. Que, por mais que a gente nunca tenha estado dentro, parece melhorar estar do lado de fora. E fica chato conviver com quem faz da bebida muleta, ou não tem diversão; com quem tem que beijar, senão não é festa; com revolucionários de mesa de bar e com quem apela pras drogas como forma de alívio pra tudo que nunca vai acabar. Tão preciosos alívios nunca vão acalmar nossa angústia interior, não vão resolver problemas, não vão preencher nossos vazios, não vão nos fazer realmente felizes e não vão trazer a paz que cada um de nós procura e que a gente transfere pra tanta coisa volátil e desnecessária.

O que resolve problema, o que alivia, o que muda situação é se mexer. Virei alguém que cansou de apenas sonhar pra começar a brigar pelos sonhos, e que quando tava no vale da sombra e da morte aprendeu a ser otimista, ainda que sem motivos (e não é aí que está o otimismo?). E percebi, ainda que devagar, se a gente brigar um pouquinho por nós todo dia, as coisas vão se encaixando.

São essas as coisas que a gente aprende, às vezes sendo necessárias algumas perdas para tanto. Tenho uma alma que já levou muita porrada, e que talvez ainda vai levar muitas. Mas que cresceu, e aprende cada dia melhor onde se meter e onde não, que sabe onde mora comodismo, conformismo e armadilhas, e qual caminho leva adiante.

Tô em outra.

30 de abril de 2006   —   11:56:37

No alarms and no surprises

Trilha sonora recomendada:
Radiohead – No surprises
Muse – Hysteria
Chico Buarque – O que será
Eu prefiro chuva ao sol, sabe? na verdade, não precisa nem da chuva, o que não aguento é o calor. Dia bom pra estar numa praia mais vazia, sentado na areia. ainda que com a chuva. Mas isso que tenho talvez seja porque tempo frio e praia lembre de quando tive em Florianópolis, não apenas pelo fato de eu realmente gostar. Passei um tempo sentado numa duna lá, sozinho, pensando como eu estava bem, e estava “limpo”, porque tinha tirado da cabeça um monte de problemas e tava meio que recomeçando do zero comigo mesmo. Ali, nada importava, mas eu sentia algo que deve ser o que chamam por aí de paz de espírito.

Meses atrás, num desses dias chatos em que a vida não parece tomar rumo nenhum, um amigo meu – Alex, cadê você? – disse que eu precisava ver um pôr-do-sol. E lá fora tá caindo uma chuva grossa daquelas, não dá pra ver direito os prédios a dois quarteirões daqui, e algo me faz falta e eu não sei o que é, sei que está numa duna distante duma praia do sul e eu queria agora. Mas como disse a Joana agora há pouco, momentos como esses parecem valer pra vida toda; a gente sente falta deles, mas eles vêm sozinhos, na hora certa… sabem o caminho.

E você quer ler um livro, quer ver os amigos, ou simplesmente ficar na sua sem pensar em nada, mas tem 472 milhões de coisas na sua cabeça te consumindo e você não sabe o que fazer com elas. A chuva tá caindo mais grossa ainda lá fora, você – eu – solta uma risadinha forçada pensando quando vai cair a primeira pedra de granizo na sua janela… mas você tá suando dentro do quarto, dá pra sentir o coração batendo pesado e o peito oscilando, tá passando alguma coisa sem graça na TV, você quer sair dali mas não sabe pra onde nem como, tem outras coisas pra fazer e não há um pingo de disposição batendo no vidro.

No meu minúsculo tempo livre, tô tentando ler os livros que estão pela metade. Uns eu nem sei por que parei de ler, outros me lembram alguma época chata por que passei quando estava lendo e me causam alguma repugnância. Livros pela metade numa prateleira são pendências e pendências – livros abertos esperando duma conclusão – não me fazem bem.

Ê domingo chato.

26 de abril de 2006   —   12:31:41

Yes stress
É mais fácil achar um político honesto em Brasília que tempo livre na minha agenda. Tem sido assim nos últimos meses, e o amigo leitor já deve ter percebido. Meus amigos perceberam e constantemente escuto pessoas dizendo que estou sumido.

Não é por menos, vejam só que maravilha meu cotidiano: da casa pra faculdade, da faculdade pro inglês, aí engulo alguma coisa que deveria se chamar almoço, corro pro estágio e, umas sete da noite, volto pra casa devidamente moído. Aí não aguento mais olhar pra computadores, quero comer, deitar, tomar um banho… aí tenho que estudar também, e resolver alguma coisa que tenha ficado pendente durante o dia.

Aí chegam os fins de semana, certo? Errado. Alguns sábados de manhã acabam indo parar em horas extras do estágio pra faturar algum dinheiro extra. Aliás, dinheiro é um treco que vicia. Quanto mais você ganha, mais você quer ganhar. Quando você percebe, está engrossando as fileiras das pessoas que estão perdendo saúde pra ganhar dinheiro, e que daqui a uns anos estarão perdendo dinheiro pra ganhar saúde.

No sábado à tarde, até meados de julho ou agosto, estarei ocupado com um curso. Sim, curso sábado à tarde, pra ter um item a mais no currículo e um emprego melhor daqui a um tempo. Sacrifício, investimento, loucura, tem vários nomes. Quando penso no horário e no cansaço, é sacrifício. Quando penso no emprego que posso ter daqui a um tempo, é investimento. Quando lembro que tenho hobbies, amigos e sono, eu chamo de loucura.

Como se não bastasse, parece que mexer mais com computadores acaba diminuindo a inspiração da gente. Deve ser por isso que a maioria da turma da faculdade não escreve bem e assassina a língua-mãe, mas faz conta que é uma beleza.

E assim, pouco a pouco, a gente vai pirando. Mas qualquer dia escrevo mais alguma coisa aqui.