A empresa onde comecei a trabalhar há um mês e meio tem uma copa com vários alimentos. Bateu a fome? Vai lá, assalta a copa, prepara um sanduíche, come uns biscoitinhos, toma um refrigerante ou um suco. Coisa mais linda do mundo. Mais: eu sou diabético, inclusive citei isso quando fui entrevistado. No meu primeiro dia, fui chamado reservadamente e me perguntaram o que eu podia e não podia comer, para que pudessem providenciar a comida adequada pra mim. Foi qualquer coisa de fantástico: na minha vida profissional relativamente curta (se somar tudo dá uns 3 anos e meio), eu nunca havia visto ou ouvido falar de coisas assim, só em documentários sobre o Google, que me faziam achar esse tipo de coisa como algo distante.
Ok. Dia desses fui renovar minha carteira de motorista. Quando tenho que resolver esse tipo de pepino, eu já faço uma preparação espiritual de véspera pra aguentar ser maltratado por estagiários odiando seu trabalho, senhoras ranzinzas querendo se aposentar e funcionários desmotivados descontando sua raiva no seu público. Chegando ao Detran ali do lado do Iguatemi, fui muito bem tratado, desde o balcão de recepção, passando pelos guichês até chegar na médica do exame de saúde, muito bem humorada. Deixei até um papel na urna de sugestões elogiando o tratamento e pedindo que estendessem tanta educação e elegância ao pessoal das blitze, que faz todo motorista se sentir um criminoso em potencial.
O cerne da questão é que nós esperamos ser maltratados. É uma patologia social: mais do que tolerar, nós já esperamos por isso. A gente espera que o trabalho seja chato; nós vamos a instituições públicas esperando desatenção e mau humor; esperamos que o cobrador do ônibus esteja de mau humor e que o motorista não pare quando sinalizamos; as mulheres toleram apanhar de seus namorados e maridos; as mentiras e traições (não seriam a mesma coisa?) praticamente já são parte dos relacionamentos – ou você nunca ouviu algo do tipo “ah, mas todo namorado(a) é assim, pra que trocar se vai ser igual?”. As pessoas perderam a noção de exigência e de bom gosto, de querer coisas boas pra si e de afastar-se das coisas ruins.
Quando somos bem tratados e recebemos um afago ou uma palavra confortante e confortável no lugar duma paulada, isso nos causa estranhamento e um grande vazio, dá vontade de chegar no balcão do Detran e perguntar “mas ei, você não vai ser grosso comigo, nem um pouquinho?”, e você fica no trabalho pensando “vamos ver o que devem de fazer de ruim pra compensar essa mordomia”. Bons tratos acabam nos gerando desconfiança. E nós ficamos em estado de alerta, esperando a hora que a porrada vai chegar, porque certamente ser bem tratado é coisa pra semideuses. E aguardamos uma coisa minimamente chata que vá nos fazer respirar aliviados.
E eu descobri que não sou muito diferente, e que até ser bem tratado exige um esforço psicológico tremendo. Ficou complicado aceitar bons tratos, receber o que a psicologia chama de feedback positivo é algo avançado demais pra minha cabeça. E por mais que os fatos sejam leves, é difícil confiar no ponteiro da balança.
Precisamos de coragem até pra não morrer de fome diante da mesa posta: a felicidade se tornou um corpo estranho, e estou matando anticorpos para isso diariamente, repensando a tolerância e o conformismo e me acostumando a ser feliz.
Numa dessas folheadas, vendo aquela seção de citações que tem em toda revista tipo Veja/Época/IstoÉ/CartaCapital, achei a citação foda do John Lennon, na edição de Nº161 da revista Época, datada de 18 de junho de 2001 (e cuja capa era sobre a doação de órgãos de Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, morto dias antes num acidente com um motoqueiro, lembra?).

Na época eu estava na fase mais workaholic dos últimos anos, estudando muito, trabalhando com dois meses de pagamento atrasado e saindo pouco. Ver a frase do John Lennon – tradução dos versos “Life is just what happens to you/While you’re busy making other plans”, da música Beautiful boy (Darling Boy), escrita para seu filho Sean – naquele dia foi uma porrada. Pedi para ficar com a revista, que achei dia desses, enquanto arrumava meu quarto.
Já fui muito relaxado e já fui maníaco por resultados e cumprir objetivos. Nenhum dos lados vale a pena: em ambos você não vive, vegeta. Num lado você espera as coisas caírem do céu, no outro você acaba cansado demais para alcançar qualquer coisa. Nessa época onde a faculdade quer sugar cada gota de sangue e as ofertas de trabalho andam ótimas, é sempre bom reencontrar a citação do John Lennon, parar um pouco e tentar equilibrar o foco das coisas. E eu tento, todo dia, lembrar das palavras de Buda e Lennon e ter em mente como realmente deve parecer nossas vidas: um caminho equilibrado.
Essa semana eu estava estacionando perto do trabalho, fazendo uma balisa como manda o figurino: sinalizei antecipadamente, parei logo após a vaga e comecei a dar a ré para estacionar. Eis, então, que um belo sedã prateado invade a vaga com tudo, me deixando com uma cara de eu-não-acredito-nisso olhando o retrovisor, diante de um dos maiores exemplos de má educação que já presenciei nos meus breves quatro anos de condutor.
Dei a volta no quarteirão, parei numa vaga mais distante (a única disponível), e andei pela calçada até me aproximar do veículo mal educado. Esperei o condutor sair: uma senhora em torno de 50 anos, mal humorada e berrando com alguém ao celular. Como não era alguém que pudesse me bater numa briga e nem parecia portar um 38 dentro da roupa de perua que ela usava, tentei um diálogo, fria e educadamente, tentando não transparecer minha raiva:
– Moça, com licença, boa tarde. Tudo bem?
– Hein? Tudo, o que é?
– Oi, é que eu estava parando meu carro nessa vaga, estava dando a ré pra entrar, sinalizando, quando você invadiu ela. – Perdoem-me por ter falado “invadiu ela” e não “a invadiu”.
– Não! Eu estava entrando na vaga, já tinha sinalizado, quando um carro ia roubar a vaga. Era seu o carro?
– Era.
– Então, eu já tinha sinalizado e tudo, você que ia invadir a vaga!!! – Ponha aqui uma pitada de fúria, mau humor e quantas exclamações forem possíveis na fala da dona.
– Ok, apenas tome cuidado da próxima vez. – Encerrei, percebendo que ela não tinha ninguém com problemas de saúde precisando de socorro e também não ia reconhecer a falha e me pedir desculpas.
– Não, você que ia roubar minha vaga e…
Não sei até agora como eu, que vinha na frente dela, estava roubando a vaga. Sem saco pra prolongar uma discussão infrutífera, fui embora em direção ao trabalho. Até o flanelinha que viu tudo comentou comigo depois a má educação da dona. Ela foi embora em outra direção, resmungando e fazendo gestos de reprovação, certamente me culpando pelo dia ruim dela ou pela vida frustrante que ela tem e desconta no resto do mundo, achando que caixas de metal são sacos de pancada.
Você pode ter sido o dia mais produtivo no mundo no trabalho,
pode ter tirado uma nota enorme naquela prova foda da faculdade,
pode ter visto aqueles seus amigos que não via faz tempo,
pode ter arrumado aquele trabalho legal,
pode ter ouvido a música certa na hora certa no rádio,
pode ter visto seu filme favorito começando na tevê,
pode ter comprado aquela roupa que você paquerava há tempo na vitrine,
mas não adianta.
O fim do dia sempre vai trazer aquele vazio arrebatador,
aquela sensação de um must have que está ausente,
aquele sentimento de quem está saindo de casa esquecendo algo.
PUTA MERDA.
ACABOU O DORITOS DE NOVO.

Conheci Cartas a um jovem poeta durante uma viagem pra São Paulo, em maio. É um livro curtinho, com cartas do escritor Rainer Maria Rilke destinadas ao então iniciante Franz Kappus. Conheço duas traduções, uma versão baratinha de bolso, com preço sugerido de 8 dinheiros, da L&PM, e outra mais cara, da Ed. Globo.
Os temas principais do livro, na minha percepção, são arte, solidão e paciência. Embora curto, alguns parágrafos são tão impressionantes que você volta e lê de novo e de novo e de novo. Posso citar, por exemplo, sobre paciência e persistência:
Você já se atormentou por questionamentos para os quais não tinha respostas? O Rilke vem e solta:
Não adianta procurar respostas desesperadamente para perguntas, elas surgem naturalmente.
E o Rilke também solta trechos sobre solidão e sobre como lidar com ela:
Esse último trecho, aparentemente melancólico, pra mim tem uma conotação positiva. Quando ele fala que a solidão é necessária e que é necessário entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, interpreto isso como conhecer-se melhor e aprender a viver bem consigo mesmo. Penso em usar essa citação do Rilke num texto posterior.
Portanto, fica a dica: por míseros R$ 8, você pode ter na sua prateleira um livro que vai dar para seu lápis ou lapiseira muito trabalho selecionando os melhores trechos.
Quanto a mim, vamos lá:
Wall-E
Devo ter sido a última pessoa a assistir Wall-E. É menos dramático do que os comentários que ouvi sobre o filme me fizeram imaginar, e é melhor do que imaginei que fosse. E a velha fórmula do desenho animado com lição de moral ainda funciona.
Transiberiana
Casal de turistas americanos americanos decide viajar na maior ferrovia do mundo (não confundir com o Metrofor, que será o maior ferrorama do mundo). Deve ser uma adaptação de Turistas: a maioria dos russos do filme são pobres, ranzinzas, violentos ou corruptos. Lendo fóruns sobre o filme depois, descobri que os russos não curtiram muito isso, além do fato dos russos serem interpretados por albaneses. Mesmo assim, gostei do filme: vale pela agonia de saber como diabos a história vai chegar ao fim. Vou evitar mais comentários pra evitar spoilers.
O procurado
Blockbuster tremendo onde é impossível não ter a sensação de eu-já-vi-isso-em-Matrix: efeitos especiais parecidos, aquele lance todo de existe-uma-sociedade-secreta-antigona-da-qual-fazemos-parte-e-nós-mandamos-uma-gostosa-lhe-chamar-pra-nos-salvar e um predestinado aprendendo novas habilidades. Muito bom se você quer um filme onde a ação não para.
Napoleão Dinamite
Devia ser uma comédia, mas achei idiota… e olha que eu gosto de comédias idiotas. Tem três cenas boas: a morte da vaca ao lado do ônibus escolar, o baile da escola e o número de dança do protagonista no final. Se você for preso numa ilha deserta onde só tenha esse filme, veja.
Queime depois de ler
Arre. Vi uma série de elogios a esse filme (como no blog do Robson), mas não consegui gostar. Não adianta assistir se você estiver sob efeito de analgésicos pra dor nos ossos: você dorme mesmo.
Sete vidas
Eu não botava a menor fé no Will Smith: detestei Eu sou a lenda e nem cheguei perto de Hancock (dizem que fiz bem). Juro que assisti Sete vidas sem querer (sério, foi sem querer), e é muito bom. Dramão. O Will Smith se redimiu.
(Mário Quintana)
Todo fim de ano e ano novo é a mesma coisa: planos, resoluções de ano novo, uma lista de coisas que a gente promete pra si mesmo. E desde 31 de dezembro de 2008 penso sobre como estou começando 2009 dum jeito completamente despretensioso.
Nada de grandes idéias ou metas enormes. Apesar dos pesares, 2008 foi um ano bom. Pra 2009, apenas uma idéia de continuidade: seguir com as coisas que já estão bem em seu caminho. Continuar trabalhando em tudo que está bom e deixar as coisas fluirem…
Devia ser umas cinco horas da tarde, o sol mergulhava no mar atrás da gente e fazia uma pintura bonita no céu, enquanto nós andávamos subida acima, na areia, separados por alguns metros.
Olhei para trás. O vento batia nos cabelos longos, que cobriam um pouco o seu rosto, enquanto ela tentava ajeitá-los com os dedos, colocando-os atrás das orelhas. Tinha a boca entreaberta e a respiração de quem cansava-se um pouco com a areia que não ajudava na subida, e de alguma maneira isso parecia lhe conferir um certo charme.
Alguma coisa pesava entre nós; ela carregava um olhar profundo, melancólico, de quem precisava dizer algo, algo que eu sentia, que eu temia e que eu tentava, em vão, adiar. Parei de caminhar, esperei um pouco e segurei sua mão, numa das últimas vezes que entrelaçamos os dedos, em nossa última tarde juntos.
Momentos depois veio o último beijo, alguns dias antes da conversa que não pôde mais ser adiada. A derradeira conversa, que cortava laços, esquecia prazos e abortava planos. Só quem amou já sabe: o último beijo guarda a inocente e miserável covardia de não saber que é o último. E, como todo beijo que se preze, anseia ingenuamente pelo próximo beijo. Que não virá.
O amigo Danny Husk escreveu um texto tão bom que precisei copiá-lo aqui. Ele traduziu bem em palavras o sentimento que tenho ao passar por certos lugares de Fortaleza. Lá vai:
vocês conseguem entender o sucesso de lugares, como por exemplo, aquele barôlla grill que fica ali na antônio tomás? deus do céu. como pode? estive lá uma vez, e se trata apenas de uma churrascaria com atendimento e músicas ruins. lotado praticamente todos os dias. aquele engarrafamento, então?
estranho é que você passa realmente a se sentir um peixe fora d’água ao ver quantas pessoas nesta cidade podem ter gostos tão diferentes do seu. você REALMENTE é uma minoria.
nem me importo muito com isto não. mas fico imaginando quando teremos mais opções de “bom gosto” (termo meio escroto, eu sei) se o que faz sucesso por aqui é este infindável mar de mesmice.
sei lá. quem sabe algum dia as coisas possam ser proporcionalmente melhores por aqui. mais opções pros mais variados tipos.
pode ser meu desejo de ano novo?”
Nuff said. Não podia estar mais certo.
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