Divagando e budejando sobre três meses de pandemia

30 de May de 2020   —   16:27:21

Escrevi esse texto por estar oscilando entre triste, ansioso e puto da vida (perdoe meu vocabulário rudimentar). Como o título sugere, vou falar de coronavírus, notícias, isolamento, impressões desses tempos. Pode não ser uma leitura leve, mas foi algo que achei necessário escrever. Relatos similares de amigos e desconhecidos me ajudaram a não me sentir sozinho com os pensamentos negativos que essa época nos traz, mas pode ser que eu não consiga esse mesmo efeito nobre em todo mundo.

Há uns cinco ou seis anos, um colega de trabalho falou que havia conhecido uma amiga minha num jantar. Aquele roteiro bem conhecido de Fortaleza: um assunto em comum aparece, você cita uma história ou onde trabalha, as pessoas falam que conhecem alguém, a outra pessoa fala que também conhece. Ao chegarem no meu nome, minha amiga pergunta “se eu ainda abraçava todo mundo”.

Esse meu lado, digamos, abraçador vem perdendo força nos últimos anos. Em 2017 vim morar nesse país em que o contato físico é menos comum, e por vezes eu tive vontade de perguntar para grupos de pessoas que se abraçavam na rua como eles haviam chegado naquele estágio. Saber se eu tenho intimidade para abraçar alguém aqui às vezes é uma aposta, uma equação que eu resolvo na cabeça onde as variáveis são contatos anteriores com a pessoa, o país de onde ela veio, como eu a vejo agir com outras pessoas. Se eu juntasse o esforço mental que usei em três anos aqui com esse cálculo, talvez eu ganhasse uma medalha Fields.

Meme da Nazaré Tedesco fazendo contas.

Muitas pessoas mais introvertidas vêm fazendo piadas com o isolamento, dizendo “eu me preparei a vida inteira pra isso”, e talvez os últimos três anos tenham me preparado pra esse momento. Nos próximos dias faço três meses sem ver minha namorada, que mora a duas horas e pouco de avião daqui; as únicas conversas não-digitais que tive com outras pessoas desde a segunda semana de março foram agradecendo algum entregador, sempre mantendo uma distância segura e pedindo para deixar a caixa na porta, por favor; as últimas pessoas que abracei foram uma amiga e seu namorado no dia 7 de março (a vida continua além do coronavírus e nesse tempo o tal namorado virou ex).

Um pensamento recorrente nesses tempos é como às vezes não nos damos conta que algo simples que vivemos pode ser a última ocorrência de uma série, que pode não acontecer de novo ou não acontecer tão cedo. Se por um lado isso nos dá uma pressa de viver tudo o que há para ser vivido, seria insuportável viver com esse peso o tempo inteiro.


Curiosamente, algumas empresas daqui do Reino Unido tomaram medidas de isolamento antes do governo tomar medidas oficiais. Comecei a trabalhar de casa enquanto o governo daqui ainda falava em imunidade de rebanho; eu e minha namorada cancelamos nosso último encontro, que seria no meio de março; minha última saída (fora saídas semanais para jogar o lixo fora) foi para conversar com meu médico e garantir uma receita de comprimidos para os tempos que viriam.

Eu sou diabético e isso me põe num grupo de risco. Não tenho um risco maior de infecção, porém tenho riscos maiores de complicações caso eu me contamine. 25% dos mortos em hospitais do Reino Unido tinham diabetes, e a ideia de sair de casa se tornou um lembrete da minha própria mortalidade. Me pego pensando em tudo que vivi por 34 anos e jogando tudo fora porque decidi dar uma volta além do meu quarteirão e, no fim, apenas fico em casa.

As regras de isolamento do Reino Unido, na minha opinião, foram e são bem brandas. Não tão brandas como as da Suécia, que não fez isolamento social oficial (e paga seu preço), mas nem de longe rígidas como as da Espanha ou muito menos as da Nova Zelândia, que está zerando os casos.

Um meme que gastei tempo fazendo pra representar meu sentimento ao olhar para a curva de casos da Nova Zelândia.

Foi permitido às pessoas daqui uma hora de exercício físico ao ar livre, o que achei no mínimo estranho, já que o vírus não está monitorando o batimento cardíaco e calorias gastas das pessoas para saber quem pode ou não ser contaminado. Entender a forma de pensar britânica, da gastronomia ao isolamento, é um exercício que já me fez dobrar e desdobrar o cérebro de várias maneiras para ver se alguma encaixa.

Minha cabeça quer soltar fumaça tentando interpretar a realidade. Os cientistas e médicos sugerem medidas, os jornais as publicam, o governo adota metade delas, ignorando partes importantes, e as pessoas decidem seguir metade do que o governo pede. Pessoas que antes eram críticas ao governo de repente tornaram-se leais, “veja, eu estou saindo, mas estou dentro da minha hora de exercício permitida”, em nome da conveniência de não seguirem rigorosamente o isolamento. Eu, com minha diabetes, saudades da namorada, família e amigos, com medo-de-morrer-mas-vontade-de-continuar-vivendo, sigo em casa.

O governo daqui vem afrouxando as medidas num ritmo não recomendado pelos cientistas e médicos. As pessoas saem para dar seus passeios e publicam nas redes sociais fotos de gente se encontrando, celebram as pessoas se abraçando na rua como se fosse o fim duma guerra, mesmo que contra as já brandas regras estabelecidas e que isso signifique um risco de aumentar os números de contaminações. O desejo de viver o verão atual parece maior do que viver até o próximo. Talvez eu seja ansioso demais por pensar em dias, semanas e anos em vez de apenas sair e encontrar alguém sem pensar nas consequências.

Eu sou um programador, não um psicólogo ou sociólogo, e antes de tudo eu sou ansioso. Talvez se eu soubesse mais do funcionamento da mente das pessoas eu seria menos impaciente, talvez fosse mais desesperador. Uma das maiores recomendações para ansiosos é não tentar controlar aquilo que está fora do nosso campo de ação, como as pessoas que seguem suas vidas sem se importar com os gráficos que por algum motivo os jornais que acompanho pararam de publicar.

Porém a prevenção do coronavírus é um pacto coletivo, só funciona se todos fizerem, e eu não consigo me desligar disso. Se os números sobem, eu sigo sem ver minha namorada, minha família, meus amigos. Não consigo desligar o interruptor da raiva, e tem sido especialmente difícil pra mim interpretar a realidade, achar algum sentido nas pessoas que se dizem estudadas, mas seguem ignorando conselhos oficiais ou científicos. Me preocupar e sentir raiva, porém, também não me traz bem algum, já que as pessoas vão seguir se abraçando lá fora enquanto me desgasto aqui dentro, com a saúde mental em frangalhos e o coração apertado de saudades.

Esse tipo de pensamento e o isolamento têm me feito reinterpretar vários momentos da minha vida. Estou bastante desgastado por todos os momentos de autoconhecimento que tenho sozinho no espaço confinado do meu apartamento, por todas as epifanias vindo de madrugada à custa de muitas horas de sono.

Eu lembro de tantos outros momentos em que sabendo que algo era o certo e deveria ser feito ou algo era errado e não deveria ser feito, eu tive essa sensação de ficar pra trás enquanto via os outros seguirem adiante. E mais uma vez essa nuvem volta para me atormentar, o peso de fazer algo que eu acredite ser o correto enquanto os outros não se importam. Em poucas palavras, estou sendo feito de otário.


Juro que tento manter a cabeça ocupada.

Como falei, antes mesmo do governo adotar oficialmente o confinamento meu trabalho mandou todo mundo trabalhar de casa. Eu havia trabalhado de casa entre 2015 e 2016 e sentia muita falta de poder trabalhar nessa modalidade, sem gastar horas diárias indo de casa para um escritório barulhento. Claro que o falo com noção de meus privilégios, já que posso exercer meu trabalho de casa e não passo pelo drama dos colegas que precisam trabalhar com filhos em casa, por exemplo.

O video game tem me feito bem. Por ser um entretenimento mais imersivo, que não acontece se você não dedicar sua atenção completa, também é bom para me obrigar a tirar pensamentos das notícias, do passado, do futuro. Finalizei o espetacular Horizon: Zero dawn e tenho me dedicado ao espetacular The Messenger, jogo que homenageia ao mesmo tempo vários jogos antigos das décadas de 80 e 90, como Ninja Gaiden, Donkey Kong e Metroid.

Atenção: o trailer contém spoilers, mas coloquei aqui mesmo assim pra ter algo gráfico no meio do texto e parecer menos cansativo…

Tenho visto várias séries. Mad Men sempre me faz passar raiva com os personagens, mas é um lembrete de como arte boa é aquela que desperta sentimentos, mesmo que seja raiva. Sex Education, do Netflix, tem seus momentos de humor e drama. Hunters, da Amazon Prime, é uma produção muito boa sobre caçadores de nazistas, se você ainda estiver com paciência para nazistas depois de ler as notícias do Brasil.

Picard traz mais uma vez a mistura de sci-fi e filosofia de Star Trek. Enquanto escrevo lembro de Elnor, guerreiro qalankhkai que se dedica sua vida a causas perdidas. A vida real é menos empolgante que a ficção, e já me peguei pensando quem são os guerreiros por aí que se dedicam a causas perdidas nos nossos tempos. Quem sabe os profissionais de saúde, de alimentação e entregadores, que trabalham enquanto há gente protestando de automóvel para o fim do confinamento e tornando-se pacientes dias depois. Não fosse a palavra “guerreiro” um clichê besta hoje em dia, seria talvez uma boa metáfora.

Bem, prometi divagações no título, mas já estou divagando demais. Vamos pros livros. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes, é um livro com seus momentos de tristeza mas me trouxe o conforto da familiaridade dum livro em cearês. Enquanto fuçava no Goodreads por algum livro com pitadas de humor, comecei a ler Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, só pra tropeçar mais uma vez em personagens quixotescos em busca de causas perdidas. Num momento em que entender como a ciência funciona é ainda mais urgente, estou lendo O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Fora isso, outros livros relacionados a trabalho que não merecem ser citados aqui.

Uma caneca de café sobre uma pilha de livros iluminada por uma luminária.
Uma das fotos que fiz em casa.

Sinto bastante falta de fotografar e tentei fazer algumas fotos em casa, mas a criatividade não vingou como esperado. Tentei praticar guitarra sozinho com sites de aulas virtuais, sem muito sucesso, e em seguida comecei aulas de guitarra via Skype com um professor de Fortaleza, João Victor Barroso. Quem me conhece sabe que há muitos anos tocar guitarra é um sonho que nunca levo adiante e uma pendência na minha vida, mas quem sabe agora vai. Tem sido bom ver algo novo progredindo na vida num momento em que todo o resto está difícil.

Comprei um suporte de bicicleta para poder pedalar dentro de casa e tenho feito aulas de yoga que vejo no YouTube (recomendo Yoga with Adriene, em inglês, e o canal da Pri Leite, em português). Sigo engordando e não gosto quando me vejo no espelho, mas acho que a atividade física nesse momento tem sido mais relevante para a saúde mental que para me manter em forma.

Fora isso, a diabetes felizmente também se mantém controlada, tanto pela atividade física quanto pelo fato que tenho cozinhado mais e comido menos coisas processadas. E não posso falar disso sem falar da Rita Lobo e do Cozinhoterapia da Luiza, uma das minhas amigas de Fortaleza que por algum motivo nunca vi pessoalmente e espero conseguir encontrar um dia.


Ler as notícias é um exercício difícil. Já tentei passar uns dias longe dos jornais, o que me fez muito bem, mas em algum momento precisei me informar. Existem muitos, muitos artigos tentando descrever como o futuro vai ser, como serão os escritórios, as viagens de avião, como tudo que a gente conhecia já era.

Longe de mim achar que o que tínhamos seis meses atrás era muito bom, mas também acho cedo para pensar no tal “novo normal”, expressão que já deu no meu saco. Um exercício que faço quando me pego pensando demais no futuro é lembrar que, no passado, muita gente falhou para prever o futuro. Falharam as previsões otimistas de carros voadores, falhou o pessimismo do malthusianismo.

Minha cabeça ansiosa tenta pensar em todos os cenários possíveis de futuro e ter um plano para cada um deles, porém isso é inviável. Nós simplesmente não sabemos. Estamos num problema que tem apenas cinco meses, nós não temos variáveis suficientes para saber com as coisas estarão daqui a seis ou doze meses, e tento me prender a essa ideia que pode ser tudo, inclusive nada.


Existem dias e dias. Hoje é um dia daqueles, e o cursor piscando na tela foi minha forma de tentar encaixar as ideias, tirar o peso do peito, desabafar, achar um respiro. Não sei se existe conselho ou resposta para o que sinto. Depois de publicar o texto, provavelmente vou tentar fazer uma yoga mais prolongada, já que o sábado tem mais tempo, e ver se o exercício físico faz o cérebro cozinhar alguma endorfina.

Nas entrelinhas de Londres

4 de October de 2019   —   19:53:17
Captain Kidd, pub na beira do rio Tâmisa

Eu estava num passeio dum grupo de fotografia que começou onze da manhã e passou por um pub. Eu tenho o hábito de precisar mastigar algo quando vou beber, o que é bem caro nos pubs de Londres, então decidi pedir algo mais em conta pro cara do balcão.

— Quero um pint dessa cerveja e… Você tem amendoins?

— Sim, temos os melhores amendoins desse lado do rio. Também temos amendoins apimentados.

Quem me conhece sabe que tenho problemas seríssimos com pimenta.

— Vou querer os amendoins normais. Se eu comer algo apimentado, você vai me ver chorando. Acho que tá meio cedo pra chorar num pub, não?

— Bem, já teve um cara chorando aqui hoje de manhã. É Londres, sempre tem alguém chorando, né?


Às vezes tem uma tristeza no ar, nas pequenas coisas, que deixa meio assustador estar aqui. No Brasil os problemas são enormes, estão sempre à vista. Aqui tem qualquer coisa de triste em pequenas coisas, rotineiramente, dum jeito que às vezes tem algo incomodando e a gente não sabe bem dizer o que é.

A glória do feedback lento

28 de July de 2019   —   14:33:29

Eu sou um programador.

Programar já foi um hobby quando eu era adolescente e é o que eu faço para pagar as contas. Uns dias eu me sinto mais programador que outros, e frequentemente me pego em reflexões sobre como o trabalho define ou não quem eu sou.

Meu primeiro estágio como programador foi em 2006. De lá pra cá já trabalhei de todo jeito. Às vezes com a lendária figura do chefe chegando e dizendo o que eu tinha fazer no dia, às vezes planejando tudo com um gerente de projetos com meses de antecedência.

Vários nomes e siglas entraram e saíram nesses processos de lá pra cá, desde processos herdados da engenharia, porque alguém pensou um dia que fazer software é igual a fazer prédio, até processos que nasceram pensados pra software. As pessoas começaram a falar mais em agile, lean e MVP: fazer produtos enxutos, lançar logo, aprender com os erros, ciclos curtos de feedback para validar ideias. Mas antes que você desista desse texto, esse não é um texto sobre programação.


Eu tenho vários hobbies, uns mais frequentes que outros. O principal, de 2013 pra cá, é a fotografia.

Eu poderia divagar bastante e com muito prazer sobre minha história com a fotografia desde muito antes disso, mas eu marco 2013 na agenda mental porque foi quando fiz um curso que mudou minha relação com a fotografia — a paquera virou um relacionamento estável — e me fez afundar mais no tema. A história completa fica pra outro texto, quem sabe?

Agora em 2019 eu comecei a fotografar com filme, como nossos ancestrais faziam. Todos esses anos uma ou outra pessoa perguntava se eu tinha vontade de usar filme, mas fui resistente. Há uns meses minha namorada me emprestou uma pequena câmera de filme, brinquei um pouco, depois tropecei por acidente numa ótima câmera muito barata numa loja de artigos usados quando fui doar umas roupas. Quando reparei, estava pesquisando rolos de filme, comparando as cores entre eles, esperando a próxima revelação.

A câmera que a Gabi me deu!

Eu confesso um crime: na fotografia digital, quando faço uma foto de que gosto, eu gosto de me dedicar à foto, passar pro computador, fazer uma pós-edição legal no Lightroom e publicar no Instagram e/ou no lendário Flickr.

O Instagram, especificamente, se tornou um péssimo terreno para um processo criativo. O Instagram nos mostra primeiro as pessoas que mais têm curtidas e interações, sejam as que seguimos, sejam as sugestões. Como o conteúdo que consumimos interfere no que criamos, no fim me parece que todo o Instagram está produzindo fotos parecidas.

A fotografia de filme tem me ajudado a quebrar esse ciclo. Eu levo semanas entre uma foto e sua revelação. Além de me surpreender (ou me decepcionar) com fotos que fiz e esqueci, isso me permite que eu me concentre em outras partes do processo, como algo que às vezes passava despercebido: o próprio prazer de criar algo.


Eu estava falando da minha câmera de filme pra um amigo programador dia desses. Ele acabou me soltando um “mas o ciclo de feedback não é lento pra fotografia de filme?”

Eu tive uma epifania ali da motivação por aquele novo processo no meu hobby antigo, como se eu tivesse achado a explicação para um prazer que eu sentia sem saber o motivo. Nós estamos sempre correndo atrás de números e resultados, tentando ser produtivos o tempo inteiro. Fazer mais, chegar antes, ter mais. No meio dessa ansiedade toda, o ciclo lento de feedback não é um problema, é uma vantagem.

Puta merda, fotografar é meu hobby. Eu não tenho que ser produtivo. Eu não tenho que ser o mais criativo. Eu não tenho que gerar resultados incríveis e revolucionar a fotografia. O importante é que eu me divirta criando, ainda que eu não goste do resultado, por mais esquisito que isso possa parecer.

Por uma fração de tempo, eu tive o prazer de criar algo. Talvez venha um borrão depois da revelação, talvez eu tenha deixado o dedo na frente da lente, mas ei, eu me diverti. E pode ser que dê bom, pode ser que as cores do filme ou a ótica da lente vão deixar o resultado melhor do que planejei. Levo tempo pra ver a foto pronta entre apertar o botão e finalmente ver a foto, e essa curiosidade, essa “ansiedade criativa” que mora entre tantas ansiedades ruins que a existência já nos dá, é um frio na barriga bom de se sentir.

Num mundo que exige velocidade e sacrifícios e que quer nos moer para extrair algarismos e gráficos, fazer uma tarefa pelo próprio prazer da tarefa me soa quase como uma forma de resistência.


Não tenho planos de abandonar de vez a fotografia digital pela analógica. Ainda é uma zona de conforto e tem dias que sim, que eu quero fotografar e ver o que eu fiz. Assim como a pizza gourmet artesanal do restaurante em meia luz e a pizza do delivery da esquina, tudo tem seu dia e não sou obrigado a escolher um tipo favorito. Mais uma vez, eu não tenho por que me obrigar a escolher esse ou outro estilo.

Nem sempre temos liberdade sobre nossas escolhas, então poder ter esse momento de respiração e alívio em nosso tempo livre (ele deveria ser, afinal, livre), criar algo em uma velocidade que seja de nosso gosto, num ritmo em que nossos pensamentos possam fluir à vontade, é uma terapia.

Espaço negativo

29 de June de 2019   —   10:33:39

Eu estava tendo um inferno de manhã. Sexta-feira, meu corpo travado do cansaço acumulado da semana, como se não quisesse mais se mover. Decidi me dar de presente uma ida de carro ao trabalho, usando um das dezenas de aplicativos de transporte compartilhado que nascem e morrem todo dia aqui.

O carro que pedi estava atrasado e eu estava em pé, numa calçada próxima de casa, olhando o desenho do pequeno carro parado no mapa na tela do meu telefone. Apesar da ansiedade de quem está indo tarde pro trabalho, não havia nada que eu pudesse fazer. Comecei a observar o movimento das pessoas correndo naquela sexta de manhã.

De repente, numa das casas perto de mim, sai uma mulher. Enquanto ela segurava o portão da casa, ela gritou a acenou para outra mulher que estava numa parada de ônibus próxima, com um carrinho de bebê. Ela soltou o portão e correu pra onde estava a outra.

As duas abraçaram um abraço de quem não se encontra há muito tempo, um abraço daqueles tão bonitos que dão até vontade de chegar perto, pedir licença e pedir um abraço igual oferecendo um café em troca, mas isso não é socialmente aceito, e a mulher do portão se abaixou para cumprimentar a criança que estava no carrinho com outro abraço.

A mente da gente trabalha para preencher os espaços vazios e tentou criar uma narrativa para aquele encontro, recusando o fato que algumas histórias são melhores se não contadas. Talvez eram duas amigas que não se viam há muito tempo, talvez uma estava vendo pela primeira vez a criança filha da outra.

Nunca vou saber a história daquelas duas, mas o fato é que o carro que eu esperava chegou e, enjoado de exaustão enquanto o carro se mexia, fui pensando como existiam cenas mais bonitas e importantes numa sexta-feira ensolarada de verão que um dia caçando dinheiro.

It’s a long, long, long, long, long, long, long, long way

6 de May de 2019   —   11:07:34

Eu lembro de, há uns três anos, conversar com uma amiga que havia se mudado para os Estados Unidos. A gente se conheceu num passado que então já fazia onze ou doze anos, quando saíamos todo fim de semana juntos com nossa turma de amigos e voltávamos pra casa de manhã. A gente frequentava o circuito rock/indie/alternativo de Fortaleza. Ela foi morar no sudeste e perdemos contato até nos reencontrarmos num acaso absurdo nos EUA (pra resumir, segurei a porta pra uma mulher que ia saindo dum prédio enquanto eu entrava e era ela).

Ela me disse numa de nossas conversas como ela, que sempre ouvia e frequentava festas indie no Brasil, agora colocava pra ouvir bossa nova, Tropicália e afins nos fones de ouvido, e como aquilo a conectava com as coisas de que sentia falta, como aquilo a lembrava do Rio.

No ano seguinte vim parar em Londres. Surpreendentemente, o que eu escuto tocar nos cantos aqui está longe do britpop que eu achei que ouviria. Mais surpreendentemente ainda, já cheguei a entrar em bares e ouvir um DJ inglês tocar Erasmo Carlos; descobri o Taiguara numa loja de sobremesas; um ex-colega de trabalho, dez anos mais novo que eu, conhecia coisas do Marcos Valle e do começo da carreira da Sandra de Sá que eu nunca havia ouvido.

Não fosse suficiente esse distanciamento do que eu achei que ouviria, minha relação com a música brasileira mudou. Agora que estou imerso nessa realidade que não dialoga com minha história, agora que converso com pessoas de uma cultura tão diferente da minha, algo que torna difícil criar um vínculo com elas, a música acabou se tornando uma zona de conforto.

Mesmo sendo um brasileiro urbano de classe média, ironicamente minha realidade é mais próxima dos forrozeiros do interior do Ceará que dos roqueiros de Manchester. A música brasileira fala mais da minha realidade do que qualquer coisa gravada aqui, nem que seja o clichê do disco do Caetano Veloso gravado durante seu exílio em Londres, afinal não passo de outro nordestino perdido na mesma cidade. No meio da solidão de Londres, a música é uma companhia, uma conexão. Eu não me sentia em casa no Brasil e tinha esse desejo de sair, e agora que estou aqui eu tenho esses fones nos ouvidos procurando algo familiar.