Castelos, casas e abrigos

9 de julho de 2005   —   10:46:05
Ele morava sozinho em uma casa de muro altos, cinzentos e espessos. Existisse ali um fosso, seria facilmente confundido com um verdadeiro castelo medieval de histórias infantis. As pessoas que ali passavam estranhavam os muros, e questionavam-se o que poderia estar guardado dentro de seus limites. O questionamento um dia foi além, e alguém decidiu invadir os portões pra saber o que era guardado ali dentro.

Foi simples: uma armadilha, um forte ataque e os muros já não adiantavam de nada. Levaram quase tudo, destruíram o resto. Pouco foi poupado. A frágil moradia sarcasticamente construída entre gigantescas paredes foi abaixo em poucos segundos. Seu único morador, que agora encontrava-se de joelhos observando os restos de sua casa, confiara demais nos seus muros.

Passou dias observando seu terreno e refletindo sobre seus erros, como um sem-teto louco, enquanto sol e chuva atacavam sua pele. Decidiu fazer diferente: sem muros agora. Se não teria tanta proteção, por outro lado isso espantaria curiosos. Passou dias planejando, e, ao final de algumas semanas, ergueu uma casa amigável, de aparência simples e jardim na frente. Não era tão imponente, mas e daí? Era aconchegante, e isso bastava.

Seu dono podia ser visto sempre na porta de sua nova morada, conversando com os que ali passavam. Todos, agora, conheciam o residente daquele espaço, outrora tão reservado e isolado. Passava uma pessoa, passava outra, conversava alguma coisa, trocava alguma palavra, despedia-se e seguia seu rumo. E, ao fim da noite, a casa abrigava seu único morador, que fechava as portas e dormia tranqüilamente. E assim o foi até mais ou menos quatro semanas após o começo do outono. Uma pessoa que ali passava acabou pedindo abrigo naquela casa, e foi pronta e alegremente bem-vinda.

As folhas mudaram de cor.

Aproximava-se o solstício de inverno quando nosso amigo acordou com o barulho de sua porta sendo fechada, causado por uma tentativa mal lograda de fuga em silêncio. Levantou-se devagar e reparou que não havia mais hóspede. Foi até a pequena sala de sua casa, depois na cozinha, e em todos os cubículos de seu domicílio, onde seu resto de sono foi espantado e ele caiu em si. Suas coisas estavam remexidas, algumas quebradas, e deu falta de várias outras. Na mesa de centro, um bilhete com um aviso: fora embora e levara algumas coisas, a fim de proteger-se do frio que se aproximava.

“Algumas coisas” seria apenas modo de falar, um mero eufemismo. Olhando ao seu redor, não entendeu como uma só pessoa poderia carregar tantas coisas. Correu para seu jardim, na esperança de que a pessoa não estivesse longe com seus modestos pertences, mas até onde a vista alcançava não havia sombra dela, nem sequer pegadas. Não entendia como aquilo era possível. Não apenas o rápido sumiço — teria ido voando? — mas também a sua falta de sorte.

Caíra novamente de joelhos. Por uma dessas coincidências do destino, não sabia ele que estava ajoelhado no mesmo lugar de estações atrás. Castelo? Casa? Nada adiantava: no fim das contas, seria tapeado. Ainda que ali estivesse sustentada a mesma estrutura do verão, não era mais a mesma casa. Aliás, havia uma casa, não mais um lar; era, então, como um templo sem fé. E, na frente do amontoado organizado de tijolos, um homem ajoelhado, maldizendo sua sorte.

Permaneceu ali por horas, até finalmente fazer um esforço sobre-humano e levantar-se. Entrou em sua casa pela última vez, pegou algum resto de comida na dispensa saqueada, algum pano para se aquecer e foi embora de vez do amaldiçoado terreno. Cansou de ser seu único habitante e partia sem direção nem objetivo. Que ficasse vazia a casa, seu teto não era mais abrigo! Estava, naquele momento, deixando sua moradia pra trás.

Veio o inverno, depois a primavera, o verão, outro outono. Os ciclos se repetiam; neve, sol e chuva deram cabo da casa e mais tudo que abandonara dentro. Dizem que um dia, durante uma tempestade, a única árvore de seu jardim não resistiu a seu próprio peso, por nunca mais ter sido podada; caiu sobre o telhado da casa, e um raio sobre a mesma tratou de incendiar tudo.

E ninguém nunca mais soube de seu dono.