Reflexões à beira-mar, volume III

25 de julho de 2005   —   10:31:37
“Abra os braços, abrace o que sobrar”
(Herbert Vianna, em Não adianta)

Eu caminhava pela beira da praia, com a espuma branca lambendo meus pés. Meses atrás, uma amiga minha me disse que praia era bacana pra descarregar as energias negativas. E lá estava eu. Pensava nas últimas vezes que havia pisado numa praia, em circunstâncias tão diferentes, junho, setembro. E pensava em quantas vezes eu iria morrer nessa vida, pra tentar nascer do pó depois.

Troquei algumas palavras com um conhecido meu. É sempre bom conversar melhor com aquele conhecido seu de mais de um ano, amigo dos seus amigos, mas que você mal conhece. Você acaba descobrindo pessoas boas que estavam ali e você nem percebia. E enquanto ele cavava um buraco na areia, eu jogava conchas no mar e desabafava um pouco da vida bandida.

A praia pode levar as tais energias negativas, mas a maré não leva as más lembranças, e muito menos as boas, infelizmente. Agora eu estava sentado numa pedra no meio do mar, vendo as ondas indo e voltando, no pseudoautismo que desenvolvi nos últimos tempos. Uma recém-conhecida disse, dois dias atrás, que queria ter esse meu dom de passar horas olhando pro nada, disse que eu era morgado. Pensei: ela não me conheceu antigamente. Mas fiquei calado, agora só falo o suficiente. Ali, nem eu me conhecia. Quem me conhece estranharia minha pele, agora em tom de vermelho, queimada pelo sol. Eu agora disponível em cor vermelha. Quem diria.

Dias antes de pisar ali, devo ter jogado fora mais de 12 quilos de papel do meu quarto. Olhei pra eles e não vi significado. Não há mais passado, só há o agora. O que eu era era, já foi. Do passado, no fim das contas, só sobra o resultado, um maluco numa pedra, um punhado de memórias e traumas. Ah, e algum aprendizado, sim. Não é algo tão grande quanto aquilo que você queria, mas abranda um pouco o prejuízo. O aprendizado sempre vem tarde. Aí você pensa como as coisas teriam sido diferentes se você pensasse antes como pensa agora.

Mas agora é tarde. E vem a culpa. A palavra “culpa” não existe num dialeto tibetano aí. Sentir culpa é inútil. Sabe-se que o português é a única língua que tem a palavra “saudade”. Fabuloso. Imagina uma língua que não tenha “culpa” nem “saudade”! E sabe qual a palavra mais destruidora da nossa língua? Ela é bem curta: “se”. A gente sofre pensando nas possibilidades. Se houvesse uma língua sem “culpa”, “saudade” e “se”, ela seria perfeita.

Portanto, guarde isso: o aprendizado sempre vem tarde. Nunca teremos aprendido o suficiente. Não muda nada, mas consola um pouco a consciência; não muda porra nenhuma, mas é alguma coisa, uma gota positiva no meio do mar, e talvez valha dez minutos a menos de insônia. Como o mar não leva a dor, mas dá alguma tranquilidade ao espírito.

E eu continuava ali, sentado na pedra escura no meio do mar. Quisera eu voltar meses atrás e bater um papo com um cara que estava sentado numa duna em Florianópolis e pensava em como estava feliz apesar das derrotas. Eu o daria um pouco de realidade e maturidade. E ele me daria um pouco de esperança inútil. O duelo do século: o cara da duna contra o cara da pedra.

Não vou fazer planos. Não vou criar falsas esperanças. Seguir em frente às vezes não significa ser forte, é simplesmente não ter opção. A sensação de infinito e esperança que o mar nos passa não consegue mais atravessar meus poros, adentrar minhas narinas, atingir minha retina. Agora é se dar bem na faculdade, arrumar um emprego, comprar um carro, um apartamento com os móveis que eu vou escolher, fazer viagens. Uma vida confortável e conformada, para que possa ser vivida até o fim, sem graça e nada hollywoodiana, a vida não é história bonita de cinema. Sabe o cara que sofre um acidente de carro, se lasca e tem que reestruturar a vida com o que sobrar do corpo? É por aí, mas com a alma. É satisfazer-se com as migalhas do resto do jantar. Após levantar da pedra, o plano é viver de pequenas conquistas, diminutas vitórias, acertar pequenos alvos e satisfazer-se com isso. Subviver.


Atualização, em tempo: exatamente enquanto eu publicava esse texto aqui, o cara do segundo parágrafo começava a namorar uma grande amiga minha. Soube agora, por ela. Tudo de bom pra eles, muita boa sorte e energia positiva. Eles merecem.

  1. […] trecho. Diabos. O “e se” é a melhor maneira possível de torturar a própria mente, e não é de hoje que sei que “se” é a palavra mais destruidora da nossa […]

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