Divagando e budejando sobre três meses de pandemia

30 de May de 2020   —   16:27:21

Escrevi esse texto por estar oscilando entre triste, ansioso e puto da vida (perdoe meu vocabulário rudimentar). Como o título sugere, vou falar de coronavírus, notícias, isolamento, impressões desses tempos. Pode não ser uma leitura leve, mas foi algo que achei necessário escrever. Relatos similares de amigos e desconhecidos me ajudaram a não me sentir sozinho com os pensamentos negativos que essa época nos traz, mas pode ser que eu não consiga esse mesmo efeito nobre em todo mundo.

Há uns cinco ou seis anos, um colega de trabalho falou que havia conhecido uma amiga minha num jantar. Aquele roteiro bem conhecido de Fortaleza: um assunto em comum aparece, você cita uma história ou onde trabalha, as pessoas falam que conhecem alguém, a outra pessoa fala que também conhece. Ao chegarem no meu nome, minha amiga pergunta “se eu ainda abraçava todo mundo”.

Esse meu lado, digamos, abraçador vem perdendo força nos últimos anos. Em 2017 vim morar nesse país em que o contato físico é menos comum, e por vezes eu tive vontade de perguntar para grupos de pessoas que se abraçavam na rua como eles haviam chegado naquele estágio. Saber se eu tenho intimidade para abraçar alguém aqui às vezes é uma aposta, uma equação que eu resolvo na cabeça onde as variáveis são contatos anteriores com a pessoa, o país de onde ela veio, como eu a vejo agir com outras pessoas. Se eu juntasse o esforço mental que usei em três anos aqui com esse cálculo, talvez eu ganhasse uma medalha Fields.

Meme da Nazaré Tedesco fazendo contas.

Muitas pessoas mais introvertidas vêm fazendo piadas com o isolamento, dizendo “eu me preparei a vida inteira pra isso”, e talvez os últimos três anos tenham me preparado pra esse momento. Nos próximos dias faço três meses sem ver minha namorada, que mora a duas horas e pouco de avião daqui; as únicas conversas não-digitais que tive com outras pessoas desde a segunda semana de março foram agradecendo algum entregador, sempre mantendo uma distância segura e pedindo para deixar a caixa na porta, por favor; as últimas pessoas que abracei foram uma amiga e seu namorado no dia 7 de março (a vida continua além do coronavírus e nesse tempo o tal namorado virou ex).

Um pensamento recorrente nesses tempos é como às vezes não nos damos conta que algo simples que vivemos pode ser a última ocorrência de uma série, que pode não acontecer de novo ou não acontecer tão cedo. Se por um lado isso nos dá uma pressa de viver tudo o que há para ser vivido, seria insuportável viver com esse peso o tempo inteiro.


Curiosamente, algumas empresas daqui do Reino Unido tomaram medidas de isolamento antes do governo tomar medidas oficiais. Comecei a trabalhar de casa enquanto o governo daqui ainda falava em imunidade de rebanho; eu e minha namorada cancelamos nosso último encontro, que seria no meio de março; minha última saída (fora saídas semanais para jogar o lixo fora) foi para conversar com meu médico e garantir uma receita de comprimidos para os tempos que viriam.

Eu sou diabético e isso me põe num grupo de risco. Não tenho um risco maior de infecção, porém tenho riscos maiores de complicações caso eu me contamine. 25% dos mortos em hospitais do Reino Unido tinham diabetes, e a ideia de sair de casa se tornou um lembrete da minha própria mortalidade. Me pego pensando em tudo que vivi por 34 anos e jogando tudo fora porque decidi dar uma volta além do meu quarteirão e, no fim, apenas fico em casa.

As regras de isolamento do Reino Unido, na minha opinião, foram e são bem brandas. Não tão brandas como as da Suécia, que não fez isolamento social oficial (e paga seu preço), mas nem de longe rígidas como as da Espanha ou muito menos as da Nova Zelândia, que está zerando os casos.

Um meme que gastei tempo fazendo pra representar meu sentimento ao olhar para a curva de casos da Nova Zelândia.

Foi permitido às pessoas daqui uma hora de exercício físico ao ar livre, o que achei no mínimo estranho, já que o vírus não está monitorando o batimento cardíaco e calorias gastas das pessoas para saber quem pode ou não ser contaminado. Entender a forma de pensar britânica, da gastronomia ao isolamento, é um exercício que já me fez dobrar e desdobrar o cérebro de várias maneiras para ver se alguma encaixa.

Minha cabeça quer soltar fumaça tentando interpretar a realidade. Os cientistas e médicos sugerem medidas, os jornais as publicam, o governo adota metade delas, ignorando partes importantes, e as pessoas decidem seguir metade do que o governo pede. Pessoas que antes eram críticas ao governo de repente tornaram-se leais, “veja, eu estou saindo, mas estou dentro da minha hora de exercício permitida”, em nome da conveniência de não seguirem rigorosamente o isolamento. Eu, com minha diabetes, saudades da namorada, família e amigos, com medo-de-morrer-mas-vontade-de-continuar-vivendo, sigo em casa.

O governo daqui vem afrouxando as medidas num ritmo não recomendado pelos cientistas e médicos. As pessoas saem para dar seus passeios e publicam nas redes sociais fotos de gente se encontrando, celebram as pessoas se abraçando na rua como se fosse o fim duma guerra, mesmo que contra as já brandas regras estabelecidas e que isso signifique um risco de aumentar os números de contaminações. O desejo de viver o verão atual parece maior do que viver até o próximo. Talvez eu seja ansioso demais por pensar em dias, semanas e anos em vez de apenas sair e encontrar alguém sem pensar nas consequências.

Eu sou um programador, não um psicólogo ou sociólogo, e antes de tudo eu sou ansioso. Talvez se eu soubesse mais do funcionamento da mente das pessoas eu seria menos impaciente, talvez fosse mais desesperador. Uma das maiores recomendações para ansiosos é não tentar controlar aquilo que está fora do nosso campo de ação, como as pessoas que seguem suas vidas sem se importar com os gráficos que por algum motivo os jornais que acompanho pararam de publicar.

Porém a prevenção do coronavírus é um pacto coletivo, só funciona se todos fizerem, e eu não consigo me desligar disso. Se os números sobem, eu sigo sem ver minha namorada, minha família, meus amigos. Não consigo desligar o interruptor da raiva, e tem sido especialmente difícil pra mim interpretar a realidade, achar algum sentido nas pessoas que se dizem estudadas, mas seguem ignorando conselhos oficiais ou científicos. Me preocupar e sentir raiva, porém, também não me traz bem algum, já que as pessoas vão seguir se abraçando lá fora enquanto me desgasto aqui dentro, com a saúde mental em frangalhos e o coração apertado de saudades.

Esse tipo de pensamento e o isolamento têm me feito reinterpretar vários momentos da minha vida. Estou bastante desgastado por todos os momentos de autoconhecimento que tenho sozinho no espaço confinado do meu apartamento, por todas as epifanias vindo de madrugada à custa de muitas horas de sono.

Eu lembro de tantos outros momentos em que sabendo que algo era o certo e deveria ser feito ou algo era errado e não deveria ser feito, eu tive essa sensação de ficar pra trás enquanto via os outros seguirem adiante. E mais uma vez essa nuvem volta para me atormentar, o peso de fazer algo que eu acredite ser o correto enquanto os outros não se importam. Em poucas palavras, estou sendo feito de otário.


Juro que tento manter a cabeça ocupada.

Como falei, antes mesmo do governo adotar oficialmente o confinamento meu trabalho mandou todo mundo trabalhar de casa. Eu havia trabalhado de casa entre 2015 e 2016 e sentia muita falta de poder trabalhar nessa modalidade, sem gastar horas diárias indo de casa para um escritório barulhento. Claro que o falo com noção de meus privilégios, já que posso exercer meu trabalho de casa e não passo pelo drama dos colegas que precisam trabalhar com filhos em casa, por exemplo.

O video game tem me feito bem. Por ser um entretenimento mais imersivo, que não acontece se você não dedicar sua atenção completa, também é bom para me obrigar a tirar pensamentos das notícias, do passado, do futuro. Finalizei o espetacular Horizon: Zero dawn e tenho me dedicado ao espetacular The Messenger, jogo que homenageia ao mesmo tempo vários jogos antigos das décadas de 80 e 90, como Ninja Gaiden, Donkey Kong e Metroid.

Atenção: o trailer contém spoilers, mas coloquei aqui mesmo assim pra ter algo gráfico no meio do texto e parecer menos cansativo…

Tenho visto várias séries. Mad Men sempre me faz passar raiva com os personagens, mas é um lembrete de como arte boa é aquela que desperta sentimentos, mesmo que seja raiva. Sex Education, do Netflix, tem seus momentos de humor e drama. Hunters, da Amazon Prime, é uma produção muito boa sobre caçadores de nazistas, se você ainda estiver com paciência para nazistas depois de ler as notícias do Brasil.

Picard traz mais uma vez a mistura de sci-fi e filosofia de Star Trek. Enquanto escrevo lembro de Elnor, guerreiro qalankhkai que se dedica sua vida a causas perdidas. A vida real é menos empolgante que a ficção, e já me peguei pensando quem são os guerreiros por aí que se dedicam a causas perdidas nos nossos tempos. Quem sabe os profissionais de saúde, de alimentação e entregadores, que trabalham enquanto há gente protestando de automóvel para o fim do confinamento e tornando-se pacientes dias depois. Não fosse a palavra “guerreiro” um clichê besta hoje em dia, seria talvez uma boa metáfora.

Bem, prometi divagações no título, mas já estou divagando demais. Vamos pros livros. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes, é um livro com seus momentos de tristeza mas me trouxe o conforto da familiaridade dum livro em cearês. Enquanto fuçava no Goodreads por algum livro com pitadas de humor, comecei a ler Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, só pra tropeçar mais uma vez em personagens quixotescos em busca de causas perdidas. Num momento em que entender como a ciência funciona é ainda mais urgente, estou lendo O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Fora isso, outros livros relacionados a trabalho que não merecem ser citados aqui.

Uma caneca de café sobre uma pilha de livros iluminada por uma luminária.
Uma das fotos que fiz em casa.

Sinto bastante falta de fotografar e tentei fazer algumas fotos em casa, mas a criatividade não vingou como esperado. Tentei praticar guitarra sozinho com sites de aulas virtuais, sem muito sucesso, e em seguida comecei aulas de guitarra via Skype com um professor de Fortaleza, João Victor Barroso. Quem me conhece sabe que há muitos anos tocar guitarra é um sonho que nunca levo adiante e uma pendência na minha vida, mas quem sabe agora vai. Tem sido bom ver algo novo progredindo na vida num momento em que todo o resto está difícil.

Comprei um suporte de bicicleta para poder pedalar dentro de casa e tenho feito aulas de yoga que vejo no YouTube (recomendo Yoga with Adriene, em inglês, e o canal da Pri Leite, em português). Sigo engordando e não gosto quando me vejo no espelho, mas acho que a atividade física nesse momento tem sido mais relevante para a saúde mental que para me manter em forma.

Fora isso, a diabetes felizmente também se mantém controlada, tanto pela atividade física quanto pelo fato que tenho cozinhado mais e comido menos coisas processadas. E não posso falar disso sem falar da Rita Lobo e do Cozinhoterapia da Luiza, uma das minhas amigas de Fortaleza que por algum motivo nunca vi pessoalmente e espero conseguir encontrar um dia.


Ler as notícias é um exercício difícil. Já tentei passar uns dias longe dos jornais, o que me fez muito bem, mas em algum momento precisei me informar. Existem muitos, muitos artigos tentando descrever como o futuro vai ser, como serão os escritórios, as viagens de avião, como tudo que a gente conhecia já era.

Longe de mim achar que o que tínhamos seis meses atrás era muito bom, mas também acho cedo para pensar no tal “novo normal”, expressão que já deu no meu saco. Um exercício que faço quando me pego pensando demais no futuro é lembrar que, no passado, muita gente falhou para prever o futuro. Falharam as previsões otimistas de carros voadores, falhou o pessimismo do malthusianismo.

Minha cabeça ansiosa tenta pensar em todos os cenários possíveis de futuro e ter um plano para cada um deles, porém isso é inviável. Nós simplesmente não sabemos. Estamos num problema que tem apenas cinco meses, nós não temos variáveis suficientes para saber com as coisas estarão daqui a seis ou doze meses, e tento me prender a essa ideia que pode ser tudo, inclusive nada.


Existem dias e dias. Hoje é um dia daqueles, e o cursor piscando na tela foi minha forma de tentar encaixar as ideias, tirar o peso do peito, desabafar, achar um respiro. Não sei se existe conselho ou resposta para o que sinto. Depois de publicar o texto, provavelmente vou tentar fazer uma yoga mais prolongada, já que o sábado tem mais tempo, e ver se o exercício físico faz o cérebro cozinhar alguma endorfina.

A Mudança

2 de January de 2017   —   20:53:44

Há alguns dias saiu o resultado da aplicação para meu visto na Inglaterra e, nesse momento, estou a menos de uma semana do meu embarque. Estou com o corpo cansado, a cabeça perdida e o coração moído, mas feliz por estar realizando um sonho.

Eu tento entender o tempo inteiro o que está me trouxe a esse estado: consegui um bom trabalho e estou realizando um sonho que tenho há mais de dez anos. A verdade é que nada é 100% bom ou 100% ruim, certo? E esse processo de transição dum país para o outro pode ser absurdamente estressante.

Tem muita coisa que eu queria poder voltar um ano na vida e dizer pra mim mesmo. Esse texto é o resultado de pequenos intervalos de escrita que ocorreram ao longo dos últimos dias, porque tempo é tudo que eu não tenho. Às vezes eu parava meia hora e começava a escrever isso aqui pra eu mesmo entender o que estava pensando e sentindo.

Um pouco de história: 2003 a 2016

Ir pra Londres é uma vontade antiga, do tempo que eu fazia curso de inglês e ouvia a professora falar de lá. Era difícil pra mim levar o sonho a sério: era estudante e a cotação real-libra nunca foi amigável pra nós. Era algo que eu tinha vontade, mas achava difícil, beirando o impossível.

Fiz uma comunidade no orkut há dez anos que deveria ser pra levar o tema na piada, mas acabou juntando pessoas que estavam indo de verdade. Só em 2013 consegui viajar pra lá a turismo. Saí de lá com vontade de voltar permanentemente.

Foto minha de 2013. Eu a chamo de "três clichês numa foto só"

Foto minha de 2013. Eu a chamo de “três clichês numa foto só”

Minha namorada se mudou para os EUA e, enquanto ela se preparava, eu tentei aplicar para empregos por lá ou pelo Canadá para ficar mais próximo dela. O processo de visto dos EUA é estúpido e quase ninguém contrata gente de fora; também não consegui nada no Canadá, apesar de todo o hype sensacionalista em cima do Canadá precisar de mão-de-obra estrangeira. Ironicamente, no meio da minha busca consegui um trabalho remoto para uma empresa em Londres.

(esse é o resumo do resumo. A história toda inclui entrevistas, estudos, terceiro turno, fins de semana, testes de programação, certificações de idioma, e-mails de recusa, gente ajudando, gente atrapalhando e MUITAS noites mal dormidas)

Um ano e meio trabalhando de casa e, no fim do sombrio 2016, após alguns meses de processo, finalmente consegui com o pessoal da empresa um visto de trabalho.

A relação com as coisas

A primeira mudança foi minha relação com as coisas que possuo. Sempre fui um acumulador. Guardo coisas desde minha infância. Revistas em quadrinhos, livros, brinquedos, muita tralha. Nos últimos anos venho tentando trabalhar isso e me desapegando aos poucos, vendendo e doando objetos, infelizmente em velocidade insuficiente para estar confortável para a mudança que se aproxima.

Pretendo levar apenas duas malas e uma mochila, deixando o mínimo psicologicamente e fisicamente possível na casa da minha mãe, onde ainda moro. Apesar de existir espaço aqui, não quero dar trabalho para as próximas mudanças da minha mãe ou ficar pensando se tudo meu está inteiro e no lugar. Os objetos não ocupam só espaço físico, eles ocupam também uma lacuna na cabeça da gente.

Isso tem me dado um trabalho chatíssimo de muitas horas por dias. Para vender minhas revistas em quadrinhos, por exemplo, preciso organizá-las e catalogá-las. O plano de sair do país é antigo e comecei a organizar minhas revistas para vendê-las faz tempo, mas o fiz tão lentamente que o arquivo em que estava catalogando não era atualizado desde 2014!

Eu queria estar com pessoas, mas estou ocupado vendendo, doando e guardando objetos. Enquanto arrumo minhas coisas, o celular toca e os amigos me chamam pra sair. Atendo os chamados e depois vou dormir pensando nas coisas pendentes para arrumar, ou recuso chamados porque tenho que arrumar coisas. Já quase cochilei no cinema e às vezes saio e não aproveito tanto porque estou pensando na pilha de coisas esperando arrumação. Meu aprendizado mais sagrado merece um parágrafo isolado:

As coisas que você possui um dia se voltarão contra você. 

Você vai se mudar e vai perder um pequeno item de muito valor sentimental porque vai perder tempo e atenção com alguma tranqueira gigante. Você vai querer passar seu tempo com as pessoas que você gosta, mas estará ocupado arrumando coisas. Nesse cenário, você vai começar a odiar coisas que achava que não conseguiria se desprender, porque o papel delas, em vez de te dar boas lembranças, é privar você de viver o presente e o futuro.

Livre-se das suas coisas inúteis enquanto pode. Pense bem antes de fazer compras, durma pensando se o que você vai adquirir é realmente necessário. Seus objetos pessoais podem se tornar uma âncora física e mental, eles estão só esperando a hora pra dar o bote.

Compre uma máquina de picotar papel. É como um video game, só que não precisa ligar na TV.

Venda suas coisas. Doe o que puder. Dê suas coisas pros seus amigos, elas poderão ganhar novos significados na prateleira deles e se tornar boas lembranças. Pessoas necessitadas ou instituições que cuidam delas farão bom uso de livros, roupas e instrumentos musicais. Liberte-se das tralhas enquanto é opção e não necessidade.

A relação com as pessoas

Eu tenho amigos que passo meses ou anos sem ver, pois eu sei que eles estão aqui a alguns quilômetros de distância. Quando uma mudança para outro lado do oceano tornou-se iminente, bateu uma vontade de ver todo mundo, sair pegando o telefone e mandando mensagem pra uma lista enorme de gente marcando cafés suficientes para deixar uma pequena cidade de meio milhão de habitantes sem dormir, ou cervejas suficientes para fazer a mesma cidade dormir por horas.

No sentido oposto, aqueles amigos que nunca marcam nada e/ou que deixaram de sair de casa após os trinta anos começam a aceitar seus convites e propor outros, porque você também será dificilmente visto daqui a uns meses.

Em qualquer relação, o conforto (saber que estamos próximos) leva à preguiça (“vamos marcar alguma coisa algum dia!” e nunca acontece). Isso mudou imediatamente com a proximidade da data de ir embora. Passei a ir pra bares e festas de que não gostava só pra não perder a chance de ver algumas pessoas. Fiquei estranhamente sentimental e em algumas horas virei aquele bêbado chato que abraça todo mundo. Mesmo não gostando muito de aparecer em fotos, bateu a vontade de fazer foto de todo mundo e com todo mundo.

Essa mudança grande e próxima me fez botar uma pedra em cima do botão do carpe diem. Gostaria de ter vivido dessa forma por alguns anos, mas faltava algo pra impulsionar, em mim e nos outros, essa motivação e essa adrenalina.

Pela primeira vez, pedi pra fazer uma foto com minha psicóloga que me acompanhava há 11 anos. Pedi pra fazer uma foto com minha médica que me acompanhava há 19 anos. Pessoas com quem minha relação teoricamente era de cuidador-paciente, mas que a proximidade de sair daqui me fez perceber a importância que tiveram e que eu gostaria de ter uma lembrança delas. Por que eu nunca quebrei o protocolo e mantive formalidade besta com pessoas que cuidaram de mim por anos?

E, olha, cada abraço acompanhado de “não sei quando te vejo de novo, mas boa sorte” é muito, muito difícil.

O medo

Não sou apegado à minha cidade e por motivos diversos não me sinto como se pertencesse a ela. É bem pessoal, sempre tem quem tente me mostrar um motivo pra gostar daqui, mas não cola. Quase sempre que viajo, volto reclamando. Sair do país é algo também que quero há anos, por motivos pessoais, profissionais, sociais e políticos que não são o foco desse texto.

Mesmo assim, depois de uma boa saída com os amigos que me restaram aqui — muitos já foram embora —, volto pra casa assustado com a mudança que vem por aí. Já me peguei pensando várias vezes nos últimos dias “que porra eu tô fazendo com minha vida?!”: mesmo não gostando da cidade em que moro, eu nasci e cresci aqui, é minha referência geográfica e cultural. É difícil admitir, mas é minha zona de conforto. Conforto não quer dizer que é algo bom, mas que é algo a que você é acostumado. É como aquela pessoa que não se divorcia porque, mesmo tendo um casamento ruim, já está habituada aos problemas. Já sei as qualidades e defeitos daqui e, como todo ser humano, tenho medo de mudança.

Alguns amigos tiveram a sorte de viver em outros países na infância. Isso me dá a impressão de que são pessoas muito mais desprendidas, isentas de raízes. Talvez elas realmente sejam, talvez seja só o hábito de achar que os outros são mais corajosos que a gente. Essa será minha primeira experiência fora da cidade em 31 anos de vida e, puta merda, em alguns dias (e especialmente noites), isso assusta pra cacete.

Tento pensar, como falei lá em cima, que o conforto leva à preguiça e que o melhor a fazer é correr em direção a isso que me assusta agora. O que será das nossas histórias se a gente não fizer algo grande que nos assusta uma vez na vida?

O último filme que assisti em 2013 foi A Vida Secreta de Walter Mitty. Pra quem gosta de viagens, fotografia e boa música, é um ótimo filme. Minha opinião, claro.

Walter Mitty é um cara que quer impressionar uma garota, mas tem um conflito: ele não tem nada interessante pra contar. Ele trabalha numa sala escondida da redação da revista Life, coleciona coisas que queria fazer, mas não fez, como muitos de nós, e sonha acordado com realidades mais interessantes. E o resto da história, bem, é o filme.

Um dia fui surpreendido por um tio meu com histórias de quando ele era mais novo e passou anos conhecendo vários países. Eu teria que correr muito pra me aproximar das histórias que ele me contou, mas quando o meu quarto, minha cama, meu sofá e minha cidade parecem tentadores, lembro da minha reação ouvindo as histórias e como eu precisava levantar âncora e partir.

Junto todas essas histórias e penso que esse é o espírito: a zona de conforto é quentinha e sair dela é assustador, mas ficar nela jamais renderá boas histórias para sobrinhos, netos ou nosso eu do futuro.

Quando um amigo meu foi embora pra Califórnia há uns dois anos com sua esposa, ela sabia dos meus planos similares e perguntou se, quando chegasse meu dia, se eu “ficaria com medo de sair de perto da mamãe”. Falei, seguro, que não ficaria. Como diria o finado George Michael, tudo que temos que fazer agora é pegar essas mentiras e transformá-las em verdade de algum jeito.

A realização (e os agradecimentos)

Aos 29 anos e 11 meses, eu estava numa crise dos 30 absurda. Eu sentia que meu estilo de vida não era o que eu queria: muito trabalho, muito tempo no trânsito, muito stress, pouca diversão. Eu enviava currículos pro exterior e nada acontecia. Minha namorada, médica, estaria indo embora em alguns meses pra residência dela no exterior. Eu sentia que chegava aos 30 anos, levava uma rotina que me matava e que não era nada do que eu havia pensado pra mim aos 18.

Arrumei o trabalho remoto pra empresa onde estou atualmente, passei a trabalhar de casa e viajar mais, afinal eu podia trabalhar de qualquer canto. Passei uma temporada na casa do meu irmão e minha cunhada, que moram em Portugal. Passei uma temporada na casa da minha namorada quando ela se mudou. Essa fase entre o meio 2015 e o fim de 2016 foi a primeira vez que bateu aquela realização profissional de estar colhendo o fruto de tanto esforço.

Agora eu estou indo morar onde eu sonhei por anos. Se vai ser bom como no sonho, eu ainda vou descobrir. Mas é absurdamente feliz realizar algo desse porte, saber que algo tão antigo está se tornando real.

Trabalhei muito pra isso, mas eu mentiria se dissesse que o mérito é só meu. Agradeço aos meus pais, tios e avós pelo luxo de ter tido educação e saúde no Brasil. A Carol, minha namorada, me apoiou muito quando eu estava triste e cansado da busca, e dizia “tenta de novo, o ‘não’ você já tem”. Muitos amigos me ajudaram na vida profissional que me trouxe até aqui, e um amigo me indicou pra empresa. Minha psicóloga me aguentou e aconselhou por onze anos. Tudo isso é que me deu uma base pra realizar esse próximo passo.

E agora?

Resposta curta: não sei!

Hoje é segunda e vou embora na próxima madrugada de sábado pra domingo. Estou ainda tentando vender coisas. Espero vender meu carro amanhã. Quero encontrar e abraçar amigos e familiares e minha agenda está cheia. Vai ter gente que não vai dar tempo de ver e ainda tem um monte de coisa entulhando aqui. É desesperador, repito.

Não tenho medo do que me espera lá. Imagino que vá ser incrível desbravar uma cidade nova, viver em outro clima (apesar de saber que o frio às vezes pode ser chato também), fazer novos amigos. Sei que procurar apartamento vai dar trabalho. Apesar de alguns pesares (porque nem tudo é 100% bom!), estou indo pra uma cidade incrível que visitei duas vezes e que me encantou. Me sinto otimista e acho que valerá a pena, mas esse estresse da última semana, até pisar no avião e pensar “está feito”, porra, é complicado.

Às vezes eu lembro do Superman, ainda bebê, saindo de Krypton num foguete enquanto seu planeta explodia, porque às vezes eu ajo como se tudo aqui fosse desaparecer quando eu saísse. Eu converso com os amigos que já saíram daqui e tento me convencer, calma e racionalmente, que Krypton não vai explodir dessa vez, que teremos a tecnologia para diminuir a distância e aviões pra resolvê-la temporariamente.

Krypton

Krypton explodindo, por John Byrne

Muita coisa ainda virá nessa semana. Meu quarto ainda está cheio de tralhas, alguns anúncios meus esperam respostas, tenho abraços pra distribuir e pouquíssimo tempo. Em alguns dias eu vou entrar num avião, realizar um sonho antigo, descobrir um país novo, um povo novo, um clima novo, levar uma vida com novos prazeres e — é sempre bom gerenciar a expectativa — novos problemas.

Eu vou revisitar esse texto muitas vezes, eu sei. Fico pensando se eu vou rir de como estava desesperado, se eu vou chorar de saudades dessa época. Só o tempo vai me dizer. Esse é um texto que acaba, mas não acaba.

Onde estou?

3 de December de 2011   —   20:28:54

Faz uns meses que apareço pouco por aqui, por motivos diversos. Cheguei a rascunhar algumas coisas que acabei nem publicando por essas bandas, cheguei a achar que ia parar com isso aqui mas esse é um espaço difícil de se desfazer, e até o silêncio por aqui quer dizer muita coisa.

Quando os blogs começaram a aparecer na web, há uns dez anos, as pessoas os definiam com “um blog é um diário que uma pessoa escreve e publica na internet, pra todo mundo ler”, às vezes seguido por um “…coisa de maluco divulgar sua vida assim!”. Talvez por isso os blogs tenham herdado uma característica bacana dos diários: reler isso aqui me faz reencontrar meu eu de épocas passadas, ver o quanto mudei em alguns pontos, me mantive firme em outros, e até mesmo relembrar histórias que esqueci.

Até o silêncio, a ausência, o hiato no blog fala muito sobre mim, mais do que eu conseguiria dizer se eu escrevesse. E agora, respirando um pouco, eu posso falar sobre isso.

Na descrição do meu perfil no twitter (e isso pode não estar mais lá quando você ler esse texto), eu digo que estou “numa busca diária de tempo para livros, discos, jogos e filmes”. E é isso que acontece e resume meus dias. Vamos deixar isso pessoal e falar de mim?

Livros!
Tenho muitos, muitos livros pra ler. A maioria deles eu comprei na época da faculdade (que concluí em 2009) mas até hoje não consegui ler todos. Agora mesmo acabei de ler A Caçada ao Outubro Vermelho, que comprei no fim de 2008 numa promoção do Submarino, e que achei razoável, provavelmente por problemas de tradução.

Comprei há uns dias os quatro primeiros livros da saga A Song of Ice and Fire, que inspirou a série Game of Thrones da HBO. A ideia é ler pelo menos os dois primeiros livros até a segunda temporada começar, o que os colocou na frente da fila dos livros que já tenho. Vou falar de séries logo abaixo.

A fila de livros é razoável: tem livros que vão desde temas religiosos (eu gosto de ler sobre religiões diversas, história das religiões, etc.), passando por romances de guerra até chegar em alguns clássicos. Quando eu for lendo vou colocando por aqui. 🙂

Música! Áudio!
Quanto mais coisas novas eu conheço, mais eu volto pros clássicos. Quanto mais eu conheço e escuto coisas como Beatles, Paul McCartney, Rolling Stones, Led Zeppelin e outras coisas mais antigas, mais eu me questiono porque não os escuto antes de experimentar as coisas da atualidade.

Em tempo: preferi o disco do Noel Gallagher’s High Flying Birds que o do Beady Eye.

Pra não falar só de música, vou falar de um vício que adquiri depois de adquirir meu primeiro iPod esse ano: podcasts. Eu tinha um puta preconceito com eles, achava que seria chatice passar uma hora ouvindo gente falando de assuntos diversos… mudei de ideia.

Minhas recomendações são o RapaduraCast (sobre cinema), 99 Vidas (jogos, normalmente jogos antigos), Nerdcast (uma abordagem bem humorada, às vezes demais, sobre temas diversos) e 6 Minute English (dicas de inglês em inglês, da BBC).

Jogos!
Nunca gostei muito de jogos de computador (com exceção de Starcraft e Commandos, meus eternos favoritos), já que gostar de jogos de computador implica em comprar uma placa de vídeo todo ano e fazer um investimento pesado em hardware para conseguir rodar bem os jogos. Sempre preferi consoles: o seu PS3 vai rodar o jogo numa qualidade igual ao PS3 do seu amigo, e assim está bom. Ah, e dá pra jogar deitado olhando pra TV.

Esse ano comprei um PS3, que convive em harmonia com meu Wii. Para o PS3 eu recomendo Heavy Rain, Uncharted 2 (estou devendo o resto da série…), Mortal Kombat. Também tenho gostado da série Call of Duty: eu tinha um preconceito com jogos de tiro de primeira pessoa mas gostei de Black Ops e World at War.

Comprei uma coletânea chamada Sonic’s Ultimate Genesis Collection, com trocentos jogos de Genesis (que no Brasil ficou conhecido como Mega Drive) para jogar no PS3, com alguns do Master System e arcade de brinde. Pretendo, qualquer dia desses, jogar os quatro primeiros jogos da série Phantasy Star.

No Wii tenho me distraído com o novo Zelda: Skyward Sword. Parece uma mistura do Twilight Princess com o Wind Waker e até agora não tenho uma opinião formada, apenas um “está bom até então”. Também gostei do Donkey Kong Country Returns. Apesar de decepcionar com poucos títulos bons, a Nintendo ainda é a que melhor entende de jogos de plataforma.

Filmes (e séries)!
Eu tenho uma longa lista de filmes-que-todo-mundo-viu-menos-eu e minha namorada sempre tropeça num deles dizendo “como assim tu nunca viu?!”. Ao mesmo tempo, vou tentando acompanhar os filmes novos que vão saindo, e, por mais que eu evite repetir, sempre tem um que eu acabo vendo novamente.

Tenho deixado meio de lado a maioria das séries que eu acompanhava. Tenho visto apenas Dexter (que não decepciona e continua ótima na sexta temporada) e estou na terceira temporada de Arquivo X. Sempre me diziam que era uma série datada e que não seria boa hoje, mas tenho achado a série ótima.

Também recomendo a nova série Game of Thrones, da HBO, da qual gostei muito da primeira temporada e, como falei acima, vou ler os livros.

E mais…

  • Tenho tentado voltar a pedalar com regularidade e a glicemia (sou diabético, pra quem não sabe) tem agradecido.
  • Estou no segundo semestre do curso de francês da Wizard, que tem sido legal pra caramba. Estou gostando da língua e do curso, recomendo a quem quiser aprender esse idioma.
  • Também venho tentando ver filmes e séries sem legendas ou com legendas em inglês pra melhorar o convívio com a língua.
  • Trabalhando e sempre.
  • Volta e meia tendo dar uma mexida em alguma coisa nova de programação em casa, só pelo prazer de programar e aprender algo novo. Faz bem pra cabeça e pra sanidade.

É isso. Acho que deixei uma boa marca aqui para que eu volte daqui a uns anos e reencontre meu eu do passado e lembre onde eu estava em novembro de 2011. 🙂

Onde vivem os monstros

10 de April de 2010   —   01:30:57

É o nome do filme de que vou falar agora. Sinopse, produtor, diretor, essa coisa toda de ficha técnica você procura no Google, porque eu preciso falar da minha história com o filme.

Foi minha namorada quem me alertou pela primeira vez que esse filme devia ser bom, que já conhecia a história e devia ser legal. Aí vi no site do UCI que havia estreado, em 15 de janeiro, e fui atrás das sessões. Mas… nada de Fortaleza. Só São Paulo e Rio. Me indignei, fiquei puto, soltei as cobras no twitter e ainda aguentei amigos que moravam nos estados citados ou que viajaram pra lá elogiando o filme. E toda semana ia lá eu, no site do UCI, ver a droga do filme dar a volta no Brasil sem nunca chegar em Fortaleza. Acabei deixando pra lá e desisti de ficar puto toda sexta-feira, ao ver que o filme nunca chegaria aqui.

Alguns amigos baixaram o filme da internet e me ofereceram. Eu ainda me senti tentado, pensando que iria passar em Fortaleza no Dia de São Nunca, mas a Carol, minha namorada, me convenceu a esperar sair no cinema. Tem filme que é pra ver no cinema, né, pelo menos a primeira vez. Esse é um deles. Resisti à pirataria, firme e forte.

Foi o Paulo André quem primeiro me deu o toque que o filme estava chegando, há alguns dias. Já a Natalia mandou pro Danilo a página de cinema do site do jornal O Povo com os horários do filme. Reproduzo abaixo, em formato de figura, a tabela de horários do filme copiada do site citado:

Sim, seus olhos não estão mentindo: sexta, 9 de abril (lembra que em São Paulo e Rio foi 15 de janeiro?), dia da estreia em Fortaleza, às 21:50. No dia seguinte, às 10:45 da manhã. Domingo? 12:10. E de segunda em diante, 19:30. Mas só até quinta. Depois, espere sair na locadora. Troféu Joinha pro UCI Multiplex de Fortaleza! Pior horário de todos os tempos!

Me deu vergonha de morar em Fortaleza (é um evento pelo menos diário). Eu sabia que era um bom filme… Quantas semanas passei indo no site do UCI, só pra ver que Xuxa em O Mistério de Feiurinha estava há dois ou três meses em cartaz, e nada de Onde vivem os monstros estrear? E, quando estreia, ainda é nesse horário merda, inviável pra muita gente. Mas enfim, não dá pra comparar com a Xuxa. Em Fortaleza, o filme recebeu tratamento de Cinema de Arte: poucas sessões, para público selecionado/seletivo/whatever. Bom pro filme (será?), péssimo pro público.

Mas sexta-feira, dia 9, e lá estávamos eu – ainda me recuperando de uma semana doente – e Carol, às 21:30, chegando ao cinema. Sala ainda vazia, mas bem cheia em alguns minutos. Eu estava cheio de expectativas e pronto pra quebrar a cara, porque é isso que acontece quando se vai com muita sede ao pote. Mas, em uma palavra, eu vos digo:

FILMÃO.

Não quebrei a cara. Correspondeu às minhas expectativas. Um puta dum filme, trabalhado nos mínimos detalhes, cheio de sutilezas. História, cenários, trilha sonora, tudo em equilíbrio. Impecável. Se você nasceu com menos de 20 anos e tem algum coração, você será tocado. Foi impossível, durante o filme, não abrir o baú e lembrar de alguns eventos da minha infância com o desenrolar da história. E não, não é um filme infantil.

Há alguns dias eu tinha comentado com a Carol que eu estava sentindo falta de algum filme que desse aquele cutucão em você, que você passasse um tempão depois pensando nele. Achei, é esse filme aí. Fodíssimo.

Só me dá pena dizer pros amigos “vão lá e vejam!”, e depois fornecer essa pobre grade de horários vergonhosa do UCI fortalezense. Mas enfim: vão lá e vejam. Vou aqui sentir vergonha pelo cinema, e dormir pensando no filme.

Vou concluir meu texto com um pedacinho da conclusão de outro texto sobre o filme, do blog Antigravidade: “É um filme bonito e até tocante que será admirado nos anos futuros e provavelmente será analisado em cursos de cinema ao redor do mundo até o fim dos tempos”.

The Office

21 de February de 2010   —   17:12:43

Séries são como a Hidra, o monstro mitológico: pra cada série que você acaba de assistir até a última temporada, surgem duas no lugar. E nesses dias eu descobri mais uma: The Office. Minha namorada já me sugeria a série há um tempão, mas só no Carnaval parei pra assistir, emprestada pelo Silveira. Em poucos dias vimos da primeira temporada até o começo da terceira (a série já está na sexta temporada).

Originalmente uma série britânica, The Office foi levada aos Estados Unidos e fala do dia-a-dia num escritório duma filial duma distribuidora de papel. A série aborda as tarefas cotidianas dum escritório: trabalhar para um chefe que sabe menos que os funcionários, mas que se considera uma grande liderança; ter um colega de trabalho difícil de lidar; romances no ambiente de trabalho; preconceito racial; puxação de saco e de tapete. Tudo isso é abordado em forma de comédia, mas de maneira inteligente e sem forçar a barra com risadas ao fundo, comuns em séries de comédia (odeio as malditas risadas ao fundo).

Além do mais, quem já trabalhou num escritório de qualquer coisa ou já estudou algo de Administração sabe o quão real a série é. Mais do que uma comédia, a série satiriza os ambientes de trabalho, unindo todas as características e problemas comuns no mesmo escritório.

Michael Scott é o chefe do escritório, interpretado por Steve Carell, que já atuou em filmes como Pequena Miss Sunshine, O Virgem de 40 Anos e Agente 86. O personagem se julga um grande chefe e um grande líder, e em algumas horas, principalmente na primeira temporada, dá vontade de bater nele. Provavelmente ele é o personagem de série com quem mais desenvolvi antipatia. E essa é a função dele como personagem: despertar antipatia, desconforto e vergonha alheia.

Outro personagem memorável é Dwight Schrute, um completo imbecil, daqueles que você olha e pensa “como um idiota desses arranjou um emprego?”. Assim como Michael, é um dos personagens que você adora odiar.

Também temos o casal Jim e Pam, um dos casais mais legais que já vi em séries. Jim é um dos funcionários do escritório e seu trabalho é vender papel. É atormentado por Dwight, que senta na mesa ao lado. Pam é a recepcionista do escritório. Apesar dos dois serem apenas colegas de trabalho, não tem como não torcer pra que eles fiquem juntos.

Cada episódio da série é curto, com cerca de 20 minutos. A primeira temporada tem apenas seis episódios, e compartilho da opinião de alguns que é a mais sem graça. Chegando na segunda, acabei me viciando na série e foi um caminho sem volta.