Obrigado pelo seu amor

17 de janeiro de 2018   —   21:09:24

Eu hoje estava saindo do metrô e uma mulher estava passando com o cachorro dela. Olhei pro cachorro, afinal eu olho pra todo cachorro, na tentativa de que seus donos deixem eu brincar um pouco com eles. Hoje funcionou. Cumprimentei o bichinho, fiz uma selfie e agradeci a mulher, que sorriu um sorriso que não se vê todo dia entre dois estranhos em Londres e se despediu com “bye, thanks for your love!” (“tchau, obrigado pelo seu amor!”).

Aquilo ficou ecoando na minha cabeça: “obrigado pelo seu amor!”.

Estou até agora tentando interpretar aquela frase. Penso na dificuldade que é ter um contato mais simpático com estranhos em Londres, essa cidade que tem como etiqueta sentar no metrô e olhar pra cima pra evitar cruzar olhares, tem sido até um pouco de choque voltar de Portugal pra cá. Penso se ela achou minha atitude estranha-mas-positiva. Penso se ela não estava sozinha como eu estou nessa cidade. Penso se ela não é apenas uma pessoa muito rara que aprecia fornecer feedback positivo desse jeito tão fora do esperado pelo roteiro cotidiano, e se for, que continue assim.

Mas isso tudo, qualquer interpretação minha, vai dizer mais sobre mim do que sobre ela. Eu nunca vou saber.


Recebi um e-mail na véspera do Natal que mudou meu fim de ano. Bom receber palavras de carinho e gratidão de quem me conhece bem, saber que passei por alguém de forma positiva e sem ressentimentos, e, de quebra, ser lembrado de quem sou quando eu mais precisava.


Voltei do Porto pra Londres me sentindo diferente. Carregado de coisas boas por ter passado um tempo perto de quem me quer bem. Feliz por estar na minha casa, feliz por lembrar que nesse ano tão escroto que foi 2017 eu ainda tive muitas vitórias, como meu espaço, que me é tão sagrado e representa tanto esforço.

Voltei mais simpático e caloroso com as pessoas. Mandei o foda-se pra etiqueta inglesa e pra alguns medos, abracei quem eu queria na volta pro escritório, e deu tudo certo. Ninguém morreu, ninguém olhou feio, recebi só simpatia de volta. Notei as pessoas mais abertas, mas será que foi isso mesmo ou só eu que estou mais aberto?

Ontem uma colega minha do trabalho que não me via desde o começo de dezembro disse que eu parecia mais novo. Hoje outra colega minha perguntou se meu cabelo estava diferente, disse que eu estava aparentando melhor. Não é sempre que recebo elogios sobre aparência, fiquei feliz em ouvir essas palavras do nada, de graça. Semana passada meu sono começou a ficar minimamente digno também do nada, o que pra mim é uma vitória, e agora isso.


Tempos difíceis e sentimentos difíceis de lidar, especialmente ao sair da cama e na hora de tentar dormir. Os últimos tempos foram de tristeza, raiva, ansiedade e medo. Minha terapeuta disse pra eu tentar substituir sentimentos ruins pelos bons, e quando um desses sentimentos citados tenta tomar conta, eu tento pensar ou fazer algo positivo de alguma forma. Falo algo bom pra alguém, procuro um amigo, até mando alguma surpresa pelo correio, e a sensação ruim fica mais suportável.

E eu olho pra tudo que venho recebendo e penso que talvez esteja funcionando, que as coisas que eu tento mandar finalmente estão voltando. É bom ter o sentimento de colher aquilo de bom que a gente plantou por tanto tempo achando que era em vão. Eu ando devendo alguns “obrigado pelo seu amor” e tento pagar como posso.  


Hoje de manhã um conhecido meu compartilhou essa versão dessa música, que bateu com o clima surpreendentemente positivo que essa semana está tendo.

Give a little bit
Give a little bit of your love to me
I’ll give a little bit
I’ll give a little bit of my love to you
See the man with the lonely eyes
Take his hand, you’ll be surprised

So give a little bit
I’ll give a little bit of my life for you
So give a little bit
Give a little bit of your time to me
Now’s the time that we need to share
So send a smile, we’re on our way back home

Partir

1 de janeiro de 2018   —   14:00:14

Nothing could be bring me closer.
nothing could be bring me near.
where is the road I follow
to leave, leave?

Eu havia acabado de chegar sozinho na cidade de Fira, na ilha de Santorini. Tinha reservado um quarto de hotel que se revelou espaçoso até demais e, ironicamente, deixaram perto da cama uma garrafa de vinho e taças pra dois. Deixei minhas coisas, tomei um banho e saí para dar uma volta na região dos restaurantes e lojas que ficavam no alto da borda da ilha, com vista para o mar. O sol estava se pondo e a vista era incrível.

Santorini

It’s under, under, under my feet.
the sea spread out there before me.
where do I go when the land touches sea?
there is my trust in what I believe

Santorini era uma vontade que vinha desde a adolescência. A primeira vez que ouvi da ilha foi numa música dos Paralamas do Sucesso quando eu tinha doze anos, Santorini Blues. Vi fotos das praias, das casas, e fiquei impressionado. Antes mesmo dos meus vinte anos, cismei que passaria a lua de mel em Santorini um dia, uma ideia que atravessou relacionamentos.

That’s what keeps me,
that’s what keeps me,
that’s what keeps me down,
to leave, believe it,
leave it all behind

Pula pra 2017 e ali estava eu, em Santorini, com trinta e dois anos. A última tentativa até ali tinha valido a pena e chegado longe, mas não alcançou o sonho da ilha grega. Num desses dias de remoer planos e tentar criar alguma perspectiva, decidi que era melhor não esperar uma ocasião especial que poderia nunca chegar: comprei as passagens, reservei uns quartos e fui.

I say that I’m a phantom airplane
that never left the ground

Santorini

Encostei no muro e olhei o mar, o sol se pondo, os barcos, as pessoas, os casais. Vi os restaurantes com mesas vazias na encosta da ilha e, por alguns instantes, pensei no meu eu que, em algum universo paralelo, foi acompanhado pra Santorini e jantava feliz numa daquelas mesas com alguém. Só mais um dos sonhos que eu não queria — mas precisava — deixar pra trás.

That’s what keeps me,
that’s what keeps me,
that’s what keeps me down,
to leave it, believe it.
leave it all behind

Sonhar acordado com aquele tipo de visão era apenas torturar-se e, já que estou preso a este universo, tentei aproveitar o momento e jantei sozinho numa das mesas. Estava seguindo aquele velho caminho batido de reaprender a ser só, mas na companhia da minha câmera, que não descansou. Um amigo havia me dito naqueles dias que “existe algo bonito perdido na dor”. Eu tentava desenhar com luz aquela dor que palpitava incessantemente para expulsá-la de alguma forma.

Shifting the dream
nothing could bring me further from my old friend time.
shifting the dream
it’s charging the scene
I know where I marked the signs.

Nos fones de ouvido, uma música em que eu nunca havia prestado atenção até poucos dias antes se repete com frequência desde aquelas caminhadas pelas vilas da ilha: Leave, do R.E.M., cuja letra fala sobre seguir um roteiro para partir e deixar memórias pra trás, enquanto uma sirene toca e sinaliza emergência, a urgência desse partir. Parecia apropriado.

Santorini

I lost myself, I lost the
heartache calling me.
I lost myself in sorrow
I lost myself in pain.
I lost myself in clarity,
memory, leave, leave.

É tolo querer que o hoje seja igual ao ontem. No fim, as histórias se dividem entre árvores que tombaram ou sementes que, apesar do esforço, não vingaram como era esperado. Não importa o quão boas as memórias são, nada delas existe mais, não acontecerão novamente, não há como estender a mão e tocar. Memórias serão arquivadas, com sorte e com muito tempo, em algum lugar onde doerão menos; canções que um dia foram motivo de acordar com um sorriso ganharão uma releitura agridoce; planos serão novamente cancelados. Esse é o roteiro a ser seguido, antigo conhecido meu de tantas partidas. É doloroso, mas há vezes em que o melhor a se fazer é desistir de sonhos, até por ser a única escolha.

Lift my hands, my eyes are still,
I’ll walk into the sea
shoot myself in a different place
and leave it

Aquela viagem virou memória, como tudo que veio depois, como várias outras viagens. Os meses passaram, mas toda manhã é hora de partir de novo. A sirene nos fones, a dor no peito. Há filmes passando nos meus olhos cada vez que eu pisco. Toda noite eu lembro, atordoado, de coisas que aconteceram, lembro do que senti em tantos momentos, e lembro de dias que jamais voltarão. Acordo antes da hora e me pergunto onde está o caminho que eu devo seguir para que as recordações fiquem distantes, pequenas, passíveis de convivência, e a vida siga com tranquilidade.

Man looking at the sea

É hoje o dia

11 de outubro de 2017   —   07:31:01

Era o fim de agosto de 2008. Eu estava caminhando em direção ao meu carro após um encontro amargo, mas necessário. Estava meio perdido, mas ao mesmo tempo com uma sensação de fechamento. Um estabelecimento no caminho sediava o ensaio de uma escola de samba local.

Eu tinha acabado de sair de uma daquelas conversas em que depois só há uma direção a ser tomada, que convencionamos chamar de seguir em frente para que tenhamos algum conforto psicológico. A falta de escolha às vezes pode ser uma bênção e, uma vez azedamente laureado por ela, eu sabia que a partir dali não haveria mais retorno para o que existia antes. O que estava morto continuaria morto, mas o corpo do que um dia tivemos havia sido exumado e a causa mortis finalmente exposta. Talvez estivéssemos tentando um enterro digno ali, mas não, não funcionou muito bem. Pelo menos pra mim.

A conversa havia terminado, eu precisava sair dali e, enquanto eu seguia pro carro, ouvi um samba tocando alto e alegre:

“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar”

Três meses antes eu teria apressado o passo pra sair de perto, mas tudo estava mudando. Um amigo havia me hospedado em sua casa enquanto eu tentava voltar pros trilhos, me apresentou a uns sambas e me curou do preconceito com o gênero.

“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar”,

o refrão do samba-enredo de 1982 da União da Ilha do Governador insistia.

Eu estava ferido e cansado com as informações que havia recebido minutos antes. Por um momento degustei a ironia daquela música tocando justo naquele instante, pensei como o destino às vezes me sacaneia na trilha sonora, mas abracei o momento: talvez não houvesse sacanagem nenhuma, talvez ali fosse realmente o dia da alegria e a tristeza já havia tido sua cota.

Toda vez que tropeço nessa canção eu lembro daquele momento com um sorriso: ela se tornou um lugar seguro no meio dum sábado ruim, uma voz que dizia que as coisas ficariam bem de novo de algum jeito, um dia por vez. E talvez eu a escute hoje buscando sentir de novo o otimismo que senti naquele dia.

A Mudança

2 de janeiro de 2017   —   20:53:44

Há alguns dias saiu o resultado da aplicação para meu visto na Inglaterra e, nesse momento, estou a menos de uma semana do meu embarque. Estou com o corpo cansado, a cabeça perdida e o coração moído, mas feliz por estar realizando um sonho.

Eu tento entender o tempo inteiro o que está me trouxe a esse estado: consegui um bom trabalho e estou realizando um sonho que tenho há mais de dez anos. A verdade é que nada é 100% bom ou 100% ruim, certo? E esse processo de transição dum país para o outro pode ser absurdamente estressante.

Tem muita coisa que eu queria poder voltar um ano na vida e dizer pra mim mesmo. Esse texto é o resultado de pequenos intervalos de escrita que ocorreram ao longo dos últimos dias, porque tempo é tudo que eu não tenho. Às vezes eu parava meia hora e começava a escrever isso aqui pra eu mesmo entender o que estava pensando e sentindo.

Um pouco de história: 2003 a 2016

Ir pra Londres é uma vontade antiga, do tempo que eu fazia curso de inglês e ouvia a professora falar de lá. Era difícil pra mim levar o sonho a sério: era estudante e a cotação real-libra nunca foi amigável pra nós. Era algo que eu tinha vontade, mas achava difícil, beirando o impossível.

Fiz uma comunidade no orkut há dez anos que deveria ser pra levar o tema na piada, mas acabou juntando pessoas que estavam indo de verdade. Só em 2013 consegui viajar pra lá a turismo. Saí de lá com vontade de voltar permanentemente.

Foto minha de 2013. Eu a chamo de "três clichês numa foto só"

Foto minha de 2013. Eu a chamo de “três clichês numa foto só”

Minha namorada se mudou para os EUA e, enquanto ela se preparava, eu tentei aplicar para empregos por lá ou pelo Canadá para ficar mais próximo dela. O processo de visto dos EUA é estúpido e quase ninguém contrata gente de fora; também não consegui nada no Canadá, apesar de todo o hype sensacionalista em cima do Canadá precisar de mão-de-obra estrangeira. Ironicamente, no meio da minha busca consegui um trabalho remoto para uma empresa em Londres.

(esse é o resumo do resumo. A história toda inclui entrevistas, estudos, terceiro turno, fins de semana, testes de programação, certificações de idioma, e-mails de recusa, gente ajudando, gente atrapalhando e MUITAS noites mal dormidas)

Um ano e meio trabalhando de casa e, no fim do sombrio 2016, após alguns meses de processo, finalmente consegui com o pessoal da empresa um visto de trabalho.

A relação com as coisas

A primeira mudança foi minha relação com as coisas que possuo. Sempre fui um acumulador. Guardo coisas desde minha infância. Revistas em quadrinhos, livros, brinquedos, muita tralha. Nos últimos anos venho tentando trabalhar isso e me desapegando aos poucos, vendendo e doando objetos, infelizmente em velocidade insuficiente para estar confortável para a mudança que se aproxima.

Pretendo levar apenas duas malas e uma mochila, deixando o mínimo psicologicamente e fisicamente possível na casa da minha mãe, onde ainda moro. Apesar de existir espaço aqui, não quero dar trabalho para as próximas mudanças da minha mãe ou ficar pensando se tudo meu está inteiro e no lugar. Os objetos não ocupam só espaço físico, eles ocupam também uma lacuna na cabeça da gente.

Isso tem me dado um trabalho chatíssimo de muitas horas por dias. Para vender minhas revistas em quadrinhos, por exemplo, preciso organizá-las e catalogá-las. O plano de sair do país é antigo e comecei a organizar minhas revistas para vendê-las faz tempo, mas o fiz tão lentamente que o arquivo em que estava catalogando não era atualizado desde 2014!

Eu queria estar com pessoas, mas estou ocupado vendendo, doando e guardando objetos. Enquanto arrumo minhas coisas, o celular toca e os amigos me chamam pra sair. Atendo os chamados e depois vou dormir pensando nas coisas pendentes para arrumar, ou recuso chamados porque tenho que arrumar coisas. Já quase cochilei no cinema e às vezes saio e não aproveito tanto porque estou pensando na pilha de coisas esperando arrumação. Meu aprendizado mais sagrado merece um parágrafo isolado:

As coisas que você possui um dia se voltarão contra você. 

Você vai se mudar e vai perder um pequeno item de muito valor sentimental porque vai perder tempo e atenção com alguma tranqueira gigante. Você vai querer passar seu tempo com as pessoas que você gosta, mas estará ocupado arrumando coisas. Nesse cenário, você vai começar a odiar coisas que achava que não conseguiria se desprender, porque o papel delas, em vez de te dar boas lembranças, é privar você de viver o presente e o futuro.

Livre-se das suas coisas inúteis enquanto pode. Pense bem antes de fazer compras, durma pensando se o que você vai adquirir é realmente necessário. Seus objetos pessoais podem se tornar uma âncora física e mental, eles estão só esperando a hora pra dar o bote.

Compre uma máquina de picotar papel. É como um video game, só que não precisa ligar na TV.

Venda suas coisas. Doe o que puder. Dê suas coisas pros seus amigos, elas poderão ganhar novos significados na prateleira deles e se tornar boas lembranças. Pessoas necessitadas ou instituições que cuidam delas farão bom uso de livros, roupas e instrumentos musicais. Liberte-se das tralhas enquanto é opção e não necessidade.

A relação com as pessoas

Eu tenho amigos que passo meses ou anos sem ver, pois eu sei que eles estão aqui a alguns quilômetros de distância. Quando uma mudança para outro lado do oceano tornou-se iminente, bateu uma vontade de ver todo mundo, sair pegando o telefone e mandando mensagem pra uma lista enorme de gente marcando cafés suficientes para deixar uma pequena cidade de meio milhão de habitantes sem dormir, ou cervejas suficientes para fazer a mesma cidade dormir por horas.

No sentido oposto, aqueles amigos que nunca marcam nada e/ou que deixaram de sair de casa após os trinta anos começam a aceitar seus convites e propor outros, porque você também será dificilmente visto daqui a uns meses.

Em qualquer relação, o conforto (saber que estamos próximos) leva à preguiça (“vamos marcar alguma coisa algum dia!” e nunca acontece). Isso mudou imediatamente com a proximidade da data de ir embora. Passei a ir pra bares e festas de que não gostava só pra não perder a chance de ver algumas pessoas. Fiquei estranhamente sentimental e em algumas horas virei aquele bêbado chato que abraça todo mundo. Mesmo não gostando muito de aparecer em fotos, bateu a vontade de fazer foto de todo mundo e com todo mundo.

Essa mudança grande e próxima me fez botar uma pedra em cima do botão do carpe diem. Gostaria de ter vivido dessa forma por alguns anos, mas faltava algo pra impulsionar, em mim e nos outros, essa motivação e essa adrenalina.

Pela primeira vez, pedi pra fazer uma foto com minha psicóloga que me acompanhava há 11 anos. Pedi pra fazer uma foto com minha médica que me acompanhava há 19 anos. Pessoas com quem minha relação teoricamente era de cuidador-paciente, mas que a proximidade de sair daqui me fez perceber a importância que tiveram e que eu gostaria de ter uma lembrança delas. Por que eu nunca quebrei o protocolo e mantive formalidade besta com pessoas que cuidaram de mim por anos?

E, olha, cada abraço acompanhado de “não sei quando te vejo de novo, mas boa sorte” é muito, muito difícil.

O medo

Não sou apegado à minha cidade e por motivos diversos não me sinto como se pertencesse a ela. É bem pessoal, sempre tem quem tente me mostrar um motivo pra gostar daqui, mas não cola. Quase sempre que viajo, volto reclamando. Sair do país é algo também que quero há anos, por motivos pessoais, profissionais, sociais e políticos que não são o foco desse texto.

Mesmo assim, depois de uma boa saída com os amigos que me restaram aqui — muitos já foram embora —, volto pra casa assustado com a mudança que vem por aí. Já me peguei pensando várias vezes nos últimos dias “que porra eu tô fazendo com minha vida?!”: mesmo não gostando da cidade em que moro, eu nasci e cresci aqui, é minha referência geográfica e cultural. É difícil admitir, mas é minha zona de conforto. Conforto não quer dizer que é algo bom, mas que é algo a que você é acostumado. É como aquela pessoa que não se divorcia porque, mesmo tendo um casamento ruim, já está habituada aos problemas. Já sei as qualidades e defeitos daqui e, como todo ser humano, tenho medo de mudança.

Alguns amigos tiveram a sorte de viver em outros países na infância. Isso me dá a impressão de que são pessoas muito mais desprendidas, isentas de raízes. Talvez elas realmente sejam, talvez seja só o hábito de achar que os outros são mais corajosos que a gente. Essa será minha primeira experiência fora da cidade em 31 anos de vida e, puta merda, em alguns dias (e especialmente noites), isso assusta pra cacete.

Tento pensar, como falei lá em cima, que o conforto leva à preguiça e que o melhor a fazer é correr em direção a isso que me assusta agora. O que será das nossas histórias se a gente não fizer algo grande que nos assusta uma vez na vida?

O último filme que assisti em 2013 foi A Vida Secreta de Walter Mitty. Pra quem gosta de viagens, fotografia e boa música, é um ótimo filme. Minha opinião, claro.

Walter Mitty é um cara que quer impressionar uma garota, mas tem um conflito: ele não tem nada interessante pra contar. Ele trabalha numa sala escondida da redação da revista Life, coleciona coisas que queria fazer, mas não fez, como muitos de nós, e sonha acordado com realidades mais interessantes. E o resto da história, bem, é o filme.

Um dia fui surpreendido por um tio meu com histórias de quando ele era mais novo e passou anos conhecendo vários países. Eu teria que correr muito pra me aproximar das histórias que ele me contou, mas quando o meu quarto, minha cama, meu sofá e minha cidade parecem tentadores, lembro da minha reação ouvindo as histórias e como eu precisava levantar âncora e partir.

Junto todas essas histórias e penso que esse é o espírito: a zona de conforto é quentinha e sair dela é assustador, mas ficar nela jamais renderá boas histórias para sobrinhos, netos ou nosso eu do futuro.

Quando um amigo meu foi embora pra Califórnia há uns dois anos com sua esposa, ela sabia dos meus planos similares e perguntou se, quando chegasse meu dia, se eu “ficaria com medo de sair de perto da mamãe”. Falei, seguro, que não ficaria. Como diria o finado George Michael, tudo que temos que fazer agora é pegar essas mentiras e transformá-las em verdade de algum jeito.

A realização (e os agradecimentos)

Aos 29 anos e 11 meses, eu estava numa crise dos 30 absurda. Eu sentia que meu estilo de vida não era o que eu queria: muito trabalho, muito tempo no trânsito, muito stress, pouca diversão. Eu enviava currículos pro exterior e nada acontecia. Minha namorada, médica, estaria indo embora em alguns meses pra residência dela no exterior. Eu sentia que chegava aos 30 anos, levava uma rotina que me matava e que não era nada do que eu havia pensado pra mim aos 18.

Arrumei o trabalho remoto pra empresa onde estou atualmente, passei a trabalhar de casa e viajar mais, afinal eu podia trabalhar de qualquer canto. Passei uma temporada na casa do meu irmão e minha cunhada, que moram em Portugal. Passei uma temporada na casa da minha namorada quando ela se mudou. Essa fase entre o meio 2015 e o fim de 2016 foi a primeira vez que bateu aquela realização profissional de estar colhendo o fruto de tanto esforço.

Agora eu estou indo morar onde eu sonhei por anos. Se vai ser bom como no sonho, eu ainda vou descobrir. Mas é absurdamente feliz realizar algo desse porte, saber que algo tão antigo está se tornando real.

Trabalhei muito pra isso, mas eu mentiria se dissesse que o mérito é só meu. Agradeço aos meus pais, tios e avós pelo luxo de ter tido educação e saúde no Brasil. A Carol, minha namorada, me apoiou muito quando eu estava triste e cansado da busca, e dizia “tenta de novo, o ‘não’ você já tem”. Muitos amigos me ajudaram na vida profissional que me trouxe até aqui, e um amigo me indicou pra empresa. Minha psicóloga me aguentou e aconselhou por onze anos. Tudo isso é que me deu uma base pra realizar esse próximo passo.

E agora?

Resposta curta: não sei!

Hoje é segunda e vou embora na próxima madrugada de sábado pra domingo. Estou ainda tentando vender coisas. Espero vender meu carro amanhã. Quero encontrar e abraçar amigos e familiares e minha agenda está cheia. Vai ter gente que não vai dar tempo de ver e ainda tem um monte de coisa entulhando aqui. É desesperador, repito.

Não tenho medo do que me espera lá. Imagino que vá ser incrível desbravar uma cidade nova, viver em outro clima (apesar de saber que o frio às vezes pode ser chato também), fazer novos amigos. Sei que procurar apartamento vai dar trabalho. Apesar de alguns pesares (porque nem tudo é 100% bom!), estou indo pra uma cidade incrível que visitei duas vezes e que me encantou. Me sinto otimista e acho que valerá a pena, mas esse estresse da última semana, até pisar no avião e pensar “está feito”, porra, é complicado.

Às vezes eu lembro do Superman, ainda bebê, saindo de Krypton num foguete enquanto seu planeta explodia, porque às vezes eu ajo como se tudo aqui fosse desaparecer quando eu saísse. Eu converso com os amigos que já saíram daqui e tento me convencer, calma e racionalmente, que Krypton não vai explodir dessa vez, que teremos a tecnologia para diminuir a distância e aviões pra resolvê-la temporariamente.

Krypton

Krypton explodindo, por John Byrne

Muita coisa ainda virá nessa semana. Meu quarto ainda está cheio de tralhas, alguns anúncios meus esperam respostas, tenho abraços pra distribuir e pouquíssimo tempo. Em alguns dias eu vou entrar num avião, realizar um sonho antigo, descobrir um país novo, um povo novo, um clima novo, levar uma vida com novos prazeres e — é sempre bom gerenciar a expectativa — novos problemas.

Eu vou revisitar esse texto muitas vezes, eu sei. Fico pensando se eu vou rir de como estava desesperado, se eu vou chorar de saudades dessa época. Só o tempo vai me dizer. Esse é um texto que acaba, mas não acaba.

Memória afetiva, condicionamento e a saudade de ficar puto

6 de novembro de 2016   —   14:51:43

Numa manhã entre o fim de 1998 e o começo de 1999, nas minhas férias entre a sétima e a oitava série, fui arrastado para a praia por minha família. Para tornar aquela ida menos dolorosa — meu bronzeado inexistente e a cartela de vitamina D na minha mesa denunciam o tamanho do meu apreço por mar, areia e sol —, minha família passou numa banca de revistas. Durante muitos anos, idas patrocinadas a bancas de revistas compravam o silenciamento da minha participação em eventos que não pareciam nada comigo.

Naquele dia comprei uma revista Showbizz sobre a volta do rock brasileiro dos anos 80. Repare que estamos falando de 1998, os anos 80 estavam mais próximos daquele dia do que estamos de 1998 agora. Hoje as pessoas de 1998 já podem dirigir, beber (espero que não ao mesmo tempo) e ir para festas ouvir bandas dos anos 90 onde vão se perguntar “que banda é essa?!” para coisas que ouvimos serem lançadas no rádio.

Capa da revista Showbizz - De volta aos anos 80

Na reportagem de capa da revista tinha um trecho em que Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, falou: “Hoje você ouve músicas que odiava na época e lembra com saudade de quanto ficava puto com elas”. Na época em que o Bruno disse isso, ele tinha minha idade de hoje, 31 anos, e eu tinha 13. A afirmação ficou na minha cabeça e sempre a releio quando tropeço na revista em arrumações domésticas.

Outra coisa também marcou aquela época entre 1997 e 1999: eu jogava bastante Super Mario Kart no Super Nintendo com meu irmão Alvaro; enquanto isso, um vizinho que morava na frente do prédio em que morávamos ouvia bandas de forró o dia inteiro nos fins de semana. Éramos obrigados pelo vizinho — que se recusava a usar fones — a ouvir Brucelose, Magníficos e Limão com Mel repetidamente durante nossas partidas. Puta merda, eu detestava aquelas músicas.

Caixa do Super Mario Kart

Corta pra 2016.

Às vezes estou em algum canto e começa a tocar alguma música dessas bandas de forró. Sinto uma pontada de abuso, como eu sentia em 1998, mas imediatamente o condicionamento humano entra em ação, ativa a memória afetiva e bate saudade daquela época. Sou tomado por uma vontade grande de jogar Mario Kart com meu irmão e lembro de um bocado de coisas daquelas férias: outros jogos, meu primeiro aparelho de barbear (de quando eu tinha apenas um bigodinho indecente) e por aí vai.

Um dia tropecei numa playlist de forró no Spotify feita pela Camila e até escutei algumas daquelas músicas rindo um pouco, enquanto elas reativavam partes adormecidas do cérebro. Eu não gostaria de voltar no tempo, sempre prefiro o hoje ao passado, mas algumas lembranças são sempre boas.

Aos 13 anos, achei estranha a frase do Bruno Gouveia. Hoje eu gostaria de dar um tapinha nas costas dele e falar sobre como precisamos de uns anos pra entender algumas coisas. Que sentimento difícil e curioso de entender e definir essa “saudade de ficar puto com algumas coisas”.