Nas entrelinhas de Londres

4 de October de 2019   —   19:53:17
Captain Kidd, pub na beira do rio Tâmisa

Eu estava num passeio dum grupo de fotografia que começou onze da manhã e passou por um pub. Eu tenho o hábito de precisar mastigar algo quando vou beber, o que é bem caro nos pubs de Londres, então decidi pedir algo mais em conta pro cara do balcão.

— Quero um pint dessa cerveja e… Você tem amendoins?

— Sim, temos os melhores amendoins desse lado do rio. Também temos amendoins apimentados.

Quem me conhece sabe que tenho problemas seríssimos com pimenta.

— Vou querer os amendoins normais. Se eu comer algo apimentado, você vai me ver chorando. Acho que tá meio cedo pra chorar num pub, não?

— Bem, já teve um cara chorando aqui hoje de manhã. É Londres, sempre tem alguém chorando, né?


Às vezes tem uma tristeza no ar, nas pequenas coisas, que deixa meio assustador estar aqui. No Brasil os problemas são enormes, estão sempre à vista. Aqui tem qualquer coisa de triste em pequenas coisas, rotineiramente, dum jeito que às vezes tem algo incomodando e a gente não sabe bem dizer o que é.

Lisboa

9 de June de 2014   —   19:00:06

Tenho um novo caso de amor com uma cidade e o nome dela é Lisboa.

Vim pra cá passar alguns dias de férias visitando meu irmão Alvaro e minha cunhada Lívia. Alguns dias após chegar aqui falei com meu tio, que já morou em Portugal durante muitos anos, e fazer a pergunta foi inevitável: “por que você foi embora daqui?!”

Eu podia passar horas e horas falando do que vi — e comi — na última semana.

Fora o fato de eu estar de férias e não estar na ansiedade de correr pra bater ponto ou perdendo no trânsito horas que jamais voltarão, a vida aqui parece seguir outro ritmo. O melhor resumo que posso fazer é esse: Lisboa aparenta ter um ritmo próprio e diferente de qualquer coisa que já visitei.

As pessoas paradas nos cafés das esquinas jogando conversa fora, o guarda sorridente da loja do shopping conversando com uma criança, o garçom brincalhão dos Pastéis de Belém, o caixa simpático e apressado do supermercado, os bondinhos elétricos subindo e descendo ladeiras… Tudo parece seguir a cadência leve de quem aproveita a vida como degusta um vinho português. Perdoem-me o clichê mequetrefe dessa comparação.

Nas primeiras vezes que ouvi a variante lusitana do nosso idioma ele me pareceu soar rude, até achei que o atendente da loja de telefonia celular estava sendo grosseiro, impressão que logo passou. Só posso dizer que os portugueses são simpáticos, educados e bem humorados. Fui bem recebido por onde passei e citar os exemplos deixaria esse texto mais extenso do que já é.

Passear por Lisboa é incrível: os prédios antigos e conservados, os azulejos portugueses, o transporte público bacana, as ladeiras de pedra portuguesa — como é bom sentir as pernas naturalmente, sem precisar ir pra academia! — e a educação do motorista português, que tem o maior respeito ao pedestre. Ah, pra não dizerem que minha análise não é honesta e que não falei de defeitos, é um problema desviar do cocô de cachorro nas calçadas.

A cozinha portuguesa é incrível e é minha nova culinária favorita. Em qualquer canto você encontra comida e vinho ótimos e baratos, seja um restaurante aleatório, seja uma barraquinha numa feira. Nunca gostei de bacalhau e estou adorando o daqui. Contrariando o mais conhecido mandamento turístico, em Portugal até quem converte se diverte — e olha que a conversão entre euro e real anda bem inglória pra nós brasileiros. Mesmo pensando em reais, você come muito bem em Portugal por um preço menor que praças de alimentação de shopping e muito self service em Fortaleza. Não vamos nem comparar com São Paulo.

Fora tudo isso, é sempre bom rever uma parte da sua família, matar a saudade e vê-los crescendo e se virando em outra realidade.

Lisboa ganhou um lugar no meu coração ali do lado de Londres, mesmo sendo cidades tão diferentes uma da outra. Por favor, faça um esforço e não passe por essa vida sem conhecer Lisboa.