1 de September de 2006   —   01:28:04

Sobre princípios e valores

Engenheiros do Hawaii – Dom quixote
(gessinger/galvão)

muito prazer, meu nome é otário
vindo de outros tempos mas sempre no horário
peixe fora d’água, borboletas no aquário

muito prazer, meu nome é otário
na ponta dos cascos e fora do páreo
puro-sangue puxando carroça

um prazer cada vez mais raro
aerodinâmica num tanque de guerra
vaidades que a terra um dia há de comer

ás de espadas fora do baralho
grandes negócios, pequeno empresário
muito prazer me chamam de otário

por amor às causas perdidas

tudo bem…até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
tudo bem…seja o que for
seja por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas

tudo bem…até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
muito prazer…ao seu dispor
se for por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas

Eu devia ter dezesseis anos quando me bateu aquela sensação estranha: a de estar sozinho no mundo. A sensação de ser único em seu pior significado, quando a individualidade de cada um me fez doer mais que de costume. A sensação de pensar algo e pensar aquilo sozinho.

Há quem diga que as diferenças são bonitas, eu concordo. É bacana você comer verdura e eu gostar de carne. É legal você gostar de verde e eu de azul, aliás já me disseram “o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?”, e isso realmente seria chato. As diferenças são bonitas. Até eu gostar de rock e ter quem goste de samba é bom, pandeiro com guitarra acaba ficando legal.

Tem uma diferença que me dói, que me chateia, que me maltrata. Essa é difícil de ignorar, já me deixou tenso e já me tirou sono. Entenda, se eu pudesse me definir e dizer minha característica mais forte, eu diria que é mais que acreditar nas coisas que penso, eu as transformo em causas, as defendo e luto por elas. Minha característica mais forte é a que às vezes me faz sentir numericamente fraco: lutar por coisas pras quais ninguém liga, nas quais ninguém pensa, ninguém ensina, ninguém aprende. Eu acredito em princípios, em valores, em coisas que seriam muito bonitas fossem num filme, mas que, se depender da maioria das pessoas, sempre será ficção.

É a minha moral morta contra a moral torta do cotidiano, das pessoas, de todo mundo. Alguns insistem em dizer que ninguém definiu o que é certo ou errado, mas eu nunca conheci uma pessoa que dissesse isso que não levasse uma vida desregrada e usasse essa proposição como desculpa. Pra beijar por beijar, fazer sexo por sexo, galinhagem, raparigagem, adultério, traições e outras coisas. Coisas que todo mundo hoje faz por osmose, sem pensar nas causas ou conseqüências, mas que viu todo mundo fazendo, então não tem problema nenhum.

Eu não consigo vibrar quando o cara do meu curso de sábado conta que traiu a noiva ou quando um professor conta que traiu a esposa. Não invejo o chefe que conta suas aventuras sexuais com adolescentes gostosas. Quando uma amiga agarra alguém que amanhã vai ser substituído, eu não consigo achar aquilo o máximo. Quando alguém tira lucro da desonestidade ou se aproveita da ingenuidade alheia, eu não consigo dar os parabéns. E todas essas atitudes alheias que citei acabam caindo no conceito de normalidade. E o normal é visto como bom. Então tá.

E é diariamente que tenho de me trabalhar para conviver com tudo isso, às vezes ficar calado pra não pegar fama de velho mala aos 21 anos, de cafona, porque se eu não cair na putaria eu eu sou brega e quadrado, se eu me recuso a agarrar alguém me olham torto achando que sou viado, se eu não gostar da menina ali beijando todo mundo e/ou dando pra um estranho e/ou pra um amigo eu nasci na época errada, e se eu criticar alguém que traiu o namorado ou namorada eu tô falando demais. Afinal o importante é ser feliz, mesmo que se confunda felicidade com prazer.

Dia após dia, eu tento desenvolver uma auto-suficiência e auto-estima para que eu não precise de ninguém concordando comigo para me sentir melhor, afinal eu não posso depender disso pra sempre, e se eu for depender do apoio alheio talvez eu morra de câncer. Quando eu desenvolver essa auto-suficiência toda e tomar um gole de conformismo, estarei pronto pro exercício da tolerância.

  1. natalia says:

    essa eu vi e adorei:"a felicidade aparece quando você anda para o outro lado."por isso que tu sempre chega com abraços calorosos que faz levantar a gente do chão [literalmente].beijos.

  2. Joana says:

    As pessoas podem resguardar seus segredos; mas essa é uma época onde as pessoas adoram contá-los .

  3. Krash says:

    Como você é bonzinho….Ok, foi um comentário escroto. Mas eu sou uma pessoa sem moral e cínica. E além do mais eu nunca comento aqui.

  4. Silveira says:

    Adoro esse música. A melhor deste album.

  5. Anastácia says:

    Então somos dois caretas aos vinte e poucos anos, que nasceram na época errada e lutam sozinhos por ideais. Bem-vindo ao clube ___:****

  6. Nadine says:

    O estranho é isso.Encontrei seu texto. Aqui encontrei um comentário de quem diz sentir o mesmo que eu.Estamos remando contra a correnteza… mas ñ nos encontramos, será que estamos em rios diferentes?Por amor às causas perdidas… mas acho que cada um luta por uma (própria) causa perdida… e por isso, continuaremos sempre sendo 'puro sangue puxando carroça'.Sei que ñ acrescentei nada. Meu comentário ñ te fará falta, mas senti vontade de fazê-lo.Também estou em busca da auto-suficiencia… mas tá dificil de alcançar e vez ou outra acabo me metendo onde ñ deveria.Parabéns pelo texto.E quem sabe algum dia ñ encontraremos nosso Sancho Pança?!?!

  7. Alfredo says:

    Hum… Acho que somos três, na verdade… Na época que nos conhecemos, eu já concordava com você e até agora continuo. Acho que você disse tudo, não há espaço pra comentários meus…Abraços

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