Nas entrelinhas de Londres

4 de outubro de 2019   —   19:53:17
Captain Kidd, pub na beira do rio Tâmisa

Eu estava num passeio dum grupo de fotografia que começou onze da manhã e passou por um pub. Eu tenho o hábito de precisar mastigar algo quando vou beber, o que é bem caro nos pubs de Londres, então decidi pedir algo mais em conta pro cara do balcão.

— Quero um pint dessa cerveja e… Você tem amendoins?

— Sim, temos os melhores amendoins desse lado do rio. Também temos amendoins apimentados.

Quem me conhece sabe que tenho problemas seríssimos com pimenta.

— Vou querer os amendoins normais. Se eu comer algo apimentado, você vai me ver chorando. Acho que tá meio cedo pra chorar num pub, não?

— Bem, já teve um cara chorando aqui hoje de manhã. É Londres, sempre tem alguém chorando, né?


Às vezes tem uma tristeza no ar, nas pequenas coisas, que deixa meio assustador estar aqui. No Brasil os problemas são enormes, estão sempre à vista. Aqui tem qualquer coisa de triste em pequenas coisas, rotineiramente, dum jeito que às vezes tem algo incomodando e a gente não sabe bem dizer o que é.

É hoje o dia

11 de outubro de 2017   —   07:31:01

Era o fim de agosto de 2008. Eu estava caminhando em direção ao meu carro após um encontro amargo, mas necessário. Estava meio perdido, mas ao mesmo tempo com uma sensação de fechamento. Um estabelecimento no caminho sediava o ensaio de uma escola de samba local.

Eu tinha acabado de sair de uma daquelas conversas em que depois só há uma direção a ser tomada, que convencionamos chamar de seguir em frente para que tenhamos algum conforto psicológico. A falta de escolha às vezes pode ser uma bênção e, uma vez azedamente laureado por ela, eu sabia que a partir dali não haveria mais retorno para o que existia antes. O que estava morto continuaria morto, mas o corpo do que um dia tivemos havia sido exumado e a causa mortis finalmente exposta. Talvez estivéssemos tentando um enterro digno ali, mas não, não funcionou muito bem. Pelo menos pra mim.

A conversa havia terminado, eu precisava sair dali e, enquanto eu seguia pro carro, ouvi um samba tocando alto e alegre:

“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar”

Três meses antes eu teria apressado o passo pra sair de perto, mas tudo estava mudando. Um amigo havia me hospedado em sua casa enquanto eu tentava voltar pros trilhos, me apresentou a uns sambas e me curou do preconceito com o gênero.

“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar”,

o refrão do samba-enredo de 1982 da União da Ilha do Governador insistia.

Eu estava ferido e cansado com as informações que havia recebido minutos antes. Por um momento degustei a ironia daquela música tocando justo naquele instante, pensei como o destino às vezes me sacaneia na trilha sonora, mas abracei o momento: talvez não houvesse sacanagem nenhuma, talvez ali fosse realmente o dia da alegria e a tristeza já havia tido sua cota.

Toda vez que tropeço nessa canção eu lembro daquele momento com um sorriso: ela se tornou um lugar seguro no meio dum sábado ruim, uma voz que dizia que as coisas ficariam bem de novo de algum jeito, um dia por vez. E talvez eu a escute hoje buscando sentir de novo o otimismo que senti naquele dia.

Memória afetiva, condicionamento e a saudade de ficar puto

6 de novembro de 2016   —   14:51:43

Numa manhã entre o fim de 1998 e o começo de 1999, nas minhas férias entre a sétima e a oitava série, fui arrastado para a praia por minha família. Para tornar aquela ida menos dolorosa — meu bronzeado inexistente e a cartela de vitamina D na minha mesa denunciam o tamanho do meu apreço por mar, areia e sol —, minha família passou numa banca de revistas. Durante muitos anos, idas patrocinadas a bancas de revistas compravam o silenciamento da minha participação em eventos que não pareciam nada comigo.

Naquele dia comprei uma revista Showbizz sobre a volta do rock brasileiro dos anos 80. Repare que estamos falando de 1998, os anos 80 estavam mais próximos daquele dia do que estamos de 1998 agora. Hoje as pessoas de 1998 já podem dirigir, beber (espero que não ao mesmo tempo) e ir para festas ouvir bandas dos anos 90 onde vão se perguntar “que banda é essa?!” para coisas que ouvimos serem lançadas no rádio.

Capa da revista Showbizz - De volta aos anos 80

Na reportagem de capa da revista tinha um trecho em que Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, falou: “Hoje você ouve músicas que odiava na época e lembra com saudade de quanto ficava puto com elas”. Na época em que o Bruno disse isso, ele tinha minha idade de hoje, 31 anos, e eu tinha 13. A afirmação ficou na minha cabeça e sempre a releio quando tropeço na revista em arrumações domésticas.

Outra coisa também marcou aquela época entre 1997 e 1999: eu jogava bastante Super Mario Kart no Super Nintendo com meu irmão Alvaro; enquanto isso, um vizinho que morava na frente do prédio em que morávamos ouvia bandas de forró o dia inteiro nos fins de semana. Éramos obrigados pelo vizinho — que se recusava a usar fones — a ouvir Brucelose, Magníficos e Limão com Mel repetidamente durante nossas partidas. Puta merda, eu detestava aquelas músicas.

Caixa do Super Mario Kart

Corta pra 2016.

Às vezes estou em algum canto e começa a tocar alguma música dessas bandas de forró. Sinto uma pontada de abuso, como eu sentia em 1998, mas imediatamente o condicionamento humano entra em ação, ativa a memória afetiva e bate saudade daquela época. Sou tomado por uma vontade grande de jogar Mario Kart com meu irmão e lembro de um bocado de coisas daquelas férias: outros jogos, meu primeiro aparelho de barbear (de quando eu tinha apenas um bigodinho indecente) e por aí vai.

Um dia tropecei numa playlist de forró no Spotify feita pela Camila e até escutei algumas daquelas músicas rindo um pouco, enquanto elas reativavam partes adormecidas do cérebro. Eu não gostaria de voltar no tempo, sempre prefiro o hoje ao passado, mas algumas lembranças são sempre boas.

Aos 13 anos, achei estranha a frase do Bruno Gouveia. Hoje eu gostaria de dar um tapinha nas costas dele e falar sobre como precisamos de uns anos pra entender algumas coisas. Que sentimento difícil e curioso de entender e definir essa “saudade de ficar puto com algumas coisas”.

Casamento entre homossexuais e… o fim da democracia?

23 de maio de 2013   —   13:33:23

Hoje, olhando o Facebook, dei de cara com um texto do professor de Direito da UFC Glauco Barreira Magalhães Filho, que inclusive tem um título de doutor, falando sua opinião sobre a resolução do CNJ que obriga cartórios em todo o Brasil a celebrar casamentos entre homossexuais. Recomendo que você leia o texto dele antes de ler o restante do meu.

Primeiro ele compara a decisão dos cartórios de fazerem casamentos entre pessoas do mesmo sexo a um golpe de estado, e usa o reconhecimento recente de Joaquim Barbosa para fazer mais uma comparação: a fama do ministro seria como a ascensão de Hitler ao poder. A Lei de Godwin — que afirma que toda discussão na internet, a medida que passa, tende a citar uma comparação com Hitler — se aplica nesse caso?

Quase no fim do texto, ele fala que o STF, o CNJ, sei lá, pretende acabar com o Dia das Mães, pois não haverá mais mães. Aí ele usa a técnica rétorica de Medo, incerteza & dúvida (o famoso FUD), apelando para um futuro distópico e impossível para plantar o medo. Plantar o medo usando um argumento mal embasado? Vindo de um advogado, isso é no mínimo um argumento pobre. Vão acabar com os heterossexuais? Gays e lésbicas não podem ter filhos naturalmente? Melhor ainda: e a adoção de crianças por casais de mesmo gênero não faria deles pais e mães?

No fim do texto ele solta um “Deus salve a família!”. Eu não sei que Deus é esse. Não sou muito religioso e tenho minhas crenças e descrenças, mas o Deus que me falaram lá em casa que existia era mais bondoso que esse aí.

Não parei por aí e procurei outros textos do professor pela internet. Em um deles o professor solta: “Acrescente-se a isso o quanto vai sofrer de ‘bullying’ na escola e no dia-a-dia a criança adotada por casais homossexuais quando seus colegas descobrirem que ela tem DOIS PAIS ou DUAS MÃES!”

Mais uma vez a técnica de Medo, Incerteza & Dúvida.

Primeiro que desonra é ser ladrão, não ser filho de gays/lésbicas. Segundo que quem está errado é quem pratica o bullying, principalmente por algo tão pequeno, e não quem sofre. “Casais gays com filhos farão os filhos sofrer bullying” me parece uma variação do “Mulheres com roupa curta vão causar estupros”.

Felizmente a UFC já liberou uma nota falando que a opinião do professor, publicada no site do departamento de Direito, não representa a opinião da instituição. E acrescentou: “Cabe igualmente destacar que a política editorial desta Universidade privilegia o respeito à diversidade de orientação sexual, étnica, cultural, ideológica e religiosa”.

Por essas e outras que um diploma de doutor pode ter seu valor no mundo universitário, mas não me impressiona.

“I wanna fly away…”

25 de março de 2013   —   00:30:30

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=NuSdoA5zBa0&w=480&h=300]

Nos últimos 3 anos, de 2010 pra cá, troquei de emprego duas vezes, incluindo aí uma volta pra empresa de onde havia saído (voltar pra ex, em alguns casos, pode ser um bom negócio). Nessa brincadeira de trocar de emprego, fiquei sem férias.

Antes disso eu estava na faculdade, e entre o fim do meu último estágio (no fim de 2009) e meu primeiro emprego (fevereiro de 2010) tive um mês no limbo, procurando emprego. Não fazia nada, mas desempregado não tá de férias, né?

Bem, ainda antes disso, cheguei a tirar férias remuneradas no estágio (viva a lei que permite férias remuneradas no estágio!), mas tirei pra poder estudar e me formar. Isso, também, não são férias.

Eu vasculhei minha mente, desesperado, e percebi algo trágico: eu nunca consegui combinar férias (de novo, não vale desemprego), renda própria (ou seja, não vale o mimado “papai/mamãe, me dá 10 reais pra eu sair”) e absolutamente nada pra fazer.

Adoro minha profissão, meu trabalho, meus colegas e minha chefe (morram de inveja), mas, cara, tem uma hora que seu corpo pede penico e você tem que parar. Dá insônia, azia… Mas vamos falar de coisa boa? Tirarei FÉRIAS!

A primeira vez que esse evento belíssimo do proletariado ocorrerá, nos meus quase 28 anos de existência, será no dia 5 de abril. E vocês não têm noção da minha ansiedade contando os dias. Dentro de alguns dias, com a consciência limpa de quem trabalhou por isso, tocarei o terror e só a operadora do meu cartão de crédito e a ONU poderão me julgar!