Torre de Babel

20 de julho de 2018   —   21:45:02

Algo me fez tropeçar recentemente no mito da Torre de Babel. Resumão: a raça humana, que seria há muitos anos bastante organizada, tentou erguer uma torre para alcançar o paraíso e, quem sabe, ter o poder de Deus. O manda-chuva não curtiu a ideia e decidiu castigar a humanidade, destruindo a torre e dividindo os povos com várias línguas.

Começou ali uma tremenda confusão.


Trocar de país exige não se levar a sério. Ignorar eventuais julgamentos. Eu sou muito tímido com meu inglês ainda. Londres é lidar com muitos sotaques e níveis de inglês todo dia, e as pessoas lidarem com seu sotaque e seu nível de inglês. Uma pequena Babel.

Cada nova pessoa, cada novo sotaque, tentar conversar num bar barulhento e ter que pedir para alguém repetir uma frase três vezes, uma segunda pessoa explicar para uma terceira o que você quis dizer… Não dá pra se levar a sério. Ou você aprende a lidar com tudo isso e fica feliz com os pequenos progressos ao longo dos meses, ou melhor ficar em casa.


Eu estava no parque, sentado num tapete de piquenique que alguém havia trazido para a despedida de um dos poucos amigos que fiz aqui e que, pra variar, estava indo embora. Eu havia sido apresentado há pouco para um belga que morava em Londres há alguns anos e cujos pais eram de um terceiro país que não lembro.

Eu conversava com ele sobre a eterna dificuldade de criar vínculos em Londres. Falei pra ele como nós, brasileiros, não temos medo de falar da gente, e agora eu estava ali tentando decifrar como fazer amizades numa terra em que as pessoas só falam do clima e nunca falam de si. Falei sobre como eu tentava não ser muito invasivo, muito pegajoso, tinha medo de ser overfriendly.

A mistura entre sabedoria, experiência e cerveja o fez soltar:

— Pare com isso. Aqui é Londres, aqui é um dos poucos lugares onde você pode ser você mesmo. É uma mistura do mundo todo. Seja você mesmo.

Esse conselho vem ecoando na minha cabeça faz umas duas semanas, e hoje eu me despedi duma mesa de bar cumprimentando e abraçando todo mundo, como eu faria em outros tempos.

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