Divagando e budejando sobre três meses de pandemia

30 de May de 2020   —   16:27:21

Escrevi esse texto por estar oscilando entre triste, ansioso e puto da vida (perdoe meu vocabulário rudimentar). Como o título sugere, vou falar de coronavírus, notícias, isolamento, impressões desses tempos. Pode não ser uma leitura leve, mas foi algo que achei necessário escrever. Relatos similares de amigos e desconhecidos me ajudaram a não me sentir sozinho com os pensamentos negativos que essa época nos traz, mas pode ser que eu não consiga esse mesmo efeito nobre em todo mundo.

Há uns cinco ou seis anos, um colega de trabalho falou que havia conhecido uma amiga minha num jantar. Aquele roteiro bem conhecido de Fortaleza: um assunto em comum aparece, você cita uma história ou onde trabalha, as pessoas falam que conhecem alguém, a outra pessoa fala que também conhece. Ao chegarem no meu nome, minha amiga pergunta “se eu ainda abraçava todo mundo”.

Esse meu lado, digamos, abraçador vem perdendo força nos últimos anos. Em 2017 vim morar nesse país em que o contato físico é menos comum, e por vezes eu tive vontade de perguntar para grupos de pessoas que se abraçavam na rua como eles haviam chegado naquele estágio. Saber se eu tenho intimidade para abraçar alguém aqui às vezes é uma aposta, uma equação que eu resolvo na cabeça onde as variáveis são contatos anteriores com a pessoa, o país de onde ela veio, como eu a vejo agir com outras pessoas. Se eu juntasse o esforço mental que usei em três anos aqui com esse cálculo, talvez eu ganhasse uma medalha Fields.

Meme da Nazaré Tedesco fazendo contas.

Muitas pessoas mais introvertidas vêm fazendo piadas com o isolamento, dizendo “eu me preparei a vida inteira pra isso”, e talvez os últimos três anos tenham me preparado pra esse momento. Nos próximos dias faço três meses sem ver minha namorada, que mora a duas horas e pouco de avião daqui; as únicas conversas não-digitais que tive com outras pessoas desde a segunda semana de março foram agradecendo algum entregador, sempre mantendo uma distância segura e pedindo para deixar a caixa na porta, por favor; as últimas pessoas que abracei foram uma amiga e seu namorado no dia 7 de março (a vida continua além do coronavírus e nesse tempo o tal namorado virou ex).

Um pensamento recorrente nesses tempos é como às vezes não nos damos conta que algo simples que vivemos pode ser a última ocorrência de uma série, que pode não acontecer de novo ou não acontecer tão cedo. Se por um lado isso nos dá uma pressa de viver tudo o que há para ser vivido, seria insuportável viver com esse peso o tempo inteiro.


Curiosamente, algumas empresas daqui do Reino Unido tomaram medidas de isolamento antes do governo tomar medidas oficiais. Comecei a trabalhar de casa enquanto o governo daqui ainda falava em imunidade de rebanho; eu e minha namorada cancelamos nosso último encontro, que seria no meio de março; minha última saída (fora saídas semanais para jogar o lixo fora) foi para conversar com meu médico e garantir uma receita de comprimidos para os tempos que viriam.

Eu sou diabético e isso me põe num grupo de risco. Não tenho um risco maior de infecção, porém tenho riscos maiores de complicações caso eu me contamine. 25% dos mortos em hospitais do Reino Unido tinham diabetes, e a ideia de sair de casa se tornou um lembrete da minha própria mortalidade. Me pego pensando em tudo que vivi por 34 anos e jogando tudo fora porque decidi dar uma volta além do meu quarteirão e, no fim, apenas fico em casa.

As regras de isolamento do Reino Unido, na minha opinião, foram e são bem brandas. Não tão brandas como as da Suécia, que não fez isolamento social oficial (e paga seu preço), mas nem de longe rígidas como as da Espanha ou muito menos as da Nova Zelândia, que está zerando os casos.

Um meme que gastei tempo fazendo pra representar meu sentimento ao olhar para a curva de casos da Nova Zelândia.

Foi permitido às pessoas daqui uma hora de exercício físico ao ar livre, o que achei no mínimo estranho, já que o vírus não está monitorando o batimento cardíaco e calorias gastas das pessoas para saber quem pode ou não ser contaminado. Entender a forma de pensar britânica, da gastronomia ao isolamento, é um exercício que já me fez dobrar e desdobrar o cérebro de várias maneiras para ver se alguma encaixa.

Minha cabeça quer soltar fumaça tentando interpretar a realidade. Os cientistas e médicos sugerem medidas, os jornais as publicam, o governo adota metade delas, ignorando partes importantes, e as pessoas decidem seguir metade do que o governo pede. Pessoas que antes eram críticas ao governo de repente tornaram-se leais, “veja, eu estou saindo, mas estou dentro da minha hora de exercício permitida”, em nome da conveniência de não seguirem rigorosamente o isolamento. Eu, com minha diabetes, saudades da namorada, família e amigos, com medo-de-morrer-mas-vontade-de-continuar-vivendo, sigo em casa.

O governo daqui vem afrouxando as medidas num ritmo não recomendado pelos cientistas e médicos. As pessoas saem para dar seus passeios e publicam nas redes sociais fotos de gente se encontrando, celebram as pessoas se abraçando na rua como se fosse o fim duma guerra, mesmo que contra as já brandas regras estabelecidas e que isso signifique um risco de aumentar os números de contaminações. O desejo de viver o verão atual parece maior do que viver até o próximo. Talvez eu seja ansioso demais por pensar em dias, semanas e anos em vez de apenas sair e encontrar alguém sem pensar nas consequências.

Eu sou um programador, não um psicólogo ou sociólogo, e antes de tudo eu sou ansioso. Talvez se eu soubesse mais do funcionamento da mente das pessoas eu seria menos impaciente, talvez fosse mais desesperador. Uma das maiores recomendações para ansiosos é não tentar controlar aquilo que está fora do nosso campo de ação, como as pessoas que seguem suas vidas sem se importar com os gráficos que por algum motivo os jornais que acompanho pararam de publicar.

Porém a prevenção do coronavírus é um pacto coletivo, só funciona se todos fizerem, e eu não consigo me desligar disso. Se os números sobem, eu sigo sem ver minha namorada, minha família, meus amigos. Não consigo desligar o interruptor da raiva, e tem sido especialmente difícil pra mim interpretar a realidade, achar algum sentido nas pessoas que se dizem estudadas, mas seguem ignorando conselhos oficiais ou científicos. Me preocupar e sentir raiva, porém, também não me traz bem algum, já que as pessoas vão seguir se abraçando lá fora enquanto me desgasto aqui dentro, com a saúde mental em frangalhos e o coração apertado de saudades.

Esse tipo de pensamento e o isolamento têm me feito reinterpretar vários momentos da minha vida. Estou bastante desgastado por todos os momentos de autoconhecimento que tenho sozinho no espaço confinado do meu apartamento, por todas as epifanias vindo de madrugada à custa de muitas horas de sono.

Eu lembro de tantos outros momentos em que sabendo que algo era o certo e deveria ser feito ou algo era errado e não deveria ser feito, eu tive essa sensação de ficar pra trás enquanto via os outros seguirem adiante. E mais uma vez essa nuvem volta para me atormentar, o peso de fazer algo que eu acredite ser o correto enquanto os outros não se importam. Em poucas palavras, estou sendo feito de otário.


Juro que tento manter a cabeça ocupada.

Como falei, antes mesmo do governo adotar oficialmente o confinamento meu trabalho mandou todo mundo trabalhar de casa. Eu havia trabalhado de casa entre 2015 e 2016 e sentia muita falta de poder trabalhar nessa modalidade, sem gastar horas diárias indo de casa para um escritório barulhento. Claro que o falo com noção de meus privilégios, já que posso exercer meu trabalho de casa e não passo pelo drama dos colegas que precisam trabalhar com filhos em casa, por exemplo.

O video game tem me feito bem. Por ser um entretenimento mais imersivo, que não acontece se você não dedicar sua atenção completa, também é bom para me obrigar a tirar pensamentos das notícias, do passado, do futuro. Finalizei o espetacular Horizon: Zero dawn e tenho me dedicado ao espetacular The Messenger, jogo que homenageia ao mesmo tempo vários jogos antigos das décadas de 80 e 90, como Ninja Gaiden, Donkey Kong e Metroid.

Atenção: o trailer contém spoilers, mas coloquei aqui mesmo assim pra ter algo gráfico no meio do texto e parecer menos cansativo…

Tenho visto várias séries. Mad Men sempre me faz passar raiva com os personagens, mas é um lembrete de como arte boa é aquela que desperta sentimentos, mesmo que seja raiva. Sex Education, do Netflix, tem seus momentos de humor e drama. Hunters, da Amazon Prime, é uma produção muito boa sobre caçadores de nazistas, se você ainda estiver com paciência para nazistas depois de ler as notícias do Brasil.

Picard traz mais uma vez a mistura de sci-fi e filosofia de Star Trek. Enquanto escrevo lembro de Elnor, guerreiro qalankhkai que se dedica sua vida a causas perdidas. A vida real é menos empolgante que a ficção, e já me peguei pensando quem são os guerreiros por aí que se dedicam a causas perdidas nos nossos tempos. Quem sabe os profissionais de saúde, de alimentação e entregadores, que trabalham enquanto há gente protestando de automóvel para o fim do confinamento e tornando-se pacientes dias depois. Não fosse a palavra “guerreiro” um clichê besta hoje em dia, seria talvez uma boa metáfora.

Bem, prometi divagações no título, mas já estou divagando demais. Vamos pros livros. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes, é um livro com seus momentos de tristeza mas me trouxe o conforto da familiaridade dum livro em cearês. Enquanto fuçava no Goodreads por algum livro com pitadas de humor, comecei a ler Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, só pra tropeçar mais uma vez em personagens quixotescos em busca de causas perdidas. Num momento em que entender como a ciência funciona é ainda mais urgente, estou lendo O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Fora isso, outros livros relacionados a trabalho que não merecem ser citados aqui.

Uma caneca de café sobre uma pilha de livros iluminada por uma luminária.
Uma das fotos que fiz em casa.

Sinto bastante falta de fotografar e tentei fazer algumas fotos em casa, mas a criatividade não vingou como esperado. Tentei praticar guitarra sozinho com sites de aulas virtuais, sem muito sucesso, e em seguida comecei aulas de guitarra via Skype com um professor de Fortaleza, João Victor Barroso. Quem me conhece sabe que há muitos anos tocar guitarra é um sonho que nunca levo adiante e uma pendência na minha vida, mas quem sabe agora vai. Tem sido bom ver algo novo progredindo na vida num momento em que todo o resto está difícil.

Comprei um suporte de bicicleta para poder pedalar dentro de casa e tenho feito aulas de yoga que vejo no YouTube (recomendo Yoga with Adriene, em inglês, e o canal da Pri Leite, em português). Sigo engordando e não gosto quando me vejo no espelho, mas acho que a atividade física nesse momento tem sido mais relevante para a saúde mental que para me manter em forma.

Fora isso, a diabetes felizmente também se mantém controlada, tanto pela atividade física quanto pelo fato que tenho cozinhado mais e comido menos coisas processadas. E não posso falar disso sem falar da Rita Lobo e do Cozinhoterapia da Luiza, uma das minhas amigas de Fortaleza que por algum motivo nunca vi pessoalmente e espero conseguir encontrar um dia.


Ler as notícias é um exercício difícil. Já tentei passar uns dias longe dos jornais, o que me fez muito bem, mas em algum momento precisei me informar. Existem muitos, muitos artigos tentando descrever como o futuro vai ser, como serão os escritórios, as viagens de avião, como tudo que a gente conhecia já era.

Longe de mim achar que o que tínhamos seis meses atrás era muito bom, mas também acho cedo para pensar no tal “novo normal”, expressão que já deu no meu saco. Um exercício que faço quando me pego pensando demais no futuro é lembrar que, no passado, muita gente falhou para prever o futuro. Falharam as previsões otimistas de carros voadores, falhou o pessimismo do malthusianismo.

Minha cabeça ansiosa tenta pensar em todos os cenários possíveis de futuro e ter um plano para cada um deles, porém isso é inviável. Nós simplesmente não sabemos. Estamos num problema que tem apenas cinco meses, nós não temos variáveis suficientes para saber com as coisas estarão daqui a seis ou doze meses, e tento me prender a essa ideia que pode ser tudo, inclusive nada.


Existem dias e dias. Hoje é um dia daqueles, e o cursor piscando na tela foi minha forma de tentar encaixar as ideias, tirar o peso do peito, desabafar, achar um respiro. Não sei se existe conselho ou resposta para o que sinto. Depois de publicar o texto, provavelmente vou tentar fazer uma yoga mais prolongada, já que o sábado tem mais tempo, e ver se o exercício físico faz o cérebro cozinhar alguma endorfina.

A glória do feedback lento

28 de July de 2019   —   14:33:29

Eu sou um programador.

Programar já foi um hobby quando eu era adolescente e é o que eu faço para pagar as contas. Uns dias eu me sinto mais programador que outros, e frequentemente me pego em reflexões sobre como o trabalho define ou não quem eu sou.

Meu primeiro estágio como programador foi em 2006. De lá pra cá já trabalhei de todo jeito. Às vezes com a lendária figura do chefe chegando e dizendo o que eu tinha fazer no dia, às vezes planejando tudo com um gerente de projetos com meses de antecedência.

Vários nomes e siglas entraram e saíram nesses processos de lá pra cá, desde processos herdados da engenharia, porque alguém pensou um dia que fazer software é igual a fazer prédio, até processos que nasceram pensados pra software. As pessoas começaram a falar mais em agile, lean e MVP: fazer produtos enxutos, lançar logo, aprender com os erros, ciclos curtos de feedback para validar ideias. Mas antes que você desista desse texto, esse não é um texto sobre programação.


Eu tenho vários hobbies, uns mais frequentes que outros. O principal, de 2013 pra cá, é a fotografia.

Eu poderia divagar bastante e com muito prazer sobre minha história com a fotografia desde muito antes disso, mas eu marco 2013 na agenda mental porque foi quando fiz um curso que mudou minha relação com a fotografia — a paquera virou um relacionamento estável — e me fez afundar mais no tema. A história completa fica pra outro texto, quem sabe?

Agora em 2019 eu comecei a fotografar com filme, como nossos ancestrais faziam. Todos esses anos uma ou outra pessoa perguntava se eu tinha vontade de usar filme, mas fui resistente. Há uns meses minha namorada me emprestou uma pequena câmera de filme, brinquei um pouco, depois tropecei por acidente numa ótima câmera muito barata numa loja de artigos usados quando fui doar umas roupas. Quando reparei, estava pesquisando rolos de filme, comparando as cores entre eles, esperando a próxima revelação.

A câmera que a Gabi me deu!

Eu confesso um crime: na fotografia digital, quando faço uma foto de que gosto, eu gosto de me dedicar à foto, passar pro computador, fazer uma pós-edição legal no Lightroom e publicar no Instagram e/ou no lendário Flickr.

O Instagram, especificamente, se tornou um péssimo terreno para um processo criativo. O Instagram nos mostra primeiro as pessoas que mais têm curtidas e interações, sejam as que seguimos, sejam as sugestões. Como o conteúdo que consumimos interfere no que criamos, no fim me parece que todo o Instagram está produzindo fotos parecidas.

A fotografia de filme tem me ajudado a quebrar esse ciclo. Eu levo semanas entre uma foto e sua revelação. Além de me surpreender (ou me decepcionar) com fotos que fiz e esqueci, isso me permite que eu me concentre em outras partes do processo, como algo que às vezes passava despercebido: o próprio prazer de criar algo.


Eu estava falando da minha câmera de filme pra um amigo programador dia desses. Ele acabou me soltando um “mas o ciclo de feedback não é lento pra fotografia de filme?”

Eu tive uma epifania ali da motivação por aquele novo processo no meu hobby antigo, como se eu tivesse achado a explicação para um prazer que eu sentia sem saber o motivo. Nós estamos sempre correndo atrás de números e resultados, tentando ser produtivos o tempo inteiro. Fazer mais, chegar antes, ter mais. No meio dessa ansiedade toda, o ciclo lento de feedback não é um problema, é uma vantagem.

Puta merda, fotografar é meu hobby. Eu não tenho que ser produtivo. Eu não tenho que ser o mais criativo. Eu não tenho que gerar resultados incríveis e revolucionar a fotografia. O importante é que eu me divirta criando, ainda que eu não goste do resultado, por mais esquisito que isso possa parecer.

Por uma fração de tempo, eu tive o prazer de criar algo. Talvez venha um borrão depois da revelação, talvez eu tenha deixado o dedo na frente da lente, mas ei, eu me diverti. E pode ser que dê bom, pode ser que as cores do filme ou a ótica da lente vão deixar o resultado melhor do que planejei. Levo tempo pra ver a foto pronta entre apertar o botão e finalmente ver a foto, e essa curiosidade, essa “ansiedade criativa” que mora entre tantas ansiedades ruins que a existência já nos dá, é um frio na barriga bom de se sentir.

Num mundo que exige velocidade e sacrifícios e que quer nos moer para extrair algarismos e gráficos, fazer uma tarefa pelo próprio prazer da tarefa me soa quase como uma forma de resistência.


Não tenho planos de abandonar de vez a fotografia digital pela analógica. Ainda é uma zona de conforto e tem dias que sim, que eu quero fotografar e ver o que eu fiz. Assim como a pizza gourmet artesanal do restaurante em meia luz e a pizza do delivery da esquina, tudo tem seu dia e não sou obrigado a escolher um tipo favorito. Mais uma vez, eu não tenho por que me obrigar a escolher esse ou outro estilo.

Nem sempre temos liberdade sobre nossas escolhas, então poder ter esse momento de respiração e alívio em nosso tempo livre (ele deveria ser, afinal, livre), criar algo em uma velocidade que seja de nosso gosto, num ritmo em que nossos pensamentos possam fluir à vontade, é uma terapia.

Adivinha quem está chegando?

4 de November de 2016   —   11:07:45

Um cara decidiu postar no twitter um gráfico sobre a busca por uma canção natalina de Mariah Carey. Alguém compartilhou no chat do trabalho e pensei como seria para algumas canções natalinas brasileiras. Lembrei da cansadíssima canção de Simone, Então é Natal, e fiz uma busca no Google Trends:

Então é Natal

Acima temos a projeção de buscas por “Simone então é natal” no Google desde 2004.Os picos do gráfico, obviamente, são os meses de fim de ano. O gráfico é relativo: 100% é o ano de 2013, quando as buscas tiveram o seu máximo. Felizmente, nos últimos dois anos, a busca pela música da Simone caiu pra 75% do que era em 2013.

Depois lembrei da música Um Feliz Natal, de Ivan Lins, e a acrescentei:

Agora o Ivan Lins

Nos últimos dois natais, a busca pela canção de Simone foi cerca de 10 vezes maior que a busca por Ivan Lins. Não sei como, pra mim eles sempre aparecem na mesma playlist nos cantos.

Lembrei, depois, da canção Papai Noel filho da puta, dos Garotos Podres, música conhecida por quem não aguenta as outras canções da época. Por ser um título único, acrescentei sem o nome da banda, o que talvez seja um pouco tendencioso em nossa pesquisa.

Pra minha surpresa, eles parecem competir bem com a busca pelo Ivan Lins:

Garotos Podres

O importante é: se precisar resolver algo em lojas de departamento, vá agora. A chance de ouvir Simone e Ivan Lins ainda é relativa baixa no começo de novembro. Corra.

O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de January de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.

Dieta

10 de November de 2013   —   01:25:47

A nutricionista me recomendou uma dieta pra ganho de peso (lembrando que ganhar peso não é ganhar gordura). Por ser diabético e ter um rim já um pouco mais carregado que o normal — apesar dos exames estarem normais —, no lugar de passar potes e potes de suplementos com gosto de areia de ampulheta, que forçariam o pobre órgão e que participariam do meu Instagram sabe-se lá por quê, ela preferiu jogar as proteínas em coisas com jeito de comida de verdade.

A partir daí eu nunca comi tanto presunto, queijo, iogurte e aveia na vida. Também passei a semana tomando suco, sem tomar um mísero refrigerante e evitando manteiga e margarina, indo pra academia todo dia, tudo muito bonito.

Chegou o sábado de manhã e tive minha terceira aula de fotografia, que consistiu de tirar fotos no Passeio Público e treinar umas técnicas. Depois de 3h debaixo de sol fazendo foto e andando dum lado pro outro, o glicosímetro soltou um “cara, é bom você comer logo”. Bem oportuno: pra quem não sabe, no almoço de sábado tem uma feijoada incrível no Café Passeio.

Almocei aquela feijoada fabulosa e bebi uma Coca-Cola Zero geladíssima pra rebater aquele calor lazarento fabricado em Dakar. Você pode até ter uma hashtag de marombeiro que leva seu sobrenome, mas não negue: é bom. Ainda fui pra casa e dormi a tarde toda de bucho cheio, acordando com uma disposição e humor que eu não devia sentir desde setembro.

Me regozijei feito um personagem bíblico. E, por falar em Bíblia, só Deus pode me julgar (tá, minha médica e minha nutricionista talvez possam). E não sei o seu deus, mas o da minha dieta sabe o valor das pequenas recompensas.