Há alguns meses, conheci o Camilo no trabalho. Ele era líder técnico do meu projeto; um profissional de bons atributos, que sabia a hora de ouvir e falar, que sabia comunicar-se bem com o cliente e tinha bom jeito em reportar-se à equipe.
O Camilo, porém, optou pela carreira de professor do curso de Engenharia de Software da UFC, no campus de Quixadá, universidade de onde deixei de ser aluno do curso de Computação (em Fortaleza) há alguns meses, não sem algumas cicatrizes. E ele já chegou recebendo bons retornos para seus ensinamentos, por mais simples que sejam:
"professor, segui seu conselho, me matriculei num curso de inglês" #naoTemPreco
Não pude deixar de dar os parabéns pelo bom trabalho ao Camilo… à minha maneira:
Com @ccalmendra, o número de professores bons na Computação da UFC se aproxima de meia dúzia! FORÇA, AMIGO!
O professor Miguel Franklin, também pertencente ao departamento de Computação, e do qual não cheguei a ser aluno, se manifestou no dia seguinte:
@esdrasbeleza certeza que está sendo justo?
Respondi o professor, dando os curtos argumentos que o twitter me permitia, de forma resumida:
@mfcastro, o conceito de "professor bom", pra mim, é aquele preocupado com a formação do aluno e menos com o ego. Conheci poucos. :(
Sendo mais claro, dando alguns atributos:
@mfcastro professor bom, pra mim, é aquele que passa motivação, com didática e não terrorismo. Um título de PhD não vale sem isso. Concorda?
Mas pensei: “Nunca tive aula com o Miguel, eu não poderia incluí-lo dentro ou fora disso e isso realmente soa injusto”. Usando menos do humor negro e tentando desfazer uma generalização causada por resumo das ideias, tentei explicar melhor minha colocação (assassinando um pouco os bons princípios de ortografia para conseguir fazê-la caber em 140 caracteres):
@mfcastro, posso fazer minha colocação soar - radical e + clara: dos professores *que conheci* na Comp. da UFC, considero poucos bons.
Mas twitter é microblogging, e uso meu blog, que é um espaço menos limitado, pra manifestar melhor minha opinião.
O que faz um bom professor? Como todo bom profissional, eu acho que um bom professor deve saber motivar aqueles que dependem dele. No caso do professor, deve fazer um aluno se interessar por aprender, mostrando os horizontes e as novas possibilidades que os assuntos estudados podem lhe abrir. O bom professor deve auxiliar o aluno com dificuldades, tornando seu caminho mais claro, dando luz às ideias. Tanto é que, em alguns cursos e palestras, o professor é chamado de facilitador.
Leia as seguintes frases:
Sofrimento, raiva, desistência… Isso soa motivacional? Até o Capitão Nascimento ficaria assustado.
Todas as frases acima foram ditas por professores para mim, para colegas específicos ou para a turma. Isso não me soou como motivação. Me parece, como falei no meu tweet, problema de ego: a pessoa tem um pouco de autoridade e precisa usá-la ao extremo, demonstrar o poder que seu título de PhD e seu cargo de professor lhe trazem.
Mas nem tudo é ruim. Tive lá alguns professores que sabiam ensinar, que sabiam motivar, que sabiam cumprimentar alunos no corredor. Com alguns tento manter contato até hoje e tive sagrados ensinamentos, alguns não apenas sobre Ciência da Computação, mas sobre a vida. Conheço alguns amigos que vão terminando seus mestrados e doutorados e voltam para a universidade no papel de professores. Se o que eles me dizem estiver certo, eles estão fazendo de lá um lugar melhor e quebrando esse ciclo de mastigação da autoestima discente.
O Camilo conseguiu incentivar um aluno a fazer um curso de inglês, algo fora da universidade, para que isso tivesse um retorno para sua vida como aluno e profissional. É uma porta que se abre. Fica, então, a pergunta para os demais professores: por que fechar portas se você pode abri-las?
Agora me digam como arrumo tempo pra tudo isso, sim? Por mais apertado que pareça, porém, a perspectiva é otimista.
Já ouvi essa música muitas vezes, mas sem nunca dar a devida atenção ao trecho. Diabos. O “e se” é a melhor maneira possível de torturar a própria mente, e não é de hoje que sei que “se” é a palavra mais destruidora da nossa língua.
Olhar pra trás e lamentar minhas escolhas não adianta. Olhar pra frente, além de ser solução, é a única opção viável. É usar os limões que a gente tem hoje pra fazer a limonada, ainda que amargados pelo tempo.
Numa dessas folheadas, vendo aquela seção de citações que tem em toda revista tipo Veja/Época/IstoÉ/CartaCapital, achei a citação foda do John Lennon, na edição de Nº161 da revista Época, datada de 18 de junho de 2001 (e cuja capa era sobre a doação de órgãos de Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, morto dias antes num acidente com um motoqueiro, lembra?).

Na época eu estava na fase mais workaholic dos últimos anos, estudando muito, trabalhando com dois meses de pagamento atrasado e saindo pouco. Ver a frase do John Lennon – tradução dos versos “Life is just what happens to you/While you’re busy making other plans”, da música Beautiful boy (Darling Boy), escrita para seu filho Sean – naquele dia foi uma porrada. Pedi para ficar com a revista, que achei dia desses, enquanto arrumava meu quarto.
Já fui muito relaxado e já fui maníaco por resultados e cumprir objetivos. Nenhum dos lados vale a pena: em ambos você não vive, vegeta. Num lado você espera as coisas caírem do céu, no outro você acaba cansado demais para alcançar qualquer coisa. Nessa época onde a faculdade quer sugar cada gota de sangue e as ofertas de trabalho andam ótimas, é sempre bom reencontrar a citação do John Lennon, parar um pouco e tentar equilibrar o foco das coisas. E eu tento, todo dia, lembrar das palavras de Buda e Lennon e ter em mente como realmente deve parecer nossas vidas: um caminho equilibrado.
Essa semana eu estava estacionando perto do trabalho, fazendo uma balisa como manda o figurino: sinalizei antecipadamente, parei logo após a vaga e comecei a dar a ré para estacionar. Eis, então, que um belo sedã prateado invade a vaga com tudo, me deixando com uma cara de eu-não-acredito-nisso olhando o retrovisor, diante de um dos maiores exemplos de má educação que já presenciei nos meus breves quatro anos de condutor.
Dei a volta no quarteirão, parei numa vaga mais distante (a única disponível), e andei pela calçada até me aproximar do veículo mal educado. Esperei o condutor sair: uma senhora em torno de 50 anos, mal humorada e berrando com alguém ao celular. Como não era alguém que pudesse me bater numa briga e nem parecia portar um 38 dentro da roupa de perua que ela usava, tentei um diálogo, fria e educadamente, tentando não transparecer minha raiva:
– Moça, com licença, boa tarde. Tudo bem?
– Hein? Tudo, o que é?
– Oi, é que eu estava parando meu carro nessa vaga, estava dando a ré pra entrar, sinalizando, quando você invadiu ela. – Perdoem-me por ter falado “invadiu ela” e não “a invadiu”.
– Não! Eu estava entrando na vaga, já tinha sinalizado, quando um carro ia roubar a vaga. Era seu o carro?
– Era.
– Então, eu já tinha sinalizado e tudo, você que ia invadir a vaga!!! – Ponha aqui uma pitada de fúria, mau humor e quantas exclamações forem possíveis na fala da dona.
– Ok, apenas tome cuidado da próxima vez. – Encerrei, percebendo que ela não tinha ninguém com problemas de saúde precisando de socorro e também não ia reconhecer a falha e me pedir desculpas.
– Não, você que ia roubar minha vaga e…
Não sei até agora como eu, que vinha na frente dela, estava roubando a vaga. Sem saco pra prolongar uma discussão infrutífera, fui embora em direção ao trabalho. Até o flanelinha que viu tudo comentou comigo depois a má educação da dona. Ela foi embora em outra direção, resmungando e fazendo gestos de reprovação, certamente me culpando pelo dia ruim dela ou pela vida frustrante que ela tem e desconta no resto do mundo, achando que caixas de metal são sacos de pancada.

Não tenha dúvidas que quando eu ficar rico vou gastar horrores comprando os famigerados bloquinhos de montar. Sem contar, óbvio, nas edições especiais do Lego, como Lego Star Wars (no JáCotei tem uma lista com alguns e seus preços, fique à vontade pra me dar de presente, sim?).

Numa dessas noites, antes de dormir, comecei a elaborar a lista mental de chatices de fim de ano:
Hoje um desses chatos me ligou. Meus conhecimentos budistas dizem pra você se pôr no lugar da pessoa antes de sentir algum sentimento negativo por ela, lembrar que ela também é uma pessoa como você, etc. Não consigo sentir isso por algumas pessoas, e operadores de telemarketing que não sabem o que é um "NÃO!" estão entre elas.
Hoje, pela primeira vez, me livrei de um operador de telemarketing facilmente.

Esse é meu iate, com mulher e tudo.
Eu não apareço porque tô no meu helicóptero tirando a foto.
Foi na hora do almoço, péssima hora pra telefonemas. Era pro sr. Êsdras Beleza de Noronha, na verdade.
– Alô? É o sr. Êsdras Beleza de Noronha (sic)?
– Oi. Sou eu.
– O senhor está podendo atender?
– Sim. – Se eu dissesse não, ele ligaria outro dia e aporrinharia do mesmo jeito.
– Senhor, aqui é da Credicard Citi. Tudo bem com o senhor, senhor Êsdras?
– Oi. – Fiz questão de responder a pergunta assim só pra ser chato.
– Que bom, senhor Êsdras! – Acho que minha resposta não tava no script dele, então ele usou a única resposta que tinha.
– Diga.
– Senhor, nós vimos que você tem sido um ótimo cliente do cartão [nome completo do meu cartão de crédito, umas 8 palavras, nem sabia que o cartão tinha um nome tão grande] há quatro anos, e decidimos lhe oferecer um plano de capitalização!
– Não me interessa.
– Mas senhor, você sabe as vantagens do plano de capitalização?
– Não me interessa.
– Senhor, um milhão de reais HOJE mudaria sua vida? – Repare na ênfase no "hoje".
– Um milhão de reais? Eu podia vender meu iate e conseguir isso. – Friamente, como quem não se perturba com um milhão.
– Tudo bem, senhor. Tenha um bom dia.
Fácil, fácil.
Às vezes bate uma sensação chata, talvez a realidade dando pauladas na minha nuca. Tudo bate numa coisa chamada dinheiro, e no fundo eu estou lutando por ele sempre. 24 horas por dia. 7 dias na semana. Sonhar é romântico, mas todo sonho e toda realização têm, na sua essência, uma certa ligação a dinheiro. E quanto mais brigo pra tentar encher os bolsos nem que seja a médio prazo, mais pobre de espírito me sinto. A vida tem mostrado, dum jeito chato, que o que move o mundo é dinheiro…
Não, não virei comunista. Apenas sinto falta de quando eu pedia dez reais pros meus pais, encontrava meus amigos e voltava feliz pra casa. A vida adulta é um saco, mas não posso passar a vida toda pedindo dez reais e essa é a realidade. Menos abraços, mais suor.
Por vezes ao dia sinto falta dum abrigo, de um lugar onde eu possa descansar sem ser descoberto. Sem cobranças, sem ordens, sem obrigações, sem barulho. Queria apenas lembrar que estou vivo e conseguir relaxar a mente e sentir o espírito. Quando a gente pensa que vai ter descanso, a vida vem e dá uma rasteira na gente, e já é hora de lutar de novo, com mais força… Isso cansa.
Queria dar menos o cano nos amigos, mas sempre tem um empecilho, uma obrigação, e tenho que correr pra me formar, ter um emprego legal, ter um currículo bom, poder dar alguma coisa pra quem já me deu tanto, recuperar o tempo perdido, me limpar de qualquer conformismo que venha a surgir do chão querendo se prender aos meus pés.
O tempo tem me deixado amargo, workaholic, sem assunto, afastado das coisas que acalentam o coração. Tornei-me um alienado, cheio de conversas sérias, usando muito a cabeça e pouco o espírito. O relógio corre depressa e penso se estou aproveitando bem: coisas que fiz ontem já têm semanas, textos tão recentes têm dois anos.
Só espero sentar um dia, a médio prazo, olhar pra trás e poder falar que tudo valeu a pena.
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