Adivinha quem está chegando?

4 de novembro de 2016   —   11:07:45

Um cara decidiu postar no twitter um gráfico sobre a busca por uma canção natalina de Mariah Carey:

Alguém compartilhou no chat do trabalho e pensei como seria para algumas canções natalinas brasileiras. Lembrei da cansadíssima canção de Simone, Então é Natal, e fiz uma busca no Google Trends:

Então é Natal

Acima temos a projeção de buscas por “Simone então é natal” no Google desde 2004.Os picos do gráfico, obviamente, são os meses de fim de ano. O gráfico é relativo: 100% é o ano de 2013, quando as buscas tiveram o seu máximo. Felizmente, nos últimos dois anos, a busca pela música da Simone caiu pra 75% do que era em 2013.

Depois lembrei da música Um Feliz Natal, de Ivan Lins, e a acrescentei:

Agora o Ivan Lins

Nos últimos dois natais, a busca pela canção de Simone foi cerca de 10 vezes maior que a busca por Ivan Lins. Não sei como, pra mim eles sempre aparecem na mesma playlist nos cantos.

Lembrei, depois, da canção Papai Noel filho da puta, dos Garotos Podres, música conhecida por quem não aguenta as outras canções da época. Por ser um título único, acrescentei sem o nome da banda, o que talvez seja um pouco tendencioso em nossa pesquisa.

Pra minha surpresa, eles parecem competir bem com a busca pelo Ivan Lins:

Garotos Podres

O importante é: se precisar resolver algo em lojas de departamento, vá agora. A chance de ouvir Simone e Ivan Lins ainda é relativa baixa no começo de novembro. Corra.

Minha cafeteira nova

16 de outubro de 2016   —   22:07:35

Há uns dias decidi comprar uma cafeteira nova. O processo de fazer café na minha casa ainda é bastante primitivo, mas após algumas semanas na casa da minha namorada, que é equipada com uma cafeteira elétrica que trabalha pelos humanos, decidi adquirir uma também.

Lembrei dum antigo modelo que havia no meu trabalho anterior e procurei por ele em várias lojas, sem sucesso. Aparentemente as máquinas de café atual estão voltadas para pessoas que moram só e dormem decentemente — 15 xícaras pequenas? Faça-me o favor! — e também vêm perdendo espaço para os cafés de cápsula.

Bem, achei o modelo que eu queria numas Lojas Americanas. Após alguns minutos sofrendo com a péssima trilha sonora sempre presente na citada rede de lojas, vou saindo segurando a caixa enquanto uma senhora que veio para o caixa que eu havia acabado de abandonar começa a me interrogar:

— Essa cafeteira é de alumínio?
— Não sei, um minuto. — e saio fuçando a caixa. — Opa, tá aqui, é inox.
Me perguntou o preço, a marca, viu a caixa. E no fim, completou:
— Parabéns, é uma ótima cafeteira!

Minha nova cafeteira

Minha nova cafeteira, numa foto mequetrefe feita às pressas no celular

Eu, que venho recentemente encarando mais e mais obstáculos da tediosa vida adulta, me senti vencedor. Saí da loja munido de uma cafeteira com garantia de alguém com décadas de experiência em adultices.

Luke Cage

12 de outubro de 2016   —   15:07:30

É feriado, tive que trabalhar mas vamos (finalmente) falar sobre Luke Cage, a série da Marvel no Netflix:

Nos anos que li os quadrinhos da Marvel, mal vi o Luke Cage. Depois que parei soube que a Marvel o trouxe de volta aos quadrinhos e agora apareceu essa série. Como sou pouco familiar com o personagem, isso me permitiu ver a série sem os olhos de fã.

(Sabe fã do Harry Potter que sai puto do filme porque mataram a história do livro? Sou eu com as adaptações de personagens da Marvel. Nunca consegui gostar de nenhum filme do Homem-Aranha.)

[Tentei evitar spoilers daqui pra frente, mas não garanto nada]

Durante os primeiros episódios, achei que seria difícil chegar no fim da temporada. Frases de efeito para encaixar ensinamentos, inclusive com direito a gente morrendo deixando uma lição. Clichês. Na metade da temporada, deu uma melhorada no ritmo e ficou bem melhor, consegui chegar ao fim sem achar perda de tempo. Não é imperdível, mas é uma boa série.

Pontos positivos:

  • A trilha sonora. Não sei detalhes, só sei que é bom. Quem conhece mais música que eu já elogiou as bandas e cantores que aparecem tocando nas cenas da boate.
  • Aborda questões infelizmente ainda relevantes em 2016. Fala da violência policial racista. Tem protagonista negro, cultura negra e mulher dando porrada, fazendo sexo e dizendo “se eu fosse homem, você não me julgaria”.
  • Assim como Jessica Jones, se tirar a parte de super-herói vira uma boa série policial. É Marvel. Até quando é ruim é bom. A Marvel sempre trabalhou bem o lado psicológico dos personagens lascados, e é sempre divertido procurar a referência escondida ao Stan Lee.

Pontos negativos:

  • Assim como Jessica Jones, tem deus ex machina (ou “Efeito Kilgrave”, você vai entender se viu Jessica Jones). E se os vilões atirassem em vez de falar demais, a série teria uns 3 episódios a menos.
  • Clichês e frases de efeito, especialmente nos primeiros episódios. É como ter o Tio Ben várias vezes por episódio.

Um muro de Berlim dentro de mim (epa)

11 de Abril de 2016   —   19:52:46

Fui ler uma das 472 notícias do dia e, enquanto lia, percebi minha cabeça distante. Imerso em questões pessoais, não consigo resolver nem minhas crises interiores; como me importar nesse momento com crise política?

Num processo de auto-análise que durou alguns segundos, percebi que minha vida, esse duelo profundo e complexo de conflito interno versus conflito político externo, podia muito bem ser alguma letra antiga dos Engenheiros do Hawaii.

O Senhor dos Galetos

7 de agosto de 2015   —   20:40:25

Entre minha casa e a academia que venho frequentando nos últimos meses, há um pequeno estabelecimento que vende galeto. É daqueles bem tradicionais, de bairro, nada requintados, as paredes com manchas escuras de fumaça. No fim do dia, volta e meia ainda tem uns galetos crus na churrasqueira, e eu não quero saber onde eles vão parar.

Passo por esse caminho diariamente a pé. Em torno das seis da noite, o dono da galeteria está sempre cumprindo o que me parece ser um ritual diário: ele põe uma mesa de plástico na calçada, abre uma Skol e põe pra tocar um disco antigo da dupla Leandro & Leonardo num som razoavelmente potente. Suponho que o disco seja de algo em torno de 1990, pois lembro bem de quando algumas músicas fizeram sucesso e eu tinha quatro pra cinco anos.

Leandro & Leonardo

Era isso ou a foto tosca dum galeto pra ilustrar esse texto

(Entre as várias faixas do disco que o cara escuta, há uma versão dos cantores sertanejos pra Sound of Silence, da dupla folk Simon & Garfunkel. A versão da letra em português assassinou o sentido da letra original, mas confesso que o arranjo ficou bonito, um esquema orquestrado, sei lá. E será o sertanejo da década de 80, antes dessas porcarias de hoje, uma variante brasileira de folk? Sei menos ainda. Pois bem.)

Sentado, bebendo sua cerveja de milho e ouvindo sempre seu mesmo disco, o senhor põe-se a observar sabe-se lá o quê, virado para o buzinaço dos motoristas impacientes na hora do rush. Se está realmente observando aquele caos, não sei, às vezes acho que ele está bem distante dali.

Não gosto de quem escuta música alta e impõe seu gosto musical, não gosto de Skol, não vejo graça em olhar engarrafamento e, pra finalizar, motivos pessoais me dão abuso do cheiro de galeto. Por dentro, talvez eu seja mais velho que o cara dos galetos. Mas, sempre que passo pelo cara na calçada, admiro algo naquela cena.

Talvez seja a insistência na causa perdida de sentar na calçada numa cidade que perde esse hábito; ou talvez aquela situação, apesar de antipoética e crua feito o galeto esquecido, demonstre certa disciplina na repetição daquela meditação diária; ou, ainda, talvez seja algo que aquele senhor tem para me ensinar, naquele momento em que ele desfruta de si mesmo, como um animal solitário que se afasta pra descansar no fim do dia, após suas obrigações.

Ou talvez seja nada disso, e seja só eu buscando um sentido oculto pra tudo enquanto espero o semáforo abrir, observando meu reflexo nas coisas.