Isso é Brasil

13 de setembro de 2010   —   00:11:36

Há poucas horas, saí pra jantar com minha namorada e a família dela, pra uma pizzaria que fica na Varjota, bairro aqui de Fortaleza. Não vale a pena citar o nome aqui porque não quero prejudicar a pizzaria, que não tem nada a ver com isso. Isso nem importa, já que pro que vou relatar não existe lugar seguro.

Estávamos quase pedindo a conta quando escutamos um barulho de tiro vindo da rua, e um casal entra às pressas, a mulher em pânico. Pelo que entendi, uma caminhonete passou muito rápido pela rua da pizzaria e o homem do casal gritou pra caminhonete, reclamando da velocidade. Imediatamente o vidro da caminhonete abriu e alguém de dentro dela disparou um tiro pro alto.

Ora, se alguém disparou um tiro pro alto tão logo recebeu um grito vindo da calçada, essa arma só podia estar engatilhada e pronta pra atirar. Não sei e nem sei se vou saber se isso se trata de alguma brincadeira de péssimo gosto ou se o(s) ocupante(s) da caminhonete estava envolvido em algum crime, mas qualquer explicação para isso é assustadora.

Minutos depois, a calmaria no restaurante foi restabelecida. Porque nós já sabemos, aqui no Brasil, que qualquer um que ponha o pé fora de casa está propenso a isso. Comigo já é a segunda vez que estou comendo em algum lugar e escuto o barulho de tiro seguido de pânico.


Na época das eleições, uma frase bem batida é “odeio política”. Porque brasileiro odeia impostos, odeia insegurança, odeia corrupção. Mas quer dar um jeitinho em tudo, quer parar o carro em local proibido, quer ouvir música nas alturas e o vizinho que se foda, e na época das eleições enche a boca pra falar “odeio política”. Amigo, odeie até os políticos, mas não odeie política, sim?


Passei no supermercado antes de vir pra casa e vi a capa da Época:


Quando chego em casa, está tendo debate na TV dos quatro presidenciáveis que lideram as pesquisas. Muito discurso político, muita promessa, “vamos investir em segurança”, “fazer um país melhor para as crianças”… E eu só consigo pensar em como tudo aquilo é balela pra ganhar votos. A atual gestão do governo estadual do Ceará, que prometeu colocar uma nova polícia cheia de viaturas nas ruas, só fragmentou a polícia e multiplicou notícias de acidentes de carro envolvendo viaturas.

Porque não basta colocar polícia na rua: tem que fazer a polícia funcionar, pegar o bandido, colocar na cadeia, e ele não sair de lá enquanto não estiver apto ao convívio social. Acabar com a impunidade. Tem que dar ao povo educação de qualidade, porque educação é a base de tudo, mas como sabiamente disse o Alexandre Garcia essa semana na TV, o candidato a presidente da eleição passada cujo foco estava na educação obteve 2% dos votos (o candidato em questão é o atual senador Cristovam Buarque, e foi dele meu voto para presidente na época).

Um candidato qualquer a deputado estadual encheu as ruas de Fortaleza com placas onde está escrito “a favor da pena de morte”. O Brasil tem um poder judiciário que nem funciona e onde vivem jogando inocentes na cadeia, agora imagina eles sendo condenados à morte! Não, não dá.

Meu sentimento, nessa época de eleições, tem sido de total descrença: um monte de promessas, candidatos despreparados, políticos que outrora foram grandes expoentes fazendo propaganda de candidatos que não dá pra levar a sério.


Lembra da frase atribuída a Olga Benário Prestes, “Estou grávida de Luis Carlos Prestes e vou ter meu filho no Brasil”? Meu colega de trabalho Vinícius, no auge de seu humor ácido, comentou sobre ela: “Acho duma deselegância ter filho no Brasil”. Não sei se é pelos mesmos motivos que ele falou isso, mas eu, sinceramente, concordo com ele. Eu não colocaria uma criança num país desse.

A vontade que tenho, atualmente, é de trabalhar e estudar para, em alguns anos, tentar a vida em algum país sério, onde eu possa andar à pé na rua, ir de bicicleta pro trabalho, onde eu pague meus impostos mas receba algo em troca do governo. Quero levar ao pé da letra o antigo bordão da época dos anos de chumbo do presidente Médici, “Brasil: ame-o ou deixe-o”, porque eu não gosto de amor não-correspondido.

Duvido muito que o país melhore em pouco tempo, então mais rápido é se esforçar pra fazer minha revolução pessoal e tentar morar num país que preste dentro de alguns anos. Não tem patriotismo que me faça superar o medo de sair à pé e ser assaltado ou receber uma bala ao sair pra jantar. É mais fácil e mais rápido se mandar daqui, e sugiro isso a qualquer pessoa que possa fazê-lo hoje. A máquina do Estado não será consertada tão cedo.

Quando escuto um tiro que é esquecido logo em seguida, quando vejo alguém furando uma fila, um carro grande no trânsito cujo motorista se acha melhor que os outros, a capa das revistas semanais falando do nosso sistema burocrático, só me resta pensar “Isso é Brasil…” e tentar esquecer em seguida, como bom brasileiro.

O que faz um bom professor?

20 de agosto de 2010   —   09:51:00

Há alguns meses, conheci o Camilo no trabalho. Ele era líder técnico do meu projeto; um profissional de bons atributos, que sabia a hora de ouvir e falar, que sabia comunicar-se bem com o cliente e tinha bom jeito em reportar-se à equipe.

O Camilo, porém, optou pela carreira de professor do curso de Engenharia de Software da UFC, no campus de Quixadá, universidade de onde deixei de ser aluno do curso de Computação (em Fortaleza) há alguns meses, não sem algumas cicatrizes. E ele já chegou recebendo bons retornos para seus ensinamentos, por mais simples que sejam:

"professor, segui seu conselho, me matriculei num curso de inglês" #naoTemPreco
@ccalmendra
Camilo Almendra

Não pude deixar de dar os parabéns pelo bom trabalho ao Camilo… à minha maneira:

Com @ccalmendra, o número de professores bons na Computação da UFC se aproxima de meia dúzia! FORÇA, AMIGO!
@esdrasbeleza
Esdras Beleza

O professor Miguel Franklin, também pertencente ao departamento de Computação, e do qual não cheguei a ser aluno, se manifestou no dia seguinte:

Respondi o professor, dando os curtos argumentos que o twitter me permitia, de forma resumida:

@mfcastro, o conceito de "professor bom", pra mim, é aquele preocupado com a formação do aluno e menos com o ego. Conheci poucos. :(
@esdrasbeleza
Esdras Beleza

Sendo mais claro, dando alguns atributos:

@mfcastro professor bom, pra mim, é aquele que passa motivação, com didática e não terrorismo. Um título de PhD não vale sem isso. Concorda?
@esdrasbeleza
Esdras Beleza

Mas pensei: “Nunca tive aula com o Miguel, eu não poderia incluí-lo dentro ou fora disso e isso realmente soa injusto”. Usando menos do humor negro e tentando desfazer uma generalização causada por resumo das ideias, tentei explicar melhor minha colocação (assassinando um pouco os bons princípios de ortografia para conseguir fazê-la caber em 140  caracteres):

@mfcastro, posso fazer minha colocação soar - radical e + clara: dos professores *que conheci* na Comp. da UFC, considero poucos bons.
@esdrasbeleza
Esdras Beleza

Mas twitter é microblogging, e uso meu blog, que é um espaço menos limitado, pra manifestar melhor minha opinião.

O que faz um bom professor? Como todo bom profissional, eu acho que um bom professor deve saber motivar aqueles que dependem dele. No caso do professor, deve fazer um aluno se interessar por aprender, mostrando os horizontes e as novas possibilidades que os assuntos estudados podem lhe abrir. O bom professor deve auxiliar o aluno com dificuldades, tornando seu caminho mais claro, dando luz às ideias. Tanto é que, em alguns cursos e palestras, o professor é chamado de facilitador.

Leia as seguintes frases:

  • “Comigo só passa se sofrer”;
  • “Se o aluno está achando isso aqui difícil, é melhor ele ir pra [nome de uma das faculdades particulares mais conhecidas de Fortaleza, achei melhor omitir];
  • “As médias da turma subiram nessa prova, vou fazer a próxima mais difícil”;
  • “Eu estou aqui pra fazer raiva a vocês, pra vocês quererem se livrar de mim e estudarem pra passar”;
  • “Não quero que você fique triste com essa nota baixa, quero que fique com raiva e estude”;
  • “Se vocês pensam que vão ganhar dinheiro com isso [Computação], desistam”.

Sofrimento, raiva, desistência… Isso soa motivacional? Até o Capitão Nascimento ficaria assustado.

Todas as frases acima foram ditas por professores para mim, para colegas específicos ou para a turma. Isso não me soou como motivação. Me parece, como falei no meu tweet, problema de ego: a pessoa tem um pouco de autoridade e precisa usá-la ao extremo, demonstrar o poder que seu título de PhD e seu cargo de professor lhe trazem.

Mas nem tudo é ruim. Tive lá alguns professores que sabiam ensinar, que sabiam motivar, que sabiam cumprimentar alunos no corredor. Com alguns tento manter contato até hoje e tive sagrados ensinamentos, alguns não apenas sobre Ciência da Computação, mas sobre a vida. Conheço alguns amigos que vão terminando seus mestrados e doutorados e voltam para a universidade no papel de professores. Se o que eles me dizem estiver certo, eles estão fazendo de lá um lugar melhor e quebrando esse ciclo de mastigação da autoestima discente.

O Camilo conseguiu incentivar um aluno a fazer um curso de inglês, algo fora da universidade, para que isso tivesse um retorno para sua vida como aluno e profissional. É uma porta que se abre. Fica, então, a pergunta para os demais professores: por que fechar portas se você pode abri-las?

La-la-la-la-life goes on

12 de fevereiro de 2010   —   02:32:54
E a vida segue seu curso: emprego novo, rotina nova, coisas novas pra aprender. O futuro, que já começou, é simples e claro:

  • Trabalhar: posso dizer que sou feliz com minha profissão. Sou reclamão pra caramba, detestei minha faculdade mas só levei ela até o fim porque gosto do meu trabalho. E, pelo que os últimos dias têm apontado, estou otimista de estar trilhando um bom caminho.
  • Voltar a pedalar: não é de hoje que os amigos e/ou meia dúzia de leitores sabem do meu hobby, que ficou de lado em 2009 e retomo aos poucos em 2010. E assim minha ansiedade diminui um pouco e a diabetes vai se controlando melhor.
  • Ler mais livros: tenho uma pilha de livros de todos os tipos e tamanhos se acumulando há anos, esperando para ser lida. Pouco a pouco ela vai diminuindo. Sempre lembro do meu antigo professor de português do pré-vestibular, Carlos Augusto Viana, que aconselhava: quem não lê se torna um profissional medíocre.
  • Ver mais filmes: também tenho um monte de filmes atrasados. Tenho uma lista enorme de filmes que todo mundo já viu, menos eu (pelo menos já vi Jurassic Park e De Volta Para o Futuro).
  • Jogar: infeliz daquele que não reconhece o valor dos video games ou que pensa que é coisa de criança.
  • Viajar: não sei como nem pra onde, mas viajar é preciso e sinto uma vontade lascada. Dá um aperto no peito toda vez que vejo um avião.
  • Namorar: ain’t love the sweetest thing? Um porto é preciso.
  • Ver mais os amigos: tô devendo uns abraços pra uma turma aí.
  • Fotografar: de fotógrafo e DJ todo mundo tem um pouco, e fotografia é uma das coisas que abandonei pelo caminho nos últimos anos.
  • Voltar a tentar tocar guitarra: eu ainda vou aprender a tocar guitarra, formar uma banda e fazer um disco foda que vai ter até uma resenha elogiosa no blog do Danny, vocês vão ver.

Agora me digam como arrumo tempo pra tudo isso, sim? Por mais apertado que pareça, porém, a perspectiva é otimista. :)

Futuro do pretérito

19 de setembro de 2009   —   17:36:33
Eu estava conversando com um colega do trabalho sobre coisas que eu devia ter feito há anos, mas eu não tinha nem a coragem nem a maturidade de hoje para tanto. E a resposta dele foi “Isso é uma música do Los Hermanos, ‘O velho e o moço’.”, e citou o trecho:

“E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?”

Já ouvi essa música muitas vezes, mas sem nunca dar a devida atenção ao trecho. Diabos. O “e se” é a melhor maneira possível de torturar a própria mente, e não é de hoje que sei que “se” é a palavra mais destruidora da nossa língua.

Olhar pra trás e lamentar minhas escolhas não adianta. Olhar pra frente, além de ser solução, é a única opção viável. É usar os limões que a gente tem hoje pra fazer a limonada, ainda que amargados pelo tempo.

O cunho vernáculo de um vocábulo

16 de abril de 2009   —   23:37:26
Do Moderníssimo Dicionário Esdras Beleza de Noronha:
 

va.ga.bun.do adj Aquele que faz o que você gostaria de estar fazendo agora.