Divagando e budejando sobre três meses de pandemia

30 de May de 2020   —   16:27:21

Escrevi esse texto por estar oscilando entre triste, ansioso e puto da vida (perdoe meu vocabulário rudimentar). Como o título sugere, vou falar de coronavírus, notícias, isolamento, impressões desses tempos. Pode não ser uma leitura leve, mas foi algo que achei necessário escrever. Relatos similares de amigos e desconhecidos me ajudaram a não me sentir sozinho com os pensamentos negativos que essa época nos traz, mas pode ser que eu não consiga esse mesmo efeito nobre em todo mundo.

Há uns cinco ou seis anos, um colega de trabalho falou que havia conhecido uma amiga minha num jantar. Aquele roteiro bem conhecido de Fortaleza: um assunto em comum aparece, você cita uma história ou onde trabalha, as pessoas falam que conhecem alguém, a outra pessoa fala que também conhece. Ao chegarem no meu nome, minha amiga pergunta “se eu ainda abraçava todo mundo”.

Esse meu lado, digamos, abraçador vem perdendo força nos últimos anos. Em 2017 vim morar nesse país em que o contato físico é menos comum, e por vezes eu tive vontade de perguntar para grupos de pessoas que se abraçavam na rua como eles haviam chegado naquele estágio. Saber se eu tenho intimidade para abraçar alguém aqui às vezes é uma aposta, uma equação que eu resolvo na cabeça onde as variáveis são contatos anteriores com a pessoa, o país de onde ela veio, como eu a vejo agir com outras pessoas. Se eu juntasse o esforço mental que usei em três anos aqui com esse cálculo, talvez eu ganhasse uma medalha Fields.

Meme da Nazaré Tedesco fazendo contas.

Muitas pessoas mais introvertidas vêm fazendo piadas com o isolamento, dizendo “eu me preparei a vida inteira pra isso”, e talvez os últimos três anos tenham me preparado pra esse momento. Nos próximos dias faço três meses sem ver minha namorada, que mora a duas horas e pouco de avião daqui; as únicas conversas não-digitais que tive com outras pessoas desde a segunda semana de março foram agradecendo algum entregador, sempre mantendo uma distância segura e pedindo para deixar a caixa na porta, por favor; as últimas pessoas que abracei foram uma amiga e seu namorado no dia 7 de março (a vida continua além do coronavírus e nesse tempo o tal namorado virou ex).

Um pensamento recorrente nesses tempos é como às vezes não nos damos conta que algo simples que vivemos pode ser a última ocorrência de uma série, que pode não acontecer de novo ou não acontecer tão cedo. Se por um lado isso nos dá uma pressa de viver tudo o que há para ser vivido, seria insuportável viver com esse peso o tempo inteiro.


Curiosamente, algumas empresas daqui do Reino Unido tomaram medidas de isolamento antes do governo tomar medidas oficiais. Comecei a trabalhar de casa enquanto o governo daqui ainda falava em imunidade de rebanho; eu e minha namorada cancelamos nosso último encontro, que seria no meio de março; minha última saída (fora saídas semanais para jogar o lixo fora) foi para conversar com meu médico e garantir uma receita de comprimidos para os tempos que viriam.

Eu sou diabético e isso me põe num grupo de risco. Não tenho um risco maior de infecção, porém tenho riscos maiores de complicações caso eu me contamine. 25% dos mortos em hospitais do Reino Unido tinham diabetes, e a ideia de sair de casa se tornou um lembrete da minha própria mortalidade. Me pego pensando em tudo que vivi por 34 anos e jogando tudo fora porque decidi dar uma volta além do meu quarteirão e, no fim, apenas fico em casa.

As regras de isolamento do Reino Unido, na minha opinião, foram e são bem brandas. Não tão brandas como as da Suécia, que não fez isolamento social oficial (e paga seu preço), mas nem de longe rígidas como as da Espanha ou muito menos as da Nova Zelândia, que está zerando os casos.

Um meme que gastei tempo fazendo pra representar meu sentimento ao olhar para a curva de casos da Nova Zelândia.

Foi permitido às pessoas daqui uma hora de exercício físico ao ar livre, o que achei no mínimo estranho, já que o vírus não está monitorando o batimento cardíaco e calorias gastas das pessoas para saber quem pode ou não ser contaminado. Entender a forma de pensar britânica, da gastronomia ao isolamento, é um exercício que já me fez dobrar e desdobrar o cérebro de várias maneiras para ver se alguma encaixa.

Minha cabeça quer soltar fumaça tentando interpretar a realidade. Os cientistas e médicos sugerem medidas, os jornais as publicam, o governo adota metade delas, ignorando partes importantes, e as pessoas decidem seguir metade do que o governo pede. Pessoas que antes eram críticas ao governo de repente tornaram-se leais, “veja, eu estou saindo, mas estou dentro da minha hora de exercício permitida”, em nome da conveniência de não seguirem rigorosamente o isolamento. Eu, com minha diabetes, saudades da namorada, família e amigos, com medo-de-morrer-mas-vontade-de-continuar-vivendo, sigo em casa.

O governo daqui vem afrouxando as medidas num ritmo não recomendado pelos cientistas e médicos. As pessoas saem para dar seus passeios e publicam nas redes sociais fotos de gente se encontrando, celebram as pessoas se abraçando na rua como se fosse o fim duma guerra, mesmo que contra as já brandas regras estabelecidas e que isso signifique um risco de aumentar os números de contaminações. O desejo de viver o verão atual parece maior do que viver até o próximo. Talvez eu seja ansioso demais por pensar em dias, semanas e anos em vez de apenas sair e encontrar alguém sem pensar nas consequências.

Eu sou um programador, não um psicólogo ou sociólogo, e antes de tudo eu sou ansioso. Talvez se eu soubesse mais do funcionamento da mente das pessoas eu seria menos impaciente, talvez fosse mais desesperador. Uma das maiores recomendações para ansiosos é não tentar controlar aquilo que está fora do nosso campo de ação, como as pessoas que seguem suas vidas sem se importar com os gráficos que por algum motivo os jornais que acompanho pararam de publicar.

Porém a prevenção do coronavírus é um pacto coletivo, só funciona se todos fizerem, e eu não consigo me desligar disso. Se os números sobem, eu sigo sem ver minha namorada, minha família, meus amigos. Não consigo desligar o interruptor da raiva, e tem sido especialmente difícil pra mim interpretar a realidade, achar algum sentido nas pessoas que se dizem estudadas, mas seguem ignorando conselhos oficiais ou científicos. Me preocupar e sentir raiva, porém, também não me traz bem algum, já que as pessoas vão seguir se abraçando lá fora enquanto me desgasto aqui dentro, com a saúde mental em frangalhos e o coração apertado de saudades.

Esse tipo de pensamento e o isolamento têm me feito reinterpretar vários momentos da minha vida. Estou bastante desgastado por todos os momentos de autoconhecimento que tenho sozinho no espaço confinado do meu apartamento, por todas as epifanias vindo de madrugada à custa de muitas horas de sono.

Eu lembro de tantos outros momentos em que sabendo que algo era o certo e deveria ser feito ou algo era errado e não deveria ser feito, eu tive essa sensação de ficar pra trás enquanto via os outros seguirem adiante. E mais uma vez essa nuvem volta para me atormentar, o peso de fazer algo que eu acredite ser o correto enquanto os outros não se importam. Em poucas palavras, estou sendo feito de otário.


Juro que tento manter a cabeça ocupada.

Como falei, antes mesmo do governo adotar oficialmente o confinamento meu trabalho mandou todo mundo trabalhar de casa. Eu havia trabalhado de casa entre 2015 e 2016 e sentia muita falta de poder trabalhar nessa modalidade, sem gastar horas diárias indo de casa para um escritório barulhento. Claro que o falo com noção de meus privilégios, já que posso exercer meu trabalho de casa e não passo pelo drama dos colegas que precisam trabalhar com filhos em casa, por exemplo.

O video game tem me feito bem. Por ser um entretenimento mais imersivo, que não acontece se você não dedicar sua atenção completa, também é bom para me obrigar a tirar pensamentos das notícias, do passado, do futuro. Finalizei o espetacular Horizon: Zero dawn e tenho me dedicado ao espetacular The Messenger, jogo que homenageia ao mesmo tempo vários jogos antigos das décadas de 80 e 90, como Ninja Gaiden, Donkey Kong e Metroid.

Atenção: o trailer contém spoilers, mas coloquei aqui mesmo assim pra ter algo gráfico no meio do texto e parecer menos cansativo…

Tenho visto várias séries. Mad Men sempre me faz passar raiva com os personagens, mas é um lembrete de como arte boa é aquela que desperta sentimentos, mesmo que seja raiva. Sex Education, do Netflix, tem seus momentos de humor e drama. Hunters, da Amazon Prime, é uma produção muito boa sobre caçadores de nazistas, se você ainda estiver com paciência para nazistas depois de ler as notícias do Brasil.

Picard traz mais uma vez a mistura de sci-fi e filosofia de Star Trek. Enquanto escrevo lembro de Elnor, guerreiro qalankhkai que se dedica sua vida a causas perdidas. A vida real é menos empolgante que a ficção, e já me peguei pensando quem são os guerreiros por aí que se dedicam a causas perdidas nos nossos tempos. Quem sabe os profissionais de saúde, de alimentação e entregadores, que trabalham enquanto há gente protestando de automóvel para o fim do confinamento e tornando-se pacientes dias depois. Não fosse a palavra “guerreiro” um clichê besta hoje em dia, seria talvez uma boa metáfora.

Bem, prometi divagações no título, mas já estou divagando demais. Vamos pros livros. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes, é um livro com seus momentos de tristeza mas me trouxe o conforto da familiaridade dum livro em cearês. Enquanto fuçava no Goodreads por algum livro com pitadas de humor, comecei a ler Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, só pra tropeçar mais uma vez em personagens quixotescos em busca de causas perdidas. Num momento em que entender como a ciência funciona é ainda mais urgente, estou lendo O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Fora isso, outros livros relacionados a trabalho que não merecem ser citados aqui.

Uma caneca de café sobre uma pilha de livros iluminada por uma luminária.
Uma das fotos que fiz em casa.

Sinto bastante falta de fotografar e tentei fazer algumas fotos em casa, mas a criatividade não vingou como esperado. Tentei praticar guitarra sozinho com sites de aulas virtuais, sem muito sucesso, e em seguida comecei aulas de guitarra via Skype com um professor de Fortaleza, João Victor Barroso. Quem me conhece sabe que há muitos anos tocar guitarra é um sonho que nunca levo adiante e uma pendência na minha vida, mas quem sabe agora vai. Tem sido bom ver algo novo progredindo na vida num momento em que todo o resto está difícil.

Comprei um suporte de bicicleta para poder pedalar dentro de casa e tenho feito aulas de yoga que vejo no YouTube (recomendo Yoga with Adriene, em inglês, e o canal da Pri Leite, em português). Sigo engordando e não gosto quando me vejo no espelho, mas acho que a atividade física nesse momento tem sido mais relevante para a saúde mental que para me manter em forma.

Fora isso, a diabetes felizmente também se mantém controlada, tanto pela atividade física quanto pelo fato que tenho cozinhado mais e comido menos coisas processadas. E não posso falar disso sem falar da Rita Lobo e do Cozinhoterapia da Luiza, uma das minhas amigas de Fortaleza que por algum motivo nunca vi pessoalmente e espero conseguir encontrar um dia.


Ler as notícias é um exercício difícil. Já tentei passar uns dias longe dos jornais, o que me fez muito bem, mas em algum momento precisei me informar. Existem muitos, muitos artigos tentando descrever como o futuro vai ser, como serão os escritórios, as viagens de avião, como tudo que a gente conhecia já era.

Longe de mim achar que o que tínhamos seis meses atrás era muito bom, mas também acho cedo para pensar no tal “novo normal”, expressão que já deu no meu saco. Um exercício que faço quando me pego pensando demais no futuro é lembrar que, no passado, muita gente falhou para prever o futuro. Falharam as previsões otimistas de carros voadores, falhou o pessimismo do malthusianismo.

Minha cabeça ansiosa tenta pensar em todos os cenários possíveis de futuro e ter um plano para cada um deles, porém isso é inviável. Nós simplesmente não sabemos. Estamos num problema que tem apenas cinco meses, nós não temos variáveis suficientes para saber com as coisas estarão daqui a seis ou doze meses, e tento me prender a essa ideia que pode ser tudo, inclusive nada.


Existem dias e dias. Hoje é um dia daqueles, e o cursor piscando na tela foi minha forma de tentar encaixar as ideias, tirar o peso do peito, desabafar, achar um respiro. Não sei se existe conselho ou resposta para o que sinto. Depois de publicar o texto, provavelmente vou tentar fazer uma yoga mais prolongada, já que o sábado tem mais tempo, e ver se o exercício físico faz o cérebro cozinhar alguma endorfina.

Adivinha quem está chegando?

4 de November de 2016   —   11:07:45

Um cara decidiu postar no twitter um gráfico sobre a busca por uma canção natalina de Mariah Carey. Alguém compartilhou no chat do trabalho e pensei como seria para algumas canções natalinas brasileiras. Lembrei da cansadíssima canção de Simone, Então é Natal, e fiz uma busca no Google Trends:

Então é Natal

Acima temos a projeção de buscas por “Simone então é natal” no Google desde 2004.Os picos do gráfico, obviamente, são os meses de fim de ano. O gráfico é relativo: 100% é o ano de 2013, quando as buscas tiveram o seu máximo. Felizmente, nos últimos dois anos, a busca pela música da Simone caiu pra 75% do que era em 2013.

Depois lembrei da música Um Feliz Natal, de Ivan Lins, e a acrescentei:

Agora o Ivan Lins

Nos últimos dois natais, a busca pela canção de Simone foi cerca de 10 vezes maior que a busca por Ivan Lins. Não sei como, pra mim eles sempre aparecem na mesma playlist nos cantos.

Lembrei, depois, da canção Papai Noel filho da puta, dos Garotos Podres, música conhecida por quem não aguenta as outras canções da época. Por ser um título único, acrescentei sem o nome da banda, o que talvez seja um pouco tendencioso em nossa pesquisa.

Pra minha surpresa, eles parecem competir bem com a busca pelo Ivan Lins:

Garotos Podres

O importante é: se precisar resolver algo em lojas de departamento, vá agora. A chance de ouvir Simone e Ivan Lins ainda é relativa baixa no começo de novembro. Corra.

Distopia

16 de October de 2013   —   22:36:26

Sempre a mesma coisa toda noite: chego em casa e vou dar uma olhada no Facebook. Entre um reporte de assalto e um de arrastão, todo mundo é especialista em segurança e sociólogo. Uns querem ver sangue, outros defendem alguma abordagem dita pacífica. Uns põem a culpa na desigualdade, outros falam que o problema é mera vagabundagem. Há quem diga que precisamos fazer algo, há quem diga que já fazemos demais pagando impostos.

Critica-se o partido X, é o partido do demônio, defende-se o partido Y como solução. Ah, Y também é ruim, sempre foi ruim, a Eurásia sempre esteve em guerra com a Lestásia, a solução de verdade está no Z. Não se iluda, epa, o político do Z já se envolveu em algum escândalo… mas meu político é melhor que o seu.

Surgem soluções milagrosas e o povo, desesperado, se divide entre elas. Buscam-se lados e criam-se trincheiras para uma guerra que está deixando de ser imaginária.


Ontem eu estava num supermercado. Na fila dos frios estavam algumas crianças e adolescentes desacompanhados de adultos, com blusas rasgadas de propósito, lenços na cabeça, como nos estereótipos de punks de filmes da década de 80. Na saída do supermercado, uma mulher sentada na calçada com um olho roxo por ter apanhado de alguém me pedia esmola com criança no colo, cercada de seguranças para que não entrasse no esbelecimento. Caminhei até meu carro no estacionamento escuro, pensando como tudo aquilo era familiar.

Robocop (1987)

Me lembrei de Robocop, 1984, O Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, Watchmen e outras obras que retratavam futuros distópicos. De repente eu me vi no meio de algo que junta um pouco de todas essas obras numa grande mistura carente de heróis.

Essa carência é mais do que uma consequência dos fatos, também é um sintoma e também é um problema.

Batman: The Dark Knight Returns


Em todo momento problemático da História temos um padrão: primeiro as pessoas têm um problema. De vários pontos da população surgem soluções distintas para os problemas, umas mais radicais, outras menos. O desespero popular, às vezes cego, leva algum grupo ao poder, só que essa solução nem sempre é melhor que o problema original. Mas quem precisa estudar História, não é?

Nesse momento de Fortaleza, talvez do Brasil, estamos em algo entre os fatos reais do passado que a História retrata e um futuro distópico que a ficção nos apresenta. Mas quem precisa ler ficção?

O próximo passo ainda está por vir, e ele tem uma mistura de incerto com previsível.

GVT: uma armadilha

10 de February de 2013   —   10:49:17

Esse é um texto um pouco técnico e um pouco estressado. Se quiser algo leve, melhor ler outra coisa. Ah, e não assine GVT.

Eu tinha Oi Velox em casa. Nem de longe obedecia a velocidade assinada, mas funcionava o dia todo. Meus amigos sempre me diziam que eu era maluco, que eu devia assinar GVT, que era muito mais rápido e por aí vai.

gvt_logo

Acabou que assinei a tal da GVT. Tudo muito tranquilo: cliquei no botão do site para que me ligassem e me ligaram na hora. Falei que ia analisar a proposta e pedi um tempo. Me ligaram alguns dias depois e agendei a vinda do técnico para instalação para o dia de 30 de janeiro, uma quarta-feira. Tudo muito fácil e organizado.

No dia marcado (30 de janeiro) o técnico veio e instalou tudo do meu plano: internet, telefone fixo e TV por assinatura. A única ressalva foi que eu havia assinado a internet com velocidade de 15Mbps e ele disse que tinha que mudar meu plano para 10Mbps, pois a área não garantia a entrega de 15Mbps. Tudo bem, legal a informação e a transparência, fiquei feliz.

O técnico saiu daqui no dia 30, às 18:00, e tudo funcionava. Por algum milagre matemático, os 10Mb da GVT são muito superiores aos 10Mb do Oi Velox. A imagem da TV por assinatura da GVT é muito boa. Tudo estava ótimo… nas 4 horas em que funcionou.

Às 22h do mesmo dia em que a GVT foi instalada, tudo parou de funcionar.

No dia seguinte, comecei um inferno de ligações ao suporte da GVT. Em cada ligação, levava pelo menos 10 minutos para conseguir falar com um atendente humano. Foram pelo menos doze ligações em dois dias. Muitos menus com opções, muita musiquinha e gravações oferecendo power-combo e perguntando se eu já tinha reiniciado o modem, o que fiz pelo menos dez vezes. Minha gravação favorita é a que fala que o técnico vai na sua casa e deixa tudo funcionando!

Na quinta e sexta-feira, dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro, eu dei pelo menos 13 ligações para a GVT para conseguir um técnico, num total de mais de 3h de ligações. Os atendentes falavam que eu estava ligando do trabalho mas eu precisava estar em casa olhando pro modem (afinal eu não tenho mais o que fazer) pra fazer os mesmos testes que os atendentes anteriores tinham me orientado, ou as ligações simplesmente caíam após uma longa espera. Isso quando não me transferiam dum setor A para um setor B, e do B de volta pro A, a cada setor eu repetia o CPF do titular e falavam que não, que meu protocolo de instalação ainda estava em aberto e para eu aguardar, que não constava não-sei-o-quê no cadastro e por aí vai.

Na sexta-feira, cerca de 19:00, o técnico que instalou a GVT aqui reapareceu, conferiu tudo e disse que teria que retornar no dia seguinte pois não tinha como fazer o procedimento que deveria fazer naquele horário. Aparentemente o problema era na central, e no sábado de manhã, 2 de fevereiro, a internet e TV voltaram a funcionar.

Mais ou menos.

Começou outro inferno: a conexão instável da GVT. É impossível passar 24h sem enfrentar um período de lentidão ou queda de conexão. As luzes do modem estão lá, acesas. Tudo parece OK. Mas não aparece nada na TV e você não abre site algum, por falhas de DNS. A solução: desligar o modem — onde inclusive fica ligado o decodificador da TV — e ligar de novo.

Se fosse algo que acontecesse uma vez a cada muitos dias, seria OK. Mas diariamente, uma ou mais vezes por dia, eu preciso reiniciar o modem da GVT para que minha internet e minha TV funcionem com dignidade. Num dos dias ainda tive um problema com o telefone fixo, que passou três horas sem completar ligações, apenas recebendo.

Liguei para a GVT na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, para verificar esse problema. Enviaram mais um técnico para minha casa na sexta-feira, me deram alguma explicação esotérica envolvendo problemas em cabos ou centrais ou não-sei-o-quê e, no fim das contas, tudo continua sem funcionar direito.

Usei meus poderes de programador e fiz um pequeno programa para Linux e Mac OS que, a cada 10 minutos, verifica o status da minha conexão da GVT. É um programinha simples: ele tenta acessar um site, como eu faria pra verificar se minha conexão está funcionando, e registra em um arquivo se conseguiu ou não.

Hoje, por exemplo, minha conexão apresentou instabilidade até 5 da manhã, passou pouco mais de uma hora engasgando e a partir de 6 e meia não funcionou MESMO. O “Exit code: 6” significa que meu programa não conseguiu abrir o site que mando ele abrir, pois a conexão está ruim. Os horários estão à esquerda:

[sourcecode]
2013-02-10 05:00:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 05:10:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 05:20:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 05:30:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 05:40:01 [OFFLINE] Exit code: 56
2013-02-10 05:50:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:00:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:10:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:20:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:30:01 [ONLINE] 177.42.160.137
2013-02-10 06:40:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 06:50:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 07:00:01 [OFFLINE] Exit code: 6
2013-02-10 07:10:01 [OFFLINE] Exit code: 6

(a partir daqui a saída de erro se repetiu até eu reiniciar o modem.)
[/sourcecode]

Eu não consigo achar normal essa coisa de reiniciar o modem todo dia. Minha mãe não consegue aceitar, com toda razão, que a TV dela pare de funcionar do nada e precise reiniciar o modem para tudo voltar ao normal. Ela não é maluca por tecnologia, ela só quer as coisas funcionando de forma transparente, sem precisar saber de procedimentos obscuros e constantes de reinicialização de modems. Sugiro aos técnicos da GVT que testem esse procedimento diariamente com a mãe deles antes de (des)orientar a minha.

O ponto é que a GVT é muito rápida para você assinar o plano deles, mas esquece de você depois que você assina. Botão no site pro suporte te ligar não tem, não é? E o suporte simplesmente é ineficaz e burocrático. Estou com esse problema de queda de conexão há mais de uma semana, e não tem visita de técnico que resolva. Cadê o técnico que deixa “tudo funcionando”?

Não estou sozinho na armadilha da GVT e sinto saudades do meu Oi Velox: era mais lento mas funcionava. Melhor 50% de 10MB que 100% de nada, que é o que a GVT me entrega. Eventualmente, quando minha paciência esgotar, voltarei para a Oi ou procurarei outra operadora. Já falei com a Anatel, que me esclareceu: se o serviço não funciona como deveria, você não precisa pagar multa de fidelidade se quiser cancelar o plano.

A GVT, anunciada por alguns como a salvação da internet banda larga, é só mais uma operadora no mercado que desrespeita o consumidor. Meu conselho, se você pensa em assiná-la, é: FUJA.

Janeiros

16 de January de 2013   —   21:17:24

Janeiro costuma ser um mês um pouco chuvoso aqui em Fortaleza, e é engraçado como isso acaba levantando algumas recordações. Janeiro quase sempre foi de férias, quase sempre com coisas legais para lembrar. Ah, bons tempos em que janeiro tinha férias garantidas.

As mais remotas datam de janeiro de 1994. Lembro eu voltando da banca de revistas com Homem-Aranha Nº121 e de What’s Up, da banda Four Non-Blondes, tocando no rádio. Lembro eu lendo a revista na poltrona larga da sala de casa, poderia até falar das histórias daquela edição. Naquele mesmo mês meus tios e primos de Ribeirão Preto visitavam Fortaleza e fiquei no quarto no dia em que eles foram embora, pois não queria me despedir.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=6NXnxTNIWkc&w=480&h=360]

Pulo alguns anos e chego em janeiro de 1997. Eu tinha descoberto a diabetes há poucos meses, ainda tinha onze anos e viajava com meus pais e dois dos meus irmãos para alguma cidade da serra que não lembro qual era. Lembro de tentar jogar uma partida de Yo!Noid pouco antes de sairmos pra viagem, lembro das formigas que comeram o pacote de pão que ficou pendurado num saco na janela do hotel e do meu irmão tocando Esporrei na manivela no violão.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=OgxXP3bRd7U&w=480&h=360]

De janeiro de 1998 tenho alguma recordação de jogar Donkey Kong Land no Game Boy Pocket que eu havia ganhado no Natal de 1997. Eu tinha 12 anos e surgiu, por ali, meu primeiro aparelho de barbear, um Gilette Sensor Excel. Ele vinha com um radinho a pilha de brinde, que eu ouvia antes de dormir toda noite. Lembro que na época estavam na moda Palpite, da Vanessa Rangel, e Dois, do Paulo Ricardo, ambos hits de novelas. No fim do mês, na véspera do primeiro dia de aula da sétima série, fiz a barba — na verdade só o bigode, era o que eu tinha — pela primeira vez.

Pulo para janeiro de 1999. Lembro eu jogando The Legend of Zelda: A Link to The Past para Super Nintendo usando algum emulador no computador que havíamos comprado há poucos dias, além de Super Mario Kart 64 (os jogos sempre marcam alguma época, não é?) no Nintendo 64 que eu havia ganhado no Natal de 1998. Lembro de uma antiga amiga louca da família visitando a gente de surpresa, levando seu filho pequeno e sendo tremendamente inconveniente. Lembro de ir jantar um sanduíche no Babagula, na Beira-Mar de Fortaleza, e me questiono como é possível já fazer tanto tempo.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=IiQA5TA7Zp0&w=480&h=360]

Janeiro de 2000 foi especial. Eu tinha 14 anos e comecei a sair à noite, sendo a primeira vez para a Ponte Metálica. Alguns dos meus amigos da época são presentes até hoje. Na primeira saída lembro que meu irmão, que já dirigia e normalmente me pegava e deixava nos cantos, estava viajando e meu pai teve que me pegar cedo. Será que hoje, 13 anos depois, os adolescentes ainda podem sair tão novos? Lembro de algumas idas ao dentista naquele mês (acho que eu devia ter algumas cáries!) e de idas ao colégio não pela recuperação, mas porque eu estava envolvido em algum projeto pra web — na época em que internet era coisa de nerd — do laboratório de Física da escola. 2000 foi um ano legal.

Em janeiro de 2002 fui pra Ubajara com minha primeira namorada. No mesmo mês, com o que sobrou da grana que meus pais me deram pra viagem e da qual gastei muito pouco, fui ao centro da cidade e comprei o A Link to The Past para Super Nintendo que eu jogava três anos antes no emulador. Na época ele já era antigo e eu até tinha um Nintendo 64, mas jogos bons não envelhecem.

Em janeiro de 2003 eu pintei o cabelo de vermelho na véspera da segunda fase do vestibular, já seguro de que rasparia o cabelo (isso que é autoconfiança!). Lembro de ter ido a uma rave qualquer e acho que foi a última das duas em que fui. Dois meses depois eu começaria a faculdade, que eu ainda tinha esperança de que seria legal. Que engano.

Em janeiro de 2005 eu estava saindo pra caramba. Tinha conseguido permissão para dirigir há poucas semanas, Fortaleza tinha o Noise3D Club há dois meses e eu estava fazendo mais e mais amizades. Em 12 de janeiro de 2005 eu ataquei de DJ no Noise3D Club. Eu estava um pouco nervoso mas deu tudo certo, especialmente ao tocar Wouldn’t it be nice, dos Beach Boys.

Todo mundo já foi DJ um dia, né?

Todo mundo já foi DJ um dia, né?

2005 teve meu último janeiro de vagabundagem: em janeiro de 2006 eu começava no meu primeiro estágio, do qual não sou muito saudoso, mas foi o começo formal da minha vida profissional. Estagiar foi o que me mostrou que eu gostava da minha profissão, apesar de não gostar da faculdade, e foi meu estímulo para alcançar a formatura.

Em janeiro de 2008 meus pais haviam se separado há poucos meses e eu me mudava pela primeira vez na vida. Foi a primeira de várias mudanças de 2008, um ano que me quebrou de inúmeras formas, do coração à clavícula, mas do qual foi impossível não sair melhor e mais maduro.

Em janeiro de 2010 eu estava recém-formado e desempregado. Foi um alívio ter me livrado da faculdade, e a sensação de liberdade misturada à incerteza daquela época é inesquecível. Era como se sentir a leveza da juventude outra vez.

Em janeiro de 2012, vejam só, eu estava desempregado de novo, e tentando oportunidades que me fizeram bater a cara na porta algumas vezes, ao tentar dar passos maiores que minhas pernas permitiam na época. Engraçado como isso não ficou marcado como um trauma, mas como uma experiência engrandecedora.

E estamos aqui, em 2013. Os dias nublados de janeiro, uma marca desse mês após o calor de dezembro, sempre conjuram os bons fantasmas de janeiros passados. Vi em alguma manchete de jornal que iria chover 40% menos em janeiro de 2013. Uma pena. Mas, por via das dúvidas, escrevo tudo aqui para que eu possa relembrar um dia, tropeçando nos textos do meu blog, desses meses marcantes.