Nas entrelinhas de Londres

4 de outubro de 2019   —   19:53:17
Captain Kidd, pub na beira do rio Tâmisa

Eu estava num passeio dum grupo de fotografia que começou onze da manhã e passou por um pub. Eu tenho o hábito de precisar mastigar algo quando vou beber, o que é bem caro nos pubs de Londres, então decidi pedir algo mais em conta pro cara do balcão.

— Quero um pint dessa cerveja e… Você tem amendoins?

— Sim, temos os melhores amendoins desse lado do rio. Também temos amendoins apimentados.

Quem me conhece sabe que tenho problemas seríssimos com pimenta.

— Vou querer os amendoins normais. Se eu comer algo apimentado, você vai me ver chorando. Acho que tá meio cedo pra chorar num pub, não?

— Bem, já teve um cara chorando aqui hoje de manhã. É Londres, sempre tem alguém chorando, né?


Às vezes tem uma tristeza no ar, nas pequenas coisas, que deixa meio assustador estar aqui. No Brasil os problemas são enormes, estão sempre à vista. Aqui tem qualquer coisa de triste em pequenas coisas, rotineiramente, dum jeito que às vezes tem algo incomodando e a gente não sabe bem dizer o que é.

A glória do feedback lento

28 de julho de 2019   —   14:33:29

Eu sou um programador.

Programar já foi um hobby quando eu era adolescente e é o que eu faço para pagar as contas. Uns dias eu me sinto mais programador que outros, e frequentemente me pego em reflexões sobre como o trabalho define ou não quem eu sou.

Meu primeiro estágio como programador foi em 2006. De lá pra cá já trabalhei de todo jeito. Às vezes com a lendária figura do chefe chegando e dizendo o que eu tinha fazer no dia, às vezes planejando tudo com um gerente de projetos com meses de antecedência.

Vários nomes e siglas entraram e saíram nesses processos de lá pra cá, desde processos herdados da engenharia, porque alguém pensou um dia que fazer software é igual a fazer prédio, até processos que nasceram pensados pra software. As pessoas começaram a falar mais em agile, lean e MVP: fazer produtos enxutos, lançar logo, aprender com os erros, ciclos curtos de feedback para validar ideias. Mas antes que você desista desse texto, esse não é um texto sobre programação.


Eu tenho vários hobbies, uns mais frequentes que outros. O principal, de 2013 pra cá, é a fotografia.

Eu poderia divagar bastante e com muito prazer sobre minha história com a fotografia desde muito antes disso, mas eu marco 2013 na agenda mental porque foi quando fiz um curso que mudou minha relação com a fotografia — a paquera virou um relacionamento estável — e me fez afundar mais no tema. A história completa fica pra outro texto, quem sabe?

Agora em 2019 eu comecei a fotografar com filme, como nossos ancestrais faziam. Todos esses anos uma ou outra pessoa perguntava se eu tinha vontade de usar filme, mas fui resistente. Há uns meses minha namorada me emprestou uma pequena câmera de filme, brinquei um pouco, depois tropecei por acidente numa ótima câmera muito barata numa loja de artigos usados quando fui doar umas roupas. Quando reparei, estava pesquisando rolos de filme, comparando as cores entre eles, esperando a próxima revelação.

A câmera que a Gabi me deu!

Eu confesso um crime: na fotografia digital, quando faço uma foto de que gosto, eu gosto de me dedicar à foto, passar pro computador, fazer uma pós-edição legal no Lightroom e publicar no Instagram e/ou no lendário Flickr.

O Instagram, especificamente, se tornou um péssimo terreno para um processo criativo. O Instagram nos mostra primeiro as pessoas que mais têm curtidas e interações, sejam as que seguimos, sejam as sugestões. Como o conteúdo que consumimos interfere no que criamos, no fim me parece que todo o Instagram está produzindo fotos parecidas.

A fotografia de filme tem me ajudado a quebrar esse ciclo. Eu levo semanas entre uma foto e sua revelação. Além de me surpreender (ou me decepcionar) com fotos que fiz e esqueci, isso me permite que eu me concentre em outras partes do processo, como algo que às vezes passava despercebido: o próprio prazer de criar algo.


Eu estava falando da minha câmera de filme pra um amigo programador dia desses. Ele acabou me soltando um “mas o ciclo de feedback não é lento pra fotografia de filme?”

Eu tive uma epifania ali da motivação por aquele novo processo no meu hobby antigo, como se eu tivesse achado a explicação para um prazer que eu sentia sem saber o motivo. Nós estamos sempre correndo atrás de números e resultados, tentando ser produtivos o tempo inteiro. Fazer mais, chegar antes, ter mais. No meio dessa ansiedade toda, o ciclo lento de feedback não é um problema, é uma vantagem.

Puta merda, fotografar é meu hobby. Eu não tenho que ser produtivo. Eu não tenho que ser o mais criativo. Eu não tenho que gerar resultados incríveis e revolucionar a fotografia. O importante é que eu me divirta criando, ainda que eu não goste do resultado, por mais esquisito que isso possa parecer.

Por uma fração de tempo, eu tive o prazer de criar algo. Talvez venha um borrão depois da revelação, talvez eu tenha deixado o dedo na frente da lente, mas ei, eu me diverti. E pode ser que dê bom, pode ser que as cores do filme ou a ótica da lente vão deixar o resultado melhor do que planejei. Levo tempo pra ver a foto pronta entre apertar o botão e finalmente ver a foto, e essa curiosidade, essa “ansiedade criativa” que mora entre tantas ansiedades ruins que a existência já nos dá, é um frio na barriga bom de se sentir.

Num mundo que exige velocidade e sacrifícios e que quer nos moer para extrair algarismos e gráficos, fazer uma tarefa pelo próprio prazer da tarefa me soa quase como uma forma de resistência.


Não tenho planos de abandonar de vez a fotografia digital pela analógica. Ainda é uma zona de conforto e tem dias que sim, que eu quero fotografar e ver o que eu fiz. Assim como a pizza gourmet artesanal do restaurante em meia luz e a pizza do delivery da esquina, tudo tem seu dia e não sou obrigado a escolher um tipo favorito. Mais uma vez, eu não tenho por que me obrigar a escolher esse ou outro estilo.

Nem sempre temos liberdade sobre nossas escolhas, então poder ter esse momento de respiração e alívio em nosso tempo livre (ele deveria ser, afinal, livre), criar algo em uma velocidade que seja de nosso gosto, num ritmo em que nossos pensamentos possam fluir à vontade, é uma terapia.

Espaço negativo

29 de junho de 2019   —   10:33:39

Eu estava tendo um inferno de manhã. Sexta-feira, meu corpo travado do cansaço acumulado da semana, como se não quisesse mais se mover. Decidi me dar de presente uma ida de carro ao trabalho, usando um das dezenas de aplicativos de transporte compartilhado que nascem e morrem todo dia aqui.

O carro que pedi estava atrasado e eu estava em pé, numa calçada próxima de casa, olhando o desenho do pequeno carro parado no mapa na tela do meu telefone. Apesar da ansiedade de quem está indo tarde pro trabalho, não havia nada que eu pudesse fazer. Comecei a observar o movimento das pessoas correndo naquela sexta de manhã.

De repente, numa das casas perto de mim, sai uma mulher. Enquanto ela segurava o portão da casa, ela gritou a acenou para outra mulher que estava numa parada de ônibus próxima, com um carrinho de bebê. Ela soltou o portão e correu pra onde estava a outra.

As duas abraçaram um abraço de quem não se encontra há muito tempo, um abraço daqueles tão bonitos que dão até vontade de chegar perto, pedir licença e pedir um abraço igual oferecendo um café em troca, mas isso não é socialmente aceito, e a mulher do portão se abaixou para cumprimentar a criança que estava no carrinho com outro abraço.

A mente da gente trabalha para preencher os espaços vazios e tentou criar uma narrativa para aquele encontro, recusando o fato que algumas histórias são melhores se não contadas. Talvez eram duas amigas que não se viam há muito tempo, talvez uma estava vendo pela primeira vez a criança filha da outra.

Nunca vou saber a história daquelas duas, mas o fato é que o carro que eu esperava chegou e, enjoado de exaustão enquanto o carro se mexia, fui pensando como existiam cenas mais bonitas e importantes numa sexta-feira ensolarada de verão que um dia caçando dinheiro.

It’s a long, long, long, long, long, long, long, long way

6 de maio de 2019   —   11:07:34

Eu lembro de, há uns três anos, conversar com uma amiga que havia se mudado para os Estados Unidos. A gente se conheceu num passado que então já fazia onze ou doze anos, quando saíamos todo fim de semana juntos com nossa turma de amigos e voltávamos pra casa de manhã. A gente frequentava o circuito rock/indie/alternativo de Fortaleza. Ela foi morar no sudeste e perdemos contato até nos reencontrarmos num acaso absurdo nos EUA (pra resumir, segurei a porta pra uma mulher que ia saindo dum prédio enquanto eu entrava e era ela).

Ela me disse numa de nossas conversas como ela, que sempre ouvia e frequentava festas indie no Brasil, agora colocava pra ouvir bossa nova, Tropicália e afins nos fones de ouvido, e como aquilo a conectava com as coisas de que sentia falta, como aquilo a lembrava do Rio.

No ano seguinte vim parar em Londres. Surpreendentemente, o que eu escuto tocar nos cantos aqui está longe do britpop que eu achei que ouviria. Mais surpreendentemente ainda, já cheguei a entrar em bares e ouvir um DJ inglês tocar Erasmo Carlos; descobri o Taiguara numa loja de sobremesas; um ex-colega de trabalho, dez anos mais novo que eu, conhecia coisas do Marcos Valle e do começo da carreira da Sandra de Sá que eu nunca havia ouvido.

Não fosse suficiente esse distanciamento do que eu achei que ouviria, minha relação com a música brasileira mudou. Agora que estou imerso nessa realidade que não dialoga com minha história, agora que converso com pessoas de uma cultura tão diferente da minha, algo que torna difícil criar um vínculo com elas, a música acabou se tornando uma zona de conforto.

Mesmo sendo um brasileiro urbano de classe média, ironicamente minha realidade é mais próxima dos forrozeiros do interior do Ceará que dos roqueiros de Manchester. A música brasileira fala mais da minha realidade do que qualquer coisa gravada aqui, nem que seja o clichê do disco do Caetano Veloso gravado durante seu exílio em Londres, afinal não passo de outro nordestino perdido na mesma cidade. No meio da solidão de Londres, a música é uma companhia, uma conexão. Eu não me sentia em casa no Brasil e tinha esse desejo de sair, e agora que estou aqui eu tenho esses fones nos ouvidos procurando algo familiar.

Incerteza e nostalgia

13 de setembro de 2018   —   18:21:31

Os últimos dias não foram nada fáceis e eu tenho pensado nisso o tempo inteiro. E, ao fazer essa reflexão, a minha cabeça tenta buscar algum outro tempo em que as coisas tenham parecido fáceis, como se a nostalgia fosse de algum uso.

Um exercício que tenho feito ultimamente por recomendação terapêutica é sempre questionar os pensamentos e procurar as evidências por trás deles. Recordo dias que pareciam mais felizes, mas me pergunto se tais dias eram tão solidamente bons. Analiso e noto que sempre havia algo fora do lugar, algo faltando, algo causando medo e ansiedade.

Se eu tinha tempo livre, a grana era mais curta. Algum problema familiar estava em curso. Se eu estava com um bom trabalho e com alguma segurança financeira, ao mesmo tempo havia a incerteza no campo dos relacionamentos. Sempre, sempre há algo fora do lugar. Toda época feliz de que lembro sempre tinha uma nuvem cinza no horizonte. A nostalgia me faz esquecer disso e é inútil.

Lembro, também, de tantas vezes que me preocupei e me estressei. Adiantou alguma vez? Não.

O cenário parece negativo, mas a lição que achei pra mim mesmo é: aproveite, amanhã o medo pode se concretizar, ou novos medos podem surgir. A situação nunca está 100%, nem mesmo 70%. Se der merda, pelo menos você aproveitou.