Imigrante, parte dois

This city desert makes you feel so cold
It's got so many people but it's got no soul
And it's taking you so long to find out you were wrong
When you thought it held everything
(…)
And then he'll settle down, in some quiet little town
And forget about everything

-- Baker Street, de Gerry Rafferty

Muitos livros, filmes e séries que vi nos últimos anos têm usado exaustivamente recursos de avançar e voltar no tempo enquanto narram suas histórias. Você já deve ter visto: mostram o personagem num ponto qualquer no presente e depois voltam a história pra contar como os personagens chegaram ali, ou mostram um ponto qualquer no futuro para criar um suspense de como a o personagem presente evoluiu até aquele ponto. Lost fez muito isso, This Is Us é toda baseada nessas idas e vindas. Eu tenho visto tanto o uso desses recursos de flashback e flashforward que às vezes sinto uma certa saudade de ver uma história contada de forma linear. 

Mas a gente tá nessa vida é pra morder a língua, e aqui estou eu, em Portugal há dez meses, sol entrando pela janela, olhando um monte de notas que eram pra ser meu texto de despedida de Londres, de onde fui embora em dezembro. Um textão que seria uma espécie de terapia, páginas expostas de diário ou algo do tipo.

Escrevi essas notas enquanto minha saída do Reino Unido acontecia. Minha expectativa era na última semana costurá-las num texto só, exausto, um personagem curvado numa cadeira desconfortável martelando teclas enquanto tomava uma garrafa de vinho num quarto de hotel em uma grande catarse, atormentado pelos sentimentos, usando as palavras como comprimidos pra dor. Se as idas e vindas na linha do tempo são um clichê em forma, esse meu personagem seria um clichê em conteúdo.

Nem mesmo essa desanimada festa de despedida que planejei comigo mesmo para me despedir do Esdras que sonhou e conquistou morar em Londres aconteceu. Até o último minuto eu estava mandando caixas pra Portugal e dormindo pouco. Saí correndo do hotel deixando comida na geladeira e a garrafa de vinho pela metade, pois estava tão cansado que entendi errado o horário do checkout, o horário do motorista que ia me levar pro aeroporto, tudo.

E nessa enorme bagunça física e mental, minhas notas digitais também ficaram perdidas e desconexas.

Dezembro de 2020

Em 12 de dezembro de 2020, eu entrei num carro dum serviço de motoristas que eu havia agendado do hotel para o aeroporto. Eu estava hospedado num hotel no que havia considerado ser minha cidade por quase quatro anos, depois de devolver as chaves do meu apartamento e antes de pegar um voo só de ida, mais uma vez, para outro país. Eu saí em definitivo do Reino Unido para vir para Portugal, onde moram minha namorada Gabriella (estávamos num namoro à distância), nossa gata, dois dos meus irmãos e suas esposas (e gatas, e uma filha…) e alguns amigos.

Uma mudança de país não é exatamente fácil, por mais desejada que seja. Acrescente a isso se mudar durante a pandemia do covid-19, que vou chamar só de pandemia pra não usar seu nome completo, A Porra do Caralho da Bosta dessa Pandemia que Não Acaba Nunca Porque Governos, Empresas e Pessoas Não Param de Fazer Merda. 

Fui embora do Reino Unido sem me despedir apropriadamente — leia-se abraços, sorrisos, bebida e choradeira, como manda o rito de passagem — dos poucos amigos que fiz lá, no máximo um café com uma ou outra pessoa, obedecendo uma certa distância, mesmo que algumas pessoas ao redor se abraçassem como se fosse o longínquo ano de 2019. Como um livro com as últimas páginas rasgadas, minha vida em Londres terminou sem um último capítulo, um vazio no roteiro que quem sabe será ajustado numa temporada futura.

Corri da porta do hotel para o carro, suado, me perguntando por que os outros hóspedes do hotel achavam que estavam em casa e não usavam máscara nos corredores. Eu havia me confundido com a hora do checkout, eu havia me confundido com a hora do táxi, meu cérebro estava em vias de derreter e escoar pelas orelhas e incapaz de reter e processar informações. Eu estava exausto, um novo conceito de exaustão que eu nunca havia conhecido. 

O carro teve que fazer uma rota diferente da prevista por conta dos bairros fechados durante o lockdown, e durante a ida ao aeroporto acabou passando por vários cantos familiares que me deram um aperto no coração. Era como se o destino quisesse fazer eu me despedir de locais marcantes onde passei nos últimos anos, cada um com sua pequena história. Um bar onde fui com amigos, um parque onde levei pessoas e onde eu gostava de pedalar no verão, uma rua onde andei num dia triste em que eu não queria voltar pra casa. Numa espécie de consolação por não ter me despedido apropriadamente, era uma última olhada em lugares que fizeram parte da minha jornada em Londres.

O motorista reclamava das medidas de combate à pandemia como se isso adiantasse, e eu respirava aliviado por ter reservado algumas horas entre a saída do hotel e o horário do voo. Não bastasse o trânsito imprevisto, cheguei no aeroporto e descobri que minha balança de mala estava desregulada e, por esse motivo, tive que jogar algumas coisas fora e a balconista da companhia aérea ganhou meus cremes de cabelo.

Fui bastante sortudo na minha escolha de datas. Poucos dias depois ficou bem difícil conseguir voos. Eu não imaginava que, na semana seguinte, a escalada dos números da pandemia e a descoberta da variante delta faria o Reino Unido aumentar o nível de emergência da pandemia duas vezes. Recebi de alguns amigos links para notícias e variações de “olha do que você escapou!”. Fui embora de Londres como o Indiana Jones fugindo da pedra gigante.

Rock Indiana Jones GIF - Rock Indiana Jones Run GIFs

Solidão

When I used to go out, I would know everyone that I saw
Now I go out alone, if I go out at all

-- The Rat, de The Walkmen

Eu tinha uma vida social razoável em Fortaleza. Dentro do pequeno universo da classe média fortalezense, era impossível ir no café frequentado por todo mundo sem encontrar alguém conhecido. Alguns eventos em casas noturnas eram uma garantia de encontrar um círculo de amigos sem mesmo precisar marcar. À medida que eu e meus amigos fomos chegando aos 30 anos esses encontros foram diminuindo; troquei de país achando que faria novos amigos, mas o que encontrei foi uma enorme solidão.

Pra começar, todo mundo está sempre de passagem. Todo mundo parece que está lá para um curso de inglês, para uma experiência profissional, para morar ali por um ou dois anos e voltar pro seu país. Quando uma relação começa a aprofundar, quando uma conversa finalmente vai além de clima e futebol, toda vez que o círculo de amigos íntimos ensaiava aumentar, alguém soltava uma novidade: um “ei, deixa eu te contar… eu vou embora de Londres” que parecia uma flecha no peito e o tal círculo social tornava a diminuir.

Fora isso, eu nunca soube direito como me aproximar das pessoas em Londres. Eu me sentia meio que quebrando um silêncio que não deveria ser quebrado, violando a intimidade das pessoas caso fizesse uma pergunta ligeiramente pessoal. Mais que um imigrante, mais que um forasteiro, eu parecia ser um invasor.

Eu, que costumava ser uma pessoa bastante sociável e cheia de amigos, não conseguia mais me sentir à vontade para chamar uma pessoa para um café, uma cerveja, sem parecer que eu estava torturando alguém que agora precisaria inventar uma desculpa. Se às vezes eu arriscava o convite, eu ouvia sobre um trabalho inesperado, algum outro compromisso, pensava “eu devia ter ficado na minha mesmo” e assim mais uma amizade não saía da superficialidade. “A solidão das pessoas dessas capitais”, já cantava o Belchior há quarenta e alguns anos.

Quando me mudei pro Reino Unido, eu tinha muito medo de ser o brasileiro super-amigável, expansivo, aquele cara que encosta nas pessoas numa terra em que o toque não é bem parte da cultura. Eu passei a me vigiar. Não sei o quanto desse tempo em Londres eu fui eu mesmo e o quanto eu fui um personagem. Ironicamente, eu não sei o quanto disso eu sou agora, lembro que numa visita a Portugal em 2019 um garçom me deu um tapinha nas costas e tomei um susto. Talvez isso seja o que chamam se perder no personagem.

O fato é que eu ainda me sinto parte de Londres e agora eu carrego em mim parte de tudo isso. Difícil falar de Londres sem falar nessa solidão.

Dezembro de 2019 + abril de 2015

Eu estava na pista dum aeroporto em Portugal em 2019 prestes a entrar num avião pra Londres depois de visitar minha namorada. Era quase meia-noite, devia fazer cerca de 10 graus, meu voo estava seis horas atrasado, eu iria dormir cerca de quatro horas no total e em 9 horas e meia eu deveria estar entrando no trabalho. Eu sou um homem de números e, naquele momento, eles estavam me torturando.

O céu estava limpo, dava pra ver as estrelas da escada do avião enquanto as pessoas entravam lentamente. Pensei como no céu de Londres era difícil ver estrelas. Lembrei que, em 2015, durante um teste de proficiência de língua inglesa pra trocar de país (na época era pra tentar o Canadá, mas isso é outra história), tive que passar por uma prova de conversação com um tema absurdamente aleatório: olhar estrelas. Quando a instrutora do teste olhou pra mim e perguntou em perfeito inglês britânico “com que frequência você olha as estrelas?” eu me perguntei que diabos de teste era aquele e como eu conseguiria divagar sobre aquele assunto pra provar que eu sabia falar algo em inglês.

Isso me marcou de tal jeito que sempre que olho estrelas eu lembro dessa prova, e lembro de toda a longa história até eu trocar de país. Provas, entrevistas de emprego, tanta coisa.

Novembro de 2020

Living in a bedsit
Travelling on a tube train
Working all day long
And you know no-one, so you don't go out
And you eat out of tins and you watch television
Solitary Confinement

-- Solitary Confinement, do The Members

Usando minha hora de exercício fora de casa permitida durante o lockdown (uma enorme piada, já que ninguém estava medindo, principalmente o vírus), pedalei até a Millennium Bridge depois de acabar o expediente do dia no meu pequeno escritório na sala de casa. O céu estava milagrosamente limpo para aquela semana e, olha só, eu conseguia ver as estrelas.

Bum!, veio de novo a nuvenzinha em cima do meu ombro com a imagem borrada da instrutora do teste. “Com que frequência você olha as estrelas?”. Tal qual o Homem-Aranha relembrando diariamente sua origem, aquela ladainha de grandes poderes e responsabilidades, lembrei de tudo que passei pra chegar ali.

Passei na frente dum bar onde eu havia levado vários amigos, aquele bar-coringa pra quando você não sabe onde levar um amigo turista que quer experimentar um oleoso fish & chips perto do Tâmisa. O bar estava fechado, afinal Londres estava em lockdown, e a calçada estava quase deserta, com exceção dum casal sentado no muro em frente ao rio. Nem parecia que eu já tinha estado no mesmo lugar com pessoas dançando numa roda enorme ao redor dum músico de rua tocando violão numa sexta-feira de noite, quando uma amiga turista conheceu outros brasileiros e, seguindo minha amiga, fui parar num lotado clube subterrâneo de salsa onde infelizmente ouvi Despacito pela primeira vez.

O tempo estava correndo e, mesmo que ninguém estivesse fiscalizando os limites da hora de exercício do tão despombalecido e desrespeitado lockdown britânico, voltei pra casa. Tomei um banho, pois mesmo com o frio de novembro ainda sou um brasileiro bastante banhado, e dormi olhando minhas paredes vazias. Eu já tinha retirado os quadros pra mudança e, pouco a pouco, meu apartamento ia parecendo menos com um lar.

O tal do pertencimento

I don't wanna be like other people are
Don't wanna own a key, don't wanna wash my car
Don't wanna have to work like other people do
I want it to be free, I want it to be true

-- Turn my Way, do New Order

As pessoas sempre me perguntavam o que eu achava do Reino Unido, se eu tinha vontade de voltar pro Brasil. Minha resposta padrão era “não sei se o Reino Unido é meu lugar, mas sei que o Brasil não é”.

Saí do Brasil por motivos diversos, entre eles por me sentir um cubo sendo forçado a entrar no molde dum cilindro num daqueles brinquedos infantis de encaixe em qualquer discussão que envolvesse ambições, status, dinheiro, política.

Apesar da solidão tão citada na cultura pop e dos horríveis costumes gastronômicos que dariam um texto inteiro, eu amo Londres até hoje. Às vezes sinto saudade de explorar a cidade de bicicleta, da personalidade de cada bairro, daquele grande colosso urbano a ser explorado. Passei momentos difíceis, mas também fui feliz e amadureci muita coisa nesse processo. No Reino Unido descobri outras inadequações e aprendi um bocado sobre esse mitológico sentimento de pertencer ou não a um lugar.

Minha segunda troca de país é bem menos pretensiosa que a primeira e ao mesmo tempo vem com mais maturidade e autoconhecimento. Eu sei muito mais o que quero, o que não quero e o que é negociável.

Morar em Londres foi um sonho que tive entre meus 18 e 31 anos. Mudar de novo teve um obstáculo: a sensação de estar jogando fora a conquista desse sonho. Não foi fácil dar esse passo, primeiro eu tive que entender que depois de realizar o sonho eu virei outra pessoa, e com a nova realidade vieram novas formas de ver um trabalho, veio um novo relacionamento, vieram novos sonhos e outras vontades.

Em maio de 2020, quando eu ainda estava em Londres e a Gabi no Porto, ela fotografou uma citação ao Camões na janela duma loja e publicou no Instagram. A frase me pegou nesse processo de preparação e sempre me faz pensar nessa mudança constante em que estamos. Quase sempre que estou andando de volta pra casa e passo por aquela loja, olho pra janela e sou lembrado disso. Fica aqui a imagem como a melhor forma que achei de encerrar esse texto.

Foto da citação ao Camões escrita à mão abaixo de uma janela.
Do Instagram da Gabi, minha namorada

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