It’s a long, long, long, long, long, long, long, long way

6 de May de 2019   —   11:07:34

Eu lembro de, há uns três anos, conversar com uma amiga que havia se mudado para os Estados Unidos. A gente se conheceu num passado que então já fazia onze ou doze anos, quando saíamos todo fim de semana juntos com nossa turma de amigos e voltávamos pra casa de manhã. A gente frequentava o circuito rock/indie/alternativo de Fortaleza. Ela foi morar no sudeste e perdemos contato até nos reencontrarmos num acaso absurdo nos EUA (pra resumir, segurei a porta pra uma mulher que ia saindo dum prédio enquanto eu entrava e era ela).

Ela me disse numa de nossas conversas como ela, que sempre ouvia e frequentava festas indie no Brasil, agora colocava pra ouvir bossa nova, Tropicália e afins nos fones de ouvido, e como aquilo a conectava com as coisas de que sentia falta, como aquilo a lembrava do Rio.

No ano seguinte vim parar em Londres. Surpreendentemente, o que eu escuto tocar nos cantos aqui está longe do britpop que eu achei que ouviria. Mais surpreendentemente ainda, já cheguei a entrar em bares e ouvir um DJ inglês tocar Erasmo Carlos; descobri o Taiguara numa loja de sobremesas; um ex-colega de trabalho, dez anos mais novo que eu, conhecia coisas do Marcos Valle e do começo da carreira da Sandra de Sá que eu nunca havia ouvido.

Não fosse suficiente esse distanciamento do que eu achei que ouviria, minha relação com a música brasileira mudou. Agora que estou imerso nessa realidade que não dialoga com minha história, agora que converso com pessoas de uma cultura tão diferente da minha, algo que torna difícil criar um vínculo com elas, a música acabou se tornando uma zona de conforto.

Mesmo sendo um brasileiro urbano de classe média, ironicamente minha realidade é mais próxima dos forrozeiros do interior do Ceará que dos roqueiros de Manchester. A música brasileira fala mais da minha realidade do que qualquer coisa gravada aqui, nem que seja o clichê do disco do Caetano Veloso gravado durante seu exílio em Londres, afinal não passo de outro nordestino perdido na mesma cidade. No meio da solidão de Londres, a música é uma companhia, uma conexão. Eu não me sentia em casa no Brasil e tinha esse desejo de sair, e agora que estou aqui eu tenho esses fones nos ouvidos procurando algo familiar.

Memória afetiva, condicionamento e a saudade de ficar puto

6 de November de 2016   —   14:51:43

Numa manhã entre o fim de 1998 e o começo de 1999, nas minhas férias entre a sétima e a oitava série, fui arrastado para a praia por minha família. Para tornar aquela ida menos dolorosa — meu bronzeado inexistente e a cartela de vitamina D na minha mesa denunciam o tamanho do meu apreço por mar, areia e sol —, minha família passou numa banca de revistas. Durante muitos anos, idas patrocinadas a bancas de revistas compravam o silenciamento da minha participação em eventos que não pareciam nada comigo.

Naquele dia comprei uma revista Showbizz sobre a volta do rock brasileiro dos anos 80. Repare que estamos falando de 1998, os anos 80 estavam mais próximos daquele dia do que estamos de 1998 agora. Hoje as pessoas de 1998 já podem dirigir, beber (espero que não ao mesmo tempo) e ir para festas ouvir bandas dos anos 90 onde vão se perguntar “que banda é essa?!” para coisas que ouvimos serem lançadas no rádio.

Capa da revista Showbizz - De volta aos anos 80

Na reportagem de capa da revista tinha um trecho em que Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, falou: “Hoje você ouve músicas que odiava na época e lembra com saudade de quanto ficava puto com elas”. Na época em que o Bruno disse isso, ele tinha minha idade de hoje, 31 anos, e eu tinha 13. A afirmação ficou na minha cabeça e sempre a releio quando tropeço na revista em arrumações domésticas.

Outra coisa também marcou aquela época entre 1997 e 1999: eu jogava bastante Super Mario Kart no Super Nintendo com meu irmão Alvaro; enquanto isso, um vizinho que morava na frente do prédio em que morávamos ouvia bandas de forró o dia inteiro nos fins de semana. Éramos obrigados pelo vizinho — que se recusava a usar fones — a ouvir Brucelose, Magníficos e Limão com Mel repetidamente durante nossas partidas. Puta merda, eu detestava aquelas músicas.

Caixa do Super Mario Kart

Corta pra 2016.

Às vezes estou em algum canto e começa a tocar alguma música dessas bandas de forró. Sinto uma pontada de abuso, como eu sentia em 1998, mas imediatamente o condicionamento humano entra em ação, ativa a memória afetiva e bate saudade daquela época. Sou tomado por uma vontade grande de jogar Mario Kart com meu irmão e lembro de um bocado de coisas daquelas férias: outros jogos, meu primeiro aparelho de barbear (de quando eu tinha apenas um bigodinho indecente) e por aí vai.

Um dia tropecei numa playlist de forró no Spotify feita pela Camila e até escutei algumas daquelas músicas rindo um pouco, enquanto elas reativavam partes adormecidas do cérebro. Eu não gostaria de voltar no tempo, sempre prefiro o hoje ao passado, mas algumas lembranças são sempre boas.

Aos 13 anos, achei estranha a frase do Bruno Gouveia. Hoje eu gostaria de dar um tapinha nas costas dele e falar sobre como precisamos de uns anos pra entender algumas coisas. Que sentimento difícil e curioso de entender e definir essa “saudade de ficar puto com algumas coisas”.