20 de setembro de 2005   —   12:53:55
Este texto é a história duma pessoa que brigou com o tempo, com a dor, consigo mesmo.
É o primeiro dia da história de alguém que reaprendeu a viver, a sorrir, a lidar com as coisas, a gostar de si.
Leiam ele com carinho, levou tempo pra escrevê-lo, pra ter coragem pra tanto.

Para todos aqueles que oferecem a alguém perdido um ombro.
Para aqueles que ofereceram.

A primeira manhã de um homem sozinho

“Você chorará; a seus lábios virá o nome da amiga que você deixa, e às vezes seu pé se deterá no meio do caminho. Mas quanto menos você tiver vontade de partir, mais você deve pensar em partir. Persista e force seus pés a correr, apesar de não quererem. (…) Não pergunte quantas milhas você percorreu, mas quantas faltam a percorrer”
Ovídio, em A Arte de Amar

 

Ele andava por uma calçada irregular, a passos lentos. Sentia alguma fraqueza, parecia ter perdido a força vital de que os cientistas de antigamente falavam, e carregava nas órbitas oculares um olhar fosco. Os olhos perderam o brilho não fazia muito tempo, e agora estavam direcionados para o céu, como quem busca uma resposta divina, ou talvez olhassem para cima por acaso. Não importava. Nada mais importava.

Sentia frio. Fazia um pouco de sol, é verdade, não era o dia mais quente, naturalmente não haveria razão para tanto. Mas sentia frio. Um frio que vinha de dentro pra fora, um frio que algumas pessoas conhecem muito bem. Olhou para o céu, e viu as nuvens. As nuvens o deixaram com medo, muito medo. Elas faziam parte de um sonho, um sonho desfeito. Como a chuva. Um banho de chuva. E teve pânico quando pensou na chuva. Imaginou-se sob a chuva, caso ela viesse. Ela seria ácida, e viria corroendo sua pele e seus ossos, desgastando seu corpo, que se derreteria, se dissolveria.

Lembrava o tempo todo das palavras que ela dissera há cerca de doze horas, de como elas pareciam sem sentido e de como as coisas perderam o sentido após ouvi-las. Aquilo apertava-lhe o coração, sentia uma angústia, uma dor. Só ele e Deus sabiam o que acontecia dentro dele agora. Era uma dor que não cabia em si, que não cabia nele, como algo que se guarda em um recipiente incompatível, insuficiente, apertado, pequeno, mas que mesmo assim era guardado. E era fabuloso como era necessário tanto espaço… apenas pra comportar um grande vazio.

Na dinâmica dos fluidos aplicada à vida, quando algo sai do lugar, alguma coisa tem que preencher aquele espaço que estava preenchido anteriormente. O homem mais feliz do mundo não andaria mais em Pasárgada e agora tinha como nova companheira aquela dor enorme, e sabia que ela o seria por um tempo indeterminado. Precisaria matar aquele tempo. Pensava no que faria nas próximas horas, precisava ocupar-se até a hora de dormir, quando enfim seu corpo repousaria. E quando acordasse no dia seguinte, o que faria? E no próximo? E no próximo? A nossa cultura diz que o tempo tudo resolve, mas ninguém nunca disse quanto tempo. Mas sabia que precisava matar o tempo. Quanto tempo? Quanto tempo, meu Deus?

Continuou sua caminhada, parecia competir com o tempo para ver quem andava mais devagar. Pressa pra quê? Mas uma hora chegou na parada do ônibus. Pegou um ônibus, observava as mulheres no ônibus e nas ruas, tentava sentir alguma coisa, mas até as que racionalmente seriam as mais bonitas agora estavam completamente sem graça. Não serviam. Não serviriam. E a cada olhar forçado, sua mente lhe devolvia um nome. É, elas não serviam. E não adiantaria insistir.

Iria pra casa empurrar algo goela abaixo, iria se encontrar com um amigo logo em seguida. Precisava preencher todo seu tempo, sufocar o desespero. Depois, não saberia o que fazer. Pensaria nisso depois. E assim as horas passariam, esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar. A pior sensação que existe surge numa sequência de formação a partir da negação dum elemento anterior, da negação da esperança. Estava consumido pela pior sensação de qualquer universo: a desesperança. Na forma dum olhar fosco.

Era a primeira manhã de muitas outras que viriam. Era a primeira manhã do resto da sua vida. Do resto dos restos da sua vida.

31 de julho de 2005   —   04:52:27


 
All your seasick sailors, they are rowing home.
All your reindeer armies, are all going home.
The lover who just walked out your door
Has taken all his blankets from the floor.
The carpet, too, is moving under you
And it’s all over now, Baby Blue.

(Bob Dylan, em And it’s all over now, Baby Blue)
 
 
E foi então que as férias acabaram. As férias esperadas, as férias desesperadas. Mudanças bruscas de planos, adaptações urgentes, socos na boca do estômago, pauladas no joelho, chutes no rosto e tudo, tudo totalmente diferente do que eu planejava.

Dias cheios. Foi bom conhecer novas pessoas e conhecer melhor as mesmas velhas pessoas, dividir bons e maus momentos, virtudes e problemas. Filmes, livros, amigos, parentes, abraços, ombros, viagens, fotos, areia, mar, insônia, muita insônia, lugares novos, lembranças, despedidas, lágrimas… e por que não falar de alguns risos, como um intervalo de paz num meio duma guerra interminada e interminável? Talvez soldados contem piadas nas trincheiras.

Caberiam muitos meses da minha “vida comum” no mês de julho que se encerra. Outro mês seria necessário, mas a vida não pára e amanhã lá estamos nós de novo.

21 de novembro de 2003   —   07:59:58

Saudade é bom sentimento,
Maldade é esquecer.

Nessa foto aí em cima estamos eu e a Lucía, essa pessoa cativante, alegre e cheia de energia positiva. Conheci ela há pouco mais de dois meses, e, dias depois, soube da notícia de que ela iria embora em dois meses. Bem, esse tempo passou depressa e a Lucía vai embora amanhã de volta pra Argentina, de onde saiu há quatro anos.

Poucas vezes a vi pessoalmente, estive ao lado dela não mais que algumas horas. Conversamos pouco também, mas deu pra conhecer alguma coisa dela e saber muita coisa bacana. Talvez ela nem lembre disso, mas ela soube, por vezes, dizer o que eu precisava ouvir sem sequer eu pedir por isso. Foi pouco tempo, sim, mas o suficiente pra se tornar inesquecível.

Escrevi por aqui sobre ela há um tempo, onde inclusive citei os dois versos que hoje servem de título pra esse texto. Saudade é bom sentimento, maldade é esquecer. Não sei se lamento o azar dela já ir embora ou comemoro a sorte de conseguir tê-la conhecido, e acima dessa dúvida boba está a certeza absoluta de que sentirei saudades.

A Lucía conquistou minha amizade e meu respeito. Por aqui ela será sempre bem-vinda e encontrará um lugar seguro no coração de todos nós, e nessa hora não falo apenas por mim, mas assumo o nome de todos que tiveram a oportunidade de ser amigos dela, e sei que essas pessoas vão assinar embaixo.

Quem disse que ia ser fácil? No meio de algumas lágrimas, deixo aqui a minha mensagem de despedida. Tchau Lucía… Tudo de bom daqui pra frente! Qualquer coisa estamos por aqui; longe, mas estamos. E, mais uma vez em nome de todos nós, obrigado por tudo.

Here comes the sun, tchutchuru!

6 de novembro de 2003   —   08:42:43

Sol visto daqui de casa

Aí em cima está uma foto que tirei da cobertura daqui de casa há umas semanas. Eu acho bonito o tom do céu às 4:30 da manhã, um tempo antes do sol nascer. Tentei tirar uma foto mas como não sou muito bom fotógrafo, o melhor que consegui foi essa foto aí depois das cinco, que não deixa de ser bonito também.

A primeira vez que lembro de ter visto o céu essa hora e ter achado bonito foi uma vez que voltei tarde (ou seria cedo?) pra casa em maio de 2000, quando voltei duma ida à Praia de Iracema. 2000 foi o melhor ano da minha vida e em 2003 eu vou repetir a dose. :)

Se você é como eu e liga pra pieguices como olhar o céu, quando virar a noite não deixe de olhar pra cima às 4 e meia, cinco horas, é bonito e menos banal que ver o sol se pôr, e quem sabe seja até mais romântico?

Bem, taí a dica. :)

Obs. 1: Eu podia citar “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã…” mas em todo blog tem isso, já perdeu foi o sentido, nah, não aguento mais…
Obs.: 2: Tirar fotos do sol podem detonar a câmera se você apontar muito tempo. CUIDADO se for fazer o mesmo. Obrigado pro Victor (o do topete) e pro Duílio. :)

Me dê aqui um abraço

26 de julho de 2003   —   02:31:39
Há uns meses venho reparando em algumas coisas:

As pessoas no elevador sempre tão olhando pra cima, pra baixo, só não olham pros lados. Elas têm medo de ter algum contato social.

As pessoas nos ônibus nunca sentam ao lado de outras se têm um banco vazio. Fora o medo de serem assaltadas, elas têm medo de ter algum contato social.

Algumas pessoas têm medo de retribuir a um abraço. Você vai de braços abertos em direção a elas, e elas ficam paradas. Aí você tenta disfarçar e fica na merda. Algumas acham que abraço é sinal de segundas intenções ou algo do gênero, e preferem não retribuir ao abraço. Mando aqui meu abraço pra Natalia, que sabe dar um abraço reconfortante. E mando um abraço pro Igor também, que em 2000 fez a campanha “Me dê aqui um abraço”, em favor da popularização do abraço.

O beijo no rosto na hora de cumprimentar alguém mais parece beijo na orelha. Você só sabe que o beijo existiu porque escutou o barulho dele. De todas as amigas que tenho, poucas as que realmente dão um beijo no rosto. Quando conheci a Aninha que ela me cumprimentou, a primeira coisa que reparei é que ela realmente beija o rosto, e isso faz a diferença.

Pra vocês que me lêem, um abraço e um beijo. Sem segundas intenções, antes que alguém fique com medo e não retribua…