A glória do feedback lento

28 de julho de 2019   —   14:33:29

Eu sou um programador.

Programar já foi um hobby quando eu era adolescente e é o que eu faço para pagar as contas. Uns dias eu me sinto mais programador que outros, e frequentemente me pego em reflexões sobre como o trabalho define ou não quem eu sou.

Meu primeiro estágio como programador foi em 2006. De lá pra cá já trabalhei de todo jeito. Às vezes com a lendária figura do chefe chegando e dizendo o que eu tinha fazer no dia, às vezes planejando tudo com um gerente de projetos com meses de antecedência.

Vários nomes e siglas entraram e saíram nesses processos de lá pra cá, desde processos herdados da engenharia, porque alguém pensou um dia que fazer software é igual a fazer prédio, até processos que nasceram pensados pra software. As pessoas começaram a falar mais em agile, lean e MVP: fazer produtos enxutos, lançar logo, aprender com os erros, ciclos curtos de feedback para validar ideias. Mas antes que você desista desse texto, esse não é um texto sobre programação.


Eu tenho vários hobbies, uns mais frequentes que outros. O principal, de 2013 pra cá, é a fotografia.

Eu poderia divagar bastante e com muito prazer sobre minha história com a fotografia desde muito antes disso, mas eu marco 2013 na agenda mental porque foi quando fiz um curso que mudou minha relação com a fotografia — a paquera virou um relacionamento estável — e me fez afundar mais no tema. A história completa fica pra outro texto, quem sabe?

Agora em 2019 eu comecei a fotografar com filme, como nossos ancestrais faziam. Todos esses anos uma ou outra pessoa perguntava se eu tinha vontade de usar filme, mas fui resistente. Há uns meses minha namorada me emprestou uma pequena câmera de filme, brinquei um pouco, depois tropecei por acidente numa ótima câmera muito barata numa loja de artigos usados quando fui doar umas roupas. Quando reparei, estava pesquisando rolos de filme, comparando as cores entre eles, esperando a próxima revelação.

A câmera que a Gabi me deu!

Eu confesso um crime: na fotografia digital, quando faço uma foto de que gosto, eu gosto de me dedicar à foto, passar pro computador, fazer uma pós-edição legal no Lightroom e publicar no Instagram e/ou no lendário Flickr.

O Instagram, especificamente, se tornou um péssimo terreno para um processo criativo. O Instagram nos mostra primeiro as pessoas que mais têm curtidas e interações, sejam as que seguimos, sejam as sugestões. Como o conteúdo que consumimos interfere no que criamos, no fim me parece que todo o Instagram está produzindo fotos parecidas.

A fotografia de filme tem me ajudado a quebrar esse ciclo. Eu levo semanas entre uma foto e sua revelação. Além de me surpreender (ou me decepcionar) com fotos que fiz e esqueci, isso me permite que eu me concentre em outras partes do processo, como algo que às vezes passava despercebido: o próprio prazer de criar algo.


Eu estava falando da minha câmera de filme pra um amigo programador dia desses. Ele acabou me soltando um “mas o ciclo de feedback não é lento pra fotografia de filme?”

Eu tive uma epifania ali da motivação por aquele novo processo no meu hobby antigo, como se eu tivesse achado a explicação para um prazer que eu sentia sem saber o motivo. Nós estamos sempre correndo atrás de números e resultados, tentando ser produtivos o tempo inteiro. Fazer mais, chegar antes, ter mais. No meio dessa ansiedade toda, o ciclo lento de feedback não é um problema, é uma vantagem.

Puta merda, fotografar é meu hobby. Eu não tenho que ser produtivo. Eu não tenho que ser o mais criativo. Eu não tenho que gerar resultados incríveis e revolucionar a fotografia. O importante é que eu me divirta criando, ainda que eu não goste do resultado, por mais esquisito que isso possa parecer.

Por uma fração de tempo, eu tive o prazer de criar algo. Talvez venha um borrão depois da revelação, talvez eu tenha deixado o dedo na frente da lente, mas ei, eu me diverti. E pode ser que dê bom, pode ser que as cores do filme ou a ótica da lente vão deixar o resultado melhor do que planejei. Levo tempo pra ver a foto pronta entre apertar o botão e finalmente ver a foto, e essa curiosidade, essa “ansiedade criativa” que mora entre tantas ansiedades ruins que a existência já nos dá, é um frio na barriga bom de se sentir.

Num mundo que exige velocidade e sacrifícios e que quer nos moer para extrair algarismos e gráficos, fazer uma tarefa pelo próprio prazer da tarefa me soa quase como uma forma de resistência.


Não tenho planos de abandonar de vez a fotografia digital pela analógica. Ainda é uma zona de conforto e tem dias que sim, que eu quero fotografar e ver o que eu fiz. Assim como a pizza gourmet artesanal do restaurante em meia luz e a pizza do delivery da esquina, tudo tem seu dia e não sou obrigado a escolher um tipo favorito. Mais uma vez, eu não tenho por que me obrigar a escolher esse ou outro estilo.

Nem sempre temos liberdade sobre nossas escolhas, então poder ter esse momento de respiração e alívio em nosso tempo livre (ele deveria ser, afinal, livre), criar algo em uma velocidade que seja de nosso gosto, num ritmo em que nossos pensamentos possam fluir à vontade, é uma terapia.

Adivinha quem está chegando?

4 de novembro de 2016   —   11:07:45

Um cara decidiu postar no twitter um gráfico sobre a busca por uma canção natalina de Mariah Carey:

Alguém compartilhou no chat do trabalho e pensei como seria para algumas canções natalinas brasileiras. Lembrei da cansadíssima canção de Simone, Então é Natal, e fiz uma busca no Google Trends:

Então é Natal

Acima temos a projeção de buscas por “Simone então é natal” no Google desde 2004.Os picos do gráfico, obviamente, são os meses de fim de ano. O gráfico é relativo: 100% é o ano de 2013, quando as buscas tiveram o seu máximo. Felizmente, nos últimos dois anos, a busca pela música da Simone caiu pra 75% do que era em 2013.

Depois lembrei da música Um Feliz Natal, de Ivan Lins, e a acrescentei:

Agora o Ivan Lins

Nos últimos dois natais, a busca pela canção de Simone foi cerca de 10 vezes maior que a busca por Ivan Lins. Não sei como, pra mim eles sempre aparecem na mesma playlist nos cantos.

Lembrei, depois, da canção Papai Noel filho da puta, dos Garotos Podres, música conhecida por quem não aguenta as outras canções da época. Por ser um título único, acrescentei sem o nome da banda, o que talvez seja um pouco tendencioso em nossa pesquisa.

Pra minha surpresa, eles parecem competir bem com a busca pelo Ivan Lins:

Garotos Podres

O importante é: se precisar resolver algo em lojas de departamento, vá agora. A chance de ouvir Simone e Ivan Lins ainda é relativa baixa no começo de novembro. Corra.

O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de janeiro de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.

Dieta

10 de novembro de 2013   —   01:25:47

A nutricionista me recomendou uma dieta pra ganho de peso (lembrando que ganhar peso não é ganhar gordura). Por ser diabético e ter um rim já um pouco mais carregado que o normal — apesar dos exames estarem normais —, no lugar de passar potes e potes de suplementos com gosto de areia de ampulheta, que forçariam o pobre órgão e que participariam do meu Instagram sabe-se lá por quê, ela preferiu jogar as proteínas em coisas com jeito de comida de verdade.

A partir daí eu nunca comi tanto presunto, queijo, iogurte e aveia na vida. Também passei a semana tomando suco, sem tomar um mísero refrigerante e evitando manteiga e margarina, indo pra academia todo dia, tudo muito bonito.

Chegou o sábado de manhã e tive minha terceira aula de fotografia, que consistiu de tirar fotos no Passeio Público e treinar umas técnicas. Depois de 3h debaixo de sol fazendo foto e andando dum lado pro outro, o glicosímetro soltou um “cara, é bom você comer logo”. Bem oportuno: pra quem não sabe, no almoço de sábado tem uma feijoada incrível no Café Passeio.

Almocei aquela feijoada fabulosa e bebi uma Coca-Cola Zero geladíssima pra rebater aquele calor lazarento fabricado em Dakar. Você pode até ter uma hashtag de marombeiro que leva seu sobrenome, mas não negue: é bom. Ainda fui pra casa e dormi a tarde toda de bucho cheio, acordando com uma disposição e humor que eu não devia sentir desde setembro.

Me regozijei feito um personagem bíblico. E, por falar em Bíblia, só Deus pode me julgar (tá, minha médica e minha nutricionista talvez possam). E não sei o seu deus, mas o da minha dieta sabe o valor das pequenas recompensas.

Casamento entre homossexuais e… o fim da democracia?

23 de maio de 2013   —   13:33:23

Hoje, olhando o Facebook, dei de cara com um texto do professor de Direito da UFC Glauco Barreira Magalhães Filho, que inclusive tem um título de doutor, falando sua opinião sobre a resolução do CNJ que obriga cartórios em todo o Brasil a celebrar casamentos entre homossexuais. Recomendo que você leia o texto dele antes de ler o restante do meu.

Primeiro ele compara a decisão dos cartórios de fazerem casamentos entre pessoas do mesmo sexo a um golpe de estado, e usa o reconhecimento recente de Joaquim Barbosa para fazer mais uma comparação: a fama do ministro seria como a ascensão de Hitler ao poder. A Lei de Godwin — que afirma que toda discussão na internet, a medida que passa, tende a citar uma comparação com Hitler — se aplica nesse caso?

Quase no fim do texto, ele fala que o STF, o CNJ, sei lá, pretende acabar com o Dia das Mães, pois não haverá mais mães. Aí ele usa a técnica rétorica de Medo, incerteza & dúvida (o famoso FUD), apelando para um futuro distópico e impossível para plantar o medo. Plantar o medo usando um argumento mal embasado? Vindo de um advogado, isso é no mínimo um argumento pobre. Vão acabar com os heterossexuais? Gays e lésbicas não podem ter filhos naturalmente? Melhor ainda: e a adoção de crianças por casais de mesmo gênero não faria deles pais e mães?

No fim do texto ele solta um “Deus salve a família!”. Eu não sei que Deus é esse. Não sou muito religioso e tenho minhas crenças e descrenças, mas o Deus que me falaram lá em casa que existia era mais bondoso que esse aí.

Não parei por aí e procurei outros textos do professor pela internet. Em um deles o professor solta: “Acrescente-se a isso o quanto vai sofrer de ‘bullying’ na escola e no dia-a-dia a criança adotada por casais homossexuais quando seus colegas descobrirem que ela tem DOIS PAIS ou DUAS MÃES!”

Mais uma vez a técnica de Medo, Incerteza & Dúvida.

Primeiro que desonra é ser ladrão, não ser filho de gays/lésbicas. Segundo que quem está errado é quem pratica o bullying, principalmente por algo tão pequeno, e não quem sofre. “Casais gays com filhos farão os filhos sofrer bullying” me parece uma variação do “Mulheres com roupa curta vão causar estupros”.

Felizmente a UFC já liberou uma nota falando que a opinião do professor, publicada no site do departamento de Direito, não representa a opinião da instituição. E acrescentou: “Cabe igualmente destacar que a política editorial desta Universidade privilegia o respeito à diversidade de orientação sexual, étnica, cultural, ideológica e religiosa”.

Por essas e outras que um diploma de doutor pode ter seu valor no mundo universitário, mas não me impressiona.