Divagando e budejando sobre três meses de pandemia

30 de May de 2020   —   16:27:21

Escrevi esse texto por estar oscilando entre triste, ansioso e puto da vida (perdoe meu vocabulário rudimentar). Como o título sugere, vou falar de coronavírus, notícias, isolamento, impressões desses tempos. Pode não ser uma leitura leve, mas foi algo que achei necessário escrever. Relatos similares de amigos e desconhecidos me ajudaram a não me sentir sozinho com os pensamentos negativos que essa época nos traz, mas pode ser que eu não consiga esse mesmo efeito nobre em todo mundo.

Há uns cinco ou seis anos, um colega de trabalho falou que havia conhecido uma amiga minha num jantar. Aquele roteiro bem conhecido de Fortaleza: um assunto em comum aparece, você cita uma história ou onde trabalha, as pessoas falam que conhecem alguém, a outra pessoa fala que também conhece. Ao chegarem no meu nome, minha amiga pergunta “se eu ainda abraçava todo mundo”.

Esse meu lado, digamos, abraçador vem perdendo força nos últimos anos. Em 2017 vim morar nesse país em que o contato físico é menos comum, e por vezes eu tive vontade de perguntar para grupos de pessoas que se abraçavam na rua como eles haviam chegado naquele estágio. Saber se eu tenho intimidade para abraçar alguém aqui às vezes é uma aposta, uma equação que eu resolvo na cabeça onde as variáveis são contatos anteriores com a pessoa, o país de onde ela veio, como eu a vejo agir com outras pessoas. Se eu juntasse o esforço mental que usei em três anos aqui com esse cálculo, talvez eu ganhasse uma medalha Fields.

Meme da Nazaré Tedesco fazendo contas.

Muitas pessoas mais introvertidas vêm fazendo piadas com o isolamento, dizendo “eu me preparei a vida inteira pra isso”, e talvez os últimos três anos tenham me preparado pra esse momento. Nos próximos dias faço três meses sem ver minha namorada, que mora a duas horas e pouco de avião daqui; as únicas conversas não-digitais que tive com outras pessoas desde a segunda semana de março foram agradecendo algum entregador, sempre mantendo uma distância segura e pedindo para deixar a caixa na porta, por favor; as últimas pessoas que abracei foram uma amiga e seu namorado no dia 7 de março (a vida continua além do coronavírus e nesse tempo o tal namorado virou ex).

Um pensamento recorrente nesses tempos é como às vezes não nos damos conta que algo simples que vivemos pode ser a última ocorrência de uma série, que pode não acontecer de novo ou não acontecer tão cedo. Se por um lado isso nos dá uma pressa de viver tudo o que há para ser vivido, seria insuportável viver com esse peso o tempo inteiro.


Curiosamente, algumas empresas daqui do Reino Unido tomaram medidas de isolamento antes do governo tomar medidas oficiais. Comecei a trabalhar de casa enquanto o governo daqui ainda falava em imunidade de rebanho; eu e minha namorada cancelamos nosso último encontro, que seria no meio de março; minha última saída (fora saídas semanais para jogar o lixo fora) foi para conversar com meu médico e garantir uma receita de comprimidos para os tempos que viriam.

Eu sou diabético e isso me põe num grupo de risco. Não tenho um risco maior de infecção, porém tenho riscos maiores de complicações caso eu me contamine. 25% dos mortos em hospitais do Reino Unido tinham diabetes, e a ideia de sair de casa se tornou um lembrete da minha própria mortalidade. Me pego pensando em tudo que vivi por 34 anos e jogando tudo fora porque decidi dar uma volta além do meu quarteirão e, no fim, apenas fico em casa.

As regras de isolamento do Reino Unido, na minha opinião, foram e são bem brandas. Não tão brandas como as da Suécia, que não fez isolamento social oficial (e paga seu preço), mas nem de longe rígidas como as da Espanha ou muito menos as da Nova Zelândia, que está zerando os casos.

Um meme que gastei tempo fazendo pra representar meu sentimento ao olhar para a curva de casos da Nova Zelândia.

Foi permitido às pessoas daqui uma hora de exercício físico ao ar livre, o que achei no mínimo estranho, já que o vírus não está monitorando o batimento cardíaco e calorias gastas das pessoas para saber quem pode ou não ser contaminado. Entender a forma de pensar britânica, da gastronomia ao isolamento, é um exercício que já me fez dobrar e desdobrar o cérebro de várias maneiras para ver se alguma encaixa.

Minha cabeça quer soltar fumaça tentando interpretar a realidade. Os cientistas e médicos sugerem medidas, os jornais as publicam, o governo adota metade delas, ignorando partes importantes, e as pessoas decidem seguir metade do que o governo pede. Pessoas que antes eram críticas ao governo de repente tornaram-se leais, “veja, eu estou saindo, mas estou dentro da minha hora de exercício permitida”, em nome da conveniência de não seguirem rigorosamente o isolamento. Eu, com minha diabetes, saudades da namorada, família e amigos, com medo-de-morrer-mas-vontade-de-continuar-vivendo, sigo em casa.

O governo daqui vem afrouxando as medidas num ritmo não recomendado pelos cientistas e médicos. As pessoas saem para dar seus passeios e publicam nas redes sociais fotos de gente se encontrando, celebram as pessoas se abraçando na rua como se fosse o fim duma guerra, mesmo que contra as já brandas regras estabelecidas e que isso signifique um risco de aumentar os números de contaminações. O desejo de viver o verão atual parece maior do que viver até o próximo. Talvez eu seja ansioso demais por pensar em dias, semanas e anos em vez de apenas sair e encontrar alguém sem pensar nas consequências.

Eu sou um programador, não um psicólogo ou sociólogo, e antes de tudo eu sou ansioso. Talvez se eu soubesse mais do funcionamento da mente das pessoas eu seria menos impaciente, talvez fosse mais desesperador. Uma das maiores recomendações para ansiosos é não tentar controlar aquilo que está fora do nosso campo de ação, como as pessoas que seguem suas vidas sem se importar com os gráficos que por algum motivo os jornais que acompanho pararam de publicar.

Porém a prevenção do coronavírus é um pacto coletivo, só funciona se todos fizerem, e eu não consigo me desligar disso. Se os números sobem, eu sigo sem ver minha namorada, minha família, meus amigos. Não consigo desligar o interruptor da raiva, e tem sido especialmente difícil pra mim interpretar a realidade, achar algum sentido nas pessoas que se dizem estudadas, mas seguem ignorando conselhos oficiais ou científicos. Me preocupar e sentir raiva, porém, também não me traz bem algum, já que as pessoas vão seguir se abraçando lá fora enquanto me desgasto aqui dentro, com a saúde mental em frangalhos e o coração apertado de saudades.

Esse tipo de pensamento e o isolamento têm me feito reinterpretar vários momentos da minha vida. Estou bastante desgastado por todos os momentos de autoconhecimento que tenho sozinho no espaço confinado do meu apartamento, por todas as epifanias vindo de madrugada à custa de muitas horas de sono.

Eu lembro de tantos outros momentos em que sabendo que algo era o certo e deveria ser feito ou algo era errado e não deveria ser feito, eu tive essa sensação de ficar pra trás enquanto via os outros seguirem adiante. E mais uma vez essa nuvem volta para me atormentar, o peso de fazer algo que eu acredite ser o correto enquanto os outros não se importam. Em poucas palavras, estou sendo feito de otário.


Juro que tento manter a cabeça ocupada.

Como falei, antes mesmo do governo adotar oficialmente o confinamento meu trabalho mandou todo mundo trabalhar de casa. Eu havia trabalhado de casa entre 2015 e 2016 e sentia muita falta de poder trabalhar nessa modalidade, sem gastar horas diárias indo de casa para um escritório barulhento. Claro que o falo com noção de meus privilégios, já que posso exercer meu trabalho de casa e não passo pelo drama dos colegas que precisam trabalhar com filhos em casa, por exemplo.

O video game tem me feito bem. Por ser um entretenimento mais imersivo, que não acontece se você não dedicar sua atenção completa, também é bom para me obrigar a tirar pensamentos das notícias, do passado, do futuro. Finalizei o espetacular Horizon: Zero dawn e tenho me dedicado ao espetacular The Messenger, jogo que homenageia ao mesmo tempo vários jogos antigos das décadas de 80 e 90, como Ninja Gaiden, Donkey Kong e Metroid.

Atenção: o trailer contém spoilers, mas coloquei aqui mesmo assim pra ter algo gráfico no meio do texto e parecer menos cansativo…

Tenho visto várias séries. Mad Men sempre me faz passar raiva com os personagens, mas é um lembrete de como arte boa é aquela que desperta sentimentos, mesmo que seja raiva. Sex Education, do Netflix, tem seus momentos de humor e drama. Hunters, da Amazon Prime, é uma produção muito boa sobre caçadores de nazistas, se você ainda estiver com paciência para nazistas depois de ler as notícias do Brasil.

Picard traz mais uma vez a mistura de sci-fi e filosofia de Star Trek. Enquanto escrevo lembro de Elnor, guerreiro qalankhkai que se dedica sua vida a causas perdidas. A vida real é menos empolgante que a ficção, e já me peguei pensando quem são os guerreiros por aí que se dedicam a causas perdidas nos nossos tempos. Quem sabe os profissionais de saúde, de alimentação e entregadores, que trabalham enquanto há gente protestando de automóvel para o fim do confinamento e tornando-se pacientes dias depois. Não fosse a palavra “guerreiro” um clichê besta hoje em dia, seria talvez uma boa metáfora.

Bem, prometi divagações no título, mas já estou divagando demais. Vamos pros livros. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes, é um livro com seus momentos de tristeza mas me trouxe o conforto da familiaridade dum livro em cearês. Enquanto fuçava no Goodreads por algum livro com pitadas de humor, comecei a ler Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, só pra tropeçar mais uma vez em personagens quixotescos em busca de causas perdidas. Num momento em que entender como a ciência funciona é ainda mais urgente, estou lendo O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Fora isso, outros livros relacionados a trabalho que não merecem ser citados aqui.

Uma caneca de café sobre uma pilha de livros iluminada por uma luminária.
Uma das fotos que fiz em casa.

Sinto bastante falta de fotografar e tentei fazer algumas fotos em casa, mas a criatividade não vingou como esperado. Tentei praticar guitarra sozinho com sites de aulas virtuais, sem muito sucesso, e em seguida comecei aulas de guitarra via Skype com um professor de Fortaleza, João Victor Barroso. Quem me conhece sabe que há muitos anos tocar guitarra é um sonho que nunca levo adiante e uma pendência na minha vida, mas quem sabe agora vai. Tem sido bom ver algo novo progredindo na vida num momento em que todo o resto está difícil.

Comprei um suporte de bicicleta para poder pedalar dentro de casa e tenho feito aulas de yoga que vejo no YouTube (recomendo Yoga with Adriene, em inglês, e o canal da Pri Leite, em português). Sigo engordando e não gosto quando me vejo no espelho, mas acho que a atividade física nesse momento tem sido mais relevante para a saúde mental que para me manter em forma.

Fora isso, a diabetes felizmente também se mantém controlada, tanto pela atividade física quanto pelo fato que tenho cozinhado mais e comido menos coisas processadas. E não posso falar disso sem falar da Rita Lobo e do Cozinhoterapia da Luiza, uma das minhas amigas de Fortaleza que por algum motivo nunca vi pessoalmente e espero conseguir encontrar um dia.


Ler as notícias é um exercício difícil. Já tentei passar uns dias longe dos jornais, o que me fez muito bem, mas em algum momento precisei me informar. Existem muitos, muitos artigos tentando descrever como o futuro vai ser, como serão os escritórios, as viagens de avião, como tudo que a gente conhecia já era.

Longe de mim achar que o que tínhamos seis meses atrás era muito bom, mas também acho cedo para pensar no tal “novo normal”, expressão que já deu no meu saco. Um exercício que faço quando me pego pensando demais no futuro é lembrar que, no passado, muita gente falhou para prever o futuro. Falharam as previsões otimistas de carros voadores, falhou o pessimismo do malthusianismo.

Minha cabeça ansiosa tenta pensar em todos os cenários possíveis de futuro e ter um plano para cada um deles, porém isso é inviável. Nós simplesmente não sabemos. Estamos num problema que tem apenas cinco meses, nós não temos variáveis suficientes para saber com as coisas estarão daqui a seis ou doze meses, e tento me prender a essa ideia que pode ser tudo, inclusive nada.


Existem dias e dias. Hoje é um dia daqueles, e o cursor piscando na tela foi minha forma de tentar encaixar as ideias, tirar o peso do peito, desabafar, achar um respiro. Não sei se existe conselho ou resposta para o que sinto. Depois de publicar o texto, provavelmente vou tentar fazer uma yoga mais prolongada, já que o sábado tem mais tempo, e ver se o exercício físico faz o cérebro cozinhar alguma endorfina.

O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de January de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.

Homicídios, árvores e mobilidade urbana

8 de August de 2013   —   10:16:06

Ontem eu estava indo almoçar e ouvi na Tribuna BandNews FM (101.7) o historiador e colunista Wanderley Filho falar dos manifestantes do Cocó. O texto ouvido no rádio pode ser visto na íntegra em seu blog.

Ele fala dos 19 homícidios que ocorreram no último fim de semana em Fortaleza, e daí falou dos manifestantes que estavam acampados no Parque do Cocó. Alegou que as pessoas acampavam lá pelas árvores, mas não acampavam na frente da Secretaria de Segurança pedindo pela segurança pública. Encerra seu texto falando em inversão de valores.

Concordo com o historiador que a situação de segurança de Fortaleza é assustadora e digna de pânico. Penso, porém, que todo problema merece um protesto, uma reclamação. Se sua causa é a ecologia ou a mobilidade urbana, se você acha que as medidas que o governo municipal está tomando estão erradas, por que não protestar? O número elevado de homicídios em Fortaleza torna os problemas de mobilidade urbana e ecologia dignos de esquecimento? Devemos deixar de evitar um problema de mobilidade urbana que se eleva a nossa frente?

O citado historiador esquece que todos os problemas urbanos são ligados. Tanto o projeto de mobilidade urbana voltado para motoristas quanto as estatísticas de violência têm uma raiz comum: um governo que esquece várias camadas da população. Um protesto não invalida o outro.

Se o amigo leitor acha que um protesto não representa uma causa que você considera mais importante, você é mais do que livre para iniciar seu próprio protesto. Muitos dos protestos que vêm sendo organizados desde junho contaram com a ajuda do Facebook. Quer organizar seu protesto? Crie um evento, chame seus amigos, peça para eles chamarem mais pessoas. Foi assim, inclusive, com o Fortaleza Apavorada, que protestou pela causa citada pelo autor da crítica que me impulsionou a escrever este texto.

Atualização: se for para falar de inversão de valores, eu prefiro falar da polícia. Em vez de perseguir criminosos que cometem roubos e homicídios, ela está desde a madrugada de hoje em confronto com os citados manifestantes.

Diabetes sem drama

14 de November de 2012   —   16:53:30

Hoje é Dia Mundial do Diabetes, e vários órgãos de imprensa estão empenhados em falar sobre o tema. Sou diabético desde os 11 anos e já fui contatado para várias reportagens sobre o assunto.

Às vezes a reportagem é tendenciosa: busca-se mostrar um lado dramático da doença, suas trágicas consequências, as injeções e picadas de dedo. Parece que notícia otimista não dá ibope.

Sou bem chato para essas reportagens dramáticas. Para elas, sou entediante. Tenho diabetes tipo I há 16 anos, diagnosticada quando dei entrada num hospital com a vista turva, já com quadro de cetoacidose diabética. Hoje, porém, não tenho nenhuma complicação de retinopatia, que costuma surgir em cerca de 10 anos da doença, nenhuma complicação nos rins e minha hemoglobina glicada é 6,4%, o que é bom, embora ainda possa melhorar.

Primeiro, me permitam redefinir o conceito de diabetes. As pessoas a veem como “a doença em que a pessoa não pode comer doces”. Diabetes é, eu diria, a deficiência em que o paciente produz pouca ou nenhuma insulina e, por isso, tem dificuldades para processar carboidratos. Se você trata os carboidratos ingeridos com medicamentos bem-dosados, o problema está contornado.

Se eu como uma pizza, que é uma porção agressiva de carboidratos, ninguém diz nada, afinal pizza não é doce, certo? Se eu como um cubinho miserável de chocolate, as pessoas saem correndo e gritando “meu Deus, o diabético tá comendo doce!”. Há pouca informação sobre o que é diabetes, seu tratamento e suas limitações, mesmo entre os pacientes.

Houve muita melhora no tratamento durante meus 16 anos de diabético e posso fazer coisas que eram inconcebíveis quando comecei a ter a doença. Por causa da desinformação tais coisas continuam sendo inconcebíveis para muita gente, pacientes ou não. A diabetes, quando bem tratada, não é um fator limitante para a vida de ninguém.

Faço atividade física regular, contagem de carboidratos, tenho ótimo acompanhamento médico e constante monitorização da doença. Isso me permite uma vida bem próxima da normal e exames de sangue melhores que de alguns não-diabéticos.

Tomo quatro injeções por dia, em média. Já foi algo dramático, mas me acostumei. Algumas pessoas já me perguntaram “ah, as injeções nem doem mais, né?”. Sim, elas ainda doem, às vezes. Cada injeção não é a primeira e nem será a última, mas as injeções são parte essencial daquilo que me permite uma vida melhor e próxima do que se chama normal.

Atividade física obrigatória? Dieta equilibrada? Todo mundo deve fazer, isso pode até mesmo tornar-se um hobby e não é um “castigo” exclusivo para diabéticos (atenção para as aspas). As pessoas é que esperam alguma doença para que finalmente passem a cuidar da saúde.

Sou um cara muito reclamão e reclamo de muita coisa, mas raramente cito a doença entre minhas inúmeras reclamações. Ela não tem cura e, apesar dos avanços nessa direção, a única opção é aceitar essa deficiência e tratá-la.

Mostrar o “drama para tratar a diabetes” a imprensa já faz com maestria. Tratamento, por mais incômodo que seja, não é problema. Problema sério é não poder tratar. Aos jornalistas, peço que cubram mais a desatenção do governo para distribuir medicamentos e a burocracia para que isso seja conseguido. Esse ponto precisa de muita atenção. Uma vez que as pessoas tenham acesso ao tratamento, a doença pode ser superada com mais facilidade. A prefeitura de Fortaleza deixou de entregar fitas de teste de glicemia entre dezembro e fevereiro aos pacientes da saúde pública e isso foi pouco divulgado.

Desistir não é uma opção e evitar o tratamento não traz vantagem. Com tratamento, dedicação e informação dá para superar os problemas da doença e ter uma vida normal. A diabetes não define minha vida, minha personalidade e minhas ações. O drama  real da diabetes é apenas um: levar tratamento e informação para quem precisa. Tendo os dois e fazendo sua parte como paciente, não há do que se reclamar.

O assassino de Realengo jogava jogos violentos. E daí?

10 de April de 2011   —   22:54:40

Passei a tarde fora no domingo e, quando volto pra casa, descubro um post do Gizmodo dizendo que O Globo noticiou que descobriram que o assassino de Realengo tinha jogos violentos no computador. Mais uma vez, vamos aguentar aquela ladainha de que o acesso à internet ou o uso de jogos violentos é algo que constroi assassinos.

Minha opinião? Isso tudo é bobagem. Frescura. Ou, usando uma expressão que eu nem gosto, falso moralismo!

Eu joguei os mesmos jogos que o maluco de Realengo jogou, que o estudante de medicina assassino de 1999 jogou e nunca matei ninguém. Pra mim, isso é desculpa da imprensa. É uma maneira de jogar a poeira embaixo do tapete, para que os pais brasileiros sigam uma receita de bolo e durmam tranquilos, porém enganados. Agora os pais vão afastar seus filhos da internet e de meia dúzia de jogos e vão achar que estão criando santos em casa.

Se o assassino tivesse uma coleção de Bíblias ou imagens cristãs, seria um fanático religioso. Se tivesse barba longa e uma cópia do Alcorão, o tachariam de terrorista, afinal pra imprensa muçulmano é sinônimo de terrorista. Se tivessem achado o último livro do Richard Dawkins embaixo do travesseiro dele, ah, ele matou por falta de Deus no coração. Ele foi vítima de piadas na escola… E quem não foi?! Mas agora temos um nome bonito pra isso, que vende livros e reportagens na TV, é até em inglês que aí fica mais legal: bullying.

Eu sou diabético desde os 11 anos e passei a adolescência sem comer doces. Na mesma época, eu joguei GTA. E agora? Isso quer dizer que eu vou comprar armas e matar todo mundo numa confeitaria? As pessoas devem sair correndo quando eu entrar numa padaria?

O assassino era doente. Era maluco, desregulado, doido, pinel. Com ou sem jogos, ele ia achar uma desculpa pra matar. Você quer evitar que seu filho vire um assassino, um drogado, um marginal? Então eduque-o corretamente (lembrando que educação a gente recebe em casa, não é na escola, e independe de religião) e seja um pai ou mãe presente para diagnosticar qualquer distúrbio bem cedo. Não importa o que seu filho jogar, ele vai saber que um jogo é ficção, um jogo é mera representação da realidade e a última não deve ser tomada como o primeiro.

Infelizmente, os pais hoje querem soluções rápidas, então é mais fácil proibir jogos, internet e prender os filhos em casa. Isso é pegar a mulher na cama com o Ricardão e brigar com o Ricardão… Mas o que importa é a sensação de ter o problema resolvido, não resolver o problema.