Diabetes sem drama

14 de novembro de 2012   —   16:53:30

Hoje é Dia Mundial do Diabetes, e vários órgãos de imprensa estão empenhados em falar sobre o tema. Sou diabético desde os 11 anos e já fui contatado para várias reportagens sobre o assunto.

Às vezes a reportagem é tendenciosa: busca-se mostrar um lado dramático da doença, suas trágicas consequências, as injeções e picadas de dedo. Parece que notícia otimista não dá ibope.

Sou bem chato para essas reportagens dramáticas. Para elas, sou entediante. Tenho diabetes tipo I há 16 anos, diagnosticada quando dei entrada num hospital com a vista turva, já com quadro de cetoacidose diabética. Hoje, porém, não tenho nenhuma complicação de retinopatia, que costuma surgir em cerca de 10 anos da doença, nenhuma complicação nos rins e minha hemoglobina glicada é 6,4%, o que é bom, embora ainda possa melhorar.

Primeiro, me permitam redefinir o conceito de diabetes. As pessoas a veem como “a doença em que a pessoa não pode comer doces”. Diabetes é, eu diria, a deficiência em que o paciente produz pouca ou nenhuma insulina e, por isso, tem dificuldades para processar carboidratos. Se você trata os carboidratos ingeridos com medicamentos bem-dosados, o problema está contornado.

Se eu como uma pizza, que é uma porção agressiva de carboidratos, ninguém diz nada, afinal pizza não é doce, certo? Se eu como um cubinho miserável de chocolate, as pessoas saem correndo e gritando “meu Deus, o diabético tá comendo doce!”. Há pouca informação sobre o que é diabetes, seu tratamento e suas limitações, mesmo entre os pacientes.

Houve muita melhora no tratamento durante meus 16 anos de diabético e posso fazer coisas que eram inconcebíveis quando comecei a ter a doença. Por causa da desinformação tais coisas continuam sendo inconcebíveis para muita gente, pacientes ou não. A diabetes, quando bem tratada, não é um fator limitante para a vida de ninguém.

Faço atividade física regular, contagem de carboidratos, tenho ótimo acompanhamento médico e constante monitorização da doença. Isso me permite uma vida bem próxima da normal e exames de sangue melhores que de alguns não-diabéticos.

Tomo quatro injeções por dia, em média. Já foi algo dramático, mas me acostumei. Algumas pessoas já me perguntaram “ah, as injeções nem doem mais, né?”. Sim, elas ainda doem, às vezes. Cada injeção não é a primeira e nem será a última, mas as injeções são parte essencial daquilo que me permite uma vida melhor e próxima do que se chama normal.

Atividade física obrigatória? Dieta equilibrada? Todo mundo deve fazer, isso pode até mesmo tornar-se um hobby e não é um “castigo” exclusivo para diabéticos (atenção para as aspas). As pessoas é que esperam alguma doença para que finalmente passem a cuidar da saúde.

Sou um cara muito reclamão e reclamo de muita coisa, mas raramente cito a doença entre minhas inúmeras reclamações. Ela não tem cura e, apesar dos avanços nessa direção, a única opção é aceitar essa deficiência e tratá-la.

Mostrar o “drama para tratar a diabetes” a imprensa já faz com maestria. Tratamento, por mais incômodo que seja, não é problema. Problema sério é não poder tratar. Aos jornalistas, peço que cubram mais a desatenção do governo para distribuir medicamentos e a burocracia para que isso seja conseguido. Esse ponto precisa de muita atenção. Uma vez que as pessoas tenham acesso ao tratamento, a doença pode ser superada com mais facilidade. A prefeitura de Fortaleza deixou de entregar fitas de teste de glicemia entre dezembro e fevereiro aos pacientes da saúde pública e isso foi pouco divulgado.

Desistir não é uma opção e evitar o tratamento não traz vantagem. Com tratamento, dedicação e informação dá para superar os problemas da doença e ter uma vida normal. A diabetes não define minha vida, minha personalidade e minhas ações. O drama  real da diabetes é apenas um: levar tratamento e informação para quem precisa. Tendo os dois e fazendo sua parte como paciente, não há do que se reclamar.

Filmes!

18 de Janeiro de 2010   —   01:38:43
Como é um costume meu quase semestral (prometo fazer resenhas com mais frequência, prometo, agora que estou divorciado da UFC), aqui estou eu de novo pra falar de filmes que vi nas últimas semanas. Lembrando: tem filmes recentes e filmes de anos atrás, já que como cinéfilo estou quase sempre atrasado.

Lá vai:

500 dias com ela
Comédia romântica envolvendo cara legal e uma menina nem tão legal assim, com direito às coisas bregas-mas-bonitas do gênero. O filme fica melhor ainda se você tiver bom gosto musical. Vale a pena.

Arrasta-me para o inferno
Deveria ser uma comédia satirizando filmes de terror, com direito a alguns sustos. Os sustos existem e são poucos. A comédia é fraquíssima. O filme é cansativo e você implora pra que acabe logo. Não vejam.

Atividade Paranormal
“Veja, vamos fazer mais um filme de suspense/terror aparentemente filmado por pessoas comuns”. Essa fórmula já está manjada e passei o filme esperando sustos que não vieram. Dá pra passar o tempo.

Avatar
Uns odiaram, outros gostaram, alguns se recusaram a ver só pra bancar o cult e dizer “não vejo filme de muita bilheteria”. Gostei de Avatar, acho que cumpre sua função. Apesar da manjada porém válida fórmula de veja-como-a-ambição-humana-destrói-a-natureza, é um bom filme de aventura.

Avatar

Avatar

Contatos de 4º Grau
O filme já começa com uma cena apelativa dizendo “blá blá blá, isso aqui é real, meu filho, acredite se quiser!”. A única coisa que tornaria o filme assustador é a possibilidade de ser real, já que não aparece nem sequer um ETzinho pra dar um susto. O Internet Movie Database diz que não é e que a personagem central nunca existiu. Chatinho.

Eurotrip
Como diabos eu nunca tinha visto esse filme antes? Comédia entupida de besteiras e situações impossíveis, mas sem cair na idiotice. Vale a pena.

Sherlock Holmes
Pegaram o antigo personagem de Conan Doyle, mantiveram sua inteligência e adicionaram uma pitada de carisma e bom humor. Talvez não agrade os fãs mais fieis do detetive (eu sempre me irrito com as adaptações de heróis da Marvel), mas pra mim, que li apenas dois livros com Sherlock Holmes, pareceu ótimo.

Live and let die

26 de agosto de 2009   —   23:10:53


 

Você percebe que amadureceu quando as coisas que te deixavam indignado aos 16 anos, que te faziam achar que as pessoas estão tomando decisões erradas e que o mundo não tem solução hoje te fazem simplesmente desligar o computador, deitar e ler um livro.

Então você escolhe melhor suas companhias, seleciona suas conversas, guarda sua opinião pra quando ela for solicitada, suas atitudes pra quando elas não forem em vão e suas idéias pra quem souber apreciá-las.

E até lá, você simplesmente descansa no seu travesseiro, lê um livro e resolve suas próprias questões. Simples assim.

O cunho vernáculo de um vocábulo

16 de Abril de 2009   —   23:37:26
Do Moderníssimo Dicionário Esdras Beleza de Noronha:
 

va.ga.bun.do adj Aquele que faz o que você gostaria de estar fazendo agora.

Educação soterrada no asfalto

14 de Março de 2009   —   13:49:20
Eu tenho um sonho de morar em algum lugar do globo com transporte coletivo decente, onde eu não seja escravo do automóvel pra me locomover de maneira rápida e segura (4 dos 5 assaltos ou furtos que sofri envolviam estar no ônibus, na parada do ônibus ou a caminho da parada). Ou, melhor ainda, queria viver numa sociedade civilizada onde os motoristas obedecem a lei, não atropelam ciclistas e eu pudesse usar a bicicleta no lugar do carro. Enquanto isso não ocorre, continuo no meio do engarramento e dos motoristas mal educados, tentando manter a calma, já que dirigir parece estupidificar as pessoas e roubar o que há de melhor no ser humano.

 


 

Essa semana eu estava estacionando perto do trabalho, fazendo uma balisa como manda o figurino: sinalizei antecipadamente, parei logo após a vaga e comecei a dar a ré para estacionar. Eis, então, que um belo sedã prateado invade a vaga com tudo, me deixando com uma cara de eu-não-acredito-nisso olhando o retrovisor, diante de um dos maiores exemplos de má educação que já presenciei nos meus breves quatro anos de condutor.

Dei a volta no quarteirão, parei numa vaga mais distante (a única disponível), e andei pela calçada até me aproximar do veículo mal educado. Esperei o condutor sair: uma senhora em torno de 50 anos, mal humorada e berrando com alguém ao celular. Como não era alguém que pudesse me bater numa briga e nem parecia portar um 38 dentro da roupa de perua que ela usava, tentei um diálogo, fria e educadamente, tentando não transparecer minha raiva:

 
– Moça, com licença, boa tarde. Tudo bem?
– Hein? Tudo, o que é?
– Oi, é que eu estava parando meu carro nessa vaga, estava dando a ré pra entrar, sinalizando, quando você invadiu ela. – Perdoem-me por ter falado “invadiu ela” e não “a invadiu”.
– Não! Eu estava entrando na vaga, já tinha sinalizado, quando um carro ia roubar a vaga. Era seu o carro?
– Era.
– Então, eu já tinha sinalizado e tudo, você que ia invadir a vaga!!! – Ponha aqui uma pitada de fúria, mau humor e quantas exclamações forem possíveis na fala da dona.
– Ok, apenas tome cuidado da próxima vez. – Encerrei, percebendo que ela não tinha ninguém com problemas de saúde precisando de socorro e também não ia reconhecer a falha e me pedir desculpas.
– Não, você que ia roubar minha vaga e…
 

Não sei até agora como eu, que vinha na frente dela, estava roubando a vaga. Sem saco pra prolongar uma discussão infrutífera, fui embora em direção ao trabalho. Até o flanelinha que viu tudo comentou comigo depois a má educação da dona. Ela foi embora em outra direção, resmungando e fazendo gestos de reprovação, certamente me culpando pelo dia ruim dela ou pela vida frustrante que ela tem e desconta no resto do mundo, achando que caixas de metal são sacos de pancada.