Wunderlust

15 de dezembro de 2014   —   19:58:27

Estava hoje no trânsito atrás de um carro que nunca tinha visto antes. Claramente não devia custar menos de 200 mil reais, talvez até bem mais que isso. Um esportivo vermelho lindão, imponente, brilhante, um aí que tem um cavalo como marca (não entendo muito de carros, mas acho que apesar do cavalo não era uma Ferrari). Se eu já me preocupo em manter distância pro carro da frente, ali eu me assegurei em dobro. Deus me defenda de encostar num carro daqueles. Senti inveja. Vou pro inferno.

Olhei pra ele e pensei: “Ah, se eu tivesse essa grana pra dar em um carro… pegava ela e passava um ano de férias, talvez até dois, dando uma volta pelo mundo.”

Não adianta. Um carro bacana tem seu valor, mas meu negócio mesmo é entrar num avião.

O biógrafo de Dilma Russete e a ditadura da desinformação

12 de janeiro de 2014   —   14:06:11

Eu estava na sala de espera da oficina no sábado de manhã, dividido entre pensar no meu desgostoso prejuízo com o carro e agradecer a Deus pela oficina ter uma sala de espera com ar condicionado. Enquanto desmontavam o pobre Belezomóvel, surge na salinha um senhor desajeitado de idade levemente avançada, barba por fazer e camisa desabotoada até a cintura, exibindo sua barriga avantajada que alguns rebeldes diriam estar desafiando a ditadura da magreza.

O tal senhor abriu o jornal ao meu lado, leu algumas notícias e decidiu puxar assunto comigo. “Olhe isso aqui, você que é jovem precisa saber de algumas coisas”, começou a falar a voz da sabedoria, esbanjando a autoridade de quem tem experiência.

Ele me mostrou a notícia duma plataforma petrolífera que seria feita no Ceará e comentou que aquela plataforma era notícia antiga, que todo governo entrava e saía e usava aquilo como promessa eleitoral, mas depois das eleições ninguém fazia nada. Nesse ponto lembrei da obra lenta do Metrofor, de como eu não precisaria enterrar meu salário em oficina se tivéssemos bom transporte público e até concordei mentalmente com seu protesto. Mas meu silêncio foi bom: o revoltado senhor foi além em seu discurso.

O sujeito começou a falar que trabalhava numa loja na Praça do Ferreira na década de 60 e que ia ler os jornais na Banca do Bodinho — será que as gerações atuais conhecem a tradicional Banca do Bodinho? — , onde sempre via as notícias e me citou as manchetes da época: “Dilma Russete, Gabeira etc. sequestram embaixador do Canadá. Dilma Russete sequestra embaixador dos Estados Unidos…”.

Sim, Dilma Rousseff ganhou um apelido nos relatos que eu ouvia, agora era Dilma Russete. E não lembro a lista inteira de sequestros que ele citou nos quais teoricamente a atual presidente participou,  mas lembro que eram quatro. Alegou ter visto tudo nos jornais impressos,  esses órgãos que sempre tiveram inquestionável compromisso com a verdade, especialmente na época do governo militar.

Ele continuou e falou da participação de Dilma Russete na Guerrilha do Araguaia, perguntou se eu sabia onde era o Araguaia e falou que a guerrilha foi uma tentativa de tomar o Brasil e vendê-lo para a União Soviética. Citou as trágicas consequências da guerrilha para a presidente: “A Dilma Russete não tem mais peitos, os soldados arrancaram. A Dilma morre de medo dos militares. Ela tinha colocado como Ministro da Justiça um japonês comunista mas foi lá e tirou porque os militares mandaram”.

(Cheguei a procurar quem seria o ministro japonês e comunista que a Dilma havia colocado no Ministério da Justiça. Não achei. Alguém aí sabe de quem se trata e de qual ministério é?)

“Hoje eles querem vender o Brasil pra China. Estão cortando relações com os Estados Unidos e fazendo relações com a China. Mas a China manda as coisas boas pros Estados Unidos e as coisas ruins pra cá”, continuou o senhor, numa aula de comércio internacional. Por falar nos Estados Unidos, ele apontou em seguida para uma notícia cujo título era “Índia solicita saída de embaixador americano”. E soltou seu comentário: “Olha os Estados Unidos. Eles têm soldados dentro de vários países. Sabe pra quê? Pra manter os inimigos sob controle! Tem que ser assim!”. Para encerrar, comentou uma notícia sobre Israel, falando que “Israel foi tomado por rebeldes”.

Lá pelas tantas eu não aguentava mais a ladainha geopolítica do sujeito.  Pensei em contra-argumentar um ou outro ponto, questionar suas fontes e até citar o tio da minha mãe, José de Moura Beleza, sindicalista que foi preso político em Fernando de Noronha e fez gente da família ser investigada por conta do sobrenome. Para evitar uma discussão infrutífera, preferi tirar o celular do bolso e ficar mexendo, o que fez o senhor desistir de puxar conversa. Deve ter ido embora julgando a mania da geração atual de mexer em smartphones.


Não sou o cara mais feliz do mundo com as decisões do governo atual nem sou fã de carteirinha da Dilma. Tenho minhas dúvidas se o chavismo, que alguns alegam que o governo atual tenta copiar para o Brasil numa versão tupiniquim, nos faria bem. Não gosto de nenhuma visão que santifique ou demonize um governo, seja Estados Unidos ou Cuba.

O que me assusta mesmo são as pessoas que acreditam cegamente na imprensa, que distorcem histórias e creem em tudo que leem no Facebook, que pode ser tão ruim quanto a mídia controlada de décadas atrás. Se essas pessoas têm medo duma ditadura comunista, eu tenho medo de qualquer ditadura, principalmente da ditadura da desinformação, que acredita em tudo, que muda os fatos num telefone sem fio, que não busca fontes.

Final Fantasy VI e o video game como arte

19 de dezembro de 2013   —   09:32:53

Aproveitei o dia doente em casa ontem pra jogar umas muitas horas de Final Fantasy VI. O jogo é de 1994 e eu via meu irmão jogá-lo em 1997, mas até 2013 eu não tinha jogado esse clássico eu mesmo. Sim, mais uma falha de caráter minha.

Imagino como Final Fantasy VI deve ter feito o queixo das pessoas caírem 20 anos atrás. O que mais me chamou atenção até agora foi a cena da ópera, que ponho abaixo. Como alguém coloca isso num roteiro de um video game? Uniram música — limitada por conta da época, claro, mas muito bem elaborada —, poesia e cinema numa cena fabulosa dentro de um JOGO.

Às vezes dá pena de quem tem o preconceito de que video games são brinquedos e não enxerga ali uma tremenda forma interativa de arte.

Dieta

10 de novembro de 2013   —   01:25:47

A nutricionista me recomendou uma dieta pra ganho de peso (lembrando que ganhar peso não é ganhar gordura). Por ser diabético e ter um rim já um pouco mais carregado que o normal — apesar dos exames estarem normais —, no lugar de passar potes e potes de suplementos com gosto de areia de ampulheta, que forçariam o pobre órgão e que participariam do meu Instagram sabe-se lá por quê, ela preferiu jogar as proteínas em coisas com jeito de comida de verdade.

A partir daí eu nunca comi tanto presunto, queijo, iogurte e aveia na vida. Também passei a semana tomando suco, sem tomar um mísero refrigerante e evitando manteiga e margarina, indo pra academia todo dia, tudo muito bonito.

Chegou o sábado de manhã e tive minha terceira aula de fotografia, que consistiu de tirar fotos no Passeio Público e treinar umas técnicas. Depois de 3h debaixo de sol fazendo foto e andando dum lado pro outro, o glicosímetro soltou um “cara, é bom você comer logo”. Bem oportuno: pra quem não sabe, no almoço de sábado tem uma feijoada incrível no Café Passeio.

Almocei aquela feijoada fabulosa e bebi uma Coca-Cola Zero geladíssima pra rebater aquele calor lazarento fabricado em Dakar. Você pode até ter uma hashtag de marombeiro que leva seu sobrenome, mas não negue: é bom. Ainda fui pra casa e dormi a tarde toda de bucho cheio, acordando com uma disposição e humor que eu não devia sentir desde setembro.

Me regozijei feito um personagem bíblico. E, por falar em Bíblia, só Deus pode me julgar (tá, minha médica e minha nutricionista talvez possam). E não sei o seu deus, mas o da minha dieta sabe o valor das pequenas recompensas.

Distopia

16 de outubro de 2013   —   22:36:26

Sempre a mesma coisa toda noite: chego em casa e vou dar uma olhada no Facebook. Entre um reporte de assalto e um de arrastão, todo mundo é especialista em segurança e sociólogo. Uns querem ver sangue, outros defendem alguma abordagem dita pacífica. Uns põem a culpa na desigualdade, outros falam que o problema é mera vagabundagem. Há quem diga que precisamos fazer algo, há quem diga que já fazemos demais pagando impostos.

Critica-se o partido X, é o partido do demônio, defende-se o partido Y como solução. Ah, Y também é ruim, sempre foi ruim, a Eurásia sempre esteve em guerra com a Lestásia, a solução de verdade está no Z. Não se iluda, epa, o político do Z já se envolveu em algum escândalo… mas meu político é melhor que o seu.

Surgem soluções milagrosas e o povo, desesperado, se divide entre elas. Buscam-se lados e criam-se trincheiras para uma guerra que está deixando de ser imaginária.


Ontem eu estava num supermercado. Na fila dos frios estavam algumas crianças e adolescentes desacompanhados de adultos, com blusas rasgadas de propósito, lenços na cabeça, como nos estereótipos de punks de filmes da década de 80. Na saída do supermercado, uma mulher sentada na calçada com um olho roxo por ter apanhado de alguém me pedia esmola com criança no colo, cercada de seguranças para que não entrasse no esbelecimento. Caminhei até meu carro no estacionamento escuro, pensando como tudo aquilo era familiar.

Robocop (1987)

Me lembrei de Robocop, 1984, O Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, Watchmen e outras obras que retratavam futuros distópicos. De repente eu me vi no meio de algo que junta um pouco de todas essas obras numa grande mistura carente de heróis.

Essa carência é mais do que uma consequência dos fatos, também é um sintoma e também é um problema.

Batman: The Dark Knight Returns


Em todo momento problemático da História temos um padrão: primeiro as pessoas têm um problema. De vários pontos da população surgem soluções distintas para os problemas, umas mais radicais, outras menos. O desespero popular, às vezes cego, leva algum grupo ao poder, só que essa solução nem sempre é melhor que o problema original. Mas quem precisa estudar História, não é?

Nesse momento de Fortaleza, talvez do Brasil, estamos em algo entre os fatos reais do passado que a História retrata e um futuro distópico que a ficção nos apresenta. Mas quem precisa ler ficção?

O próximo passo ainda está por vir, e ele tem uma mistura de incerto com previsível.