Bem-vindos aos anos 70

22 de setembro de 2011   —   11:40:18

“A classe média, entretanto, comemorava as novas possibilidades de consumo. O paraíso dos anos 70 consistia em tirar o Corcel da garagem, fazer compras no supermercado Jumbo, ver futebol na maravilha do ano – a TV em cores – e sonhar com a próxima viagem a Bariloche, na Argentina.”

A citação é do livro História Geral: Brasil e Global, de Gilberto Cotrim, que li ainda no colégio. Lembrei dela enquanto lia as últimas medidas do governo brasileiro e via a repercussão delas nas mídias sociais internet afora.

Corcel
Propaganda do Corcel de 1968 [Fonte]

Não nasci na década de 70, sou bem dali, de 1985. Fiz 18 anos em 2003 e, assim como muitos jovens de classe média, meu sonho nessa idade era conseguir minha carteira de motorista. Como talvez alguns leitores se identifiquem, “automóvel” e “liberdade” eram conceitos bem próximos.

Cinco anos depois, em 2008, comecei a pedalar e acabei me envolvendo com um dos passeios noturnos de ciclismo de Fortaleza, desses que volta e meia despertam a fúria de motoristas que acham que a rua é deles e apenas deles, embora o código de trânsito diga o contrário. O problema é que acabei me apegando ao ciclismo e comecei a ler sobre o assunto.

Descobri que, em outros países, há gente usando bicicletas para se locomover diariamente, como eu faço de carro. Mais que andar de bicicleta não apenas para passeio, essas pessoas o fazem porque gostam e porque querem, não é por falta de dinheiro para comprar um automóvel. Admito, envergonhado: eu também achava que bicicleta era coisa de quem não tinha dinheiro pra carro, que ninguém optaria por isso.

Pai e filha passeiam de bicicleta na Dinamarca
Enquanto isso, em Copenhagen… [Fonte]

Nesses cantos – os exemplos vão desde cidades da Holanda e Dinamarca até Bogotá, logo aí na Colômbia! – as pessoas enfrentam menos trânsito, poluem menos, têm mais contato umas com as outras e com a cidade em que vivem. Tudo isso com apoio das autoridades, que fizeram ciclovias devidamente sinalizadas.

Enquanto isso, no Brasil de 2011, mais e mais carros chegam às ruas todos os dias, o trânsito piora diariamente e nós – eu incluso, ainda – estamos enjaulados num carro parado durante a hora do rush. Não era essa a ideia de liberdade que eu tinha em mente aos 18 anos.

Aproveite a liberdade de um carro

Nessa quinta-feira, 15 de setembro, o ministro Fernando Pimentel aumentou o IPI dos carros importados. A repercussão nas mídias sociais foi imediata e logo as pessoas começaram a reclamar da medida do governo. No lugar de deixar a concorrência e a competição entre marcas pautar o preço do automóvel, o Estado interviu e fez o produto continuar caro e inacessível ao brasileiro sonhador.

Não consigo, porém, não me sentir atrasado em relação aos outros países quando vejo nossa indignação. Ela me soa defasada. Nós brigamos por automóveis pois nós associamos qualidade de vida a ter um carro, mesmo que fiquemos presos no trânsito. Status, para nós, ainda é ter um carro na garagem. Não percebemos como o desejo de termos um automóvel é um horizonte pequeno diante do que acontece há tempo nos já citados centros urbanos mundo afora. Somos mendigos brigando por restos de comida.

Em grandes cidades de outros países, as pessoas conquistaram o direito de ir e vir em segurança e de forma mais humana: à pé, bicicleta, metrô, ônibus. No Brasil de 2011, ainda estamos presos ao antiquado sonho dos anos 70.

Outros ares

13 de setembro de 2011   —   22:28:15

Ando meio sumido daqui, né? Quase cinco meses. Muita coisa.

Bem, voltei ontem duma viagem pra São Paulo. Fui pro QCon SP 2011, um evento pra desenvolvedores. Após o último dia de evento, fui de táxi pro aeroporto de Congonhas e de lá peguei um ônibus da TAM pro aeroporto de Guarulhos. E foi aí que o ônibus passou por esse prédio aqui:

Lembro de ter passado pelo tal prédio em 2008, quando estive em São Paulo (também estive lá ano passado, mas não deu pra passear ali pelas bandas da Av. Paulista, onde ele fica). Na hora, veio aquela comparação mental, aquela coisa de traçar um paralelo entre duas épocas, hoje aparentemente tão distantes.

Há 3 anos, eram outras circunstâncias, outra vida, outros problemas, outras pessoas. E eu estava lá, em São Paulo, experimentando um pouco de outros ares – sem trocadilhos com o ar de São Paulo… – pra dar uma aliviada na cabeça.

De volta à 2011, cá estou eu numa época cheia de alegrias, prazeres, dúvidas, incertezas, conflitos e temores completamente diferentes. Mas aí a gente olha pra trás, anda de novo num caminho que já foi trilhado, e lembra que os problemas vão passar, vão ser superados, vão ser resolvidos.

A matéria-prima da paciência é escassa; a da ansiedade parece que sobra. A grande briga cotidiano é converter a segunda pra primeira.

Câmera lenta

9 de janeiro de 2011   —   15:13:05

Era uma tarde de sexta-feira. Caminhava com o andar lento como a tarde, que se recusava a passar. Cada hora parecia um dia, uma semana. “Life in slow motion”, dizia uma canção que já não ouvia há uns anos. Vida em câmera lenta. Essa era a sensação.

Quando olhou pra cima viu o céu levemente nublado. Pensava em como poderia sair daquela prisão, como poderia resolver os problemas. E olhava as nuvens. E lembrou de uma ou outra canção falando de nuvens. “Motor que não se move, nuvem que não se vai”. Mais um sentimento que só podia ser explicado por um verso presente em algum lugar. Pra que servem as músicas, afinal?

O tempo não passava mais. Não dava pra enxergar a solução no meio da neblina. Não dava pra ver um metro além do nariz. Não dava pra ver uma semana além do dia de hoje. Não sabia onde ou como estaria no mês que vem. A imprevisibilidade é algo doloroso, a indefinição é algo que corroi por dentro e a impermanência está sempre pronta pra atacar. Tanta leitura sobre budismo e a impermanência sempre chegava pegando de surpresa, essa velha pegadinha sacana que a vida apronta.

Queria pegar um ônibus, um avião, um navio, qualquer coisa que  levasse pra longe dali. Pegar uma rota de fuga em alta velocidade, pra ver se assim os problemas se jogariam e se apertariam no fundo da mente e do coração. Pra ver se, em algum lugar distante, encontraria alguma clareza de pensamento e paz de espírito. Pra ver se, em algum lugar distante, encontraria-se novamente. Estaria, assim, livre dos pequenos venenos que a rotina libera todo dia em nossa alma, dos pequenos vícios cotidianos. Deixaria pra trás os problemas, dúvidas e necessidades, venceria a correnteza dum oceano que insiste em resistir à ação dos passos.

Em algum rádio vindo Deus sabe daonde, como que por milagre, viria aquela canção que toca na hora certa, que tudo explica e tudo resolve. E tudo ficaria melhor, as ideias estariam bem acomodadas na cabeça, os sentimentos estariam confortáveis no coração, o presente estaria sendo bem vivido com sorrisos e o futuro estaria num lugar seguro. Pra que servem as músicas, afinal? Servem para, um belo dia, tocarem na hora certa e salvarem a vida de alguém.

Mas hoje não há música, só há silêncio. E aquela nuvem no céu, ah… ninguém sabe se vai passar ou se vai chover.

La-la-la-la-life goes on

12 de fevereiro de 2010   —   02:32:54
E a vida segue seu curso: emprego novo, rotina nova, coisas novas pra aprender. O futuro, que já começou, é simples e claro:

  • Trabalhar: posso dizer que sou feliz com minha profissão. Sou reclamão pra caramba, detestei minha faculdade mas só levei ela até o fim porque gosto do meu trabalho. E, pelo que os últimos dias têm apontado, estou otimista de estar trilhando um bom caminho.
  • Voltar a pedalar: não é de hoje que os amigos e/ou meia dúzia de leitores sabem do meu hobby, que ficou de lado em 2009 e retomo aos poucos em 2010. E assim minha ansiedade diminui um pouco e a diabetes vai se controlando melhor.
  • Ler mais livros: tenho uma pilha de livros de todos os tipos e tamanhos se acumulando há anos, esperando para ser lida. Pouco a pouco ela vai diminuindo. Sempre lembro do meu antigo professor de português do pré-vestibular, Carlos Augusto Viana, que aconselhava: quem não lê se torna um profissional medíocre.
  • Ver mais filmes: também tenho um monte de filmes atrasados. Tenho uma lista enorme de filmes que todo mundo já viu, menos eu (pelo menos já vi Jurassic Park e De Volta Para o Futuro).
  • Jogar: infeliz daquele que não reconhece o valor dos video games ou que pensa que é coisa de criança.
  • Viajar: não sei como nem pra onde, mas viajar é preciso e sinto uma vontade lascada. Dá um aperto no peito toda vez que vejo um avião.
  • Namorar: ain’t love the sweetest thing? Um porto é preciso.
  • Ver mais os amigos: tô devendo uns abraços pra uma turma aí.
  • Fotografar: de fotógrafo e DJ todo mundo tem um pouco, e fotografia é uma das coisas que abandonei pelo caminho nos últimos anos.
  • Voltar a tentar tocar guitarra: eu ainda vou aprender a tocar guitarra, formar uma banda e fazer um disco foda que vai ter até uma resenha elogiosa no blog do Danny, vocês vão ver.

Agora me digam como arrumo tempo pra tudo isso, sim? Por mais apertado que pareça, porém, a perspectiva é otimista. :)

Festival Selton Mello

19 de julho de 2009   —   06:08:01
Há algum tempo, recebi um daqueles e-mails que giram o mundo falando [mal] sobre o cinema brasileiro, só sobre coisas que se repetiam ad infinitum nos filmes nacionais. Um dos itens da lista era “Selton Mello”. Não é por menos, já que tem dois filmes em cartaz no cinema com o cara. Acabei assistindo três filmes do sujeito num intervalo de poucos dias.

O primeiro é A Mulher Invisível. Eu não dava nada pelo trailer, mas comecei a ver pessoas elogiando por aí e, na falta de opção que é o cinema nas férias, acabei arriscando. Bom mesmo, engraçado, boas tiradas, e quem for pouco atencioso nem vai perceber o merchandising da Chevrolet. Achei que era mais uma comédia romântica qualquer, mas gostei pra caramba.


A Mulher Invisível
 

Depois veio Jean Charles, baseado na história do brasileiro morto no metrô de Londres em 2005. O filme (que achei um pouco entediante) tem um quê de documentário e fala dos brasileiros se virando pra ganhar uma grana no exterior, com foco na prima de Jean. Alguns fatos reais da história de Jean foram alterados no filme, mas o final todo mundo sabe. Vale como protesto.


Jean Charles
 

Depois aproveitei pra assistir Meu nome não é Johnny, do ano passado. Mais uma ficção baseada em personagem real, dessa vez o Selton Mello faz o papel dum traficante carioca de classe média. Tem até uma aparição rápida do Rodrigo Amarante, do Los Hermanos. Filme bacana, prende a atenção.


Meu nome não é Johnny
 

E já que o assunto é a carreira do Selton Mello: alguém lembra de quando o Selton Mello fazia o Emanuel na novela de 1997 A Indomada, que namorava a ruiva Grampola?


emanuel

Foi a melhor foto do Emanuel que achei :(